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Henry Philip Tappan: O pastor presbiteriano que enfrentou Jonathan Edwards

Diego Gonçalves12 min de leitura2.464 palavras

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Neste texto

Em 1839, um ex-pastor de 34 anos publicou em Nova York um livro contra a obra mais respeitada da teologia americana, a Investigação sobre a liberdade da vontade de Jonathan Edwards. Havia quase um século que o argumento de Edwards passava por irrespondível, e duvidar dele era arriscar a fama de doutrina sã. Amigos avisaram Henry Philip Tappan de que um jovem ministro, que dependia do voto de conselhos conservadores para conseguir um posto, faria melhor em guardar as suas opiniões. Ele publicou assim mesmo. Na introdução, escreveu que pensar e crer só têm valor quando são mais que “engolir dogmas porque Agostinho, ou Calvino, ou Armínio, oferece o cálice” (A Review of Edwards’s “Inquiry”, 1839). Em três anos saíram três livros sobre a vontade, que lhe deram nome na Europa, e treze anos depois ele estava em Michigan, como o primeiro presidente da universidade do estado.

Retrato de Henry Philip Tappan
Henry Philip Tappan, fotografia publicada na History of the University of Michigan de Burke A. Hinsdale (1906). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Rhinebeck, Union e Auburn

Tappan nasceu em 18 de abril de 1805 em Rhinebeck, cidade de colonos holandeses às margens do rio Hudson, no estado de Nova York. O pai, o major Peter Tappan, descendia de huguenotes da Lorena que se refugiaram na Holanda depois da revogação do Edito de Nantes, e lutou como oficial na Guerra de Independência. A mãe era da família holandesa De Witt.

Quando o menino tinha catorze anos, o pai perdeu quase tudo o que tinha, e Henry passou a se sustentar dando aulas. Dois anos depois entrou no Union College, em Schenectady, presidido por Eliphalet Nott, e formou-se em 1825. Nott tinha orgulho especial de três alunos, ordenados cedo em igrejas diferentes: Francis Wayland entre os batistas, Alonzo Potter entre os episcopais e Tappan entre os presbiterianos. Do Union ele foi para o Seminário Teológico de Auburn, onde se preparou para o ministério.

Pastor em Pittsfield

Depois de um ano como pastor auxiliar da Igreja Reformada Holandesa de Schenectady, Tappan assumiu, aos 23 anos, a Igreja Congregacional de Pittsfield, no oeste de Massachusetts. Na véspera da ordenação, em abril de 1828, casou-se com Julia Livingston, filha do coronel John W. Livingston, de Nova York. O casal teve um filho, John, e uma filha.

O pastorado durou cerca de três anos. Uma inflamação dos brônquios, que piorava nos invernos duros de Berkshire, obrigou-o a deixar o púlpito e a passar uma temporada nas Índias Ocidentais. Seis meses depois, aos 27 anos, aceitou a cadeira de filosofia moral e intelectual da recém-criada Universidade da Cidade de Nova York, a atual NYU. Ali começou a sonhar com uma universidade americana nos moldes das europeias.

Os livros sobre a vontade

Em 1838 uma crise interna levou quase todo o corpo docente da universidade a se demitir, e Tappan saiu com os colegas. Em 1839 saiu a Review of Edwards’s “Inquiry into the Freedom of the Will”; em 1840, The Doctrine of the Will Determined by an Appeal to Consciousness; em 1841, The Doctrine of the Will Applied to Moral Agency and Responsibility. Em 1844 veio Elements of Logic, que o filósofo francês Victor Cousin considerou à altura de qualquer obra sobre o assunto publicada na Europa.

Henry S. Frieze, colega dele em Michigan, contou que Tappan aceitou no começo as doutrinas que ele chamava de fatalistas e que se voltou contra elas quando reconheceu os seus erros e perigos. Sentia que muitos irmãos na fé viviam esmagados por uma crença que, a seu ver, diferia só um pouco da necessidade cega, e achou que tinha o dever de publicar os argumentos que o haviam libertado.

Nesses anos ele também dirigiu um colégio para moças em Nova York. O Union College lhe deu o doutorado em teologia em 1845. Em 1851 fez a primeira viagem à Europa. Em Paris foi à Sorbonne visitar Cousin, que só conversava em francês, e levou a filha como intérprete. Conversaram por duas horas, cada um na sua língua, e a amizade durou até a morte de Cousin, em 1867. Em 1856 Tappan foi eleito membro correspondente do Instituto de França. Da viagem saíram dois livros: University Education (1851), uma exposição do sistema universitário alemão, e o relato A Step from the New World to the Old, and Back Again (1852).

Presidente da Universidade de Michigan

Na volta, recusou o convite para reassumir a cadeira na NYU. A Universidade de Michigan, em Ann Arbor, tinha sido criada pelo estado e era até então um colégio de modelo antigo, sem presidente fixo. O historiador George Bancroft recomendou Tappan aos regentes, que primeiro elegeram Henry Barnard. Barnard recusou, e em 12 de agosto de 1852 Tappan foi eleito por unanimidade.

O que o atraiu foi o desenho do sistema de ensino de Michigan, inspirado no modelo prussiano: escolas primárias, escolas secundárias e, no topo, uma universidade pública sustentada pelo estado. Nos onze anos seguintes criou um curso científico paralelo ao clássico, com o diploma de bacharel em ciências, aboliu os dormitórios e ampliou a biblioteca. A pedido dele, o comerciante Henry N. Walker levantou em Detroit o dinheiro de um observatório, e Tappan trouxe de Berlim o astrônomo Franz Brünnow para dirigi-lo; Brünnow depois se casou com a filha dele. Em 1859 começou a faculdade de direito.

Tappan queria em cada cadeira o melhor especialista que pudesse encontrar, sem levar em conta política, igreja ou amizade. Como a universidade do estado não podia favorecer uma denominação nem ter faculdade de teologia, ele desejava que cada igreja abrisse em Ann Arbor o seu próprio seminário, para que ali houvesse também um centro de cultura cristã.

A demissão de 1863

Com o primeiro conselho de regentes, a relação foi excelente. O conselho eleito em 1858 foi outro: só dois dos seus membros tinham curso superior, e um ou dois tratavam o presidente com grosseria. Tappan entendia que ao conselho cabia legislar e a ele, administrar. Tinha também inimigos entre os professores e fora da universidade. Os defensores mais radicais da abstinência alcoólica se escandalizavam porque ele guardava vinho na adega e às vezes o servia no jantar.

Em junho de 1863, quando o mandato deles terminaria em poucos meses e os sucessores já estavam eleitos, os regentes votaram a remoção dele da presidência e da cadeira de filosofia. Para o lugar elegeram o pastor metodista Erastus O. Haven. Ao se despedir do conselho, Tappan disse: “Este assunto pertence à história; a pena da história está nas mãos da Justiça Todo-Poderosa”. Estudantes, ex-alunos e moradores de Ann Arbor fizeram reuniões de protesto, e Henry Barnard chamou a demissão de “ato de barbárie selvagem e completa”.

Os anos na Europa

No outono de 1863 ele deixou o país com a família. Viveu em Berlim, Paris, Bonn, Frankfurt, Basileia e Genebra. Em 2 de maio de 1865 pronunciou na Dorotheenkirche, em Berlim, o discurso em memória de Abraham Lincoln. Em junho de 1875 os regentes de Michigan aprovaram uma resolução reconhecendo os serviços que ele prestara e lamentando a atitude dos antecessores. Os últimos anos tiveram uma grande dor: o filho John, que fora bibliotecário da universidade, morreu de repente, numa viagem entre Paris e a casa da família perto de Frankfurt.

Cerca de três anos antes de morrer, Tappan comprou a vila de Beauval, em Vevey, às margens do lago Léman, na Suíça. Morreu em 15 de novembro de 1881, de paralisia do coração, com a mulher, a filha, o genro e o neto ao lado da cama. Foi sepultado em Vevey.

Pensamento

Tappan foi ministro presbiteriano e congregacional e entra na série como simpatizante: rejeitou o determinismo de Edwards, base filosófica do calvinismo da Nova Inglaterra, e defendeu uma vontade livre sem se alistar em nenhum dos partidos. Na introdução de 1839 ele pediu que não se perguntasse “que filosofia o calvinismo exige em oposição ao pelagianismo e ao arminianismo”, mas simplesmente quais são “as leis do nosso ser”. Tratou a vontade como questão de psicologia, examinada pela consciência, à espera de que o resultado concordasse com a Bíblia.

Contra o motivo mais forte

Para Edwards, a vontade se confunde com o desejo: escolhemos sempre o que nos parece mais agradável, e somos livres porque fazemos o que queremos, mesmo sem poder querer outra coisa. Na linha de Kant e de Cousin, Tappan distinguiu três faculdades: a razão, que mostra o verdadeiro e o certo; a sensibilidade, que sente o agradável e o desagradável; e a vontade, que decide entre elas. Edwards dizia que uma vontade que determinasse a si mesma precisaria de uma escolha anterior para fazer cada escolha, numa série sem fim. Tappan respondeu que a vontade é uma causa de verdade, e a explicação da decisão está na própria natureza dessa causa, que tem o poder de decidir sem estar presa a um dos lados. Daniel Whedon, o teólogo metodista que respondeu a Edwards em 1864, atribuiu a Tappan a primeira formulação dessa ideia no debate (The Freedom of the Will, 1864, p. 90).

As consequências do sistema de Edwards

Na segunda parte da Review, Tappan tira as conclusões. Se cada volição é necessária, o mal que existe é um mal necessário, que tem a sua origem última em Deus, e o ser humano não pode ser culpado, porque nunca pôde agir de outro modo. Tappan também não aceitou a distinção de Edwards entre incapacidade “moral” e incapacidade “natural”: dizer ao pecador que ele pode, se quiser, quando nada nele pode querer, deixa a responsabilidade só no nome. E se o pecador é incapaz até de se mover na direção do bem, pregar para ele, exortá-lo e repreendê-lo se torna, nas palavras de Tappan, “uma farsa solene”.

A vontade e a consciência

O livro de 1840 parte do que cada um percebe em si. “A personalidade não pode ser concebida sem liberdade”, escreveu (The Doctrine of the Will, 1840, p. 175). A razão tem leis fixas, iguais em todas as pessoas, mas a vontade, diante das razões e dos desejos, decide pela própria força: “toda volição é a sua própria criação imediata” (p. 179).

O mesmo livro trata de Deus. Ele escolheu criar agentes livres, com poder de fazer o bem e o mal, conhece de antemão todas as ações que acontecerão nesse mundo e, “em infinita sabedoria, bondade e graça”, traçou um plano de meios e influências para fazer crescer o bem e vencer o mal (p. 256). Deus pode agir diretamente na razão, para livrá-la do erro, nos desejos, para purificá-los, e na vontade, para devolver a força que ela perdeu sob as paixões. Só não decide no lugar da pessoa, porque então quem age já não é ela. Os propósitos de Deus se cumprem porque se apoiam numa presciência perfeita, e não porque cada escolha esteja fixada. Nesse ponto ele concorda com o arminianismo clássico, que afirma que Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, e que conhecer não é causar (veja a Declaração de Sentimentos de Jacó Armínio).

A distância em relação ao arminianismo clássico

A antropologia de Tappan é mais otimista que a de Armínio e a de John Wesley. Ele descreve a queda como uma corrupção dos desejos e um escurecimento da razão, deixa em aberto se a vontade participa dessa corrupção e vê, na consciência de poder resistir às paixões, a prova de que o ser humano é capaz de agir com retidão. Para Armínio, depois da queda a vontade humana para o bem verdadeiro está “aprisionada, destruída e perdida”, e só a graça preveniente, dada por Deus a todos, a liberta para crer. É também o que afirma a declaração de fé do Diego: todos nascem incapazes de fazer qualquer coisa para se salvar. Em Tappan a graça aparece como influência que ajuda uma vontade que ainda tem força própria, e não como o começo necessário de todo bem. A crítica dele ao determinismo de Edwards serve ao arminianismo; a sua doutrina do pecado e da graça não é a do arminianismo clássico (veja Livre-arbítrio e graça: A vontade libertada).

Influência

Os livros foram lidos como golpe decisivo contra o argumento de Edwards e ajudaram a firmar a liberdade da vontade como fundamento da responsabilidade moral. A Review foi traduzida para o galês em 1872. A mesma geração produziu as respostas a Edwards de Albert Taylor Bledsoe, em 1845, e de Daniel Whedon, em 1864, este último leitor declarado de Tappan. Veja também Jonathan Edwards e a teologia da crise na Nova Inglaterra e Hodge vs. Finney e a briga das escolas presbiterianas.

Obras principais

  • A Review of Edwards’s “Inquiry into the Freedom of the Will” (1839)
  • The Doctrine of the Will Determined by an Appeal to Consciousness (1840)
  • The Doctrine of the Will Applied to Moral Agency and Responsibility (1841)
  • Elements of Logic (1844; edição revista, 1856)
  • University Education (1851)
  • A Step from the New World to the Old, and Back Again (1852, 2 volumes)
  • A Treatise on the Will (Glasgow, 1857; reúne os três livros sobre a vontade)
  • A Discourse on the Death of Abraham Lincoln (Berlim, 1865)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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