
HistóriaTeólogos arminianos3 de 210
Henry Hammond: O pároco realista que ensinou que Cristo morreu por toda a humanidade
Neste texto
Num ano de enchente, o rio levou o feno de um grande prado da paróquia de Penshurst, no condado de Kent. O arrendatário já tinha pagado ao pároco parte do dízimo daquela colheita e voltou no fim do ano para quitar o resto. O pároco recusou o pagamento e ainda devolveu o que tinha recebido, com uma frase que o seu primeiro biógrafo guardou: “Deus me livre de tomar o décimo onde você não tem as nove partes”. O pároco era Henry Hammond, o homem que, poucos anos depois, escreveria um catecismo lido em toda a Inglaterra e seria acusado por 52 pastores de Londres de um “erro pernicioso”: ensinar que Cristo morreu por todos os homens.
Vida
Formação e Penshurst
Henry Hammond nasceu em 18 de agosto de 1605, em Chertsey, no condado de Surrey, filho mais novo do médico John Hammond, que servia ao príncipe Henrique, herdeiro de Jaime I; conta-se que o príncipe foi o seu padrinho. Pelo lado da mãe, descendia de Alexander Nowell, deão de São Paulo no tempo da Reforma inglesa. Em Eton aprendeu grego, latim e algo de hebraico, e os colegas lembravam do menino que fugia das brigas e, no recreio, se escondia para orar. Aos 13 anos entrou no Magdalen College, em Oxford, onde se formou em 1622 e se tornou membro (fellow) em 1625. Estudava treze horas por dia, e quando se voltou para a teologia começou pelos escritores da igreja antiga, antes dos manuais do seu tempo. Foi ordenado em 1629 e chegou ao doutorado em teologia em 1639.
Em 1633 pregou na corte no lugar do presidente do colégio, e o conde de Leicester, que o ouviu, deu-lhe a paróquia de Penshurst, onde ficou dez anos. Ali havia oração na igreja todos os dias e Ceia todo mês, e as ofertas da Ceia bastaram para sustentar os pobres e pagar a aprendizagem de ofícios para crianças carentes. Hammond separava para os pobres a décima parte do que recebia, vendia trigo aos vizinhos abaixo do preço e, no verão, dava uma hora de catecismo antes da oração da tarde, dizendo que os adultos aproveitavam mais dela do que dos sermões. A mãe cuidava da casa, e ali ele dirigiu os primeiros estudos do sobrinho William Temple. Em 1643 tornou-se arquidiácono de Chichester e foi nomeado para a Assembleia de Westminster, onde nunca tomou assento.
Guerra civil, catecismo e prisão
Em julho de 1643, Hammond ajudou a reunir cavaleiros para Carlos I perto de Tonbridge. O levante fracassou, a cabeça dele passou a valer cem libras, e ele fugiu disfarçado. Disse depois que deixar o rebanho foi a maior dor da sua vida. Refugiou-se em Oxford, quartel-general do rei.
Ali mostrou a Christopher Potter, reitor do Queen’s College, um catecismo que tinha escrito para uso próprio. Potter insistiu na publicação, e Hammond aceitou desde que o nome ficasse oculto. O Practical Catechism (Catecismo prático) saiu sem autor em 1644, teve sucesso imediato e chegou à 12ª edição em 1683. Preso em Carisbrooke, Carlos I mandou entregar um exemplar ao filho mais novo, o duque de Gloucester.
Em janeiro de 1645, nas negociações de paz de Uxbridge, Hammond defendeu o episcopado contra o presbiteriano Richard Vines, anotando as cerca de quarenta objeções do adversário e respondendo a todas de improviso. O rei o fez cônego da Christ Church e capelão real, e a universidade o escolheu como orador oficial. Carlos I disse que nunca tinha ouvido orador mais natural. Em 1647 acompanhou o rei preso em Hampton Court e na ilha de Wight, até que os capelães foram afastados no Natal.
De volta a Oxford, governou a Christ Church como subdeão até que os visitadores do Parlamento o destituíram e prenderam, em 1648, junto com Gilbert Sheldon. Na prisão começou as Anotações ao Novo Testamento. Depois de dez semanas foi levado, sob vigilância branda, para a casa do amigo Philip Warwick, em Clapham, de onde escreveu em janeiro de 1649 ao general Fairfax pedindo pela vida do rei. Pouco depois a mãe morreu sem que ele pudesse visitá-la, porque os clérigos fiéis ao rei estavam proibidos de chegar a menos de vinte milhas de Londres.
Westwood (1650-1660)
Por volta de 1650 mudou-se para Westwood, no condado de Worcester, casa do realista Sir John Pakington, onde viveu os últimos dez anos. A pedido do arcebispo James Ussher escreveu as Dissertationes quatuor (1651), em defesa das cartas de Inácio de Antioquia e do episcopado. Em 1653 publicou a Paráfrase e anotações sobre todos os livros do Novo Testamento, preparada com a comparação de manuscritos gregos, uma tradução própria e o estudo do grego helenístico e dos primeiros hereges, sobretudo os gnósticos; a obra lhe valeu o título de pai da crítica bíblica inglesa. Ajudou Brian Walton na Bíblia Poliglota de Londres (1657).
Entrou em quase todas as polêmicas da década: com católicos romanos sobre o cisma, com presbiterianos, com o batista John Tombes sobre o batismo de crianças e com o puritano John Owen sobre Inácio e sobre Hugo Grócio. Owen acusava Grócio de se aproximar dos socinianos, que negavam a divindade de Cristo, e insinuava que Hammond lhe devia mais de uma ideia singular. Hammond respondeu com duas Defesas (1655) e uma Continuação (1657).
Em janeiro de 1655 o governo de Oliver Cromwell proibiu os clérigos destituídos de exercer o ministério e de ensinar. Hammond recebeu o decreto como se Deus o declarasse indigno de servi-lo e escreveu a Paraenesis (1656), “primeiro com lágrimas e depois com tinta”, nas palavras do biógrafo John Fell. Com amigos, pagava pensões a jovens piedosos nas universidades para formar novos ministros, repetindo que “a virtude exemplar há de restaurar a igreja”, e mandava dinheiro aos realistas exilados.
Os últimos anos foram de pedras nos rins, gota e cãibras. Em abril de 1660 vieram as hemorragias. Ao saber da derrota do general Lambert, último levante contra a volta do rei, disse com lágrimas: “Pobres almas! Peço a Deus que as perdoe”. Morreu em 25 de abril de 1660, aos 54 anos, no dia em que se reuniu o Parlamento que traria Carlos II de volta, e as últimas palavras foram: “Senhor, apressa-te”. Se tivesse vivido, teria sido bispo de Worcester. Foi sepultado no jazigo dos Pakington, em Hampton Lovett, carregado pelos clérigos do condado. Fell publicou a Vida dele em 1661, e o secretário William Fulman reuniu as obras em quatro volumes (1674-1684). Richard Baxter o elogiou, e Hammond estava na lista de leituras recomendadas por Samuel Wesley, pai de John e Charles Wesley.
Pensamento
Onde Hammond fica no arminianismo
Hammond foi um arminiano anglicano, do grupo ligado ao arcebispo William Laud, e um dos seus teólogos mais influentes nos anos da guerra civil. A classe se apoia no que ele escreveu: Cristo morreu por todos; Deus dá a todos graça suficiente, que pode ser recusada; a eleição se dá segundo a presciência de quem perseverará; e o eleito pode cair e precisa perseverar até o fim. Hammond preferia apresentar isso como a doutrina da Igreja da Inglaterra, mas expôs a sua posição mais completa no Discurso pacífico sobre a graça e os decretos de Deus (1660), escrito ao amigo Robert Sanderson, depois bispo de Lincoln, contra os esquemas dos “antirremonstrantes”. É um arminiano clássico na forma anglicana, com duas diferenças em relação a Jacó Armínio e à declaração de fé deste site, apontadas no fim.
Cristo morreu por toda a humanidade
O Catecismo prático diz que Cristo sofreu voluntariamente a morte na cruz “para satisfazer pelo pecado de Adão e por todos os pecados de toda a humanidade”. Em 1648, 52 pastores presbiterianos de Londres puseram a frase numa lista de “erros infames e perniciosos” sobre a redenção universal. Na Breve vindicação (1648), Hammond respondeu com Hebreus 2:9, onde Jesus prova a morte “por todos”, com 2 Pedro 2:1, onde o Senhor resgatou até os que o negam, e com 2 Coríntios 5:14: o “todos” por quem Cristo morreu tem de ser tão largo quanto o “todos” que morreu em Adão. Lembrou que o catecismo oficial da própria igreja ensina a crer em Deus Filho, “que me redimiu e a toda a humanidade”. E explicou por que isso não é universalismo: os benefícios da cruz são gerais, mas dados sob condição, como em João 3:16. Citou Próspero de Aquitânia, adversário dos pelagianos: o Redentor deu o seu sangue pelo mundo, “e o mundo não quis ser redimido”. É a expiação para todos do arminianismo.
A graça que vem antes e pode ser recusada
No Discurso pacífico, Hammond parte da corrupção de toda a natureza humana pela queda e afirma que toda possibilidade de sair dessa “sepultura do pecado” é efeito da graça, comprada pela morte de Cristo. Deus opera em nós o querer pela graça que vem antes (preventing grace, a graça preveniente) e o realizar pela graça que acompanha, e nada em nós merece o primeiro ato de Deus. Não atribuímos a nós mesmos nada “senão deméritos e provocações”, e toda a glória vai para Deus. Mesmo a humildade de quem recebe bem a graça é, para ele, “planta do plantio de Deus”, obra da graça que prepara o coração.
A outra metade do argumento é a resistência. Deus dá graça suficiente, e mesmo quando age com mais força não age de modo irresistível. Por isso a culpa da perdição recai inteira sobre os que não abrem a porta “àquele que bate” (Apocalipse 3:20). Se alguém fosse deixado sem graça suficiente e ainda assim destinado à perdição, diz Hammond, não se poderia dizer que o jugo de Cristo é suave. Para chegar a um acordo com Sanderson, aceitou a fórmula que vinha do bispo John Overall: Deus ordena os meios com tal adequação que os destinados à salvação, de fato, não resistem até o fim. Mas tirou dela o que lhe importava: a pessoa continua podendo resistir.
Eleição, perseverança e presciência
Os eleitos, escreve Hammond, são escolhidos segundo a presciência de Deus do seu retorno e da sua “constância perseverante”, isto é, a eleição condicional. O eleito pode ter quedas graves, como Davi e Pedro, e voltar pela mesma graça, como diz o artigo XVI da Igreja da Inglaterra; o que se exige dele é a perseverança final. É a perseverança condicional. Sobre a presciência, rejeitou dois erros: o dos socinianos, para quem Deus não conhece de antemão as ações livres, e o de Calvino, para quem Deus predetermina tudo; julgou o primeiro “tão perigoso quanto o do senhor Calvino”. Deus vê desde a eternidade cada coisa como ela é, e esse conhecimento não causa o fato: Cristo previu a traição de Judas sem empurrá-lo a trair.
As diferenças com o site
Na folha de rosto do Catecismo, Hammond pôs uma frase de Jean Gerson: “a teologia é ciência afetiva, não especulativa”. Essa ênfase na prática explica as duas distâncias. A primeira é a justificação. Hammond a define como Deus aceitar a pessoa e não lhe imputar os pecados, por pura misericórdia em Cristo, mas não chama a fé de instrumento: fé, arrependimento e propósito de vida nova são, juntos, as “condições” do perdão. Ele nega que haja mérito nelas e chama de graça livre perdoar “sob condições tão pobres como essas”. A declaração de fé deste site, com Armínio e Wesley, fala de justificação somente pela fé, com as obras como fruto.
A segunda é a queda. No Catecismo, a humanidade ficou “muito defeituosa e fraca”; Armínio falava de uma vontade “aprisionada, destruída e perdida” para o bem (Disputas públicas XI). O Discurso pacífico, com a sepultura do pecado de onde só a graça tira, chega mais perto de Armínio. Hammond pertence à linha anglicana de Jeremy Taylor, depois seguida por Charles Ellicott, que lia a teologia pelos pais da igreja e a media pela vida santa.
Obras principais
- A Practical Catechism (1644)
- Of Conscience, Of Scandal, Of Sins of Weakness and Wilfulness e outros tratados (1644-1645)
- A Brief Vindication of Three Passages in the Practical Catechism (1648)
- Of the Reasonableness of Christian Religion (1650)
- Dissertationes quatuor (1651)
- A Paraphrase and Annotations upon all the Books of the New Testament (1653)
- Of Schism (1653)
- Of Fundamentals, in a Notion Referring to Practice (1654)
- A Defence of the Learned Hugo Grotius e A Second Defence (1655)
- A Paraenesis (1656)
- A Paraphrase and Annotations upon the Book of Psalms (1659)
- A Pacifick Discourse of God’s Grace and Decrees (1660)
Para aprofundar
- John Fell, The Life of the Most Learned, Reverend and Pious Dr. H. Hammond (2ª edição, Londres, 1662), transcrição EarlyPrint/EEBO-TCP.
- Richard Hooper, Hammond, Henry, Dictionary of National Biography, volume 24 (1890), no Wikisource.
- Hammond, Henry, Encyclopædia Britannica, 11ª edição (1911), volume 12, no Wikisource.
- Hammond, Henry, New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, volume 5, no CCEL.
- Alister E. McGrath, The Emergence of the Anglican Tradition on Justification 1600-1700, Churchman, volume 98, número 1 (1984).
- Andrew V. Sullivan, The Arminian Roots of John and Charles Wesley, Wesley Scholar (2025).
- Nota introdutória a John Owen, A Review of the Annotations of Hugo Grotius, CCEL, sobre a controvérsia entre Owen e Hammond.
- Henry Hammond, Wikipédia em inglês.
- Henry Hammond, A Practical Catechism (Oxford, 1645), transcrição EarlyPrint/EEBO-TCP.
- Henry Hammond, A Brief Vindication of Three Passages in the Practical Catechism (Londres, 1648), transcrição EarlyPrint/EEBO-TCP.
- Henry Hammond, A Pacifick Discourse of God’s Grace and Decrees (Londres, 1660), transcrição EarlyPrint/EEBO-TCP.
- Henry Hammond, A Continuation of the Defence of Hugo Grotius (Londres, 1657), transcrição EarlyPrint/EEBO-TCP.
- Henry Hammond, Miscellaneous Theological Works, volume 1 (Oxford, 1847), com a Vida escrita por Fell.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Anglicanismo