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HistóriaTeólogos arminianos12 de 210

Gunnar Vingren: o pastor sueco que liderou o começo da Assembleia de Deus no Brasil

Diego Gonçalves13 min de leitura2.536 palavras

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Neste texto

Num 14 de abril, nos primeiros anos da missão, Gunnar Vingren desceu à beira de um rio em Soure, na ilha de Marajó, para batizar três novos convertidos. Uma multidão armada de facas e laços cercou o lugar, e o homem que a liderava partiu para cima dele de faca na mão; uma irmã da igreja se pôs entre os dois. Vingren batizou os três e, em vez de voltar às tendas para trocar de roupa, atravessou a multidão molhado, com os convertidos atrás dele. Ninguém os tocou. Quando o líder da missão sueca A. P. Franklin falou da coragem dele, Vingren respondeu: “Coragem? Eu tinha o mandamento de Cristo, tanto para pregar como para batizar” (O diário do pioneiro, p. 45). Desse pastor de saúde frágil e convicção teimosa nasceu, com Daniel Berg, a Assembleia de Deus no Brasil.

Retrato de Gunnar Vingren
Gunnar Vingren em 1908, autor desconhecido. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

O jardineiro de Östergötland

Adolf Gunnar Vingren nasceu em 8 de agosto de 1879 na província de Östergötland, no sudeste da Suécia, primeiro filho do jardineiro Adolf Fredrik Eriksson e de Albertina Kristina Andersdotter. Os pais eram crentes, e o pai dirigia a Escola Dominical.

Aos 9 anos sentiu o chamado de Deus. Aos 12, conta no diário, “desviei-me do Senhor e tornei-me um filho pródigo” (p. 19). Voltou aos 17, numa vigília de Ano-novo em 1896. Desistiu da carreira militar com medo “de não poder permanecer como crente” (p. 20). Em 1897 foi batizado numa igreja batista em Wraka, em Småland, e sucedeu o pai na Escola Dominical. Naquele ano, depois de ler um artigo sobre o sofrimento de povos de outras terras, prometeu a Deus pôr-se à disposição dele. Fez um curso bíblico de um mês em Götabro e saiu como evangelista itinerante, de dois em dois, com dinheiro só para a passagem, entre temporadas de trabalho como jardineiro.

Chicago, Menominee e South Bend

Em 1903 emigrou para os Estados Unidos e foi para Kansas City, onde morava o tio Carl Vingren. Em setembro de 1904 entrou no seminário teológico dos batistas suecos em Chicago, formou-se em maio de 1909 e assumiu a Primeira Igreja Batista de Menominee, em Michigan. A convenção batista decidiu enviá-lo como missionário a Assam, na Índia, com a noiva; ele se convenceu de que aquele não era o caminho e desistiu. A noiva rompeu o noivado, e ele respondeu: “Seja feita a vontade do Senhor” (p. 25).

Em novembro de 1909, numa conferência na Primeira Igreja Batista Sueca de Chicago, depois de cinco dias de busca, foi batizado no Espírito Santo e falou em línguas. Ali conheceu Daniel Berg. A igreja de Menominee se dividiu e o obrigou a sair, e a igreja batista sueca de South Bend, em Indiana, recebeu-o; naquele verão perto de vinte membros foram batizados no Espírito. Numa reunião de oração, Olof Uldin profetizou que Vingren iria a um lugar chamado Pará, para gente simples. Berg, que tinha ido para South Bend, recebeu o mesmo chamado. Antes da viagem, Vingren deu os 90 dólares que tinha para a revista pentecostal do pastor Durham, em Chicago. “Se fores, nada te faltará!”, ouviu de Deus numa rua de South Bend (p. 30). Os dois partiram de Nova York no cargueiro Clement em 5 de novembro de 1910, sem igreja que os sustentasse.

Belém e a Missão da Fé Apostólica

Chegaram a Belém em 19 de novembro de 1910. O metodista Justus Nelson levou-os à igreja batista, e eles foram morar no porão. Berg empregou-se numa fundição e pagou as aulas de português de Vingren, que à noite ensinava ao amigo o que tinha aprendido. Os dois pregavam na igreja batista o batismo no Espírito e a cura divina. Em maio de 1911 Celina de Albuquerque, curada de uma doença nos lábios depois da oração, foi batizada no Espírito. Em 13 de junho, dezoito membros que aceitaram a experiência foram excluídos da igreja batista, e o grupo, liderado por Vingren, formou a Missão da Fé Apostólica. A denominação guarda 18 de junho de 1911 como a data da fundação.

Os primeiros anos foram de doença e perseguição. Numa viagem ao Marajó, Vingren contraiu beribéri e, inchado e com febre, foi se tratar em Mosqueiro; numa noite uma turba cercou a casa para matá-lo, e ele fugiu engatinhando pelo mato, com cães de caça no seu rastro. Mesmo assim a obra cresceu. Em 1912 ordenou Isidro Filho para a igreja de Soure, em 1913 a igreja enviou José Plácido da Costa a Portugal, e em 1914 o diário registra 190 batizados nas águas.

Frida, a Assembleia de Deus e os jornais

Em 1915, esgotado, Vingren viajou aos Estados Unidos e à Suécia. Em Estocolmo conheceu Frida Strandberg, batizada na Igreja Filadélfia do pastor Lewi Pethrus em 1917 e enviada ao Pará como a primeira missionária daquela igreja. Vingren voltou a Belém em 6 de agosto de 1917, e os dois se casaram em 16 de outubro. Tiveram seis filhos: Ivar, Ruben, Margit, Astrid, Bertil e Gunvor. Em 11 de janeiro de 1918 a igreja foi registrada com o nome de Assembleia de Deus, administrada por Vingren, Berg e Samuel Nyström.

Em 1919 o casal fundou o jornal Boa Semente, e em 16 de abril Vingren publicou nele “O que nós cremos”, com as linhas mestras da fé da igreja. Doente, passou 1921 e 1922 na Suécia. Em maio de 1924 deixou a igreja de Belém com Nyström e mudou-se para o Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro

Em 22 de junho de 1924 Vingren organizou a Assembleia de Deus do Rio. A igreja pregava ao ar livre diante da Estação Central e no Largo da Lapa, e em 1929 começou cultos na Casa de Detenção. Quando Pethrus visitou o Rio em 1930, contou doze igrejas e cerca de 1.500 membros.

Em 1929 o casal lançou o jornal Som Alegre. Frida pregava, dirigia cultos e editava, e isso criou atrito com Nyström e outros líderes contrários ao ministério feminino. Vingren foi à Suécia buscar Pethrus para a primeira convenção geral das Assembleias de Deus, em Natal, em setembro de 1930. Ali as igrejas do Norte e do Nordeste foram entregues aos pastores brasileiros, com os templos, e os missionários seguiram para o Sul. Por sugestão de Vingren, os dois jornais deram lugar ao Mensageiro da Paz, que circula até hoje.

Os últimos anos no Brasil foram pesados. Vingren sofria de febres e de uma doença que se agravava, e o casal viveu sob a desconfiança de parte da liderança. A filha Gunvor morreu em 1932, aos quatro anos. Em 16 de setembro de 1932 a família embarcou para a Suécia, e Nyström assumiu a igreja do Rio.

Os últimos dias

A última anotação do diário, três semanas antes da morte, diz que Deus o encontrou num culto de oração “de forma que eu pude subir na plataforma e dizer, pelo poder do Espírito Santo, que eu estava curado” (p. 234). Morreu de câncer em 29 de junho de 1933, aos 53 anos, em Sjöarp, uma casa de descanso da Igreja Filadélfia em Småland. Pelas mãos de Frida, deixou uma saudação aos brasileiros: “Diga-lhes que eu vou feliz com Jesus” (p. 237). Vingren está sepultado no cemitério de Skogskyrkogården, em Estocolmo, junto do túmulo de Daniel Berg. Em 2023 o Senado criou a Comenda Missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren.

Pensamento

Onde Vingren fica no arminianismo

Classe: pentecostal arminiano. O pensamento de Vingren aparece na pregação, nas cartas e na confissão da igreja que organizou. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus (CPAD, 2017) apresenta-se como a organização escrita das crenças ensinadas desde a chegada de Berg e Vingren e lembra, entre os antecedentes do seu “Cremos”, o artigo de Vingren de 1919. Ela afirma que Deus “não predestinou incondicionalmente pessoa alguma à condenação eterna”, que a predestinação é “condicionada à fé em Cristo Jesus” e que a graça “não é irresistível”. São a eleição condicional (Deus escolhe em Cristo os que creem, conhecendo de antemão quem crerá) e a graça resistível (o chamado é real e pode ser recusado, como em Atos 7:51), a herança de Jacó Armínio e da Remonstrância.

A prática de Vingren combina com isso. Os cultos terminavam com o convite a qualquer pessoa para aceitar Cristo; em carta a Pethrus de 1926, ele conta que nas praças do Rio muitos “levantam as mãos e pedem oração para serem salvos”. E atribuía tudo à graça. Em carta de 16 de outubro de 1930 ao secretário da missão sueca, Paul Ongman, depois de prestar contas de vinte anos sem salário certo, escreveu: “considero-me como um servo inútil: tudo tem sido a graça de Deus”. É o arminianismo clássico, que começa pela incapacidade humana e pela primazia da graça, e não o semipelagianismo, que deixaria o primeiro passo com o ser humano.

Perseverar e voltar

Vingren contou a própria vida em termos de perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e pode abandoná-la. Ele mesmo se desviou aos 12 anos e foi chamado outra vez aos 17, e recusou a carreira militar por medo de não permanecer na fé. Em Belém entendeu como ordem de Deus a palavra “buscai os desviados”, e o diário registra uma profecia durante a Ceia: “Alguns têm se desviado de mim nos seus corações, mas há misericórdia, se quiserem voltar”. O desvio era real, e a porta da volta continuava aberta, como em João 15:4-6. A segurança do crente estava em permanecer em Cristo.

O batismo no Espírito e a mensagem completa

O centro da pregação de Vingren foi a “mensagem completa”: Jesus salva, batiza no Espírito Santo, cura e voltará em breve. O batismo no Espírito é, para ele, uma experiência distinta da conversão, que reveste o crente de poder para o testemunho e tem como sinal as línguas, “justamente como está escrito que aconteceu com os discípulos no dia de Pentecoste, em Atos 2” (p. 25). No Natal de 1913 pregou sobre dois motivos da sua alegria: Jesus nasceu como seu Salvador “e deu-me uma língua para eu louvar o seu nome”.

A cura divina vinha junto, mas Vingren conheceu o limite dela no próprio corpo. Pregou a cura por mais de vinte anos e morreu crendo que seria curado; o filho Ivar escreveu que ele lutou até o fim “pela fé sobre a qual havia pregado tantas vezes” (p. 234). A volta de Cristo dava urgência a tudo. No Rio, em 1924, reuniu os crentes que vacilavam sobre a segunda vinda, leu as passagens sobre a volta de Jesus para buscar a sua Igreja e perguntou: “Devemos crer no homem ou na Palavra de Deus?”. A última exortação aos brasileiros juntou santidade e dons: “exorto todos a receberem a graça de Deus, que deseja operar mais santidade e humildade” (p. 237).

Aqui estão as diferenças em relação à declaração de fé do Diego. A obra do Espírito depois da conversão, para Vingren, é o batismo no Espírito com línguas; para o Diego, na linha de John Wesley, é a inteira santificação, obra da graça recebida pela fé que purifica o coração e o enche de amor, sem as línguas como sinal necessário (ver metodistas e pentecostais). Vingren esperava a volta de Cristo para estabelecer o reino milenar, e o Diego é amilenista. Na salvação, estão do mesmo lado: graça para todos, fé que recebe e perseverança em Cristo.

Obediência e igreja nacional

Vingren via a obediência como a forma da fé. Se Cristo mandou pregar e batizar, o missionário não tem escolha, “mesmo que todos os homens e todo o poder do Inferno viessem contra mim” (p. 45). Por isso foi ao Brasil sem sustento: “Porém pertencíamos à denominação que está no Céu” (p. 30).

Essa fé teve consequências práticas. Vingren ordenou pastores brasileiros desde 1912, defendeu em Natal a entrega das igrejas do Norte aos brasileiros e o princípio da igreja local livre e independente das igrejas livres suecas, e defendeu o ministério da mulher, contra Nyström. A convenção decidiu que as irmãs tinham “todo o direito de participar na obra evangélica”, mas não o pastorado, salvo onde faltassem homens capacitados. Vingren não deixou teologia sistemática. Deixou uma igreja que aprendeu a orar, a evangelizar e a esperar Cristo, da Amazônia dos ribeirinhos ao Rio de Janeiro, e sobre esse chão vieram os mestres da denominação, como Myer Pearlman, Stanley Horton, Antonio Gilberto e Silas Daniel.

Obras principais

  • “O que nós cremos”, artigo no jornal Boa Semente (16 de abril de 1919; reeditado em O Som Alegre em março de 1930).
  • Artigos em Boa Semente (1919), O Som Alegre (1929) e Mensageiro da Paz (1930).
  • “Sua graça me basta”, hino n.º 79 da Harpa Cristã.
  • Diários (cerca de 25 cadernos), publicados por Ivar Vingren como Pionjärens dagbok (Estocolmo: L. Pethrus förlag, 1968); em português, O diário do pioneiro Gunnar Vingren (CPAD, 1973; 5.ª ed., 2000).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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