
HistóriaTeólogos arminianos14 de 210
Gordon Fee: O exegeta pentecostal que ensinou a ler Paulo com a mente e com o Espírito
Neste texto
- Vida
- O filho do carpinteiro pregador
- O papiro P66
- Do Southern California College ao Gordon-Conwell
- Regent College
- Os últimos anos
- Pensamento
- Onde Fee fica no arminianismo
- O Espírito como a presença pessoal de Deus
- O pentecostal que questionou o pentecostalismo
- Ler a Bíblia bem
- Contra o evangelho da prosperidade
- Convergências e diferenças com a nossa declaração de fé
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
No primeiro dia de uma turma de Novo Testamento no Wheaton College, em Illinois, o professor subiu numa carteira. Disse aos alunos que não acreditassem em nenhuma notícia da sua morte, porque, quando ela viesse, ele estaria cantando com o seu Senhor e Rei. Em vez de apresentar o programa do curso, puxou o hino de Charles Wesley “O for a thousand tongues to sing” (“Oh, que eu tivesse mil línguas para cantar”). O professor era Gordon Fee, filho de pastor das Assembleias de Deus, especialista em manuscritos gregos e, nas décadas seguintes, um dos comentaristas de Paulo mais lidos do mundo. A cena resume o que ele quis ser a vida toda: um estudioso rigoroso que nunca separou a sala de aula do culto.
Vida
O filho do carpinteiro pregador
Gordon Donald Fee nasceu em 23 de maio de 1934, em Ashland, no Oregon, e cresceu no norte do estado de Washington. Era filho de Donald Horace Fee e de Gracy Irene Jacobson. O pai era carpinteiro e pastor das Assembleias de Deus, conhecido pela preparação cuidadosa de sermões expositivos; Fee o chamou de “o primeiro estudioso que conheci”.
Na adolescência, descarregava a raiva no basquete. Ainda no ensino médio, recebeu o batismo no Espírito Santo num acampamento pentecostal. Entrou no Seattle Pacific College, escola da Igreja Metodista Livre, com bolsa de atleta, e ali, em dezembro de 1952, teve o que chamou de “um encontro notável com Deus”: o esporte tinha virado idolatria, e ele o deixou para seguir Jesus de todo o coração. Pouco depois ouviu numa semana de capelas a escritora Eugenia Price dizer que ninguém ficara mais aliviado do que ela ao descobrir que “Deus é exatamente como Jesus Cristo”. Fee repetiu essa frase a vida inteira como a chave de toda a teologia.
No Seattle Pacific fez o bacharelado e o mestrado e conheceu Maudine Lofdhal, também filha de pastor assembleiano, com quem se casou. Ordenado nas Assembleias de Deus, pastoreou uma igreja nos subúrbios ao sul do aeroporto de Seattle-Tacoma e ensinou inglês no Northwest College, em Kirkland. O casal pensou em ir como missionário ao Japão, mas a observação de um colega convenceu Fee de que o estudo também podia ser um chamado.
O papiro P66
O doutorado em Novo Testamento veio em 1966, na Universidade do Sul da Califórnia, enquanto Maudine trabalhava no turno da noite e cuidava dos quatro filhos. Fee foi apontado como o primeiro pentecostal a doutorar-se em estudos bíblicos. A tese tratou do Papiro Bodmer II, o P66, cópia quase completa do Evangelho de João e um dos manuscritos mais antigos do Novo Testamento, em comparação com o P75. Saiu em livro em 1968, e Bruce Metzger a chamou de análise definitiva. A crítica textual, a disciplina que compara os manuscritos para chegar ao texto mais próximo do original, foi a primeira especialidade de Fee. Com Eldon Jay Epp, organizou dois volumes sobre o tema.
Do Southern California College ao Gordon-Conwell
Fee ensinou no Wheaton College e no Southern California College, a faculdade das Assembleias de Deus em Costa Mesa (hoje Vanguard University). Artigos que publicou na Agora, revista de opinião dentro da denominação, custaram-lhe o lugar no Southern California College. As credenciais, porém, nunca lhe foram cassadas, e ele foi ministro das Assembleias de Deus até morrer.
De 1974 a 1986 ensinou no Gordon-Conwell Theological Seminary, em Massachusetts. Ali começou a parceria com Douglas Stuart, com quem escreveu How to Read the Bible for All Its Worth (1981), o Entendes o que lês?, que passou de um milhão de exemplares. Do mesmo período são o manual New Testament Exegesis (1983) e o comentário a 1 Coríntios (1987), recebido como a interpretação mais completa dessa carta publicada em inglês na sua geração.
Regent College
Em 1986 mudou-se para Vancouver, no Canadá, como professor de Novo Testamento do Regent College. Foi titular até 2002 e, já emérito, deu aulas até 2009. Os alunos lembravam a voz forte e as aulas que soavam como sermões, às vezes encerradas com um apelo evangelístico. Foi a fase das grandes obras: God’s Empowering Presence (1994), que examina todas as passagens de Paulo sobre o Espírito Santo, a versão popular Paul, the Spirit, and the People of God (1996), os comentários a Filipenses (1995), a 1 e 2 Tessalonicenses (2009) e ao Apocalipse (2011) e Pauline Christology (2007). Nos anos 1990 sucedeu F. F. Bruce como editor-geral do New International Commentary on the New Testament, e por mais de trinta anos trabalhou na comissão de tradução da New International Version.
Em 1999 recebeu o volume de homenagem Romans and the People of God, organizado por Sven Soderlund e N. T. Wright.
Os últimos anos
Em 2012, com o diagnóstico de Alzheimer, deixou a direção da coleção de comentários. A edição revista de 1 Coríntios saiu em 2014, o ano em que Maudine morreu. Em 2018 a Baker publicou Jesus the Lord according to Paul the Apostle, com prefácio da filha Cherith Fee Nordling, também teóloga. Gordon Fee morreu em 25 de outubro de 2022, em casa, em Nova York, aos 88 anos, deixando quatro filhos e treze netos. Craig S. Keener, que o tinha como mentor, escreveu que a geração seguinte de estudiosos pentecostais construiu “sobre os seus ombros”.
Pensamento
Onde Fee fica no arminianismo
Classe: pentecostal arminiano. Fee foi a vida inteira ministro credenciado das Assembleias de Deus dos Estados Unidos, igreja de soteriologia arminiana, que rejeita a segurança incondicional e ensina que o crente pode abandonar a fé (ver a perseverança na teologia arminiana). No ponto que separa calvinistas e arminianos, a eleição, ele é explícito. Ao comentar 1 Timóteo 2:3-4, “Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos”, observa que as leituras que restringem esse “todos” vêm de “uma visão agostiniano-calvinista da eleição que parece estar em desacordo com o sentido claro do texto” (1 and 2 Timothy, Titus, 1988). É a leitura da eleição condicional em Cristo: Deus quer a salvação de todos.
Fee não fazia do debate uma bandeira. Robert M. Price, que estudou com ele no Gordon-Conwell, conta que ele se chamava de “presbicostal”, porque apreciava aspectos da teologia reformada. Num artigo de 1985 na revista Pneuma, Fee disse que a controvérsia entre calvinistas e arminianos pressupõe uma igreja em que se pode estar sem sinais da obra do Espírito. Para ele, o problema de fundo era a perda da experiência viva do Espírito Santo.
O Espírito como a presença pessoal de Deus
O centro da obra de Fee é a pneumatologia de Paulo, o que o apóstolo ensina sobre o Espírito Santo. O título do livro de 1994 diz a tese: o Espírito é a “presença capacitadora de Deus”, o próprio Deus presente e atuante no seu povo, e não uma força impessoal. Nele se cumpre a promessa de que Deus voltaria a habitar no meio do seu povo; ele é o penhor do mundo que virá e uma realidade experimentada pela igreja. Por isso Fee lia a salvação em Paulo de modo trinitário, e no fim da vida chamou o apóstolo de “prototrinitário”: o Espírito ensina, se entristece e intercede, como uma pessoa.
Daí vem o que ele entendia por espiritualidade. Em Paulo, o adjetivo pneumatikós (“espiritual”) se refere sempre ao Espírito Santo, e ser espiritual é viver e andar pelo Espírito (Gálatas 5:25). Na conferência anual do Institute for Biblical Research, em 1996, Fee contou que viveu anos com a mente dividida, obedecendo a regras acadêmicas que proibiam o estudioso de se importar com a fé que o texto pede. Concluiu que o alvo último da exegese é produzir em nós e nos outros a verdadeira vida no Espírito, em comunhão com Deus e uns com os outros: “Devemos começar como terminaríamos, de pé sob o texto, e não acima dele” (To What End Exegesis?, 1998). A exegese, dizia, se faz em oração, “de joelhos”.
O pentecostal que questionou o pentecostalismo
Em “Hermeneutics and Historical Precedent” (1976) e depois em Gospel and Spirit (1991), Fee formulou um princípio de leitura das narrativas: um padrão histórico, como a sequência dos fatos em Atos, só vira norma para a igreja quando se pode mostrar que o autor quis ensiná-lo. Daí concluiu que Lucas não estabelece como regra um batismo no Espírito separado da conversão e posterior a ela, que há pouca base bíblica para o artigo 7 da declaração de fé das Assembleias de Deus e que as línguas não devem ser exigidas como evidência inicial. Roger Stronstad respondeu em The Charismatic Theology of St. Luke (1984), defendendo a intenção teológica de Lucas.
Nada disso o afastou da vida pentecostal. “Ter um doutorado não me impediu de ser cheio do Espírito”, disse em 2010. Para ele, o movimento pentecostal levou as pessoas a um encontro direto com o Deus vivo; o que precisava de revisão era parte da doutrina construída para explicar a experiência. Por isso se definia como “um estudioso que é pentecostal a vida inteira”.
Ler a Bíblia bem
Fee queria ensinar a ler a Bíblia bem, e não só a estudá-la. Em Entendes o que lês? ele e Stuart mostram que cada gênero, epístola, narrativa, parábola, profecia e apocalipse, tem regras próprias, e que um texto não pode significar o que nunca poderia ter significado para o autor e os primeiros leitores. “Tire os números, e você poderá ler as Escrituras”, dizia, contra o hábito de tratar cada versículo como frase solta.
No comentário a 1 Coríntios, Fee argumentou que 14:34-35, a ordem de que as mulheres se calem na igreja, é uma glosa posterior a Paulo, porque esses versículos aparecem em lugares diferentes em parte dos manuscritos. A posição combinava com o seu igualitarismo: foi um dos editores de Discovering Biblical Equality (2004) e sustentava que os dons do Espírito para o ministério não se subordinam ao sexo.
Contra o evangelho da prosperidade
Em 1979 publicou o folheto The Disease of the Health and Wealth Gospels. Mostrou que 3 João 2, “Amado, acima de tudo, faço votos por tua prosperidade e saúde”, é a saudação comum das cartas antigas, e que aplicá-la a todos os cristãos é “totalmente estranho ao texto”. A “vida em abundância” de João 10:10 é a vida da era vindoura. Para Fee, as posses têm “valor zero” para o povo de Deus; o padrão do Reino é a suficiência, e o que sobra existe para ser repartido (Lucas 3:11). Chamou a mensagem da prosperidade de “uma perversão americanizada do evangelho”, que reforça um sistema que oprime os pobres.
Convergências e diferenças com a nossa declaração de fé
Fee converge com a nossa declaração de fé na autoridade das Escrituras, na Trindade, na expiação universal e na graça oferecida a todos. A diferença está na santificação: a tradição das Assembleias de Deus, em que ele foi ministro, entende a santificação como progressiva e não ensina a inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração, que a nossa declaração afirma.
Obras principais
- Papyrus Bodmer II (P66): Its Textual Relationships and Scribal Characteristics, Studies and Documents 34 (University of Utah Press, 1968).
- The Disease of the Health and Wealth Gospels (The Word for Today, 1979; Regent College Publishing, 2006).
- How to Read the Bible for All Its Worth, com Douglas Stuart (Zondervan, 1981; 4.ª ed., 2014).
- New Testament Exegesis: A Handbook for Students and Pastors (Westminster, 1983).
- 1 and 2 Timothy, Titus, New International Biblical Commentary (Hendrickson, 1988).
- The First Epistle to the Corinthians, NICNT (Eerdmans, 1987; ed. revista, 2014).
- Gospel and Spirit: Issues in New Testament Hermeneutics (Hendrickson, 1991).
- God’s Empowering Presence: The Holy Spirit in the Letters of Paul (Hendrickson, 1994).
- Paul’s Letter to the Philippians, NICNT (Eerdmans, 1995).
- To What End Exegesis? Essays Textual, Exegetical, and Theological (Eerdmans, 2001).
- Discovering Biblical Equality, coeditor com Ronald W. Pierce e Rebecca Merrill Groothuis (InterVarsity, 2004).
- Pauline Christology: An Exegetical-Theological Study (Hendrickson, 2007).
- Revelation, New Covenant Commentary (Cascade, 2011).
- Jesus the Lord according to Paul the Apostle: A Concise Introduction (Baker Academic, 2018).
Livros em português
- Entendes o que lês? Um guia para a interpretação bíblica, com Douglas Stuart (Vida Nova, 1984; nova edição atualizada e expandida, Thomas Nelson Brasil, 2026). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Manual de exegese bíblica: Antigo e Novo Testamentos, com Douglas Stuart (Vida Nova, 2008). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Como ler a Bíblia livro por livro, com Douglas Stuart (Thomas Nelson Brasil, 2019). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- 1 Coríntios: comentário exegético (Vida Nova, 2019). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Exegese? Para quê? 21 estudos textuais, exegéticos e teológicos do Novo Testamento (CPAD, 2019). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Jesus, o Senhor segundo o apóstolo Paulo: uma síntese teológica (CPAD, 2020). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Filipenses: comentário exegético (Vida Nova, 2022). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Cristologia paulina: um estudo exegético-teológico (CPAD, 2023). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A presença capacitadora de Deus: o Espírito Santo nas cartas de Paulo (Thomas Nelson Brasil, 2025). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Regent College, “Remembering Dr. Gordon D. Fee” (2022).
- Obituário de Gordon Fee publicado pela Christianity Today (2022), reproduzido por Douglas Jacoby.
- Charisma, “A Professor with Spirit” (2010), perfil e entrevista.
- Grace Communion International, How Should We Read the Bible? Interviews With Gordon Fee (2016), transcrição das entrevistas da série You’re Included.
- Gordon D. Fee, “To What End Exegesis? Reflections on Exegesis and Spirituality in Philippians 4:10-20”, Bulletin for Biblical Research 8 (1998), p. 75-88.
- Gordon D. Fee, The Significance of Papyrus Bodmer II and Papyrus Bodmer XIV-XV for Methodology in New Testament Textual Criticism, tese de doutorado (University of Southern California, 1966), no Internet Archive.
- Gordon D. Fee e Douglas Stuart, How to Read the Bible for All Its Worth (Zondervan, 1982), no Internet Archive.
- Rick Wadholm Jr., “A Reflection on the Influence of Gordon Fee”, Pneuma Review (2022).
- Craig S. Keener, “Craig Keener on Gordon Fee, Giant of Pentecostal Scholarship”, Pneuma Review (2022), e resenha de Jesus the Lord according to Paul the Apostle.
- Michael L. Brown, “Michael Brown on Gordon Fee, Pioneer and Scholarly Role Model”, Pneuma Review (2022).
- Alphacrucis University College, “Remembering Dr Gordon Fee (1934-2022)” (2022).
- Michael F. Bird, “Remembering Gordon Fee” (2022).
- Robert M. Price, “The Austerity Gospel of Gordon Fee”, Journal of Unification Studies 18 (2017), p. 171-190.
- Evangelicals Now, “Gordon Fee 1934-2022: renowned scholar” (2022).
- Society of Evangelical Arminians, “Assemblies of God Position Paper: ‘The Security of the Believer’”.
- Wikipédia, “Gordon Fee”, verbete em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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