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Jean Le Clerc: o professor remonstrante que pôs a razão a serviço da Bíblia
Em 1710, o gravador Bernard Picart desenhou do natural, em Amsterdã, um homem de peruca cacheada diante de uma estante. As lombadas atrás dele trazem, abreviados, os títulos dos seus livros: os comentários do Antigo e do Novo Testamento, a edição de Hammond, a Ars critica e a filosofia. A legenda diz em latim que ele nasceu em Genebra em 19 de março de 1657, pelo calendário antigo, e cita um verso de Horácio: a vida nada deu aos mortais sem grande trabalho. O retratado era Jean Le Clerc, em latim Johannes Clericus, professor do seminário remonstrante de Amsterdã e um dos eruditos mais lidos e mais combatidos do seu tempo.
Vida
Uma família de professores em Genebra
Le Clerc vinha de uma família de eruditos de Genebra. A avó, Sara de Courcelles, era irmã de Étienne de Courcelles, o pastor que sucedeu a Simão Episcópio no seminário remonstrante. O pai, Étienne, era médico e professor de grego, e um tio, David, ensinou línguas orientais por 35 anos.
Na academia de Genebra, Jean estudou filosofia com o cartesiano Robert Chouet e teologia com Philippe Mestrezat, François Turrettini e Louis Tronchin, os mestres da ortodoxia reformada da cidade. Nessa época leu as obras do tio-avô Courcelles, publicadas por Philipp van Limborch, e concluiu que, na disputa com os outros protestantes, os remonstrantes tinham o melhor argumento.
Grenoble, Saumur e Londres
Em 1678 foi preceptor em Grenoble. De volta a Genebra, foi admitido ao ministério e passou uma temporada em Saumur, a academia protestante do Loire, onde leu Episcópio e começou as anotações sobre o Antigo Testamento que virariam os seus comentários. Em Saumur saíram, em 1679, as Epistolae theologicae de um certo Liberius de Sancto Amore, cartas contra o que o autor chamava de erros escolásticos sobre a Trindade, as duas naturezas de Cristo e o pecado original. O livro é atribuído a Le Clerc, que nunca o reconheceu; rendeu-lhe a fama de sociniano, e ele mais tarde abandonou as posições que ali defendera.
Em 1682 chegou a Londres para aprender inglês. Pregou seis meses nas igrejas francesas e, com a saúde abalada, seguiu para a Holanda com o historiador Gregorio Leti. Em Amsterdã conheceu Limborch, professor do seminário remonstrante, e o filósofo John Locke, então exilado. A Limborch abriu as suas opiniões, e começou ali uma amizade de trinta anos. A família o chamou de volta a Genebra em 1683, mas as suas convicções eram contrárias ao que a cidade exigia dos pastores, e no fim do ano ele estava de novo na Holanda.
Professor em Amsterdã
Em 1684 Le Clerc entrou para a Fraternidade Remonstrante. Pregou em francês até a Páscoa de 1686, quando os pastores valões, que viam os seus bancos esvaziarem, conseguiram dos magistrados a proibição. O sínodo remonstrante o nomeou professor do seminário, e em 6 de junho de 1684 ele assumiu as aulas de línguas antigas, retórica e filosofia. A cadeira de teologia dogmática nunca lhe foi dada, por causa da fama de sociniano. Em 1691 casou-se com Maria Leti, filha de Gregorio Leti. Viveram juntos 43 anos e perderam os quatro filhos ainda pequenos.
Em 1685 publicou os Sentimens de quelques théologiens de Hollande, cartas contra a História crítica do Antigo Testamento do oratoriano Richard Simon, que usava as dificuldades do texto bíblico para defender a tradição romana. Em 1686 começou a Bibliothèque universelle et historique (25 volumes até 1693), seguida da Bibliothèque choisie (1703-1713) e da Bibliothèque ancienne et moderne (1714-1727), revistas de resenhas pelas quais o continente conheceu os livros ingleses. Em 1688 publicou ali um resumo do Ensaio sobre o entendimento humano de Locke, antes da edição inglesa.
Escreveu obras de filosofia e uma Ars critica (1696) sobre a leitura dos textos antigos. Editou os Pais Apostólicos (1698), as obras de Erasmo em dez volumes (1703-1706) e o tratado de Hugo Grócio sobre a verdade da religião cristã (1709). Traduziu para o latim a paráfrase do Novo Testamento de Henry Hammond, com notas (1698). O comentário do Antigo Testamento ocupou-o de 1693 a 1731.
As polêmicas
Quase tudo o que escreveu provocou resposta. A tradução francesa do Novo Testamento (1703) foi acusada de socinianismo e proibida na Prússia. Em 1690 defendeu a memória de Episcópio contra Pierre Jurieu, que o punha entre os socinianos. Em 1703, com o pseudônimo de Johannes Phereponus, publicou um apêndice crítico à edição das obras de Agostinho.
A disputa mais longa foi com Pierre Bayle. Bayle sustentava que as doutrinas centrais do cristianismo chocam com a razão, e usou a velha doutrina maniqueia dos dois princípios, um bom e um mau, para mostrar como a razão se embaraça diante do problema do mal. Le Clerc respondeu, da Parrhasiana (1699) às páginas da Bibliothèque choisie, que a razão é a regra da verdade e que fé e razão concordam.
Quando Limborch morreu, em 1712, Le Clerc pronunciou a oração fúnebre do amigo e assumiu também a cadeira de história da Igreja, que inaugurou com uma oração sobre a utilidade da história eclesiástica.
Os últimos anos
Em 1728, no meio de uma aula, sofreu um derrame e perdeu a fala por algum tempo. Deixou o ensino em 1731. Um segundo derrame, em 1732, o deixou quase sem fala. Quando Maria morreu, em 1734, ele já não tinha consciência da perda. Morreu em Amsterdã em 8 de janeiro de 1736, aos 78 anos. Johann Jakob Wetstein fez a oração fúnebre.
Pensamento
Le Clerc é um remonstrante da fase tardia, da linhagem de Courcelles e Limborch: membro da igreja fundada pelos seguidores de Jacó Armínio, professor do seu seminário, crítico declarado da graça irresistível e da predestinação absoluta. Ao mesmo tempo, foi um dos remonstrantes que mais se afastaram de Armínio. O metodista Benjamin Field o pôs, com Courcelles e Limborch, entre os sucessores de Armínio que se inclinaram para o pelagianismo, e John Mark Hicks separa o arminianismo de Armínio e de Wesley do “remonstrantismo” racionalista de Limborch e dos colegas, entre os quais nomeia Le Clerc: os arminianos “de cabeça”, como diz Roger Olson (ver A tradição arminiana: de Armínio a Wesley).
Razão e revelação
O ponto de partida de Le Clerc é a confiança de que a fé cristã, bem entendida, não tem nada a temer da razão. Na Parrhasiana (1699), escrevendo sobre si mesmo na terceira pessoa, resumiu: “a razão e a revelação nunca brigam entre si”; quando parecem brigar na teologia das escolas, é porque se pôs um fantasma no lugar de uma ou de outra. Quem duvida do cristianismo, dizia, não o conhece bem, raciocina mal ou quer servir às paixões. Por isso não aceitava defender a fé com argumentos fracos só porque convenciam o povo.
A outra face era a desconfiança da metafísica. Nos diálogos que acrescentou às Entretiens sur diverses matières de théologie (1684), sustentou que, quando os teólogos raciocinam sobre coisas de que não têm ideia clara e inventam termos que não estão na Escritura, multiplicam as heresias. O cristianismo devia ser visto como era no começo, sem mistura de doutrina humana.
O que é necessário crer
No livro que acrescentou ao tratado de Grócio, Le Clerc pergunta a que igreja o cristão deve se unir, já que todas se dizem a verdadeira, e responde: à que ensina o que Cristo e os apóstolos ensinaram, sem acréscimo humano, e não obriga ninguém a professar o que julga falso. Lista o que todos os cristãos criam em comum: um só Deus, criador e governador de tudo; Jesus Cristo, Filho único de Deus, nascido da virgem, crucificado, ressuscitado e que voltará para julgar; o Espírito Santo, que inspirou os apóstolos; a vida eterna para os que creem e obedecem ao evangelho; o batismo e a Ceia. O remédio para as divisões é que nada se imponha aos cristãos além do que cada um encontra no Novo Testamento.
Isso não era indiferença. No mesmo livro condena quem muda de religião como quem troca de roupa. Distingue ocultar de dissimular: calar uma opinião secundária para evitar contendas pode ser prudência, mas afirmar o que não se crê é mentir. Diante de uma igreja que exige a mentira, o cristão deve sair, porque Cristo prometeu reconhecer diante do Pai quem o confessar diante dos homens (Mateus 10:32-33).
Contra a graça irresistível
Onde Le Clerc mais claramente se alinha à Remonstrância é na recusa da graça irresistível e da reprovação incondicional. Na carta à frente da tradução inglesa das suas notas a Hammond (1699), lembra ter escrito que a graça irresistível afirmada por Agostinho não lhe parecia conforme a Escritura. O Senhor abriu o coração de Lídia (Atos 16:14) pelo evangelho, que abre o coração dos ouvintes “a menos que o fechem voluntariamente ao chamado de Deus”, e Le Clerc fala de uma espécie de inspiração pela qual Deus age em todos os que ouvem, para que possam recebê-lo como devem.
Na mesma carta, diz que Agostinho foi um dos primeiros a promover duas doutrinas que tiram de Deus e dos homens a bondade e a justiça: uma representa Deus criando a maior parte da humanidade para condená-la por pecados cometidos por outro ou que ela não podia evitar; a outra incita os magistrados a perseguir os que divergem em religião. Tinha diante dos olhos a revogação do Edito de Nantes (1685) e atribuía às cartas de Agostinho a favor da coerção parte da decisão de Luís XIV.
Nas notas a Romanos 9, segue Hammond e Grócio: Paulo fala da eleição de nações, e não de pessoas. Em Romanos 9:12, insiste, a tradução certa é “o maior servirá ao menor”, e não “o mais velho servirá ao mais moço”, porque a frase trata dos povos que vieram de Jacó e de Esaú, como no oráculo de Gênesis 25:23. É a leitura coletiva da eleição que os remonstrantes opunham ao decreto individual e absoluto de Dort (ver Sínodo de Dort).
Onde ele se afasta de Armínio
A regra de crer só no que está claro no Novo Testamento enfraqueceu, em três pontos, doutrinas que Armínio afirmou com força.
O primeiro é o pecado original. Ao rejeitar que alguém seja condenado por um pecado “cometido por outro”, Le Clerc recusa a culpa herdada de Adão. Para Armínio, o livre-arbítrio do homem caído para o verdadeiro bem está “aprisionado, destruído e perdido” (Disputas públicas, XI), e só a graça preveniente, obra pessoal do Espírito que vem antes de qualquer querer humano, o liberta. Em Le Clerc, a graça age sobretudo pelo evangelho que convence, e a incapacidade humana fica em segundo plano. A declaração de fé deste site segue Armínio e Wesley: todos nascemos pecadores, sob a justa condenação de Deus, incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar (ver O pecado original e a depravação total).
O segundo é a inspiração da Escritura. As cartas XI e XII dos Sentimens, traduzidas para o inglês em 1690 como Five Letters Concerning the Inspiration of the Holy Scriptures, expõem o sistema de um amigo, “o senhor N.”, que Le Clerc publicou com reservas, para provocar o debate. Ali se distinguem na Bíblia profecias, histórias e doutrinas, e se diz que, para contar o que viu ou ouviu, o historiador sagrado precisava apenas de boa memória. Le Clerc chegou a sugerir que o Pentateuco fora compilado na época do cativeiro, mas depois defendeu que Moisés era o autor. A declaração de fé do site afirma que, pela inspiração do Espírito, os escritos originais foram preservados de erro.
O terceiro é a Trindade. A sua lista do que é necessário crer não traz a linguagem de Niceia. Le Clerc negou ser sociniano, mas a sua cautela diante dos termos da teologia histórica o deixou longe da confissão sem reservas de um só Deus em três pessoas coeternas e coiguais, que é a do site (ver A Trindade).
O legado
Le Clerc foi, antes de tudo, um mediador. O historiador A. W. Harrison escreveu que Limborch levou a teologia remonstrante para a corrente principal do pensamento europeu e que Le Clerc a manteve lá. Os remonstrantes tardios guardaram a convicção de Armínio de que Deus quer salvar todos e de que a graça pode ser recusada. E, ao fazer da razão a medida do que se deve crer, perderam a força com que Armínio afirmava a ruína do homem e a primazia da graça, que Wesley iria recuperar nas décadas seguintes.
Obras principais
- Entretiens sur diverses matières de théologie (1684), segunda parte.
- Sentimens de quelques théologiens de Hollande sur l’Histoire critique du Vieux Testament (1685) e Défense des Sentimens (1686).
- Bibliothèque universelle et historique (1686-1693), Bibliothèque choisie (1703-1713) e Bibliothèque ancienne et moderne (1714-1727).
- Comentário latino do Antigo Testamento (1693-1731).
- Parrhasiana (1699).
- Tradução francesa do Novo Testamento (1703).
- Edição anotada do tratado de Grócio sobre a verdade da religião cristã (1709).
- Historia ecclesiastica duorum primorum a Christo nato saeculorum (1716).
- Histoire des Provinces-Unies des Pays-Bas (1723-1728).
Para aprofundar
- Jean Le Clerc, Parrhasiana: or, Thoughts upon Several Subjects (Londres, 1700), com o relato das suas obras e estudos, Internet Archive.
- Jean Le Clerc, A Supplement to Dr. Hammond’s Paraphrase and Annotations on the New Testament (Londres, 1699), com a carta do autor sobre a tradução, Internet Archive.
- Jean Le Clerc, Five Letters Concerning the Inspiration of the Holy Scriptures (1690), Internet Archive.
- Hugo Grotius, The Truth of the Christian Religion, with notes by Mr. Le Clerc, com os livros acrescentados por Le Clerc, Internet Archive.
- Jean Le Clerc, An Account of the Life and Writings of John Locke (Londres, 1714), Internet Archive.
- Le Clerc, Jean, Encyclopædia Britannica, 11.ª ed. (1911), Wikisource.
- Phillip D. Cummins, Le Clerc, Jean (1657-1736), Encyclopedia of Philosophy (1967), Encyclopedia.com.
- G. H. Williams, Le Clerc, Jean, New Catholic Encyclopedia, Encyclopedia.com.
- Clerc (Jean le), Biographisch woordenboek van protestantsche godgeleerden in Nederland, vol. 2, DBNL.
- A. J. van der Aa, Clericus (Johannes), Biographisch woordenboek der Nederlanden, vol. 3 (1858), DBNL.
- Clerc, John Le, Alexander Chalmers, General Biographical Dictionary.
- J. LeClerc, 1657-1736, Album Academicum da Universidade de Amsterdã.
- Clerc, Le (Clericus), Jean, Cyclopaedia of Biblical, Theological and Ecclesiastical Literature, de McClintock e Strong.
- John Mark Hicks, The Theology of Grace in the Thought of Jacobus Arminius and Philip van Limborch (tese, Westminster Theological Seminary, 1985), Society of Evangelical Arminians.
- Jean Le Clerc (theologian), Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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