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HistóriaTeólogos arminianos14 de 233

Jack Hayford: O pastor de Van Nuys que ensinou a igreja a adorar

Diego Gonçalves13 min de leitura2.637 palavras

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Neste texto

Em 1969, Jack Hayford tinha 35 anos e era deão de estudantes do L.I.F.E. Bible College, a escola bíblica da Igreja do Evangelho Quadrangular em Los Angeles. A denominação lhe pediu que cuidasse, por seis meses, da Primeira Igreja Quadrangular de Van Nuys, uma congregação envelhecida de 18 membros na Sherman Way, a poucos quarteirões de uma igreja batista que crescia sem parar. Ele pretendia voltar à escola no outono. Ficou trinta anos. A igreja, rebatizada de The Church On The Way, chegou a reunir mais de dez mil pessoas por semana, e o pastor interino tornou-se o líder que a revista Christianity Today chamou de “padrão-ouro” dos pentecostais.

Vida

Duas curas e um chamado

Jack Williams Hayford nasceu em Los Angeles, em 25 de junho de 1934, filho mais velho de Jack Hayford, guarda-chaves da ferrovia Southern Pacific, e de Dolores Farnsworth Hayford. Os pais não eram cristãos. Ainda bebê, Jack teve um problema grave nos tendões do pescoço; uma prima levou o nome dele a uma Igreja Quadrangular em Long Beach, que orou por ele, e no dia seguinte os pais notaram a melhora. Um ano depois, o casal recebeu Cristo naquela mesma igreja. Mais tarde o menino teve uma paralisia numa perna, atribuída à poliomielite, e se recuperou depois que os presbíteros o ungiram e oraram. Dessas experiências ele tirou uma convicção que repetiria a vida toda: Deus “não é econômico com curas e milagres”.

A família se mudou para Oakland. A mãe, professora de Bíblia em grupos de mulheres, insistia: “Diga-me a verdade, Jack, na presença de Jesus”. Ele recebeu Cristo aos dez anos. No ensino médio sentiu o chamado para o ministério; os professores o empurravam para a ciência ou o jornalismo, mas uma professora luterana o animou a seguir o chamado. Em 1952 entrou no L.I.F.E. Bible College, fundado por Aimee Semple McPherson. Ali conheceu Anna Smith, com quem se casou em 4 de julho de 1954, e se formou em 1956 como o primeiro da turma.

Em maio de 1956, semanas antes de completar 22 anos, assumiu uma igreja de cerca de uma dúzia de membros em Fort Wayne, no Indiana. “Era bom ser ninguém”, diria depois. Em 1960 voltou à Califórnia como diretor nacional de jovens da denominação e depois foi deão de estudantes do L.I.F.E.

A igreja do caminho

Em Van Nuys, o ambiente lhe pareceu sufocante. Durante mais de um ano, Hayford andou pelo santuário louvando a Deus em voz alta e batendo palmas, convencido de que precisava “purificar a igreja com louvor”. Um domingo o clima mudou, e a igreja começou a crescer. Em setembro de 1971 ele teve uma visão que marcou o seu ministério: o trono de Deus do Apocalipse alinhado com a igreja da Sherman Way, e o vale de San Fernando como um anfiteatro de louvor ao redor dele. O nome Church On The Way dizia que a congregação estava em movimento e que Jesus é o Caminho.

Duas prioridades guiaram aqueles anos: o ministério de todos os crentes, a partir de Efésios 4:11-12, e a adoração antes da evangelização. Hayford criou os círculos de oração no meio do culto de domingo e ensinou a muitas igrejas uma sequência de culto que ia do cântico congregacional ao louvor falado, à oração em pequenos grupos e ao ensino bíblico. Um novo templo foi inaugurado em 1981, e os cultos em espanhol passaram a reunir milhares de pessoas.

Numa esquina de Van Nuys, Hayford mudou o olhar sobre as outras igrejas. Parado num semáforo diante da igreja batista, sentiu que Deus lhe mandava orar por ela. Dias depois, com ciúme de uma paróquia católica cheia, perguntou por que uma igreja “errada em coisas importantes” prosperava, e ouviu dentro de si outra pergunta: por que Deus não se alegraria com um lugar onde, toda manhã, se dá testemunho do sangue do seu Filho? Daí em diante, fazer pontes virou parte da sua vocação. Ele recebeu no púlpito o calvinista John MacArthur, ajudou a presidir a cruzada de Billy Graham em Los Angeles e, depois dos distúrbios raciais de 1992, fundou com o presbiteriano Lloyd Ogilvie a coalizão Love L.A., que reunia cerca de mil pastores da cidade.

Majesty, a escola e o rádio

Em 1977, Hayford e Anna passaram férias na Grã-Bretanha, no ano do jubileu de prata da rainha Elizabeth II, e visitaram o palácio de Blenheim. Os símbolos da realeza o fizeram pensar na majestade de Cristo e na dignidade que ele dá aos seus. A letra e a melodia de “Majesty” vieram enquanto ele dirigia pelas estradas britânicas, e o hino foi terminado na Califórnia. Publicado em 1981, foi o cântico mais cantado nas igrejas americanas entre 1989 e 1994. Hayford compôs mais de quinhentos hinos e corinhos.

Entre 1977 e 1982 presidiu o L.I.F.E. Bible College. Nesse período pediu a dois professores veteranos, Guy P. Duffield e Nathaniel Van Cleave, um manual de doutrina, publicado em 1983 como Foundations of Pentecostal Theology, com introdução dele. Em 1982 lançou o programa de rádio que viria a se chamar Living Way. Foi editor geral da Spirit-Filled Life Bible (1991), uma Bíblia de estudo com colaboradores de várias tradições, e escreveu mais de cinquenta livros. Em 1997 abriu em Van Nuys o The King’s College and Seminary, hoje The King’s University, onde por mais de uma década dirigiu a School of Pastoral Nurture, uma semana intensiva por mês com pastores. A partir de 2013 a escola se transferiu para Southlake, no Texas, ligada à Gateway Church.

Presidente da denominação

Em 1999 Hayford deixou o pastorado ao genro, Scott Bauer; quando Bauer morreu de um aneurisma, em outubro de 2003, voltou ao púlpito para conduzir a transição. Em 2004, depois de recusar a indicação em 1988 e em 1997, foi eleito presidente da Igreja do Evangelho Quadrangular. A denominação estava em crise: o presidente anterior renunciara depois de perder 15 milhões de dólares em investimentos fraudulentos. Hayford reestruturou a liderança nacional, criou uma fundação para cuidar das finanças e reduziu os distritos americanos de setenta para catorze. Cumpriu um único mandato, até 2009.

Em 2015 a Church On The Way o nomeou pastor emérito. Anna, a quem ele chamava de “a fonte” da sua vida, morreu em 8 de março de 2017, depois de quase 63 anos de casamento; tiveram quatro filhos. Em 2018 ele se casou com Valarie Anne Lemire. Hayford morreu em casa, no vale de San Fernando, em 8 de janeiro de 2023, aos 88 anos.

Pensamento

Onde Hayford fica no arminianismo

Hayford é um pentecostal arminiano. Ele tratou da predestinação no manual de doutrina Grounds for Living (2001), onde distingue duas coisas. Quando a Bíblia fala da predestinação de Deus, “descreve as provisões que ele faz”; quando fala da presciência, “descreve os fatos de que ele tem conhecimento”. A predestinação é a provisão de Deus “para os que creem em Cristo”, e saber de antemão não faz um fato acontecer. É, em substância, a eleição condicional de Jacó Armínio, para quem Deus decretou salvar em Cristo os que creem, segundo a sua presciência (Declaração de Sentimentos, 1608).

Hayford rejeita o que chama de “calvinismo extremo”, a ideia de que uns são eleitos para a salvação e outros condenados pela escolha soberana de Deus. Esse exagero, escreve, “provoca perguntas que uma exposição bíblica fiel não provocaria”: nasce um fatalismo que leva a pessoa a perguntar que diferença faz o que ela faz, se tudo já foi planejado. A razão de fundo é o coração de Deus, que “não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3:9). Numa entrevista de 2005 ele repetiu a crítica: a teologia reformada, levada ao fatalismo, criou um sistema que “abafa a paixão e a parceria com Deus”.

A mesma posição está nos Fundamentos da Teologia Pentecostal, que ele encomendou, revisou como leitor em 1983 e voltou a revisar a partir de 2011 como membro da comissão de doutrina da Igreja Quadrangular. O livro ensina a eleição em Cristo segundo a presciência, a morte de Cristo por todos e a possibilidade de o crente abandonar a fé. É o lugar de Myer Pearlman e de Stanley Horton nas Assembleias de Deus.

A graça e a vontade

Hayford fala muito de livre-arbítrio. Em Grounds for Living ele o põe na imagem de Deus: o ser humano terá eternamente a eternidade que escolher, e Deus “não vai anular essa escolha”. Em Manifest Presence (2005) escreve que o livre-arbítrio não contradiz a vontade soberana de Deus, que busca a acolhida de corações que decidem querê-lo.

A declaração de fé quadrangular, compilada por Aimee Semple McPherson em 1923, cerca essa ênfase com a doutrina da graça: os seres humanos caídos estão “inteiramente desprovidos, por natureza, da santidade” que a lei exige, e a salvação é “inteiramente pela graça”. O arminianismo clássico acrescenta que a vontade caída só se torna capaz de crer porque a graça preveniente, a graça que vem antes, a liberta. A declaração de fé do site segue essa formulação de Armínio e de John Wesley. Em Hayford, o livre-arbítrio aparece mais como dom da criação do que como vontade libertada pela graça; é uma diferença de acento, e não de lado na controvérsia.

O pentecostalismo como recuperação

Na introdução aos Fundamentos (1983), Hayford situou o pentecostalismo na história da igreja: o que Deus fez por meio de Lutero, ao recuperar a mensagem da salvação, e por meio de Wesley, ao recuperar a mensagem da vida santa, ele fez no avivamento pentecostal, ao devolver à igreja “o dinamismo do poder e dos dons do Espírito Santo”. Por isso, dizia, aquela não era “uma teologia só para pentecostais”.

Em The Beauty of Spiritual Language (1992) ele argumenta que as línguas são ideia de Deus: Jesus as anunciou (Marcos 16:17), e a igreja começou a falar em línguas no dia em que nasceu. Mantinha a posição pentecostal de que as línguas são o sinal do batismo no Espírito, mas reconhecia que a Escritura não prova isso de forma conclusiva, e tratava a língua espiritual sobretudo como meio de oração pessoal, nunca como prova de espiritualidade. No culto público, insistia nas regras de 1 Coríntios 14: interpretação, ordem e edificação de todos.

Adoração e reino

O centro do ensino de Hayford é a adoração ligada ao reino de Deus. Ele lia o Salmo 22:3 como promessa de que Deus está entronizado nos louvores do seu povo. Em Worship His Majesty (1987) resumiu a tese em três proposições: a adoração é para as pessoas, a adoração acolhe o poder do reino e a adoração é a chave da evangelização. Dizer que a adoração é para as pessoas, explica, não é dizer que ela se dirige a elas; ela é um dom de Deus a quem o adora. “É infinitamente mais fácil formar uma congregação que escute a Palavra de Deus do que formar um povo que adore a Deus”, disse em 2005. O reino, para ele, já age no presente por meio da igreja, que tem a tarefa de afetar a terra, e não só de preparar pessoas para o céu. O biógrafo S. David Moore aproxima essa teologia do reino da de George Eldon Ladd, com a diferença de que Hayford a aplicava à vida da congregação.

A oração como invasão

Prayer Is Invading the Impossible (1977) parte de uma ideia simples: Deus escolheu agir na terra em resposta à oração do seu povo. “Dele é o poder. Nossa é a oração. Sem ele, não podemos. Sem nós, ele não fará.” A frase trata da oração, e não da salvação: fala do modo como Deus decidiu associar os redimidos ao seu governo. O livro também adverte que haverá vezes em que o impossível não cede, e Hayford chamava de triunfalismo a fé que só vê vitória quando obtém exatamente o que pediu.

Diferenças com a declaração de fé do site

Além do acento no livre-arbítrio, há duas diferenças. Na santificação, a tradição quadrangular fala de santificação diária e progressiva, enquanto o site afirma também a inteira santificação, obra da graça recebida pela fé. Nas últimas coisas, os Fundamentos defendem o arrebatamento antes da tribulação e o milênio futuro, e o site é amilenista. Na eleição em Cristo, na expiação por todos e na perseverança condicional, o acordo é completo.

Obras principais

  • Prayer Is Invading the Impossible (1977).
  • The Church on the Way (1982).
  • Worship His Majesty (1987; edição revista e ampliada, 2000).
  • Restoring Fallen Leaders (1988).
  • Spirit-Filled Life Bible (1991), editor geral.
  • The Beauty of Spiritual Language (1992; edição revista, 2018).
  • Kingdom Warfare (1993).
  • Hayford’s Bible Handbook (1995).
  • Grounds for Living (2001).
  • The Power of Praying Together, com Stormie Omartian (2003).
  • Manifest Presence (2005).
  • The Charismatic Century, com S. David Moore (2006).
  • Hino “Majesty” (escrito em 1977, publicado em 1981).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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