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HistóriaTeólogos arminianos12 de 233

James D. G. Dunn: O pregador metodista que deu nome à Nova Perspectiva sobre Paulo

Diego Gonçalves13 min de leitura2.617 palavras

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Neste texto

Em 1982, um mês depois de assumir a cátedra de Teologia da Universidade de Durham, um professor escocês subiu à tribuna da Universidade de Manchester para a Manson Memorial Lecture. O título que escolheu foi “The New Perspective on Paul”, “A nova perspectiva sobre Paulo”. O texto saiu no ano seguinte no Bulletin of the John Rylands Library e deu nome a um dos debates mais longos dos estudos do Novo Testamento. Na mesma época, o professor pregava em pequenas capelas metodistas do nordeste da Inglaterra. Era James Douglas Grant Dunn, “Jimmy” para os amigos.

Vida

Glasgow e a Scripture Union

James Dunn nasceu em 21 de outubro de 1939, em Birmingham, na Inglaterra, o mais novo de quatro filhos de pais escoceses, David Dunn e Nancy Orr. O pai morreu antes de o menino completar um ano, e a mãe voltou para Glasgow e criou os quatro filhos sozinha. Na Hutcheson’s Grammar School ele aprendeu grego e latim. Na adolescência foi marcado pela Scripture Union, organização evangélica de jovens que insistia na fé pessoal, na oração diária e na leitura da Bíblia. Ali, contou depois, lançaram-se os alicerces de uma fé forte o bastante para resistir às perguntas que a pesquisa histórica traria. Nesses encontros conheceu Meta Russell, com quem se casou em 1963 e viveu 57 anos.

Formou-se em Economia e Estatística na Universidade de Glasgow em 1961 e depois estudou para o ministério da Igreja da Escócia no Trinity College, em Glasgow, onde concluiu o bacharelado em Divindade em 1964, com distinção. Estava no extremo conservador da turma e defendia com franqueza as crenças tradicionais. O seu mentor foi William Barclay, o comentarista do Novo Testamento que unia erudição e linguagem simples. Inspirado por ele, Dunn trocou o pastorado pela vida acadêmica, embora tenha recebido em 1964 a licença de ministro da Igreja da Escócia.

Cambridge

Ainda em 1964 foi para Cambridge fazer o doutorado com C. F. D. Moule, que juntava rigor histórico e fé evangélica. Ali nasceram os filhos Catrina e David. Entre os colegas estavam futuros nomes do Novo Testamento, como Graham Stanton e Gerald O’Collins, alguns deles católicos, e Dunn se envolveu com o movimento carismático, que dava grande peso à experiência pessoal do Espírito Santo. O grupo de amigos, de igrejas diferentes, gostava de repetir uma frase inspirada no sermão de John Wesley sobre o espírito católico: se o teu coração bate com o meu ao confessar que “Jesus é Senhor”, dá-me a tua mão.

Na mesma época, estudando na biblioteca da Tyndale House, criada para defender a visão evangélica conservadora das Escrituras, Dunn abandonou a convicção da inerrância. Os amigos lembravam que, no dia em que ele aceitou que a segunda carta de Pedro não tinha sido escrita pelo apóstolo, os olhos se encheram de lágrimas. Colegas o avisaram de que estava num “declive escorregadio”. Ele viveu a mudança como libertação, mas guardou, nas palavras do seu biógrafo John Barclay, traços centrais da teologia protestante e da piedade evangélica. O doutorado saiu em 1968.

Edimburgo e Nottingham

De 1968 a 1970 foi secretário e capelão internacional do Conselho Cristão de Edimburgo para Estudantes Estrangeiros. Em 1970 tornou-se professor da Universidade de Nottingham, onde nasceu a filha Fiona. Ali começou a servir como pregador leigo metodista e, a partir de então, trabalhou dentro da tradição metodista, membro da Igreja da Escócia e da Igreja Metodista da Grã-Bretanha. Cumprimentava os amigos com um abraço de urso no lugar do aperto de mão. Em Nottingham publicou os livros que o tornaram conhecido: Baptism in the Holy Spirit (1970), Jesus and the Spirit (1975), Unity and Diversity in the New Testament (1977) e Christology in the Making (1980).

Durham

Em 1982 sucedeu o metodista C. K. Barrett na cátedra de Teologia de Durham e, em 1990, passou para a cátedra Lightfoot, que homenageia o estudioso e bispo de Durham do século XIX que Dunn admirava. Dirigiu o departamento duas vezes e fez de Durham um centro mundial de estudos do Novo Testamento. Entre os seus orientandos, em Nottingham e em Durham, estiveram B. J. Oropeza, Bruce Longenecker, Paul Trebilco e Scot McKnight. O seminário semanal terminava com jantares na casa dos Dunn.

A vida de igreja seguia junto. Dunn pregava e dirigia cultos no circuito metodista de Durham, e o casal participava de um pequeno grupo semanal numa igreja metodista da cidade. Com Anthony Thiselton e David Day, fundou o Wesley Study Centre, centro metodista de formação ministerial ligado ao Cranmer Hall, a escola anglicana do St John’s College, onde por 25 anos ministros metodistas estudaram ao lado de anglicanos e de seminaristas católicos. Chefiou o relatório à Conferência Metodista britânica que considerou a maçonaria incompatível com o cristianismo e insistia com as igrejas para formarem bem os leigos.

Foi tesoureiro e depois presidente (2002-2003) da Studiorum Novi Testamenti Societas, a sociedade internacional dos estudiosos do Novo Testamento, e criou com Martin Hengel e Peter Stuhlmacher encontros regulares entre Durham e Tübingen. Aposentou-se em 2003, e John Barclay o sucedeu. Em 2006 foi eleito membro da Academia Britânica. Os antigos alunos lhe dedicaram Jesus and Paul (2009), pelos seus 70 anos.

Chichester

Em 2009 o casal se mudou para Chichester, no sul da Inglaterra, perto das filhas. Mesmo depois de um pequeno derrame, Dunn terminou a trilogia Christianity in the Making: Jesus Remembered (2003), Beginning from Jerusalem (2009) e Neither Jew nor Greek (2015), quase 2.900 páginas sobre o cristianismo de Jesus até o ano 180. Morreu em Chichester em 26 de junho de 2020, aos 80 anos, e deixou ao St John’s College de Durham os 3 mil livros da sua biblioteca. Meta morreu no ano seguinte.

Pensamento

Onde ele fica em relação ao arminianismo

Dunn pertence à tradição wesleyana, pela igreja em que pregou durante décadas e pela leitura de Paulo sobre a perseverança, e se afasta do arminianismo clássico em outros pontos de doutrina. Em The Theology of Paul the Apostle (1998) ele rejeitou a perseverança incondicional dos santos. Para ele, a vida cristã acontece na tensão entre o “já” e o “ainda não”: o crente já foi justificado e recebeu o Espírito, mas a salvação final ainda está à frente. Por isso levou a sério as advertências de Paulo aos crentes e admitiu que um crente pode cair em apostasia. O calvinista Thomas Schreiner criticou esse ponto e também a leitura de Romanos 9 a 11 em que Dunn deixa em segundo plano a predestinação individual e lê a eleição a partir de Israel e das nações. Em outro lugar Dunn escreveu que, também no Novo Testamento, a vida eterna é “em algum grau condicionada à fidelidade”. É a perseverança condicional que I. Howard Marshall, outro estudioso metodista do Novo Testamento, defendeu em Kept by the Power of God (ver a perseverança na teologia arminiana).

A distância em relação à declaração de fé deste site também é real. Dunn abandonou a inerrância e, em Christology in the Making, sustentou que a ideia de um Filho pessoalmente preexistente só aparece com clareza no Evangelho de João, enquanto o site afirma o Filho eterno em duas naturezas. Também rejeitou a “segunda bênção”, nome que o movimento de santidade dá à inteira santificação.

O Espírito na conversão

Baptism in the Holy Spirit examinou os textos dos Evangelhos, de Atos e de Paulo sobre o dom do Espírito e concluiu que o Novo Testamento não ensina um batismo no Espírito posterior à conversão: o dom do Espírito faz parte da própria entrada na vida cristã, junto com o arrependimento, a fé e o batismo. Nesse ponto, disse ele, a leitura pentecostal estava errada. Mas Dunn tinha enorme simpatia pela ênfase pentecostal na experiência sentida do Espírito, que as igrejas tradicionais subestimavam, e atacou com a mesma força o sacramentalismo que prende o Espírito à água ou à confirmação. Os pentecostais leram o livro com respeito, e o crescimento dos estudiosos pentecostais levou a uma segunda edição em 2010. Gordon Fee chegou por outro caminho a uma conclusão parecida sobre a subsequência.

A Nova Perspectiva sobre Paulo

O ponto de partida foi Paul and Palestinian Judaism (1977), de E. P. Sanders, que mostrou que o judaísmo do tempo de Paulo não era uma religião de méritos: Israel entrava na aliança pela graça da eleição e permanecia nela pela obediência. Se era assim, perguntou Dunn, contra o que Paulo argumentava quando dizia que ninguém é justificado “pelas obras da lei” (Gálatas 2:16)?

A resposta dele foi que as “obras da lei”, no debate de Paulo, eram sobretudo as práticas que separavam os judeus dos outros povos: a circuncisão, o sábado e as leis sobre alimentos, tidas como “indispensáveis” para pertencer à aliança e, portanto, para a salvação. Paulo, o apóstolo dos gentios, combatia a exigência de que os não judeus adotassem essas marcas. O seu alvo era a restrição da aliança a uma nação, e daí a ênfase de Dunn na dimensão social da justificação, que derruba o muro entre judeus e gentios (Efésios 2:14).

No começo Dunn polemizou contra a “leitura luterana” de Paulo; mais tarde insistiu que estava completando, e não negando, a leitura centrada no indivíduo. No balanço que abre a coletânea The New Perspective on Paul, escreveu que “a justificação somente pela fé precisa ser reafirmada”, porque ela “fala contra toda tentativa de acrescentar qualquer coisa ao evangelho como essencial à salvação” (ed. rev. 2008, p. 96). A teologia arminiana, de Armínio a Wesley, mantém no centro a justificação do pecador pela fé, com a imputação da justiça de Cristo (ver a justificação pela fé na teologia arminiana), e pode receber a contribuição de Dunn como alargamento desse centro.

A cruz: representação e sacrifício

Num ensaio de 1974 em homenagem a Leon Morris, Dunn juntou dois temas de Paulo. Cristo é o homem representativo: como Adão representa a humanidade caída, Jesus assumiu “a carne do pecado” (Romanos 8:3) para pôr fim ao homem pecador e fazer nascer um novo homem. E a morte de Jesus é sacrifício pelo pecado, à luz da oferta pelo pecado de Levítico. Para Paulo, concluiu, dizer que Jesus morreu como representante do homem caído e dizer que morreu como sacrifício pelos pecados “é dizer a mesma coisa”. Na morte do sacrifício o pecado é destruído, e quem se identifica com o sacrifício participa da vida de Cristo para além dessa morte.

Dunn preferiu “expiação” a “propiciação” em Romanos 3:25, porque é Deus quem oferece Jesus e o objeto da ação é o pecado; achava “substituição” estreita demais, propunha “representação” e tratava a ideia de pena como secundária. O site afirma a satisfação penal substitutiva, posição de Armínio e de Wesley. A leitura de Dunn coincide com ela no sacrifício e na morte de Cristo por todos, e diverge no peso dado à pena.

O conflito interior e a santificação

Na palestra Paul for Today (1993), Dunn leu Romanos 7:14-24 como a experiência do próprio crente: o “eu” dividido, que quer o bem e não o faz, continua enquanto durar a vida neste corpo, e a vinda do Espírito torna a luta mais intensa (Gálatas 5:16-17). Por isso chamou de ilusão a promessa de uma “segunda bênção” que leve o crente a um plano livre do poder do pecado. Daí tirou uma palavra pastoral: o conflito interior é sinal de vida, e “o Espírito está ausente quando paramos de lutar, não quando perdemos”.

Aqui ele se afasta da tradição wesleyana. Armínio leu Romanos 7 como a luta de quem ainda não foi regenerado, e Wesley ensinou a inteira santificação como obra da graça recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor perfeito, sem prometer ausência de erros e tentações. É o que afirma a declaração de fé do site (ver a santificação). A advertência de Dunn contra a promessa de uma vida sem luta toca um perigo que o próprio Wesley combateu.

Obras principais

  • Baptism in the Holy Spirit (1970; 2.ª ed., 2010)
  • Jesus and the Spirit (1975)
  • Unity and Diversity in the New Testament (1977; 3.ª ed., 2006)
  • Christology in the Making (1980; 2.ª ed., 1989)
  • “The New Perspective on Paul”, Bulletin of the John Rylands Library 65 (1983)
  • Romans 1-8 e Romans 9-16, Word Biblical Commentary (1988)
  • The Partings of the Ways (1991; 2.ª ed., 2006)
  • The Epistle to the Galatians (1993)
  • The Epistles to the Colossians and to Philemon (1996)
  • The Theology of Paul the Apostle (1998)
  • Jesus Remembered, Christianity in the Making 1 (2003)
  • The New Perspective on Paul: Collected Essays (2005; ed. rev., 2008)
  • Beginning from Jerusalem, Christianity in the Making 2 (2009)
  • Jesus, Paul, and the Gospels (2011)
  • Neither Jew nor Greek, Christianity in the Making 3 (2015)
  • Jesus according to the New Testament (2019)

Livros em português

Para aprofundar

  • John M. G. Barclay, “James Douglas Grant Dunn, 21 October 1939 - 26 June 2020”, Biographical Memoirs of Fellows of the British Academy 21 (2023), p. 275-294. Academia Britânica
  • David Wilkinson, “In Memory: Professor James D. G. Dunn”, Mere Orthodoxy (6 de julho de 2020). Mere Orthodoxy
  • St John’s College, Durham, “James (Jimmy) Dunn (1939-2020)”. St John’s College
  • Nijay K. Gupta, “James D. G. Dunn and the New Perspective on Paul: A Review Article”, Ashland Theological Journal 41 (2009), p. 137-143. BiblicalStudies.org.uk
  • Thomas R. Schreiner, resenha de The Theology of Paul the Apostle, de James D. G. Dunn. Southern Baptist Theological Seminary
  • James F. McGrath, “Milestones: James D. G. Dunn, Influential New Testament Scholar”, Biblical Archaeology Review (inverno de 2020). Biblical Archaeology Society
  • James D. G. Dunn, “Paul’s Understanding of the Death of Jesus”, em Robert Banks (org.), Reconciliation and Hope (Paternoster, 1974), p. 125-141. BiblicalStudies.org.uk
  • James D. G. Dunn, Paul for Today, The Ethel M. Wood Lecture (University of London, 1993). BiblicalStudies.org.uk
  • “James Dunn (theologian)”, Wikipédia em inglês. Wikipedia

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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