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Howard A. Snyder: O missionário metodista livre que repensou a igreja a partir de Wesley
Neste texto
- Vida
- Uma família de missionários metodistas livres
- Sete anos em São Paulo
- Escritor, pastor e doutor
- Asbury, Toronto e Manchester
- Pensamento
- O otimismo da graça
- A igreja como comunidade do povo de Deus
- Vinho novo e odres novos
- Santidade e comunidade
- O Reino e a criação
- Discipulado
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
No começo da década de 1970, um missionário americano em São Paulo chegou a uma conclusão incômoda: não sabia responder com inteligência à pergunta “o que é a igreja?”. Howard Snyder já tinha sido pastor em Detroit, mas o Brasil lhe trouxe perguntas novas. Resolveu passar um ano inteiro estudando a Carta aos Efésios. Desse estudo saiu a convicção que orientaria toda a sua obra, a de que a igreja é, antes de tudo, a comunidade do povo de Deus, e saiu também a maior parte de um livro escrito ainda no Brasil, The Problem of Wineskins (1975), que, revisto, chegaria ao português em 1997, pela ABU Editora, como Vinho novo, odres novos. Em julho de 1974, no Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, na Suíça, aquele missionário apresentou a cerca de 2.700 líderes de mais de 150 países uma palestra com o título “A igreja como agente de Deus na evangelização”.
Vida
Uma família de missionários metodistas livres
Howard A. Snyder nasceu em 1940 na República Dominicana, onde os pais, Edmund e Clara Zahniser Snyder, eram missionários da Igreja Metodista Livre. A família da mãe estava no metodismo livre havia gerações: o avô, Jacob Jay Zahniser, foi um dos pastores ordenados na denominação no fim do século 19. A Igreja Metodista Livre nasceu em 1860, sob a liderança de B. T. Roberts, e tomou o “livre” do nome das causas que a originaram: bancos abertos a todos, sem aluguel de lugares para os ricos, oposição à escravidão e liberdade no culto. Snyder passaria boa parte da vida estudando essa herança.
Aos quatro anos, ele foi com os pais para Spring Arbor, no Michigan, onde o pai passou a lecionar no Spring Arbor Junior College, escola da denominação. Ali Snyder cresceu e estudou: formou-se no Spring Arbor Junior College em 1960, no Greenville College, em Illinois, em 1962, e no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, em 1966. Depois do seminário, pastoreou por dois anos a Igreja Metodista Livre de Redford, em Detroit.
Sete anos em São Paulo
De 1968 a 1975, Snyder serviu no Brasil como missionário da Igreja Metodista Livre. Foi pastor e professor do seminário da denominação em São Paulo, do qual foi diretor. A obra metodista livre no país tinha começado entre imigrantes japoneses em 1936 e, com o tempo, formaria líderes brasileiros como o bispo Ildo Mello.
Escrito em grande parte em São Paulo, The Problem of Wineskins saiu pela InterVarsity Press em 1975. O título vem da palavra de Jesus sobre o vinho novo que não se põe em odres velhos (Marcos 2:22). A palestra de Lausanne, um ano antes, já trazia a tese que este livro e o seguinte desenvolveriam: a igreja, vivida como comunidade, é o agente de Deus na evangelização, e as estruturas que a sustentam precisam servir ao evangelho, e não o contrário.
Escritor, pastor e doutor
De volta aos Estados Unidos, Snyder publicou The Community of the King (1977) e assumiu por um tempo a direção executiva da Light and Life Men International, o ministério de homens da Igreja Metodista Livre. Em 1980 saiu The Radical Wesley and Patterns for Church Renewal, um estudo de John Wesley como renovador da igreja. “Radical” ali tem o sentido de raiz: Wesley voltou às raízes bíblicas da vida comunitária e criou, com as sociedades, as classes e as bandas, uma estrutura em que os leigos pregavam, lideravam e cuidavam uns dos outros.
Snyder também pastoreou em Chicago e ensinou no North Park Theological Seminary, no Wheaton College e no United Theological Seminary, em Dayton, no Ohio. Em 1983 concluiu o doutorado em teologia histórica na Universidade de Notre Dame, com uma tese sobre os movimentos de renovação da igreja, orientada pelo teólogo menonita John Howard Yoder. A tese virou livro em 1989, Signs of the Spirit, sobre o montanismo, o pietismo, os morávios e o metodismo primitivo. Snyder é presbítero ordenado da Conferência de Ohio da Igreja Metodista Livre.
Asbury, Toronto e Manchester
De 1996 a 2006, Snyder foi professor de História e Teologia da Missão na Escola de Missão Mundial e Evangelização E. Stanley Jones, do Asbury Theological Seminary. Nesse período escreveu Populist Saints: B. T. and Ellen Roberts and the First Free Methodists (2006), uma biografia de quase mil páginas do fundador da denominação e da sua esposa, e editou a autobiografia do avivalista e abolicionista John Wesley Redfield, com prefácio do historiador David Bebbington.
De 2007 a 2012, ocupou a cátedra de Estudos Wesleyanos do Tyndale Seminary, em Toronto, onde organizou simpósios de estudos wesleyanos; o teólogo canadense James Pedlar o chama de mentor. Em 2015 e 2016 foi diretor visitante do Manchester Wesley Research Centre, na Inglaterra, e depois passou a representar o centro junto às instituições parceiras. Também foi editor colaborador da Christianity Today e vice-presidente do conselho da Spring Arbor University, cuja história escreveu em 1973 e em 2008.
Vários dos seus mais de vinte livros saíram em espanhol, português, coreano, japonês e chinês, e ele ensinou em cursos breves no Brasil, em Singapura e na Índia. É casado com Janice, com quem tem quatro filhos. O casal mora em Wilmore, no Kentucky, e em 2023 Snyder gravou uma longa história oral para os arquivos do Asbury Theological Seminary.
Pensamento
Snyder é um teólogo wesleyano, da tradição de santidade: foi formado e ordenado na Igreja Metodista Livre, que se define como arminiana na linha de Wesley, e dedicou a carreira ao estudo de Wesley e do metodismo. Num texto de 2014, ele lembra que, para Wesley, o ser humano entregue a si mesmo “não pode dar o menor passo em direção a Deus”, e que é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e flui da expiação de Cristo, que torna possível a resposta livre. Wesley, escreve ele, sustentava ao mesmo tempo a soberania total de Deus e a liberdade real das pessoas.
O otimismo da graça
Em “The Church as Holy and Charismatic”, publicado no Wesleyan Theological Journal em 1980, Snyder descreve em Wesley um “profundo otimismo da graça”, base da expiação universal, do testemunho do Espírito e da perfeição cristã. Com Colin Williams, afirma que a doutrina da graça preveniente quebrou a cadeia lógica pela qual a predestinação calvinista parecia decorrer do pecado original. Wesley afirmava o pecado original com toda a força, mas ensinava que a consciência natural já é graça e que “ninguém peca por não ter graça, mas por não usar a graça que tem” (sermão Sobre operar a própria salvação). Para Snyder, o plano inteiro da salvação depende da graça, e a igreja também vive dela.
A igreja como comunidade do povo de Deus
O centro da obra de Snyder é a eclesiologia, a doutrina da igreja. Num artigo de 1978, “What is the Church?”, ele resume as suas teses. A expressão “corpo de Cristo” é mais do que figura de linguagem: Cristo retirou o seu corpo físico da terra para que o Espírito Santo viesse habitar no seu corpo, a igreja. Daí vêm três consequências.
A primeira é o sacerdócio de todos os crentes, lido a partir de 1 Pedro 2:4-9. O tema, para ele, vai além do acesso direto a Deus: “se somos um sacerdócio, somos sacerdotes uns dos outros”. A segunda é a doutrina dos dons espirituais (Efésios 4:7). A palavra charisma vem da mesma raiz de graça, e por isso todo ministério é obra da graça, e não da formação, da inteligência ou da ordenação, que têm o seu lugar, mas vêm depois. Deus dá ministérios variados, e todo crente recebe algum. A terceira é que o ministério cristão é serviço, segundo o modelo de Cristo, que se esvaziou e tomou a forma de servo (Filipenses 2:5-7).
A história, segundo Snyder, mostra um padrão: quando a igreja se institucionaliza, estreita o ministério dado ao corpo inteiro; os movimentos de renovação o devolvem ao povo. Ele cita os franciscanos e o avivamento wesleyano, quando George Whitefield e os Wesley pregavam ao ar livre e os convertidos se reuniam em classes de cerca de doze pessoas, das quais saíam pregadores leigos. Nos dois casos, o evangelho chegou aos pobres.
Vinho novo e odres novos
The Problem of Wineskins aplica essa leitura às estruturas da igreja. O evangelho é sempre novo, mas os odres, isto é, os prédios, os programas, as formas de culto e de organização, endurecem com o tempo e precisam ser renovados. O livro defende o pequeno grupo como estrutura básica da vida da igreja, o exercício dos dons por todos e a pregação do evangelho aos pobres. Na edição brasileira, Snyder escreve que “para um evangelho radical (bíblico) precisamos de uma igreja radical (bíblica)” (Vinho novo, odres novos, cap. 1).
Signs of the Spirit dá a base histórica a essa tese. As instituições estáveis e os movimentos de renovação são ambos legítimos na história, e a renovação costuma brotar dentro da igreja institucional, como um broto que sai do toco, em ecclesiolae in ecclesia, pequenas igrejas dentro da igreja que mantêm o vínculo com o corpo maior, como foram os pietistas, os morávios e as sociedades metodistas.
Santidade e comunidade
O artigo de 1980 traz também uma crítica respeitosa à própria tradição. Snyder vê no Movimento de Santidade americano do século 19 um verdadeiro movimento do Espírito, mas aponta duas perdas em relação a Wesley. A primeira foi a troca da reunião de classe, semanal e íntima, pelos acampamentos de avivamento: reuniões em massa ocasionais não fazem o trabalho de células semanais de pessoas que buscam juntas a santidade. A segunda foi um estreitamento da perfeição cristã. Em Wesley, a linha principal da santificação é um processo, crescer até a plenitude de Cristo e amar a Deus de todo o coração, ao qual ele acrescentou uma segunda crise, a inteira santificação. O Movimento de Santidade pôs o peso quase todo na crise e passou a falar da santidade como um estado.
Há aqui uma diferença de ênfase em relação à declaração de fé deste site, que afirma a inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé. Snyder não nega essa segunda obra, mas põe o acento no crescimento contínuo e na comunidade em que a santidade amadurece.
O Reino e a criação
A partir dos anos 1980, Snyder alargou o foco para o Reino de Deus. Em A Kingdom Manifesto (1985), escreveu que muitos convertidos a Jesus “aparentemente nunca se converteram à sua mensagem do Reino”, e defendeu que evangelização e testemunho social nascem ambos do Reino.
A fase mais recente da obra trata da criação. Em Salvation Means Creation Healed (2011), com Joel Scandrett, ele critica a redução da salvação ao resgate de almas e lê a obra de Cristo como cura de toda a criação, a partir de Romanos 8:19-22 e Apocalipse 21; a separação entre “céu” e “terra” na piedade evangélica viria do neoplatonismo e do dispensacionalismo. Num texto de 2022 sobre a aliança de Gênesis 9, resumiu: “o plano de Deus é salvar as pessoas com o seu ambiente, e não para fora do seu ambiente”. Também propôs revisar o quadrilátero wesleyano, a imagem com que Albert Outler descreveu o método de Wesley: a Escritura, inspirada de modo único, no centro, e nos cantos a criação, a tradição, a razão e a experiência.
Discipulado
O fio que liga tudo isso é o discipulado. Num ensaio de 2024, Snyder chamou de “falha fatal” do evangelicalismo americano tratar a obediência e a santidade como opcionais: as quatro marcas de David Bebbington falam do que se crê e deixam de fora o discipulado que estava no centro de Wesley. Ao tratar de B. T. Roberts, em 2016, resumiu o “cristianismo sincero” do fundador metodista livre em quatro traços: viver o padrão bíblico, formar comunidades que contrastam com a cultura, levar o evangelho “aos pobres, com eles e entre eles” e reconhecer os dons de todos, sem distinção de sexo, raça ou condição social.
Obras principais
- The Problem of Wineskins: Church Structure in a Technological Age (1975)
- The Community of the King (1977; edição revista, 2004)
- The Radical Wesley and Patterns for Church Renewal (1980; nova edição como The Radical Wesley: The Patterns and Practices of a Movement Maker, 2014)
- Liberating the Church (1983)
- A Kingdom Manifesto (1985; reeditado como Kingdom, Church, and World, 2001)
- The Divided Flame, com Daniel Runyon (1986)
- Signs of the Spirit (1989)
- Models of the Kingdom (1991)
- Radical Renewal (1996; em português, Vinho novo, odres novos)
- Decoding the Church, com Daniel Runyon (2002)
- Populist Saints: B. T. and Ellen Roberts and the First Free Methodists (2006)
- “Live While You Preach”, autobiografia de John Wesley Redfield (editor, 2006)
- Yes in Christ (2010)
- Salvation Means Creation Healed, com Joel Scandrett (2011)
- Jesus and Pocahontas (2015)
Livros em português
- Vinho novo, odres novos: vida nova para a igreja (ABU Editora, 1997). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A comunidade do Rei (ABU Editora, 2004). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Manchester Wesley Research Centre, perfil de Howard A. Snyder.
- Howard A. Snyder, página do autor e lista de livros, Seedbed.
- Greenville University, “Author Howard A. Snyder to Speak at College Convocation”.
- The Work of the People, perfil de Howard Snyder.
- Free Methodist Historical Society, Marston Memorial Historical Center Newsletter, verão de 2018.
- Lausanne Movement, documentos do Congresso de Lausanne de 1974.
- Howard A. Snyder, “What is the Church?”, Evangelical Review of Theology 3, n. 2 (1979).
- Howard A. Snyder, “The Church as Holy and Charismatic”, Wesleyan Theological Journal (1980), reproduzido na Evangelical Review of Theology 6, n. 2 (1982).
- Howard A. Snyder, “John Wesley’s Radical Synthesis”, Seedbed, 2014.
- Howard A. Snyder, “Free Methodism’s Living Witness”, “B. T. Roberts’ Up-to-Date Vision of Earnest Christianity”, “Honoring God’s Covenant: Caring for the Earth” e “Evangelicalism’s Fatal Flaw”, Free Methodist Conversations.
- Howard A. Snyder, resposta a David Wisener em “Beyond the Wesleyan Quadrilateral?”, Free Methodist Conversations, 2023.
- Timothy K. Jones, resenha de A Kingdom Manifesto, Christianity Today, 5 set. 1986.
- Stephen Barkley, “Salvation Means Creation Healed”, resenha, 2013.
- James Pedlar, textos sobre Howard Snyder.
- Asbury Theological Seminary, “Dr. Howard Snyder oral history” (vídeo, 2023).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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