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HistóriaTeólogos arminianos4 de 215

Herschel Hobbs: O pastor de Oklahoma City que escreveu a confissão batista de 1963

Diego Gonçalves12 min de leitura2.428 palavras

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Neste texto

Num domingo, 10 de abril de 1927, às oito e meia da manhã, um rapaz de 19 anos se casou com Frances Jackson, filha de um pregador, na sala da casa dela, em Birmingham, no Alabama. A lua de mel foi a escola dominical, o culto da manhã, a reunião da juventude batista e o culto da noite. Pouco depois, o noivo anunciou que entraria no ministério, e a sogra respondeu que, nesse caso, ele e “Sis” iriam estudar no Howard College, porque a família não queria um pregador sem preparo. O rapaz era Herschel Harold Hobbs. Décadas depois ele seria chamado de “Mr. Southern Baptist”: pregador de rádio, presidente da Convenção Batista do Sul e redator da confissão de fé que ela adotou em 1963.

Vida

Marble Valley e Birmingham

Hobbs nasceu em 24 de outubro de 1907, em Marble Valley, uma comunidade rural do condado de Coosa, no Alabama. Era o sexto filho e o primeiro menino de Elbert Oscar Hobbs e Emma Octavia Whatley Hobbs. O pai morreu de malária quando Herschel tinha dois anos, e a mãe criou os filhos sozinha. Ele tinha sido membro da Igreja de Cristo, mas dirigia o canto na igreja metodista do lugar, e a primeira igreja de que o menino se lembrava era a Blue Springs Methodist Church. Aos cinco anos, perguntado sobre o que queria ser, respondeu que seria “um pregador metodista como o irmão Smith”. Depois, a mãe, que era batista, passou a levar os filhos à igreja batista.

Em 1918, num avivamento na Enon Baptist Church, perto de Montevallo, ele professou a fé em Cristo. O pregador era Ernest Davis, um estudante de teologia do Howard College, que o batizou no riacho de Montevallo. Hobbs resumiu a experiência com palavras de menino: “Antes eu me sentia mal; eu vim, e agora me sinto bem”.

Na primavera de 1920, a mãe vendeu a fazenda e se mudou com os filhos para Birmingham, para que eles pudessem estudar. Na Ensley Baptist Church, no oeste da cidade, conheceu Frances.

Formação

O primeiro sermão de Hobbs se chamou “O chamado universal de Deus à humanidade”, sobre as palavras de João 1:39: “Vinde e vede”. No exame de ordenação, em Birmingham, em 1929, perguntaram se a Bíblia contém a Palavra de Deus ou se é a Palavra de Deus; ele respondeu, e repetiu a vida inteira, que é a Palavra de Deus.

Herschel e Frances entraram juntos no Howard College, hoje Samford University, em 1930, e ele se formou em dois anos e meio. Em 1932 o casal se mudou para Louisville, no Kentucky, onde Hobbs fez o mestrado em teologia no Southern Baptist Theological Seminary. Estudou Novo Testamento com W. Hersey Davis e com A. T. Robertson, o grande gramático do grego bíblico, e estava na sala de aula no dia de 1934 em que Robertson sofreu o derrame que o matou. Doutorou-se com Davis em 1938, com uma tese sobre a pergunta se o autor do quarto Evangelho completa de propósito os três primeiros.

No seminário começou a amizade, que duraria a vida inteira, com W. A. Criswell, futuro pastor da First Baptist Church de Dallas. Um mestre ele nunca conheceu em pessoa: E. Y. Mullins, morto em 1928. Hobbs dizia ter quase decorado The Christian Religion in Its Doctrinal Expression e, ao revisar em 1978 The Axioms of Religion, dedicou o livro a Mullins, que “pelos seus livros” tinha sido o seu professor.

Os pastorados

Durante o seminário, Hobbs pastoreou igrejas em Indiana e no Kentucky, e depois no Alabama e na Louisiana. Na Emmanuel Baptist Church de Alexandria, na Louisiana, começou a pregar no rádio, e em meados de 1946 já tinha assumido a Dauphin Way Baptist Church, em Mobile.

Em 1949 ele foi chamado para a First Baptist Church de Oklahoma City, onde ficou até 1972, quando se aposentou aos 65 anos. Durante dezoito anos, a partir de 1958, pregou no The Baptist Hour, programa semanal de rádio da Comissão de Rádio e Televisão da Convenção Batista do Sul. Foi também vice-presidente da Aliança Batista Mundial, de 1965 a 1970.

A confissão de 1963

Hobbs foi eleito presidente da Convenção Batista do Sul em 1961 e ficou no cargo até 1963. Em julho de 1961, a editora da convenção, a Broadman, publicou The Message of Genesis, de Ralph Elliott, professor de Antigo Testamento do Midwestern Baptist Theological Seminary, que punha em dúvida a historicidade dos primeiros capítulos do Gênesis. Na convenção de San Francisco, em 1962, com medo de uma divisão, criou-se uma comissão para reexaminar a confissão de 1925, formada pelos presidentes das convenções estaduais e presidida por Hobbs. Ele explicaria depois que o livro de Elliott “não foi tanto a causa quanto a ocasião” da crise. O texto foi aprovado em Kansas City, em 1963, com quase unanimidade.

Hobbs redigiu pessoalmente o artigo sobre a santificação, e outras mudanças trazem a marca dele. O artigo sobre as Escrituras ganhou a frase “o critério pelo qual a Bíblia deve ser interpretada é Jesus Cristo”. O artigo sobre a igreja passou a falar também do corpo de Cristo, “que inclui todos os redimidos de todas as eras”, contra a ideia de que só existe a igreja local. O preâmbulo afirmou que as confissões são “apenas guias de interpretação” e não têm autoridade sobre a consciência. Perguntado qual tinha sido o seu serviço mais duradouro, Hobbs apontou a presidência dessa comissão.

Os últimos anos

De 1968 a 1993 preparou a cada trimestre o comentário Studying Adult Life and Work Lessons para os professores de escola dominical, e no total publicou cerca de 150 obras, mais do que qualquer outro autor batista do Sul. Quando, a partir de 1979, começou a disputa sobre a inerrância da Bíblia, ele se descrevia como “conservador progressista”. Em 1980, em St. Louis, sua advertência de que exigir a inerrância seria uma forma de credo foi mal recebida. Em 1981, explicou a frase da confissão sobre a Bíblia ter “a verdade, sem mistura de erro” dizendo que “um Deus da verdade não sopra erro”. De 1985 a 1988 fez parte, sem se alinhar a nenhum lado, da Comissão de Paz que tentou, sem sucesso, reconciliar conservadores e moderados.

Frances morreu antes dele. Hobbs morreu de um ataque cardíaco em Oklahoma City, em 28 de novembro de 1995, aos 88 anos, e o culto fúnebre foi na First Baptist Church que ele pastoreara.

Pensamento

Onde ele fica

Classe: simpatizante. Hobbs se apresentava simplesmente como batista do Sul e, numa carta a Garrett em 1989, disse que a sua teologia era a da maioria dos pastores da convenção. Na doutrina da perseverança ficou do lado oposto ao dos arminianos. Nos outros quatro pontos da controvérsia de Dort, afastou-se do calvinismo. O teólogo batista James Leo Garrett chamou a doutrina da eleição de Hobbs de posição “essencialmente arminiana” e o descreveu como calvinista de um ponto só. David Dockery, que o conheceu de perto, escreveu que com Hobbs os batistas do Sul passaram de um calvinismo moderado, o de Mullins e de W. T. Conner, para uma compreensão arminiana modificada da salvação, mais próxima dos batistas gerais do século XVII do que do calvinista James P. Boyce. Eric Hankins, um dos teólogos da corrente batista hoje chamada “tradicional” ou provisionista, põe Hobbs entre os antecessores dela, ao lado de Mullins, Criswell e Adrian Rogers, e Leighton Flowers o recomenda com Fisher Humphreys e Bert Dominy.

A eleição de um plano e de um povo

O centro da soteriologia de Hobbs é a leitura de Efésios 1. Num artigo de 1995 no Oklahoma Baptist Messenger, ele resumiu o argumento de uma vida: “Deus elegeu um plano de salvação (Ef 1-2) e um povo para propagar esse plano” (Ef 3-6), e as pessoas podem aceitar ou rejeitar os dois. Em Efésios 1:4, a expressão “em Cristo” mostra onde a escolha acontece. O verbo de Efésios 1:5, proorizō, quer dizer “marcar o limite de antemão”, e Hobbs explicava com a imagem de uma cerca em volta de um terreno: “A cerca é Cristo”. No comentário à confissão de 1963, escreveu que Deus “elegeu que todos os que estão ‘em Cristo’ sejam salvos”. Em 1995 foi mais curto: “Os crentes são os eleitos”. É a mesma leitura que o site chama de eleição condicional em Cristo, e foi apoiado em Hobbs que Frank Page escreveu, em 2000, que Deus predestinou o “como” da redenção, e não o “quem”.

Essa eleição tem um alvo missionário. A eleição é “tanto para a salvação quanto para a evangelização” (What Baptists Believe, 1964), e Deus elege para salvar “não poucos, mas tantos quanto for possível” (1978). Por isso, dizia, o hipercalvinismo “não oferece incentivo algum para a evangelização e as missões”.

Presciência e liberdade

No comentário de 1971, Hobbs escreveu que a presciência dos acontecimentos “não significa necessariamente” que Deus os tenha predeterminado: Deus conhece de antemão as escolhas humanas, mas não as fixa, e o ser humano é livre para escolher e responde pelo que escolhe. Em Fundamentals of Our Faith (1960) e em What Baptists Believe (1964) explicou que Deus limitou a si mesmo para não atropelar a liberdade da criatura, e que esse limite é sinal de poder, e não de fraqueza. A razão está na pessoa humana: violar o livre-arbítrio, escreveu em 1995, faria do homem “menos que uma pessoa, apenas um fantoche pendurado no fio do destino”.

Aqui está a maior distância entre Hobbs e o arminianismo clássico. A confissão de 1925 dizia que os descendentes de Adão herdam “uma natureza corrompida e escrava do pecado”; o texto de 1963, revisado sob Hobbs, diz que herdam “uma natureza e um ambiente inclinados ao pecado” e se tornam transgressores quando são capazes de agir moralmente. Jacó Armínio, na Declaração de Sentimentos, afirmou com mais força a incapacidade do homem caído e pôs no começo da salvação a graça preveniente, que vem antes de qualquer resposta e liberta a vontade. Hobbs não usa esse termo, mas afirma a necessidade da graça: a mesma confissão de 1963 diz que “só a graça de Deus” pode trazer o ser humano à comunhão com ele, e o comentário de 1971 ensina que o Espírito Santo convence o perdido do pecado e o capacita a se voltar para Cristo pela fé. A fé, para ele, é crer no que está escrito sobre Cristo, confiar nele e na sua obra e entregar-se a ele.

Cruz, salvação e segurança

Hobbs defendeu a expiação substitutiva: “Pela morte do Filho de Deus, e por nada menos”, escreveu em Who Is This? (1952), um Deus justo pode justificar o pecador. Cristo morreu por todos, e o chamado à salvação é universal.

A salvação, explicava, tem três tempos. Na regeneração somos salvos da pena do pecado, na santificação do seu poder e na glorificação da sua presença, e por isso o crente pode dizer: “Fui salvo, estou sendo salvo, serei salvo”. A santificação, para Hobbs, começa como uma separação instantânea para o serviço de Deus, e o crente cresce dentro dela; a presença do Espírito é sinal da regeneração, e não de uma “segunda bênção”. Nisso ele se afasta da declaração de fé do site, que afirma a inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração.

O ponto em que Hobbs deixou os arminianos foi a perseverança. À pergunta se quem foi salvo pode se perder, respondeu em Fundamentals of Our Faith: “A resposta trovejante da Escritura é: Não!”. Leu as advertências de Hebreus como alerta contra um crescimento cristão interrompido, e não contra a apostasia. O site entende a perseverança como condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a apostasia é possível.

A competência da alma

A ideia batista que Hobbs mais prezava veio de Mullins: a competência da alma em matéria de religião, isto é, a responsabilidade de cada pessoa de responder diretamente a Deus. Em You Are Chosen (1990) ligou essa ideia ao sacerdócio de todos os crentes. Daí vinha a desconfiança dele em relação aos credos e a frase de que os batistas têm “uma fé viva, e não uma fé de credo”. Garrett respondeu que o contrário de fé viva é fé morta, e não fé confessional.

Na escatologia, Hobbs passou de um pré-milenismo sem programa definido para o amilenismo, que defendeu em The Cosmic Drama (1971): os mil anos de Apocalipse 20 vão da ressurreição ou ascensão de Jesus até a sua volta. É a mesma posição da declaração de fé do site.

Obras principais

  • Who Is This? (1952)
  • Studies in Hebrews (1954)
  • Fundamentals of Our Faith (1960)
  • What Baptists Believe (1964)
  • Studying Adult Life and Work Lessons (trimestral, 1968-1993)
  • The Baptist Faith and Message (1971)
  • The Cosmic Drama: An Exposition of the Book of Revelation (1971)
  • A Layman’s Handbook of Christian Doctrine (1974)
  • The Axioms of Religion, revisão do livro de E. Y. Mullins (1978)
  • You Are Chosen: The Priesthood of All Believers (1990)
  • My Faith and Message, autobiografia (1993)
  • God’s Sovereignty and Man’s Free Will, artigo no Oklahoma Baptist Messenger (1995)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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