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Herbert McGonigle: O nazareno irlandês que estudou o arminianismo de Wesley
Neste texto
- Vida
- Da Irlanda do Norte para Manchester
- A Wesley Fellowship
- O doutorado e a direção do colégio
- O Manchester Wesley Research Centre
- Pregador e escritor
- Pensamento
- De onde veio o arminianismo de Wesley
- A graça preveniente
- As controvérsias com os calvinistas
- Santidade e avivamento
- Obras principais
- Para aprofundar
Em maio de 1996, a seção de perguntas dos Proceedings of the Wesley Historical Society, a revista dos historiadores do metodismo britânico, trouxe uma nota curta assinada por Herbert McGonigle. Muitas peças de cerâmica metodista do fim do século 18 e do começo do 19 mostram John Wesley cercado por quinze dos seus pregadores, cada um num pequeno medalhão. McGonigle queria saber por que justamente aqueles quinze. A pergunta vinha de um colecionador. Ao longo da carreira ele juntou quase trezentas peças de louça, bustos, pratos, xícaras e bules com a imagem de Wesley e dos primeiros metodistas, a mais antiga delas um busto da década de 1790. O mesmo homem passou décadas lendo os sermões, as cartas e as controvérsias de Wesley, e escreveu o estudo de referência sobre o arminianismo do fundador do metodismo.
Vida
Da Irlanda do Norte para Manchester
Herbert Boyd McGonigle nasceu no condado de Fermanagh, na Irlanda do Norte, e se tornou pastor da Igreja do Nazareno, a denominação de santidade nascida do metodismo americano no começo do século 20. A maior parte da sua vida de trabalho se passou no colégio teológico da denominação nas Ilhas Britânicas. A escola tinha começado em 1943 perto de Glasgow, como Hurlet Nazarene College, mudou-se em 1958 para a região de Manchester, passou a se chamar Nazarene Theological College em 1990 e se associou à Universidade de Manchester em 1992.
McGonigle lecionou ali por vinte e seis anos. Deu aulas de história da Igreja, de teologia e de outras matérias, mas a sua preferência sempre foi o estudo de Wesley. Chegou a professor sênior de Teologia Histórica, História da Igreja e Estudos Wesleyanos. Em 1973 publicou no Wesleyan Theological Journal um artigo sobre o vocabulário que os primeiros metodistas usavam para falar da obra do Espírito Santo, “Pneumatological Nomenclature in Early Methodism”.
A Wesley Fellowship
Em 1983, McGonigle e o pastor William Parkes começaram uma série de conversas sobre as ênfases de Wesley: a graça oferecida a todos, a justificação pela fé, o testemunho do Espírito e aquilo que Wesley chamava tantas vezes de “santidade bíblica”. Dessas conversas nasceu a Wesley Fellowship, que McGonigle fundou com Parkes e presidiu por muitos anos. A Fellowship se reunia para ouvir estudos e publicava um por ano como Occasional Paper. O primeiro, em 1985, foi Love Excluding Sin, de Arthur Skevington Wood. O terceiro, em 1988, foi do próprio McGonigle: The Arminianism of John Wesley, um livreto de 36 páginas que já continha o plano do seu trabalho maior. Ele começava por Jacó Armínio, seguia o arminianismo na Inglaterra e terminava nas batalhas de Wesley e de John Fletcher contra o calvinismo.
O doutorado e a direção do colégio
O tema do livreto cresceu até virar tese. Em 1994 McGonigle obteve o doutorado na Universidade de Keele, na Inglaterra, com John Wesley: Evangelical Arminian. No ano seguinte a Wesley Fellowship publicou John Wesley’s Doctrine of Prevenient Grace, de 31 páginas, sobre a graça preveniente, a graça de Deus que vem antes de qualquer movimento humano em direção a ele.
Nos anos 1990 e no começo dos anos 2000, McGonigle dirigiu o Nazarene Theological College como principal. Em 2001 a tese saiu em livro pela Paternoster, na coleção Studies in Evangelical History and Thought: Sufficient Saving Grace: John Wesley’s Evangelical Arminianism, com 350 páginas e prefácio do historiador John Walsh. Em 2002 McGonigle deu as Didsbury Lectures, a série anual de conferências do colégio inaugurada por F. F. Bruce em 1979, e escolheu Wesley como tema.
O Manchester Wesley Research Centre
Em 18 de junho de 2003, num culto no Nazarene Theological College, foi inaugurado o Manchester Wesley Research Centre. A cerimônia encerrou a conferência internacional “John Wesley: Life, Legend & Legacy”, organizada pela Universidade de Manchester. McGonigle assinou a carta de fundação como diretor do colégio, ao lado de representantes da John Rylands University Library, da Wesley Historical Society, da Igreja Metodista da Grã-Bretanha e da Igreja do Nazareno. Ele foi o primeiro diretor do centro, de 2003 a 2010, e depois diretor emérito.
Nesses anos orientou doutorandos que levaram adiante os estudos wesleyanos. John Dolan escreveu sobre os metodistas independentes (2004). Gregory Crofford estudou a graça preveniente na teologia de John e Charles Wesley (2008). Karl Ganske examinou como Wesley escolheu e editou os puritanos para a sua Christian Library (2009).
Em 2004 a Wesley Historical Society o convidou para dar a sua conferência anual, presidida por John Newton, e ele falou sobre William Bramwell, o maior avivalista dos metodistas wesleyanos depois da morte de Wesley. No ano seguinte, John e Jill Bowling compraram a sua coleção de cerâmica e a doaram à Olivet Nazarene University, nos Estados Unidos. São 283 peças feitas na Inglaterra para uso doméstico, muitas delas ligadas aos metodistas primitivos.
Pregador e escritor
McGonigle nunca separou o estudo da pregação. Na capela do Asbury Theological Seminary, no Kentucky, falou sobre a defesa que Wesley fez do pecado original. Em mensagens sobre Romanos 7:18 a 8:4, ligou o retrato do pecado universal em Romanos à justificação pela fé. Escreveu também para leitores comuns: em 2007, ano do tricentenário de Charles Wesley, publicou na revista nazarena Holiness Today um artigo sobre os hinos do irmão de John.
Com os anos, juntou uma série de pequenas biografias de pregadores e líderes evangélicos britânicos: Samuel Chadwick, William Booth, Gideon Ouseley, Thomas Walsh, Francis William Crossley e Alexander Maclaren. No total, passou de setenta livros e artigos.
Em 5 de fevereiro de 2017 morreu Jeanne, a esposa com quem foi casado por mais de 55 anos. Naquele ano saiu John Wesley on the Great Salvation, de 81 páginas, dedicado a ela, com prefácio de Karl Stanfield, pastor da igreja de Brooklands, em Manchester, e pastor do casal havia anos. Também em 2017 o Manchester Wesley Research Centre produziu o vídeo Emeritus: The Life & Work of Dr. Herbert McGonigle.
Pensamento
McGonigle é um teólogo wesleyano, da tradição de santidade da Igreja do Nazareno, e o título da sua obra principal diz qual arminianismo ele defendeu: o “arminianismo evangélico” de John Wesley. A expressão marca uma fronteira, como lembrou Thomas Noble ao resenhar o livro. O rótulo “arminiano” foi usado, ao longo dos séculos, por gente que se afastou de Armínio e de Wesley rumo ao pelagianismo, ao semipelagianismo, ao socinianismo e ao liberalismo. O arminianismo que McGonigle descreve fica do lado oposto: afirma o pecado original e a incapacidade humana, põe a salvação inteira na graça e concorda com os reformadores sobre a justificação pela fé e a expiação.
De onde veio o arminianismo de Wesley
A pergunta de Sufficient Saving Grace é simples: onde Wesley foi buscar o seu arminianismo? A resposta de McGonigle é que ele o herdou dos pais, na casa paroquial de Epworth, e de uma tradição inglesa mais antiga que o próprio Armínio. O livro chama o jovem Wesley de “arminiano de Epworth”. O arminianismo inglês nasceu na década de 1590, com críticos do calvinismo em Cambridge, sem depender dos holandeses, e no fim do século 17 já era a posição dominante entre os anglicanos. A leitura dos autores anglicanos da “vida santa”, como Jeremy Taylor, reforçou em Wesley essa rejeição da predestinação.
O livro trouxe duas descobertas. A primeira resolve uma dúvida antiga dos estudiosos, a de saber se Wesley tinha lido Armínio: em 1731 ele leu longos trechos de Armínio, em latim, reproduzidos num manual de Thomas Bennet sobre os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra. A segunda mostra a origem da definição de pecado que Wesley tornou famosa, a “transgressão voluntária de uma lei conhecida”: ela vem de An Enquiry after Happiness, de Richard Lucas, que Wesley lia por volta de 1730. Com isso, a linha que vai de Armínio a Wesley ganhou prova documental.
A graça preveniente
O centro do argumento é a graça preveniente. Randy Maddox, ao listar as teses sobre Wesley da década de 1990, resumiu assim a meta da obra: mostrar que a doutrina de uma graça sobrenatural dada a todas as pessoas permitiu a Wesley manter uma doutrina do pecado original quase agostiniana e, ao mesmo tempo, rejeitar a capacidade natural ensinada pelo pelagianismo e a eleição incondicional do calvinismo.
McGonigle acompanha esse caminho nas controvérsias. Na primeira, de 1739 a 1745, aberta em Bristol quando Wesley começou a pregar ao ar livre a pedido de George Whitefield, Wesley chegou “à beira do calvinismo”: negava todo livre-arbítrio natural, para que a salvação fosse inteiramente da graça, e reagia contra o antinomianismo, a ideia de que o crente está dispensado da lei moral, e contra a dupla predestinação. Quando a disputa voltou, em 1751, Wesley desenvolveu a doutrina de que “uma medida de livre-arbítrio foi restaurada sobrenaturalmente a todo homem” (Sufficient Saving Grace, p. 192-193).
No livreto de 1995 McGonigle mostra que Wesley lutava em duas frentes. Contra os deístas e contra John Taylor, que negava a culpa herdada de Adão, ele defendia o pecado original e a incapacidade humana. Contra a predestinação calvinista, defendia que a graça alcança todos. A solução estava na graça preveniente: o ser humano tem livre-arbítrio diante de Deus, mas esse arbítrio não é natural, é um dom sobrenatural dado a toda a humanidade. Por isso todos podem receber ou recusar a salvação, e Deus não pode ser acusado de injustiça quando o dom é recusado. A declaração de fé deste site afirma o mesmo sobre a graça que vem antes e sobre o pecado original.
As controvérsias com os calvinistas
Apesar das diferenças sobre a predestinação, Wesley se via unido aos calvinistas na doutrina evangélica da Reforma, sobretudo na justificação pela fé, e dizia não haver “um fio de cabelo” de diferença entre ele e Calvino nesse ponto. O livro segue as disputas posteriores: em 1765, Wesley criticou o uso que se fazia da imputação da justiça de Cristo nos escritos póstumos do seu velho amigo James Hervey, por temer que servisse de capa ao antinomianismo; depois da morte de Whitefield, em 1770, a guerra passou para a geração seguinte, com Fletcher e Joseph Benson do lado arminiano e Augustus Toplady e Richard Hill do lado calvinista. McGonigle expõe o caso calvinista com justiça, reconhece que as Atas da Conferência de 1770 foram redigidas com descuido e que a exegese de algumas passagens não favorece Wesley em tudo. O último capítulo mostra que o arminianismo de Wesley não era um apêndice, mas uma parte da sua teologia inteira, ligada à doutrina da perfeição cristã.
Thomas A. Noble, na revista Themelios, chamou o livro de obra maior dos estudos wesleyanos e previu que ele ficaria como o estudo definitivo do tema. Henry Rack, autor de uma das principais biografias de Wesley, considerou-o o relato mais completo e claro da disputa até então, embora achasse que Wesley foi além de Armínio na doutrina da perfeição.
Santidade e avivamento
A outra metade do pensamento de McGonigle é a santidade. No artigo de 2007 sobre Charles Wesley, ele lembra que os hinos de Charles ensinaram a doutrina bíblica a convertidos que não sabiam ler, e resume a inteira santificação numa frase: santidade quer dizer que o nosso coração é “purificado do pecado interior e cheio do amor de Deus” (Holiness Today, 2007). Essa purificação é dom: Deus a concede ao seu povo quando vem na plenitude do seu Espírito e lhe comunica a sua própria natureza santa.
O estudo sobre William Bramwell (2004) mostra como ele fazia história com convicção e sem hagiografia. McGonigle descreve o avivamento de Dewsbury, em 1792, como um “avivamento de santidade”: Bramwell e a evangelista Ann Cutler oraram de madrugada durante meses, a pregação insistia no novo nascimento e na inteira santificação, e Bramwell passou a crer que a busca da santidade pelos crentes era condição para o avivamento em toda parte. McGonigle também não esconde as falhas do biografado. Na crise aberta por Alexander Kilham em 1797, Bramwell tinha prometido apoio aos reformadores e recuou na última hora: “perdeu a coragem”, conclui McGonigle (“William Bramwell: A Re-appraisal”, 2004).
Os temas que ele escolheu ao longo da vida formam um conjunto coerente com o próprio Wesley: a graça que alcança todos, a justificação pela fé, o testemunho do Espírito e a santidade de coração e de vida. Nesses pontos ele coincide com a declaração de fé deste site, inclusive na inteira santificação recebida pela fé. O que o distingue é o gênero. McGonigle foi antes de tudo historiador, e a sua defesa do arminianismo se faz pela reconstrução paciente do que Wesley leu, pregou e discutiu.
Obras principais
- “Pneumatological Nomenclature in Early Methodism”, Wesleyan Theological Journal 8 (1973)
- The Arminianism of John Wesley (Wesley Fellowship, 1988)
- John Wesley: Evangelical Arminian (tese de doutorado, Universidade de Keele, 1994)
- John Wesley’s Doctrine of Prevenient Grace (Wesley Fellowship, 1995)
- Sufficient Saving Grace: John Wesley’s Evangelical Arminianism (Paternoster, 2001)
- Didsbury Lectures 2002: John Wesley (Nazarene Theological College, 2002)
- “William Bramwell: A Re-appraisal”, Proceedings of the Wesley Historical Society 54 (2004)
- “Charles Wesley: Orpheus to the Christian Church”, Holiness Today (2007)
- Christianity or Deism? (Wesley Fellowship, 2012)
- John Wesley on the Great Salvation (2017)
Para aprofundar
- “Dr Herbert McGonigle”, página do Manchester Wesley Research Centre, com a carreira, os orientandos e o vídeo Emeritus (2017).
- “History”, Manchester Wesley Research Centre, sobre a inauguração de 2003 e os signatários da carta de fundação.
- Páginas do Manchester Wesley Research Centre sobre os orientandos John Dolan, Greg Crofford e Karl Ganske.
- Thomas A. Noble, resenha de Sufficient Saving Grace, Themelios 31, n. 1.
- Randy L. Maddox, “A Decade of Dissertations in Wesley Studies: 1991-2000”, Wesleyan Theological Journal 37, n. 2 (2002).
- Henry D. Rack, resenha de The Arminianism of John Wesley, Proceedings of the Wesley Historical Society 47, n. 2 (maio de 1989).
- Henry D. Rack, resenha de John Wesley’s Doctrine of Prevenient Grace, Proceedings of the Wesley Historical Society 51, n. 2 (maio de 1997).
- Henry D. Rack, resenha de Sufficient Saving Grace, Proceedings of the Wesley Historical Society 54, n. 4 (fevereiro de 2004).
- Herbert McGonigle, “William Bramwell: A Re-appraisal”, Proceedings of the Wesley Historical Society 54 (outubro de 2004).
- Herbert McGonigle, nota “Preachers on Methodist pottery”, Proceedings of the Wesley Historical Society 50 (maio de 1996).
- Herbert McGonigle, “Charles Wesley: Orpheus to the Christian Church”, Holiness Today.
- “Digital Humanities Opens New Windows on Holiness History at Olivet”, Olivet Nazarene University, sobre a coleção McGonigle.
- Together, verão de 2017, boletim da Igreja do Nazareno nas Ilhas Britânicas, sobre John Wesley on the Great Salvation.
- Jean Cameron Whiteford, A Holiness Church in Scotland: The Origins and Development of the Church of the Nazarene 1906 to 1950, dissertação de mestrado, Universidade de Glasgow, com a história do colégio nazareno britânico.
- “John Wesley’s defense of the doctrine of original sin”, gravação da palestra na capela do Asbury Theological Seminary.
- Sermões de Herbert McGonigle, SermonIndex.
- “Nazarene Theological College, Manchester”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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