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HistóriaTeólogos arminianos1 de 215

Gregory Crofford: O missionário nazareno que estudou a graça preveniente dos Wesley

Diego Gonçalves12 min de leitura2.471 palavras

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Neste texto

No século 18, John Wesley reuniu numa coleção de cinquenta volumes, a Christian Library, trechos dos autores puritanos e anglicanos que ele queria pôr nas mãos dos seus pregadores. Um dos sermões escolhidos era de Samuel Annesley, o avô materno de Wesley, e falava da consciência. Duzentos e cinquenta anos depois, um missionário nazareno que fazia doutorado em Manchester comparou o texto de Wesley com o sermão original de Annesley e achou uma pequena intromissão do editor. No trecho em que o avô tratava da obra da consciência, o neto acrescentou: “ou antes, a graça preveniente”. Com essas palavras, Wesley tirava a consciência da conta da natureza e a punha na conta da graça de Deus. O missionário era J. Gregory Crofford, e a sua tese sobre a graça preveniente em John e Charles Wesley se tornou referência no estudo do assunto.

Vida

Formação e pastorado no Missouri

Gregory Crofford se formou em religião no Eastern Nazarene College, em Quincy, no Massachusetts, em 1985. Seguiu para o Nazarene Theological Seminary, em Kansas City, o seminário da Igreja do Nazareno, onde concluiu em 1989 o mestrado em Divindade, com ênfase em missiologia e distinção cum laude. Nesse tempo foi ministro de música da Igreja do Nazareno de Grandview, no Missouri.

O primeiro pastorado foi na Igreja do Nazareno de Sedalia, também no Missouri, onde ficou até 1993. Em agosto de 1991 foi ordenado presbítero da Igreja do Nazareno. Em 1992 publicou na Preacher’s Magazine o artigo “Divine Healing: The Lost Estate?”, sobre a cura divina, tema que voltaria a ocupar o seu trabalho na África.

Costa do Marfim, Benin e Togo

Crofford e a esposa, Amy, começaram o serviço missionário em Abidjã, na Costa do Marfim, em 1994. Foram vinte e três anos de missão, em quatro países africanos e no Haiti. De 1994 a 2001 ele coordenou a educação teológica do campo da África Ocidental.

Em janeiro de 1999 a família se mudou para o Benin, que a Igreja do Nazareno tratava então como área pioneira. Até junho de 2003 Crofford foi superintendente distrital no Benin e acompanhou a formação de novas congregações ali e no vizinho Togo.

Manchester e a tese

O doutorado foi feito no Nazarene Theological College, associado à Universidade de Manchester, na Inglaterra. Crofford obteve ali o mestrado em teologia em 2005 e o doutorado em teologia histórica em 2008, sob a orientação de Herbert McGonigle. A tese se chamou Streams of Mercy: Prevenient Grace in the Theology of John and Charles Wesley (“Correntes de misericórdia: a graça preveniente na teologia de John e Charles Wesley”). A tese saiu em livro pela Emeth Press em 2010.

Entre uma etapa e outra, os Crofford serviram no Haiti, onde ele dirigiu o Seminário Teológico Nazareno do Haiti e coordenou a educação por extensão. A agitação política no país obrigou a família a sair antes do fim do mandato.

Educação teológica para a África

De 2009 a 2013 Crofford dirigiu o Instituto Teológico Nazareno, um programa de educação a distância que formava pastores e líderes leigos nos campos da África Central e Ocidental. Em outubro de 2012 foi nomeado coordenador regional de educação da Igreja do Nazareno na África, à frente da associação que reúne as escolas nazarenas do continente. Nesse período escreveu para a revista Didache o artigo “Christus Victor: A Wesleyan Appraisal of Sub-Saharan Power Christology” (2012), uma avaliação wesleyana das cristologias do poder na África ao sul do Saara. Com o pastor Mashangu Maluleka escreveu “Let Them Call for the Elders of the Church”, sobre a cura divina na Igreja do Nazareno da África do Sul, apresentado na Terceira Conferência Teológica Global, em Joanesburgo (2014). Escreveu ainda seis verbetes do Global Wesleyan Dictionary of Theology (2013), entre eles os de pecado e graça preveniente.

Em 2019 deixou a coordenação de educação e desenvolvimento do clero da Região África para lecionar na Africa Nazarene University, em Nairóbi, no Quênia. Ao anunciar a troca, o diretor regional Filimão Chambo destacou o empenho dele em formar escritores e pensadores críticos e em levar os estudiosos africanos a participar da conversa teológica mundial. Na universidade, Crofford foi decano da Escola de Religião e Ministério Cristão e coordenador do doutorado em religião.

A capelania

Depois da missão, Crofford voltou aos Estados Unidos e mudou de ofício sem deixar o ministério. Fez um ano de residência em capelania nos hospitais Ascension Seton, em Austin, no Texas, e passou a trabalhar como capelão de hospice, o cuidado de pacientes em fim de vida, em três estados. Hoje serve no norte da Virgínia. Continua presbítero ordenado da Igreja do Nazareno e membro da Wesleyan Theological Society, a sociedade acadêmica dos teólogos wesleyanos e de santidade. Mantém um blog de teologia com o lema “Ame a Deus, ame os outros; o resto é comentário”.

Pensamento

Um wesleyano de santidade

Crofford pertence à tradição wesleyana, no ramo da santidade representado pela Igreja do Nazareno. Ele mesmo se descreve como wesleyano-arminiano. No texto “Three Wesleyan Reasons Why We Send Missionaries” (2012) rejeita a ideia calvinista de que Cristo morreu só pelos eleitos e de que Deus os salva de modo irresistível, e afirma a expiação universal com a necessidade de uma resposta de arrependimento e fé, possibilitada pela graça. A frase dele é curta: “A salvação é possível, mas não é automática”.

As fontes inglesas da graça preveniente

A graça preveniente é a graça de Deus que vem antes de qualquer movimento humano em direção a ele: ilumina, desperta a consciência, convence do pecado e liberta a vontade o bastante para que a pessoa possa crer. Streams of Mercy fez quatro contribuições ao estudo do tema. Primeiro, ampliou a lista dos autores ingleses em que Wesley encontrou a ideia. O estudo anterior, de Charles Rogers (Duke, 1967), já apontava Richard Hooker, Gilbert Burnet, John Pearson e o próprio Annesley. Crofford acrescentou Robert South, Edward Reynolds, Stephen Charnock, John Smith, John Preston, Isaac Ambrose, John Tillotson, Richard Sibbes, Robert Bolton, Richard Lucas, Jeremy Taylor e o quacre Robert Barclay. Esses autores raramente usavam a expressão “graça preveniente”, mas falavam o tempo todo de aspectos dela.

A ligação com Barclay é a parte mais original. O quacre escocês falava da “luz de Cristo” a partir de João 1:9, a luz verdadeira “que ilumina a todo homem”. Crofford ligou essa luz de Barclay à doutrina de Wesley sobre a graça dada a todas as pessoas, e João 1:9 se tornou um dos textos centrais do tema na tradição wesleyana.

Crofford também lembrou o lugar da liturgia. O Livro de Oração Comum de 1662, que os Wesley rezavam desde a infância em Epworth, fala da “graça preveniente” em várias coletas, como a do Domingo de Páscoa, e no artigo X dos Trinta e Nove Artigos, “Do livre-arbítrio”. Para ele, fiéis tão assíduos à liturgia quanto John e Charles Wesley “teriam, pela força da repetição, incorporado sem perceber essa linguagem à sua visão teológica” (Streams of Mercy, p. 24).

Charles Wesley e o caminho depois de Wesley

A segunda contribuição foi a primeira análise detalhada da doutrina na edição crítica bicentenária das obras de John Wesley. A terceira, a primeira análise da graça preveniente nos hinos de Charles Wesley. Crofford voltou a eles no artigo “Grace to All Did Freely Move” (Wesley and Methodist Studies, 2014), sobre os Hinos sobre o amor eterno de Deus de 1741 e 1742, os cânticos que Charles escreveu contra a predestinação incondicional. Na mesma linha, estudou em “From Justification to Fall from Grace” (Proceedings of the Charles Wesley Society, 2017) a teologia de Charles sobre o desvio do crente, o caminho que vai da justificação à queda da graça. Para os dois irmãos, a perseverança é condicional: quem está em Cristo pela fé está seguro, mas pode abandonar a fé.

A quarta contribuição é a que mais interessa a quem estuda o arminianismo. Crofford seguiu a doutrina nos teólogos metodistas posteriores e encontrou um desvio. Em Richard Watson, John Miley e A. M. Hills, escreveu ele, “a graça preveniente, quando aparece, parece um acréscimo de última hora; a ênfase recai sobre a livre agência moral, e não sobre a incapacidade humana de responder a Deus sem a graça” (Streams of Mercy, p. 236). A crítica toca o centro da questão. Em Wesley, a vontade humana só se move para Deus porque a graça a libertou; quando o livre-arbítrio passa a ser tratado como um poder natural, a teologia perde a primazia da graça que Wesley herdou de Armínio. Crofford fechou a tese com uma frase de H. Ray Dunning: para Wesley, a graça preveniente era “uma categoria teológica criada para captar um tema bíblico central”. O site trata o assunto em A graça preveniente: a graça que vem antes.

Ele também ligou a graça preveniente à parábola dos talentos (Mateus 25): os dons que Deus dá a todos são graça, e o ser humano responde por eles.

Graça preveniente e missão

Para Crofford, a doutrina tem consequência prática: ela explica por que se mandam missionários. Em 2012 ele a descreveu como “a luz suave, mas persistente, de Cristo que brilha nas nossas trevas”. O exemplo é Cornélio, em Atos 10: um homem que seguiu a luz que tinha e recebeu mais. A graça preveniente prepara o terreno, mas não substitui o evangelho; o missionário vai pregar Cristo a corações em que o Espírito já está agindo. A primeira razão da missão, porém, está no caráter de Deus, amoroso e santo ao mesmo tempo, que perdoa e também transforma.

Santidade de coração e de vida

Como nazareno, Crofford defende a santificação inteira, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor a Deus e ao próximo (1 Tessalonicenses 5:23-24). Ao resenhar em 2015 a tese de David Stark sobre a perfeição cristã em Wesley, lembrou que Wesley nunca usou a expressão “perfeição sem pecado” e distinguia as enfermidades, como os erros honestos, do pecado propriamente dito. Também aprovou a ideia de que essa graça pode ser perdida, o que impede a atitude de quem acha que “chegou” e mantém o crente em exame de si mesmo.

Pela mesma razão, ele pediu que se aposentasse o bordão “sou apenas um pecador salvo pela graça”. A frase é verdadeira, mas muita gente para nas primeiras palavras, como quem recebe o perdão e acampa no sopé do monte em vez de subir para a santidade. Em 2020, escrevendo sobre santidade e justiça racial, lembrou que 1 Tessalonicenses foi escrita a uma igreja inteira e que “o pecado não é só individual; o pecado pode ser sistêmico”. A santidade, para ele, tem dimensão social, como Wesley ensinava.

A igreja que respira

Em Mere Ecclesiology (2016), escrito para leigos e pastores, Crofford descreve a missão da igreja com a imagem da respiração. A igreja “inspira” no culto e no discipulado, quando recebe de Deus a vida, e “expira” no serviço que transforma o mundo, quando o Espírito a envia para curar famílias, comunidades e a criação. O livro foi pensado para ajudar cada crente, novo ou antigo, a achar o seu lugar nessa missão.

Onde ele se afasta do arminianismo clássico

Em dois pontos Crofford vai além do que o arminianismo clássico e a declaração de fé deste site afirmam. O primeiro é o inferno. Em The Dark Side of Destiny (2013), com prefácio de Edward Fudge, ele defende a imortalidade condicional, a ideia de que a vida eterna é dom dado só aos salvos e de que os ímpios, depois do juízo, serão destruídos de vez, em vez de sofrer para sempre. Voltou ao tema em 2020, num artigo do Wesleyan Theological Journal sobre o metodista Joseph Agar Beet e o próprio Fudge. A declaração de fé do site afirma o castigo eterno dos ímpios, e o assunto é tratado no capítulo A doutrina das últimas coisas.

O segundo é a presciência. Em 2011, ao resenhar God of the Possible, de Gregory Boyd, Crofford achou que os argumentos do teísmo aberto combinam com o pensamento wesleyano-arminiano e que a experiência cristã aponta para um futuro “ao menos em parte aberto”. Armínio e Wesley afirmaram que Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, e o site rejeita o teísmo aberto, como explica o estudo sobre presciência, eleição e predestinação. Nos dois casos, a doutrina da graça de Crofford continua a mesma de Wesley.

Obras principais

  • Streams of Mercy: Prevenient Grace in the Theology of John and Charles Wesley (Emeth Press, 2010), a partir da tese de doutorado de 2008.
  • The Dark Side of Destiny: Hell Re-Examined (Wipf & Stock, 2013).
  • “Grace to All Did Freely Move”, Wesley and Methodist Studies 6 (2014).
  • 30 Minutes avec Dieu (Africa Nazarene Publications), devocional diário em francês.
  • Mere Ecclesiology: Finding Your Place in the Church’s Mission (Wipf & Stock, 2016), com prefácio de Jo Anne Lyon.
  • “From Justification to Fall from Grace: Charles Wesley’s Theology of Backsliding”, Proceedings of the Charles Wesley Society 21 (2017).
  • “Immortal Soul, Eternal Punishment? The Dissent of Joseph Agar Beet and Edward William Fudge”, Wesleyan Theological Journal 55, n. 1 (2020).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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