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Jabez Bunting: O pregador que transformou a sociedade de Wesley em igreja
Em Monyash, aldeia do Peak de Derbyshire, uma moça metodista chamada Mary Redfern ouviu um dos primeiros pregadores que John Wesley mandou para a América pregar sobre 1 Crônicas 4:9: “Jabez foi mais ilustre do que seus irmãos”. Anos depois, casada com um alfaiate e morando em Manchester, ela deu ao filho o nome do texto. Esse menino ia com a mãe às festas de amor da sociedade metodista, reuniões reservadas aos membros com bilhete, até que um novo superintendente, Alexander Mather, barrou o adolescente na porta. A humilhação o levou à decisão por Cristo. Mais tarde ele resumiria a história assim: “Muitos atribuem a sua conversão a terem participado de uma festa de amor. Eu atribuo a minha a ter sido barrado de uma”. O rapaz barrado presidiu quatro vezes a Conferência Metodista e foi, na primeira metade do século XIX, o homem mais influente do metodismo depois de Wesley. Chamava-se Jabez Bunting.
Vida
Manchester e a casa do doutor Percival
Jabez Bunting nasceu em Newton Lane, Manchester, em 13 de maio de 1779. O pai, William Bunting, alfaiate de Monyash de saúde fraca, era metodista como a mulher. Pobre, ele pôs o filho na melhor escola diurna de Manchester. Ali Jabez fez amizade com o filho do médico Thomas Percival, fundador da Sociedade Literária e Filosófica de Manchester, presbiteriano de crença ariana. Terminada a escola, Percival recebeu o filho do alfaiate em casa por quatro anos como aluno de medicina e secretário, sem cobrar nada, e prometeu ajudá-lo a se formar e a montar clínica na cidade.
A vida espiritual andou em paralelo. Bunting dizia que o despertamento veio pela pregação de Joseph Benson, e a decisão, pelo episódio da festa de amor com Mather. Entrou na sociedade metodista em setembro de 1794, aos quinze anos. Em 1798 assinou como secretário a escala dos líderes de oração de Manchester: 212 leigos que visitavam 64 lugares da cidade e dos arredores. O pai morreu em 1797 sem deixar bens, e o filho de dezoito anos ficou responsável pela mãe e por duas irmãs. Quando se tornou pregador itinerante, passou a mandar à mãe metade do que recebia, e o fez enquanto ela viveu.
Pregador itinerante
Bunting começou a pregar em 12 de agosto de 1798. O sermão de prova como pregador leigo foi numa sala de reuniões de Manchester ligada a um grupo de “revivalistas”. Uma testemunha lembrou o “rapaz magro, de ar tímido” no púlpito, enquanto uma irmã e um irmão insistiam em orar antes dele e um terceiro tentava fazer o mesmo, até que outro membro gritou que já era hora de o moço começar. O amigo James Wood repetia depois que nunca o ouvira pregar tão bem quanto naquele dia. Depois de pesar por escrito as razões a favor e contra, escolheu o ministério e abriu mão da carreira médica.
Em 1799 a Conferência o recebeu em experiência e o mandou para o circuito de Oldham. Numa carta daquele ano ele lamentava faltar ali o que em Manchester chamavam de “espírito do avivamento”: “mais disposição de deixar Deus trabalhar do seu próprio jeito”. Com o colega Gaulter, mantinha um jantar mensal com um ministro calvinista, um independente e um batista para discutir teologia. Os temas em disputa ficavam de fora, explicou, porque “o senhor Gaulter e eu somos arminianos decididíssimos” e não havia perigo de os outros os converterem ao seu credo.
Em 1801 foi para Macclesfield, circuito que cobria parte do Peak e do norte de Cheshire. Ali lhe ofereceram uma grande paróquia anglicana com a promessa de ordenação episcopal, e ele recusou. Nos quatro anos de Oldham e Macclesfield pregou 1.348 sermões. Na Conferência de 1803, reunida em Manchester, na capela de Oldham Street onde a mãe o levava quando criança, foi recebido em plena conexão. À pergunta “Está resolvido a dedicar-se inteiramente a Deus e à sua obra?”, respondeu: “É o que faço habitualmente”. Em 24 de janeiro de 1804 casou-se com Sarah Maclardie, filha do organista da igreja paroquial de Macclesfield, amigo de Wesley.
Londres, Leeds e a subida na Conferência
Mandado a Londres em 1803, morou na casa de Wesley em City Road e dormiu, com alegria de “metodista intolerante”, como brincou, na cama em que Wesley tinha morrido. Depois vieram Manchester (1805), Sheffield (1807), Liverpool (1809), Halifax (1811), Leeds (1813) e de novo Londres (1815). Na Conferência de 1806, em Leeds, foi feito secretário-assistente quase contra a vontade, e esse lugar ao lado do presidente lhe deu conhecimento de todos os negócios da conexão.
Em Leeds, em 1813, com Richard Watson e George Morley, planejou a sociedade missionária do distrito, modelo para as outras e semente da Sociedade Missionária Metodista Wesleyana. Bunting chegou a se oferecer para ir à Índia, mas a Conferência preferiu mantê-lo na Inglaterra. Em 1814 tornou-se secretário da Conferência e membro do “Cem Legal”, o grupo de pregadores que Wesley deixara como corpo jurídico da conexão. Recebeu o grau honorário de mestre da Universidade de Aberdeen em 1818 e o de doutor em teologia da Wesleyan University, nos Estados Unidos, em 1834.
Foi presidente da Conferência em 1820, 1828, 1836 e 1844. Da Conferência de 1820, em Liverpool, saíram as Liverpool Minutes, resoluções sobre a obra pastoral que pediam cuidado das reuniões de classe e catequese, e que serviram de ideal para os ministros wesleyanos por gerações. De 1821 a 1824 foi o editor da conexão. Depois da morte de Watson, em 1833, passou a morar em Londres como secretário principal das missões, e não voltou mais aos circuitos.
O seminário, as cisões e a política
A ideia que o acompanhou desde o começo foi a formação dos pregadores. Os dissidentes acusavam os metodistas de ignorância bíblica, e ele queria ministros instruídos. A Conferência de 1834 aprovou uma Instituição Teológica, aberta em Hoxton em 1835 sob a presidência dele. Samuel Warren, ministro de Manchester, voltou-se contra o projeto e contra a influência de Bunting. Foi expulso em 1835, e os seus partidários se juntaram aos “metodistas protestantes” de Leeds, que haviam saído em 1828 depois da disputa pela instalação de um órgão na capela de Brunswick, defendida por Bunting, para formar a Associação Metodista Wesleyana. Defendendo a autoridade da Conferência em 1827, Bunting disse que o metodismo era tão contrário à democracia quanto ao pecado.
Na política foi conservador e amigo da Igreja estabelecida, mas apoiou a emancipação dos católicos em 1829. Nos anos 1840 combateu a verba do governo ao seminário católico de Maynooth e defendeu escolas diurnas metodistas.
A crise maior veio com as Fly Sheets, panfletos anônimos que circularam a partir de meados dos anos 1840 atacando Bunting e o grupo que dirigia a conexão. Em 11 de agosto de 1849 a Conferência expulsou James Everett, Samuel Dunn e William Griffith, e o movimento de reforma que se seguiu levou uma parte grande dos membros. Em 1857 os reformistas e a Associação de Warren formaram as Igrejas Metodistas Livres Unidas, com cerca de quarenta mil membros. Os críticos chamavam Bunting de “papa do metodismo”. Um defensor respondeu no Christian Times lembrando que aquele homem poderoso vivia de uma casa mobiliada, carvão, velas e 150 libras por ano.
Últimos anos
Sarah morreu em 29 de setembro de 1835, e em 1837 Bunting casou-se com a viúva Martin, nascida Green, de Holcombe. Dos filhos, William Maclardie Bunting (1805-1866) foi ministro wesleyano e autor de hinos, e Thomas Percival Bunting (1811-1886), advogado em Manchester, escreveu a biografia do pai. Nos últimos anos participou dos comitês da Aliança Evangélica, fundada em 1846. Morreu em 16 de junho de 1858, aos 79 anos, em sua casa no número 30 da Myddelton Square, em Londres. Foi enterrado em 22 de junho no cemitério da capela de City Road, junto de Wesley, por licença especial do ministro do Interior, porque o cemitério já estava fechado. No enterro, o pastor congregacional John Leifchild disse que nunca ouvira pregação como a dele, antes ou depois.
Pensamento
Bunting foi um wesleyano, arminiano de convicção declarada. Ele se disse “arminiano decididíssimo” no começo do ministério e, em 1805, assinou como “Um arminiano ortodoxo” uma carta aos editores da Eclectic Review. A revista prometera imparcialidade nos pontos em que os cristãos divergem, mas no primeiro número desafiou os arminianos a responder ao tratado de Jonathan Edwards sobre o livre-arbítrio. Bunting respondeu que esse livro já fora examinado por John Fletcher, contra Augustus Toplady, e pelo próprio Wesley, em Thoughts upon Necessity.
Se por “calvinismo” a revista entendia o grande sistema das verdades evangélicas, ele concordava sem reservas: pecado original e depravação hereditária, “salvação somente pela graça”, justificação pela fé na obediência ativa e passiva de Cristo, regeneração pelo Espírito Santo. Esse sistema, escreveu, era muito caro a ele e a muitos outros “que, no entanto, são chamados arminianos porque cremos na redenção geral, e não na particular”. Isso queria dizer que Cristo morreu por todos de tal modo que todos, por ele, “podem” ser salvos, sem afirmar que todos “serão” ou “devem ser” salvos. E recusava ser posto ao lado de pelagianos, arianos e socinianos, ou de quem negasse “a total miséria do homem por natureza” ou atribuísse a sua recuperação a outra fonte “que não a graça livre e imerecida de Deus em Cristo”. Discordava do determinismo de Edwards e concordava “cordialmente” com a doutrina dele sobre o pecado original. É o mesmo ponto em que Armínio e Wesley se colocaram: a divergência com o calvinismo está na extensão da redenção e no modo como a graça age, e não na incapacidade humana nem na primazia da graça.
O sermão Justificação pela fé, pregado na capela de Albion Street, em Leeds, em 27 de julho de 1812, e impresso a pedido da Conferência, mostra a mesma teologia no púlpito. Sobre Atos 13:38-39, Bunting começa pela culpa de toda a raça em Adão. A lei pede obediência perfeita, e ninguém a cumpre: “a lei não aceita a vontade pela obra, nem a obra pela vontade”. O evangelho oferece o perdão, que tira a maldição, e a justificação, que é “ser considerado justo e tratado como justo”. O fundamento de tudo é Cristo, e da plenitude dele “recebemos a graça do arrependimento e da fé”. A fé é o instrumento designado para receber o que Cristo conquistou, e Bunting termina chamando o ouvinte a olhar para fora de si: “afaste os olhos de você mesmo, de todo outro pretenso salvador; olhe para Jesus”. É a justificação pela fé da Reforma pregada por um arminiano, com a graça vindo antes do arrependimento e da fé, que é o que o arminianismo clássico chama de graça preveniente.
O outro eixo do pensamento de Bunting foi a igreja. Ele herdou de John Wesley uma sociedade de pregadores ligada à Igreja da Inglaterra e entregou uma igreja com ministros ordenados, missões no mundo inteiro, seminário, editora e comitês mistos de ministros e leigos. Para ele, o pregador wesleyano era pastor no sentido do Novo Testamento, com autoridade para ensinar e disciplinar o rebanho, e a Conferência era o tribunal final da conexão. Os admiradores lembravam que ele também ampliou o lugar dos leigos nos comitês da conexão; os adversários viam nisso tudo um governo clerical. A avaliação de George Smith, historiador wesleyano que o conheceu, ficou como resumo: Bunting tinha razão nos fins e errou nos métodos.
A mesma preocupação com a ordem explica a mudança dele diante do revivalismo. O jovem de Oldham pedia mais “espírito do avivamento”; o líder da conexão viu os acampamentos ao ar livre produzirem divisões, como a que deu origem aos metodistas primitivos, e passou a defender a disciplina das sociedades contra os pregadores que agiam por conta própria.
Uma diferença com a declaração de fé deste site merece nota, sem polêmica, e é de governo da igreja: Bunting defendia uma conexão em que a Conferência de ministros tinha a última palavra sobre as igrejas locais, enquanto a declaração afirma que cada igreja local deve governar-se segundo as diretrizes das Escrituras. Nos pontos centrais da salvação (depravação total, graça anterior a toda resposta humana, expiação por todos, justificação pela fé), Bunting está na linha da tradição arminiana de Armínio a Wesley.
Na mesma carta de 1805, Bunting pediu que calvinistas e arminianos se tratassem com “tolerância liberal e respeitosa”, porque os dois lados “têm muito a dizer por si”. Esse espírito o levou, no fim da vida, à Aliança Evangélica.
Obras principais
- Sermão pregado diante da Sunday School Union (1805).
- Carta aos editores da Eclectic Review, assinada “An Orthodox Arminian” (1805).
- Justification by Faith, sermão pregado em Leeds em 1812 e impresso a pedido da Conferência (7.ª edição, 1847).
- Edição da Concordance de Alexander Cruden, com breve biografia do autor (prefácio de 1815).
- Memorials of the Late Rev. Richard Watson, com o sermão fúnebre (1833).
- Discurso sobre o plano do governo para a educação nacional (Manchester, 1839).
- Introdução a Mormonism (1853).
- Sermons, edição póstuma em dois volumes (1861-1862).
Para aprofundar
- Thomas Percival Bunting, The Life of Jabez Bunting, D.D., with Notices of Contemporary Persons and Events, vol. 1 (1859), Internet Archive.
- James Harrison Rigg, Jabez Bunting: A Great Methodist Leader, Library of Methodist Biography, Internet Archive.
- Alexander Gordon, Bunting, Jabez, Dictionary of National Biography, vol. 7 (1886), Wikisource.
- John A. Vickers (org.), Bunting family, A Dictionary of Methodism in Britain and Ireland.
- John H. S. Kent, The Interpretation of Jabez Bunting, Proceedings of the Wesley Historical Society 31 (1958).
- The Origin of the Primitive Methodist Connexion, London Quarterly Review, vol. 67.
- Richard Brown, How did Methodism develop under Jabez Bunting?, Looking at History (2011).
- Bunting, Jabez, Encyclopædia Britannica, 11.ª edição (1911), Wikisource.
- Jabez Bunting, Wikipédia em inglês.
- Jabez Bunting, Justification by Faith, sermão sobre Atos 13:38-39, Bible Hub.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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