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J. Matthew Pinson: o presidente do Welch College e o arminianismo reformado
Neste texto
- Vida
- Pensacola, Yale e o pastorado
- Presidente do Welch College
- O historiador da tradição
- Pensamento
- Um arminiano reformado
- Armínio lido por inteiro
- Pecado, graça e liberdade
- Eleição individual e condicional
- Satisfação penal e justiça imputada
- Perseverança e apostasia
- Wesley e o debate com Olson
- Diante da nossa declaração de fé
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Num dia frio e claro de novembro, em Providence, no estado americano de Rhode Island, Matthew Pinson voltava de um almoço com batistas de todos os cantos do mapa da doutrina da salvação quando o historiador calvinista Michael Haykin lhe disse que gostava do seu calvinismo do jeito que, achava ele, Matt gostava do seu arminianismo. E citou John Newton, que, mexendo o açúcar no chá, dizia usar o calvinismo como aquele açúcar: não puro e inteiro, mas misturado e diluído. Pinson abriu com essa cena o livro 40 Questions About Arminianism (2022). Presidente do Welch College, no Tennessee, desde 2002, ele é um dos principais porta-vozes do chamado arminianismo reformado, que discute duro com calvinistas e com wesleyanos, mas faz questão de discutir como irmão.
Vida
Pensacola, Yale e o pastorado
J. Matthew Pinson nasceu em 1967 e é natural de Pensacola, na Flórida. É a quinta geração de uma família de batistas do livre-arbítrio (Free Will Baptists), a denominação americana que descende dos batistas gerais ingleses do século XVII. O gosto pela história da denominação começou aos dez anos, nas lições que o pai dava sobre o assunto na igreja.
Nos anos 1980, estudou no Free Will Baptist Bible College, em Nashville, onde conheceu F. Leroy Forlines, a quem chama de seu mentor. Depois fez, na University of West Florida, o bacharelado em humanidades (1990) e o mestrado em história (1993), com uma dissertação sobre a reforma social religiosa na Nova Inglaterra antes da Guerra Civil, centrada nos Freewill Baptists do Norte. Pesquisando nos arquivos da Universidade de Mount Olive, na Carolina do Norte, encontrou a história dos batistas do livre-arbítrio do Sul, que chamou de “a minha própria herança”.
Em 1994, concluiu o mestrado em religião na Universidade Yale. Os quatro amigos mais próximos dele ali eram um presbiteriano calvinista, um anglicano levemente arminiano que se preparava para o sacerdócio, um batista do sul que cria em “uma vez salvo, salvo para sempre” e um metodista conservador. Pinson concluiu que as convicções firmes os tornavam parceiros de diálogo melhores, e não piores. Em Yale conheceu Melinda, da Carolina do Norte, com quem se casou no verão de 1994. Foram para o sul da Geórgia, onde ele assumiu uma igreja enquanto fazia estudos de doutorado em história na Florida State University; ao todo, pastoreou igrejas no Alabama, em Connecticut e na Geórgia.
Em 1998 entrou para a Comissão de Integridade Teológica da Associação Nacional dos Batistas do Livre-Arbítrio, que depois passou a presidir, e publicou A Free Will Baptist Handbook. Em 2002 saiu Four Views on Eternal Security, que ele organizou, com o arminianismo reformado defendido por Stephen Ashby diante de dois calvinistas e de um wesleyano.
Presidente do Welch College
Em setembro de 2002, um dia depois de completar 35 anos, Pinson tomou posse como quinto presidente do Free Will Baptist Bible College, fundado em 1942. Em cinco anos, as matrículas passaram de 281 para 420. Em 2007 ele concluiu, na Universidade Vanderbilt, o doutorado em liderança do ensino superior. Em julho de 2012, a associação nacional aprovou o novo nome, Welch College, em homenagem ao casal John L. e Mary Welch. Em 2017, as aulas começaram no novo campus de Gallatin, ao norte de Nashville.
A capela do Welch College recebeu, num curto intervalo, Albert Mohler, presidente do maior seminário calvinista do mundo, e Timothy Tennent, presidente do maior seminário arminiano wesleyano, o que deixou amigos dos dois lados intrigados. Em dezembro de 2020, Pinson dirigiu o sepultamento de Forlines e o chamou de o maior teólogo sistemático da história dos batistas do livre-arbítrio.
O historiador da tradição
Em 2010, Pinson publicou no Journal of the Evangelical Theological Society um estudo sobre a expiação em Jacó Armínio. Em 2011, num painel do New Orleans Baptist Theological Seminary organizado por Steve Lemke, falou sobre a expiação e a justificação em Thomas Grantham (1634-1692), o alfaiate de Lincolnshire que ele considera o principal batista geral inglês da segunda metade do século XVII. O texto saiu no Journal for Baptist Theology and Ministry, com respostas de Rhyne Putman, James Leonard e Clint Bass e uma tréplica dele. Em 2014, a partir de uma observação de Herbert McGonigle, mostrou que John Wesley copiou trechos, às vezes palavra por palavra, de um diálogo de Grantham (1681) no seu Dialogue Between a Predestinarian and His Friend (1741), sem dar o crédito.
Em 2015, reuniu em Arminian and Baptist ensaios de duas décadas sobre Armínio, John Smyth, Thomas Helwys, Grantham, Wesley e os batistas do livre-arbítrio como tradição confessional, batista e arminiana. Timothy George viu ali um arminianismo “ao mesmo tempo reformado, clássico e evangélico”. O livro saiu no Brasil em 2025, pela Verbum, como Arminiano e Batista, e naquele ano a Society of Evangelical Arminians divulgou uma entrevista em vídeo dele com o pastor Thiago Titillo sobre o crescimento do arminianismo entre os batistas brasileiros.
Pinson também organizou Perspectives on Christian Worship (2009), com cinco visões de culto, e Jonathan Edwards: A Reformed Arminian Engagement (2024), leitura do teólogo americano do século XVIII que aprecia a teologia reformada dele e discorda da sua doutrina da salvação. Em janeiro de 2026, a editora da Universidade do Tennessee lançou The Free Will Baptists: A New History, das origens nas Carolinas no fim do século XVII à divisão de 1962, dedicado a William F. Davidson, Michael R. Pelt e Robert Picirilli, sobre cujo trabalho construiu o seu.
Pensamento
Um arminiano reformado
Pinson é um batista arminiano e se chama “arminiano reformado”, expressão usada por Picirilli em 1987 e adotada pelos alunos dele. A definição está em 40 Questions About Arminianism: como todos os arminianos, os arminianos reformados divergem do calvinismo sobre “como alguém chega a estar em estado de graça”, pois rejeitam a eleição incondicional e a graça irresistível; mas concordam com os calvinistas sobre “o que significa estar em estado de graça”: a substituição penal, a imputação da obediência ativa e passiva de Cristo e a santificação progressiva (p. 13). O nome vem de Armínio, que foi, escreve Pinson, ministro reformado confessional “até o dia da sua morte”, fiel à Confissão Belga e ao Catecismo de Heidelberg (veja O Arminianismo é reformado?).
Armínio lido por inteiro
Para Pinson, Armínio é “um dos teólogos mais conhecidos e menos estudados da história do cristianismo”: os calvinistas o rejeitaram, e muitos arminianos o deixaram de lado porque o pouco que leram dele lembra demais o calvinismo (Journal of the Evangelical Theological Society, 2010, p. 773). Seguindo Carl Bangs, lê Armínio como desenvolvimento da teologia reformada holandesa, e não como ruptura. Antes de Dort, argumenta, não havia consenso sobre a predestinação na Igreja Reformada holandesa, e os Cânones de 1619 foram necessários porque nem a Confissão Belga nem o Catecismo de Heidelberg ensinavam com clareza os cinco pontos do calvinismo. Ele também separa Armínio dos sucessores: Simão Episcópio, Hugo Grócio e Philipp van Limborch se afastaram dele no pecado original, na expiação e na justificação.
Contra quem vê em Armínio o germe da teoria governamental da expiação, Pinson mostra que Armínio trata a cruz dentro do ofício sacerdotal de Cristo: a justiça de Deus não pode ser posta de lado sem dano à essência divina, e o Filho, Deus e homem, oferece a si mesmo como sacerdote e vítima, sofre a punição devida pelo pecado e satisfaz a justiça divina (veja a Declaração de Sentimentos).
Pecado, graça e liberdade
Pinson rejeita a acusação de semipelagianismo, a ideia de que o ser humano dá o primeiro passo rumo a Deus sem a graça. Afirma a depravação total e a incapacidade: o pecador não pode, por si, crer nem querer o bem, e “a regeneração é obra exclusivamente de Deus” (40 Questions, p. 146). Para ilustrar, usa o modelo da ambulância, de Richard Cross: o pecador é como alguém inconsciente que os socorristas resgatam e que só acorda dentro da ambulância (p. 147).
A graça que vem antes de qualquer resposta é a graça preveniente, que ele define como “a graça que Deus dá para atrair os pecadores a si” (p. 191). Para os arminianos, ela é universal e resistível (p. 192). Veja A graça preveniente em Armínio. Pinson defende a liberdade no sentido libertário, o poder real de escolher de outro modo, contra o compatibilismo, e argumenta que só ela impede que Deus seja a causa última do mal. Deus quer que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4), e Cristo morreu por todos (veja A soberania de Deus e o livre-arbítrio).
Eleição individual e condicional
Pinson examina Efésios 1:4-11, Romanos 8:28-30 e Romanos 9:6-23 e conclui pela eleição condicional: Deus escolhe em Cristo os que creem. Ele insiste em que essa eleição é “pessoal e individual” e reclamou que, ao ouvir alguns arminianos, “é quase como se a eleição corporativa fosse a visão arminiana” (“Individual Election, Corporate Election, and Arminianism”, 2016). Nisso acompanha Picirilli, Jack Cottrell e Forlines, e se distancia de Robert Shank e Brian Abasciano (veja Presciência, eleição e predestinação).
Satisfação penal e justiça imputada
Na tréplica de 2011, Pinson pediu que se recuperasse a expressão “satisfação penal”: Cristo satisfez a justiça de Deus sofrendo a pena do pecado, e não, como em Anselmo, oferecendo uma satisfação no lugar da pena. Por isso rejeita a teoria governamental de Grócio e de John Goodwin, segundo a qual Deus pode relaxar a sua lei e perdoar sem que a pena seja paga. No ensaio “The Diversity of Arminian Soteriology”, ele mostra que, para Grantham, a lei brota da natureza santa de Deus, e por isso a justiça precisa ser satisfeita e a justiça de Cristo, imputada ao crente (veja Arminianismo: expiação para todos).
A justificação, para ele, consiste em que o crente, unido a Cristo pela fé, recebe por imputação a obediência ativa de Cristo, a vida de obediência perfeita à lei, e a obediência passiva, a morte sob a pena do pecado. Por isso discorda de Ben Witherington III, que chama a justiça imputada de ficção legal (veja O que acontece quando você crê em Jesus).
Perseverança e apostasia
A salvação, do começo ao fim, tem a fé como única condição, e essa condição não muda depois da conversão. “Ninguém é salvo pela fé e mantido pelas obras”, escreveu Pinson (Journal for Baptist Theology and Ministry, 2011, p. 37). As boas obras são o fruto necessário da fé, e não a condição da salvação. O crente pode cair, porque a união com Cristo depende da fé, mas só pela incredulidade, quando naufraga na fé (1 Timóteo 1:19), e não por atos de pecado. Essa apostasia é definitiva e irremediável. Pinson vê aí a maior diferença prática com os arminianos wesleyanos (veja Arminianismo: a segurança da salvação e Apostasia na Bíblia).
Wesley e o debate com Olson
Pinson lê Wesley como um teólogo eclético que se afastou de Armínio: a doutrina da expiação de Wesley seguiria “a lógica da satisfação penal”, mas “o espírito do governamentalismo” (Arminian and Baptist). Essa separação provocou o debate mais conhecido da sua carreira. Roger Olson achou esclarecedora a história contada em Arminian and Baptist e convincente a maior parte do argumento, mas notou nele um tom “hiperortodoxo” e defendeu uma tenda maior, em que o que une os arminianos evangélicos importa mais do que o que os separa.
Pinson responde com o método que aprendeu em Yale. Com Thomas Oden, diz que irênica e polêmica são “disciplinas irmãs”: a polêmica entre irmãos que concordam no evangelho deve buscar a paz. Por isso escreveu 40 Questions About Arminianism de modo “mais didático do que polêmico”, e o livro recebeu elogios de não arminianos como Haykin e Nathan Finn.
Diante da nossa declaração de fé
Nos pontos centrais da salvação, Pinson coincide com a nossa declaração de fé: incapacidade humana, graça preveniente universal e resistível, expiação universal como substituição penal, justiça de Cristo imputada e perseverança condicional. As diferenças são duas. Ele ensina a santificação progressiva e rejeita a inteira santificação, que a nossa declaração, de tendência wesleyana, afirma como obra da graça recebida pela fé. E é batista: pratica o batismo de crentes por imersão e a lavagem dos pés como ordenança, enquanto a nossa declaração define a igreja pelos Artigos de Religião de Wesley.
Obras principais
- A Free Will Baptist Handbook: Heritage, Beliefs, and Ministries (Randall House, 1998).
- Four Views on Eternal Security, organização (Zondervan, 2002).
- Perspectives on Christian Worship: Five Views, organização (B&H Academic, 2009).
- F. Leroy Forlines, Classical Arminianism: A Theology of Salvation, edição (Randall House, 2011).
- Arminian and Baptist: Explorations in a Theological Tradition (Randall House, 2015).
- Sexuality, Gender, and the Church, com Matthew Steven Bracey, Matthew McAffee e Michael A. Oliver (Welch College Press, 2016).
- The Apologetics of Leroy Forlines, com F. Leroy Forlines (Welch College Press, 2019).
- 40 Questions About Arminianism (Kregel Academic, 2022).
- Jonathan Edwards: A Reformed Arminian Engagement, organização (B&H Academic, 2024).
- The Free Will Baptists: A New History (University of Tennessee Press, 2026).
Livros em português
- Arminiano e Batista: explorando uma tradição teológica (Verbum, 2025). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Welch College, Dr. J. Matthew Pinson e Leadership, biografia oficial.
- Free Will Baptist Theology, Meet Your Commission Member: J. Matthew Pinson.
- ONE Magazine, News at Free Will Baptist Bible College (2007), sobre a posse em 2002 e o doutorado em Vanderbilt.
- J. Matthew Pinson, “Light and Truth: Celebrating the First 75 Years of Welch College”, ONE Magazine (outubro-novembro de 2017).
- Jesse Owens, entrevista com Matt Pinson sobre The Free Will Baptists: A New History, ONE Magazine (junho-julho de 2026).
- Welch College, Pres. Matt Pinson Publishes Arminian and Baptist (2015), Welch President Matt Pinson Publishes 40 Questions About Arminianism (2022) e Welch Faculty Contribute to New B&H Book on Jonathan Edwards (2024).
- J. Matthew Pinson, 40 Questions About Arminianism, sumário, introdução e primeiro capítulo (Kregel Academic, 2022).
- J. Matthew Pinson, “The Nature of Atonement in the Theology of Jacobus Arminius”, Journal of the Evangelical Theological Society 53 (2010).
- J. Matthew Pinson, “The Diversity of Arminian Soteriology: Thomas Grantham, John Goodwin, and Jacobus Arminius”, Society of Evangelical Arminians.
- Rhyne Putman, “Response to J. Matthew Pinson’s ‘Thomas Grantham’s Theology of the Atonement and Justification’”, e J. Matthew Pinson, “A Rejoinder to the Responses”, Journal for Baptist Theology and Ministry 8 (2011).
- J. Matthew Pinson, “Thomas Grantham an Influence on Wesley’s View of Predestination” (2014) e “Individual Election, Corporate Election, and Arminianism” (2016), Society of Evangelical Arminians.
- Roger Olson, “‘Reformed Arminianism?’ Another Book about Arminian Theology”, resenha de Arminian and Baptist.
- Kevin Jackson, resenha de Arminian and Baptist, Society of Evangelical Arminians (2015).
- Peter Henebury, Review of 40 Questions About Arminianism, SharperIron.
- Memória dos Batistas, resenha de Arminiano e Batista (2025), e Verbum Publicações, página do livro.
- Society of Evangelical Arminians, Arminianism Is Experiencing a Resurgence among Brazilian Baptists (2025), entrevista com Pinson e Thiago Titillo.
- University of Tennessee Press, The Free Will Baptists: A New History.
- Wikipédia, Welch College.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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