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James K. Beilby: O filósofo de Bethel e a oportunidade depois da morte

Diego Gonçalves13 min de leitura2.659 palavras

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Neste texto

No último ano do ensino médio, James Beilby escreveu uma carta para explicar por que tinha abandonado a fé cristã. O argumento era simples: se Cristo é o único caminho e milhões de pessoas morrem sem ouvir falar dele, Deus não pode ser perfeitamente amoroso. Ele se reconhecia um dos “sortudos” que tinham ouvido o evangelho, mas escreveu que não podia crer num Deus que fizesse da chance de ser salvo “uma questão de sorte temporal e geográfica”. Décadas depois, já professor de teologia sistemática e filosófica na Bethel University, em St. Paul, Minnesota, Beilby leu essa carta do púlpito e contou que a volta para Deus tinha exigido trocar retratos de um Deus irado e acusador por retratos centrados na vida de Jesus Cristo. A pergunta do adolescente virou o assunto do seu livro mais pessoal, Postmortem Opportunity (2021).

Vida

Formação

James Kenton Beilby estudou no Northwestern College, onde se formou em 1991 em estudos bíblicos e ciências sociais. Fez em seguida o mestrado em estudos teológicos, com ênfase em teologia sistemática, no Bethel Theological Seminary, concluído em 1994. O doutorado em teologia e filosofia veio da Marquette University, a universidade jesuíta de Milwaukee, em 2002.

A tese de Marquette tinha um título que já mostrava o tom do autor: An Evaluation of Alvin Plantinga’s Religious Epistemology: Does It Function Properly? (“Uma avaliação da epistemologia religiosa de Alvin Plantinga: ela funciona adequadamente?”). O jogo de palavras vinha do próprio Plantinga, que define o conhecimento como crença produzida por faculdades que funcionam adequadamente, no ambiente para o qual foram projetadas. Beilby mostrou que um mesmo conjunto de convicções teológicas une a primeira fase de Plantinga, centrada na racionalidade da crença em Deus, e a fase madura, centrada no conceito de garantia (warrant), a propriedade que separa o conhecimento da simples crença verdadeira. Depois de expor o sistema, ele perguntou se as crenças sobre o Deus cristão formadas do modo que Plantinga descreve têm de fato essa garantia, e se a descrição corresponde ao modo como os cristãos realmente chegam a crer. Respondeu que não às duas perguntas.

Professor em Bethel

Beilby começou a ensinar na Bethel em 1999, quando a instituição ainda se chamava Bethel College. Em 2004 assinava como professor assistente de teologia; hoje é professor de estudos bíblicos e teológicos na Faculdade de Artes e Ciências, com ensino e pesquisa em teologia sistemática e filosófica, apologética e ética.

A maior parte dos seus livros nasceu de uma parceria com o colega Paul Rhodes Eddy, também doutor por Marquette e professor em Bethel. Os dois organizaram volumes de “múltiplas visões”, em que cada autor defende uma posição e os outros respondem. O primeiro foi Divine Foreknowledge: Four Views (2001), sobre a presciência divina, com o teísmo aberto de Gregory Boyd, a presciência simples de David Hunt, o conhecimento médio de William Lane Craig e a visão agostiniano-calvinista de Paul Helm. Em The Nature of the Atonement: Four Views (2006), Thomas Schreiner defendeu a substituição penal, Boyd o Christus Victor, Bruce Reichenbach a visão da cura e Joel Green a visão “caleidoscópica”. Vieram depois volumes sobre o Jesus histórico (2009), com James D. G. Dunn entre os autores, a justificação (2011), a batalha espiritual (2012) e as identidades transgênero (2019). Sobre este último, os organizadores disseram que, entre os cristãos de posição tradicional, a conversa séria sobre o assunto “mal começou”, e apresentaram o livro como modelo de debate substancial sobre temas difíceis.

Com Chad Meister, outro colega de Bethel, Beilby organizou The Routledge Companion to Modern Christian Thought (2013), obra de referência sobre o pensamento cristão do Iluminismo em diante. Com David K. Clark, escreveu o livreto Why Bother with Truth? (“Por que se importar com a verdade?”).

Plantinga, interlocutor de uma vida

Os primeiros artigos de Beilby saíram em revistas de filosofia da religião, sobre o argumento do mal de William Rowe (1995 e 1996) e sobre a pergunta se o naturalismo se autodestrói (1997). Plantinga tinha proposto que quem crê que a mente humana surgiu só por evolução não guiada perde a razão para confiar nas próprias faculdades, inclusive na que o levou a crer no naturalismo. Beilby reuniu críticos e defensores desse argumento em Naturalism Defeated? (Cornell University Press, 2002), com textos de Jerry Fodor, Ernest Sosa e William Alston, entre outros, e a resposta do próprio Plantinga.

A partir da tese, publicou Epistemology as Theology (Ashgate, 2005), com a mesma divisão entre a história do pensamento de Plantinga e a avaliação crítica. Nicholas Wolterstorff chamou o livro de apresentação “muito lúcida e precisa” da epistemologia de Plantinga, e Paul Helm, de estudo “claro, bem informado e compreensivo”. Beilby voltou ao filósofo num capítulo sobre o modelo de crença cristã garantida, no volume Alvin Plantinga da Cambridge University Press (2007), e em The Problem of God in Alvin Plantinga (2026), na série Elements da mesma editora. Nos últimos anos escreveu também sobre o ocultamento de Deus como problema do conhecimento e da salvação (2023 e 2024), tema vizinho do seu livro de 2021.

O apologista e o pregador

Em 2011 Beilby publicou Thinking About Christian Apologetics: What It Is and Why We Do It (“Pensando a apologética cristã: o que é e por que a fazemos”). Avisou no prefácio que ali não havia provas do cristianismo: o assunto era a própria apologética, a sua base bíblica, a sua história, as suas escolas e as objeções contra ela.

Em outubro de 2022 ele pregou na Woodland Hills Church, em St. Paul, o sermão “What About Those Who Never Hear the Gospel?” (“E os que nunca ouvem o evangelho?”), resumo para a igreja do livro de 2021, no qual leu a carta da adolescência.

Pensamento

Arminiano na doutrina da salvação

Beilby se declara arminiano na soteriologia, a doutrina da salvação. Num artigo de 2004, ele observou que se pode ser calvinista no sentido de Abraham Kuyper, para quem nenhuma área do saber é religiosamente neutra, e ainda assim rejeitar alguns ou todos os cinco pontos de Dort; e acrescentou entre parênteses: “Eu sou um representante menos conhecido dessa posição”. Em Postmortem Opportunity, diz que o seu modelo “pressupõe uma soteriologia explicitamente arminiana” (p. 75). Os fundamentos dessa soteriologia aparecem no livro: Deus “ama cada pessoa e deseja de verdade relacionar-se com ela” (p. 39), Cristo é o único caminho e a salvação exige fé explícita, consciente e intencional em Jesus Cristo (p. ix). Nada disso nega o pecado original: ao tratar das crianças que morrem cedo, ele lembra que, mesmo sem ter escolhido pecar, elas têm uma natureza pecaminosa que as separa de Deus (p. 7).

Beilby chama a sua posição de sinérgica: os seres humanos participam da obra salvadora de Deus ao responder ao evangelho e declarar lealdade a Cristo. A palavra precisa ser lida com cuidado. No arminianismo clássico, essa resposta não é um mérito nem uma parte que o ser humano acrescenta à parte de Deus; ela só existe porque a graça preveniente vem antes, liberta a vontade e torna possível crer. É o que Roger Olson chama de sinergismo evangélico.

Deus não precisa da criação

O artigo de 2004 no Journal of the Evangelical Theological Society é a contribuição mais direta de Beilby ao debate entre calvinistas e arminianos. Ele parte de um atributo que todos os evangélicos aceitam: a asseidade, palavra que vem do latim a se, “por si mesmo”, e indica que Deus não depende de nada fora dele para existir nem para ser pleno e feliz. O alvo do artigo é a asseidade psicológica: em Deus não há falta nem necessidade.

O problema, segundo ele, está na resposta que o calvinismo de Jonathan Edwards dá à pergunta “por que Deus criou o mundo?”. Para Edwards, o fim último da criação é a manifestação da glória de Deus, isto é, a exibição de todos os seus atributos, inclusive a justiça que pune e a misericórdia que perdoa. Mas alguns desses atributos só se manifestam diante de criaturas pecadoras. Se Deus criou para alcançar algo que deseja e não poderia alcançar sem o mundo, então de algum modo depende do mundo, e o sistema que mais quer exaltar a soberania acaba deixando Deus menos independente. Beilby examina a defesa de Edwards e conclui que ela não resolve a tensão.

A alternativa arminiana que ele propõe põe o amor no centro. O amor já tem expressão plena dentro da Trindade, entre o Pai, o Filho e o Espírito, antes de qualquer criação; por isso Deus não precisa criar para ser quem é, e a criação é um presente “imerecido e não necessário”. Beilby insiste que o arminiano não abandona a glória de Deus: abandoná-la seria um erro “grave, e até herético”. O que ele afirma é que “a glória de Deus se vê mais propriamente no seu amor”. Para descrever o propósito da criação, cita com aprovação uma fórmula de Gregory Boyd: replicar o amor divino por toda a criação. Boyd defende o teísmo aberto, que nega a presciência exaustiva e que este site rejeita, mas o argumento de Beilby não depende dessa tese. O artigo termina com uma advertência: assim como é perigoso fazer a Deus elogios metafísicos demais, talvez seja perigoso fazer-lhe elogios teológicos demais.

Uma apologética humilde

Para Beilby, a apologética é, na raiz, “recomendar e defender” a fé, e não um exercício acadêmico: ela aparece quando o cristão passa de anunciar o evangelho a persuadir quem duvida. O livro apoia a prática em 1 Pedro 3:15 e nos debates de Paulo em Atos 17 a 20, e lê 1 Coríntios 2:4-5 como recusa da retórica exibicionista, e não do argumento. Ele também marca os limites: a apologética “não é condição prévia da teologia nem um acessório dispensável”; ninguém é levado à fé só por argumentos, porque a fé salvadora pede uma decisão que o orgulho e o egoísmo podem bloquear, e depende da obra do Espírito Santo; e “a fé cristã não é um conjunto abstrato de conceitos a ser crido, mas uma vida a ser abraçada”. Para ele, não existe uma escola oficial de apologética.

O último capítulo, “Doing Apologetics Well”, pede três coisas: argumentos válidos que respondam às objeções reais, uma compreensão correta da fé e da descrença, e a atitude certa, que Beilby considera a mais importante. “Com frequência demais, os cristãos foram condescendentes, arrogantes e desdenhosos” nos encontros apologéticos, escreve, o contrário do modo como Jesus tratava quem duvidava dele.

A oportunidade depois da morte

Postmortem Opportunity responde à pergunta da carta da adolescência. A tese é que quem morre sem ter recebido uma oportunidade genuína de ouvir e responder ao evangelho receberá essa oportunidade depois da morte (p. 35). Beilby pensa em três grupos: os não evangelizados, que nunca ouviram falar de Jesus, incluindo os que morrem na infância ou sem capacidade mental para entender o evangelho; os “pseudoevangelizados”, que ouviram uma versão deturpada dele, como o personagem Kunta Kinte, de Raízes; e os profundamente feridos, tão abusados que não conseguem confiar em ninguém, nem em Deus. Quem precisa dessa oportunidade, escreve ele, é decisão de Deus, e não nossa (p. 51).

O argumento junta três afirmações: Deus deseja que todos sejam salvos (2 Pedro 3:9; 1 Timóteo 2:4); a salvação exige fé consciente em Cristo; logo, Deus dará a cada pessoa uma chance real de crer, nesta vida ou depois dela. Beilby admite que nenhum texto bíblico ensina isso de modo explícito, mas defende que uma doutrina pode apoiar-se em inferências que não contradigam o que a Escritura ensina com clareza. Como indícios, cita Lucas 15, o pastor que procura a ovelha até achá-la, e 1 Pedro 3:19-20 e 4:6, sobre a pregação de Cristo aos espíritos em prisão e o evangelho anunciado aos mortos. Hebreus 9:27, o texto mais usado contra a ideia, seria para ele um argumento contra a reencarnação, e o juízo que o não evangelizado enfrenta incluiria a oportunidade de ouvir o evangelho (p. 109).

Beilby separa a sua tese de duas vizinhas. Contra o inclusivismo, que admite a salvação por uma fé implícita sem conhecimento de Cristo, ele mantém a exigência da fé explícita. Contra o universalismo, sustenta que a Escritura não o ensina, que quem rejeita Cristo conscientemente vai para o inferno e que quem teve uma oportunidade genuína nesta vida e a recusou não ganha outra. No sermão de 2022, resumiu a escolha que ainda resta depois da morte com uma pergunta: reinar no inferno ou servir no céu? E respondeu à objeção de que a tese tira a urgência da evangelização: o relacionamento com Deus, disse, “não é uma coisa futura: é uma coisa de agora”.

Aqui está a principal diferença com a declaração de fé que orienta este site. Ela concorda com Beilby em que Cristo morreu por todos, em que Deus deseja salvar todos e em que só os unidos a Cristo pela fé são salvos, mas passa da morte à ressurreição, ao juízo final e ao castigo eterno dos ímpios sem incluir uma oportunidade de conversão depois da morte. A tese de Beilby é uma proposta especulativa dentro do campo arminiano, e não uma posição da tradição.

Obras principais

  • Why Bother with Truth? (com David K. Clark), série Critical Questions, RZIM.
  • Divine Foreknowledge: Four Views (org., com Paul R. Eddy), InterVarsity Press, 2001.
  • Naturalism Defeated? Essays on Plantinga’s Evolutionary Argument Against Naturalism (org.), Cornell University Press, 2002.
  • “Divine Aseity, Divine Freedom: A Conceptual Problem for Edwardsian-Calvinism”, Journal of the Evangelical Theological Society 47/4, 2004.
  • Epistemology as Theology: An Evaluation of Alvin Plantinga’s Religious Epistemology, Ashgate, 2005.
  • The Nature of the Atonement: Four Views (org., com Paul R. Eddy), InterVarsity Press, 2006.
  • The Historical Jesus: Five Views (org., com Paul R. Eddy), InterVarsity Press, 2009.
  • Thinking About Christian Apologetics: What It Is and Why We Do It, InterVarsity Press, 2011.
  • Justification: Five Views (org., com Paul R. Eddy e Steven E. Enderlein), InterVarsity Press, 2011.
  • Understanding Spiritual Warfare: Four Views (org., com Paul R. Eddy), Baker Academic, 2012.
  • The Routledge Companion to Modern Christian Thought (org., com Chad Meister), Routledge, 2013.
  • Understanding Transgender Identities: Four Views (org., com Paul R. Eddy), Baker Academic, 2019.
  • Postmortem Opportunity: A Biblical and Theological Assessment of Salvation After Death, InterVarsity Press, 2021.
  • The Problem of God in Alvin Plantinga, Cambridge University Press (série Elements), 2026.

Para aprofundar

  • James Beilby, “Divine Aseity, Divine Freedom: A Conceptual Problem for Edwardsian-Calvinism”, Journal of the Evangelical Theological Society 47/4 (2004), p. 647-658: etsjets.org
  • Jim Beilby, “What About Those Who Never Hear the Gospel?”, sermão na Woodland Hills Church, 9 out. 2022: whchurch.org
  • Bethel University, “Jim Beilby”, página do corpo docente: bethel.edu
  • Marquette University, registro da tese An Evaluation of Alvin Plantinga’s Religious Epistemology: Does It Function Properly? (2002): epublications.marquette.edu
  • Rhyne Putman, “Will My Lost Neighbor Have Another Chance to Receive Jesus After Death?”, Christianity Today, 5 ago. 2021: christianitytoday.com
  • J. W. Wartick, resenha de Postmortem Opportunity (2022): jwwartick.com
  • Resenha de Postmortem Opportunity, Spoiled Milks (2021): spoiledmilks.com
  • Glenn R. Kreider, resenha de Thinking About Christian Apologetics, DTS Voice (2013): voice.dts.edu
  • Graham Veale, resenha de Thinking About Christian Apologetics, Apologetics315 (2012): apologetics315.com
  • Routledge, página de Epistemology as Theology: routledge.com
  • Bethel University, Spark Repository, registro de Divine Foreknowledge: Four Views: spark.bethel.edu
  • Para o contexto: Apologética cristã: o que é e para que serve e Presciência, eleição e predestinação.

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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