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James Richard Joy: o editor do Christian Advocate que guardou a memória do metodismo

Diego Gonçalves12 min de leitura2.427 palavras

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Neste texto

Em 1948, já passado dos oitenta anos, James Richard Joy folheava um exemplar de The Sunday Service of the Methodists in North America, o livro de culto que John Wesley mandou imprimir em Londres em 1784 para os metodistas dos Estados Unidos. Nas páginas 135 e 136, e de novo entre a 141 e a 144, ele percebeu uma coisa estranha: o volume tinha duas versões das mesmas folhas. Uma trazia os gestos do ministro na consagração da Ceia e o sinal da cruz no batismo; a outra não trazia nenhum dos dois. Desde o século XIX os estudiosos discutiam por que os exemplares da primeira edição tinham textos diferentes, e cada um defendia a versão que tinha à mão. O exemplar de Joy foi a primeira prova de que a diferença nascia no próprio livro que Wesley enviou para a América. Ele levou o achado a Nolan Harmon, editor da casa publicadora metodista, e as anotações dos dois chegaram ao historiador metodista Wesley Swift, que publicou um estudo sobre o problema em 1953. Joy passou a vida entre os papéis do metodismo e sabia ler neles a história da igreja.

Retrato de James Richard Joy
James Richard Joy, fotografia publicada em The Chautauquan, 1902, fotógrafo não identificado. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Família e formação (1863-1885)

James Richard Joy nasceu em 16 de outubro de 1863, em Groton, Massachusetts. Era filho de Richard Pickering Joy e de Mary Maria Hartwell, e tinha duas irmãs, Mary e Alice. O pai nascera em Durham, New Hampshire, e passou os últimos vinte anos da vida como agricultor em Groton, onde foi curador e tesoureiro da Lawrence Academy; o prédio da escola foi levantado em grande parte pelo esforço dele. Richard morreu em 1876, quando James tinha doze anos.

A família vinha de Thomas Joy, carpinteiro e mestre de obras da Boston do século XVII, que projetou e ergueu a primeira casa da câmara da cidade, mais tarde a primeira sede do governo de Massachusetts. James pertencia à oitava geração dessa linhagem e, em 1900, publicou a genealogia da família, Thomas Joy and His Descendants.

Joy formou-se bacharel em Artes pela Universidade Yale em 1885. Mais tarde, Yale lhe deu o título de mestre em reconhecimento aos estudos reunidos no seu Outline History of England.

O historiador de Chautauqua (1885-1904)

Logo depois de Yale, Joy entrou para a Methodist Book Concern, a editora da Igreja Metodista Episcopal em Nova York. De 1885 a 1890 foi editor assistente de Our Youth, jornal da editora para os jovens, e de 1890 a 1904 trabalhou no departamento editorial da escola dominical, que produzia as lições e revistas usadas por milhares de escolas dominicais, metodistas e de outras denominações.

Ao mesmo tempo ele escrevia para o Círculo Literário e Científico de Chautauqua, o curso de leitura em casa criado em 1878 por John Heyl Vincent, pastor metodista e mais tarde bispo. O curso durava quatro anos, com até uma hora de leitura por dia, e reunia leitores isolados ou em pequenos círculos pelo país inteiro. Em 1888 Joy preparou com Vincent um Outline History of Greece e, no ano seguinte, um Outline History of Rome. Vieram depois o Outline History of England, Rome and the Making of Modern Europe (1893), Twenty Centuries of English History (1898) e Ten Englishmen of the Nineteenth Century (1902), que conta o século XIX britânico pela vida de dez homens públicos, de Wellington a Gladstone. Em 1902, a revista The Chautauquan escreveu que Joy era provavelmente conhecido por mais leitores dos círculos de Chautauqua do que qualquer outro autor do curso.

Em 20 de janeiro de 1891 ele se casou, em Plainfield, Nova Jersey, com Emma Prentice McGee, a quem dedicou o livro sobre Roma. Tiveram três filhas: Helen, Alice e Gertrude. A família morou muitos anos em Plainfield.

Trinta e dois anos no Christian Advocate (1904-1936)

Em 1904 Joy passou a editor assistente do Christian Advocate de Nova York. O jornal tinha nascido em 9 de setembro de 1826 como o primeiro periódico autorizado pela Conferência Geral, a assembleia que governa a Igreja Metodista Episcopal, e era o principal entre os vários “Advocates” regionais da denominação. De 1880 a 1912 fora dirigido por James Monroe Buckley. Em 1915 Joy assumiu a direção e ficou nela até 1936, também como presidente do conselho editorial. Recebeu os títulos de doutor honoris causa em Letras pela Universidade de Syracuse (1905) e em Direito pelo Dickinson College (1916). Foi delegado à Conferência Geral da igreja de 1908 a 1936 e curador da Sociedade Bíblica Americana, da Universidade Drew, do Hospital Metodista do Brooklyn e da Church Peace Union, entidade criada para promover a paz entre as nações.

Em 1915, no ano em que assumiu o jornal, publicou The Making of the Book Concern, 1789-1915, a história da editora metodista desde que John Dickins abriu uma loja em Filadélfia com as próprias economias, em 1789.

Os anos de Joy na redação coincidiram com o auge e a crise da Lei Seca. Os metodistas tinham lutado por décadas contra o álcool e viram na proibição nacional, em vigor desde janeiro de 1920, a coroação de um século de reforma moral. Em janeiro de 1922, Joy escreveu que, sob o impulso do Centenário, a grande campanha missionária da igreja, o metodismo tinha crescido em cinco anos “em espírito, em visão e em poder” tanto quanto em meio século antes, e que o mundo caminhava “para a luz”. Em abril do mesmo ano, diante das críticas à igreja, defendeu que o volume dos ataques acompanha a fidelidade do testemunho. A partir de 1925, porém, até cristãos que apoiavam a proibição começaram a questionar os resultados dela, e o otimismo daqueles anos se desfez antes da revogação da lei, em 1933.

Joy também usou o cargo para guardar o patrimônio da igreja. Em 1934 soube que estava à venda o retrato em pastel do capitão Thomas Webb, oficial do exército britânico que pregou nos primeiros anos do metodismo americano. Avisou o presidente da Universidade Drew, Ezra S. Tipple, que examinou a obra e a comprou em dezembro daquele ano para a sua coleção de peças wesleyanas, com Joy como intermediário. Quando Tipple doou a coleção à universidade, o retrato foi para a biblioteca de Drew. Ainda em 1934, em 6 de abril, morreu a esposa, Emma.

Bibliotecário e historiador (1936-1957)

Ao deixar o jornal, em 1936, Joy tornou-se bibliotecário da Sociedade Histórica Metodista de Nova York e, a partir de 1939, curador da literatura metodista da biblioteca da Universidade Drew, um dos maiores acervos de fontes sobre o metodismo nos Estados Unidos. Participou do conselho editorial da revista Religion in Life e escreveu para o Dictionary of American Biography o verbete sobre o pregador Enoch Mudge.

Em 1937 publicou John Wesley’s Awakening, um livro curto sobre a experiência de John Wesley na rua Aldersgate, em Londres, em 24 de maio de 1738, quando ele sentiu o coração “estranhamente aquecido” e recebeu a certeza de que Cristo tinha levado os seus pecados. O livro saiu na preparação para o bicentenário de Aldersgate, em 1938, data que os metodistas americanos começaram a planejar antes dos britânicos. Em 1942 organizou The Teachers of Drew, 1867-1942, o volume comemorativo dos 75 anos do seminário. E em 1948 veio a descoberta no Sunday Service de Wesley, quando ele já tinha oitenta e quatro anos.

James Richard Joy morreu em 1957.

Pensamento

Um wesleyano de redação e de arquivo

Joy foi wesleyano. Serviu durante toda a vida adulta a Igreja Metodista Episcopal, cujos Artigos de Religião, adaptados por Wesley em 1784, ensinam no artigo VIII que o ser humano caído não pode se voltar para Deus por sua própria força, e que a graça de Deus em Cristo vem antes, para que ele tenha boa vontade, e opera com ele quando a tem. Por mais de trinta anos trabalhou no jornal oficial dessa igreja, mais de vinte deles como editor, e por quase trinta foi delegado à assembleia que guarda a sua doutrina. Ele não escreveu uma teologia sistemática; a sua contribuição foi de editor e historiador. O que se sabe da sua teologia vem da maneira como contou a história do metodismo, e nela a herança arminiana aparece com clareza.

A Arminian Magazine e o amor de Deus por todos

Em The Making of the Book Concern (1915), Joy reproduz o sumário do primeiro número da Arminian Magazine, a revista que Wesley lançou em janeiro de 1778. O número abria com uma vida de Jacó Armínio e um relato do Sínodo de Dort, trazia cartas de Susanna Wesley mostrando que a felicidade ou a miséria das pessoas não depende de um decreto absoluto, e terminava com hinos sobre a redenção universal. Joy resume o propósito da revista com as palavras do próprio Wesley: espalhar a boa notícia da disposição de um Deus amoroso de salvar “todos os homens de todo pecado”.

Essas expressões tocam os dois pontos em que os metodistas se separavam dos calvinistas. O “decreto absoluto” é a ideia de que Deus escolheu desde a eternidade, sem condição alguma, quem seria salvo e quem seria perdido. O arminianismo responde com a eleição condicional: Deus elege em Cristo os que creem, e conhece de antemão quem crerá. A “redenção universal” é a afirmação de que Cristo morreu por todos, e não só por um grupo escolhido. Joy registra a revista como um marco (“a primeira revista metodista”, diz a legenda da reprodução) e põe a Arminian Magazine na origem de todos os periódicos da igreja, inclusive do Christian Advocate que ele mesmo dirigia.

O livro como pregador

A ideia que mais aparece nos escritos de Joy sobre a igreja é a de que o metodismo nasceu lendo. Para ele, Wesley “ordenou a imprensa como pregador auxiliar” e com isso multiplicou o alcance da mensagem; fez dos metodistas “um povo que lê” e trocou os almanaques e baladas vendidos de porta em porta por folhetos e livros baratos de edificação. Joy lembra que, no catálogo de 1795 da editora americana, as Notas sobre o Novo Testamento de Wesley abriam a linhagem dos comentários de Adam Clarke e de Daniel Whedon; as obras de John Fletcher abriam a dos tratados de doutrina; e a autobiografia de Freeborn Garrettson, com os diários de Wesley e de Asbury, abria a das histórias de Nathan Bangs e de Abel Stevens.

Por isso ele insistia que a editora não podia virar um comércio qualquer. Seria um dia triste, escreveu em 1915, se ela passasse a ser vista como simples mercadoria, e não como “instrumento sem igual nas mãos de Deus” para espalhar o conhecimento da sua verdade pela página impressa. Joy aplicava à editora o lema de Wesley, “economizo tudo o que posso e dou tudo o que posso”: os lucros sustentavam os pregadores aposentados, as viúvas e os órfãos, como mandava a disciplina da igreja.

Aldersgate e a experiência

John Wesley’s Awakening pertence à literatura que, nos anos 1930, leu Aldersgate como a grande crise da vida de Wesley e pôs a experiência do coração aquecido no centro da comemoração de 1938. O historiador Randy Maddox cita o livro de Joy entre os exemplos mais marcantes dessa ênfase. Para os metodistas daquela geração, a pergunta do bicentenário era se a igreja ainda tinha a experiência que Wesley teve. Essa leitura combina com a visão wesleyana do testemunho do Espírito, a certeza que o crente recebe de que é filho de Deus (Romanos 8:16), e com a forma como contamos aqui a conversão de John Wesley. Estudos posteriores lembraram que a experiência de 1738 é uma etapa de um caminho mais longo, que inclui a graça que vem antes, a justificação, o novo nascimento e a santificação.

Diante da declaração de fé deste site

No essencial da salvação, a igreja de Joy e a declaração de fé do site dizem o mesmo: pecado original, incapacidade humana, graça que vem antes de qualquer resposta, Cristo morto por todos, justificação pela fé. Há duas diferenças. A Igreja Metodista Episcopal batizava crianças, e o Sunday Service que Joy estudou traz o rito para isso; o site entende que o batismo segue a conversão, embora aceite tanto a imersão quanto a aspersão. E o otimismo de 1922, de um mundo que caminhava para a luz pela reforma moral, não cabe na escatologia amilenista do site, que não espera uma era de ouro antes da volta de Cristo.

Obras principais

  • The Greek Drama (ensaio, 1887).
  • An Outline History of Greece (1888), com John H. Vincent.
  • An Outline History of Rome (1889), com John H. Vincent.
  • An Outline History of England (1890).
  • Grecian History: An Outline Sketch (1892).
  • Rome and the Making of Modern Europe (1893).
  • Twenty Centuries of English History (1898).
  • Thomas Joy and His Descendants (1900).
  • Ten Englishmen of the Nineteenth Century (1902).
  • The Making of the Book Concern, 1789-1915 (1915).
  • John Wesley’s Awakening (1937).
  • The Teachers of Drew, 1867-1942 (organizador, 1942).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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