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James M. Leonard: O batista arminiano que leu Mateus num códice copta
Neste texto
- Vida
- Nashville e Vancouver
- Professor e pastor
- Cambridge e Nova Orleans
- O vice-presidente da sociedade arminiana
- Pensamento
- Crítica textual: o manuscrito que não era estranho
- A classe: batista arminiano, arminianismo da Reforma
- O caráter de Deus e a presciência
- Eleição, perseverança e a vida da igreja
- A história dos batistas arminianos
- Diferenças com a declaração de fé do Diego
- Obras principais
- Para aprofundar
Quando começou a estudar o Códice Schøyen 2650 em Cambridge, James M. Leonard ficou impressionado com as leituras estranhas que o editor do manuscrito havia apontado. Nesse Mateus em copta, as mulheres vão ao túmulo “na noite do sábado, de manhã cedo, na hora da luz, enquanto as estrelas ainda estavam no alto”, e os guardas “levantaram-se como mortos” (Mateus 28:1-4). O editor via ali o rastro de um evangelho perdido. Leonard comparou o texto copta, palavra por palavra, com o grego e com as outras versões coptas, e chegou à conclusão contrária: o manuscrito é um testemunho fiel do Mateus canônico, e um dos mais próximos do texto antigo. Esse especialista em manuscritos é também batista do livre-arbítrio de formação, pastor por muitos anos e vice-presidente da Society of Evangelical Arminians, onde defende o que chama de arminianismo da Reforma.
Vida
Nashville e Vancouver
James M. Leonard nasceu em 1962. Formou-se em 1984, com distinção (cum laude), no Free Will Baptist Bible College, em Nashville, Tennessee, a escola da denominação dos batistas do livre-arbítrio, hoje Welch College. Estudou música sacra e Bíblia. A escola era a casa de F. Leroy Forlines e de Robert Picirilli, os dois teólogos que ele mais tarde apontaria como guardiães dessa tradição. De 1985 a 1989 trabalhou como educador na rede pública de Nashville.
No começo dos anos 1990 foi para o Regent College, em Vancouver, no Canadá. Entre 1991 e 1993 foi assistente de exegese em tempo integral de Gordon Fee e de Bruce Waltke, e monitor nas disciplinas de David Bebbington, R. T. France e Eugene Peterson, entre outros. Estudou também com J. I. Packer. Em 1994 concluiu o mestrado em estudos cristãos, com uma dissertação sobre o cumprimento da teologia do templo no Evangelho de Mateus.
Professor e pastor
De volta aos Estados Unidos, ensinou Bíblia e música na Markoma Bible Academy, em Tahlequah, Oklahoma, e foi professor adjunto de Bíblia na John Brown University, no Arkansas (1994-1996). Depois, sustentando-se também com trabalho secular, pastoreou. De 1999 a 2003 foi pastor interino de três igrejas batistas da Virgínia Ocidental, em Clendenin, Frametown e Looneyville; de 2003 a 2005, pastor da Mt. Aerie Baptist Church; e de 2005 a 2007 serviu no ministério de pastorados interinos das American Baptist Churches USA. Pastor interino é o que cuida de uma igreja sem pastor por um tempo definido e a prepara para receber o próximo. Leonard já discutia crítica textual com especialistas: em 2005 escreveu sobre Mateus 23:38, defendendo a leitura do Códice Vaticano contra os manuscritos que assimilaram o texto a outras passagens.
Cambridge e Nova Orleans
Em 2007 fez um semestre de pós-graduação na Universidade de Aberdeen, na Escócia, e começou o doutorado na Universidade de Cambridge, ligado à Tyndale House, o centro de pesquisa bíblica evangélica da cidade, sob a orientação de Peter J. Williams. A tese tratava do Códice Schøyen 2650, que os especialistas chamam de mae2: um manuscrito de Mateus em copta médio-egípcio, dialeto raro do Egito antigo, muitas vezes datado do começo do século IV. Onze capítulos dele estão inteiros, e em várias passagens ele pode ser o testemunho mais antigo do texto de Mateus.
De 2010 a 2012, Leonard foi pesquisador residente, com bolsa de pós-doutorado, no Center for New Testament Textual Studies do New Orleans Baptist Theological Seminary. Ali coordenou, em 2011, a doação ao centro da coleção de crítica textual de Gordon Fee, com os arquivos de colação de Lucas e de João (colação é a comparação, letra por letra, de um manuscrito com um texto de referência). O diretor do centro, Bill Warren, escreveu que foi Leonard quem fez a maior parte do trabalho.
A tese foi defendida em 12 de outubro de 2011, diante de Simon Gathercole e Darrell Hannah, e o grau foi conferido em 2012. Em 2014 a Brill publicou a versão revista, Codex Schøyen 2650: A Middle Egyptian Coptic Witness to the Early Greek Text of Matthew’s Gospel, como volume 46 da série New Testament Tools, Studies and Documents, dirigida por Eldon Epp e Bart Ehrman. Na época, Leonard ensinava como professor adjunto na Loyola University New Orleans e no Notre Dame Seminary, também em Nova Orleans.
O vice-presidente da sociedade arminiana
Desde 2008, Leonard escreve no blog Arminian Baptist e publica na Society of Evangelical Arminians (SEA), da qual se tornou vice-presidente. Em 2011 resenhou Classical Arminianism, de Forlines, no Journal for Baptist Theology and Ministry, e em 2020 abriu a série de entrevistas da SEA com o episódio “O coração da teologia arminiana”.
Pensamento
Crítica textual: o manuscrito que não era estranho
O editor do Códice Schøyen, Hans-Martin Schenke, publicou o texto em 2001 e sustentou que ele atestava uma versão perdida de Mateus, ligada a um Mateus aramaico, o que tornaria insustentável a hipótese das duas fontes, a explicação mais aceita sobre a relação entre os evangelhos sinóticos. Leonard explicou no Tyndale Bulletin (2014) as cinco constatações que o levaram a rejeitar essa tese.
A primeira foi que o mae2 tem em comum com o Mateus canônico a ordem das passagens, o conteúdo e os nomes próprios. Nos quinze trechos com acréscimos ou omissões grandes, que a tradução não disfarça, ele concorda com o texto crítico padrão (Nestle-Aland, 27ª edição) mais do que quase todos os manuscritos gregos, atrás só do Códice Sinaítico e empatado com o Vaticano. A segunda foi que ele tem menos elementos exclusivos do que manuscritos coptas bem conhecidos. A terceira foi que muitas leituras “estranhas” são hábitos de tradução: o copta deixa de traduzir o “e” e o “mas” que abrem as frases gregas, simplifica a sintaxe e explicita o que o grego deixa subentendido. A quarta foi que o sentido da história de Jesus é o mesmo. A quinta foi a mais inesperada: em sessenta passagens de teste, os aliados mais próximos do mae2 são o Sinaítico (75% de concordância) e o Vaticano (70%), e ele concorda com cada um mais do que os dois concordam entre si. Os três juntos permitem “triangular” a forma mais antiga do texto, e Leonard listou catorze passagens em que o testemunho copta pesa na decisão.
O anúncio da defesa resumiu o resultado: o mae2, afinal, não é um manuscrito estranho. Lido com atenção às regras da tradução, ele confirma o texto que já conhecemos e ajuda a decidir entre variantes.
A classe: batista arminiano, arminianismo da Reforma
Leonard é batista arminiano da linha que Forlines e Picirilli chamaram de arminianismo da Reforma (ou arminianismo reformado), e se declara arminiano sem rodeios: “rejeito a ideia de que Deus predestina pessoas para crer” (“Why I’m an Arminian”, 2015). No ensaio “What Is Reformation Arminianism?” (2008), ele resume essa posição como a expiação universal dentro do quadro calvinista da depravação total e da satisfação penal.
O ponto de partida é a santidade de Deus. “Deus não pode simplesmente perdoar o pecado; o pecado tem de ser punido”, escreve. Por isso a cruz é satisfação penal: Cristo morreu no lugar do pecador e pagou a pena que a justiça de Deus exige. Calvinistas e arminianos da Reforma concordam nisso e discordam do alcance. À objeção do “pagamento em dobro” (se Cristo pagou por todos, por que alguém seria condenado?), Leonard responde com a distinção entre a provisão e a aplicação da expiação, que os dois lados aceitam: para o calvinista, a aplicação é automática nos eleitos; para o arminiano, ela acontece quando a pessoa é unida a Cristo pela fé.
A incapacidade humana é afirmada por inteiro: sem a graça, ninguém pode entender a revelação nem crer. O calvinista põe a regeneração antes da fé; o arminiano da Reforma ensina que Deus capacita a pessoa a crer antes da regeneração, e que essa graça pode ser resistida: “a pessoa a quem Deus convence é capacitada a crer, mas pode continuar a resistir”. É o que a tradição wesleyana chama de graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Por isso, diz Leonard, o arminianismo não gira em torno do livre-arbítrio, já que o homem caído não pode escolher Deus por suas forças.
A fé é confiança que renuncia a si mesma e descansa na obra de Cristo, definição que Leonard toma de Packer. “A fé não é um ato meritório”, e por isso a salvação por meio da fé continua sendo pela graça (Efésios 2:8-9). Ele acusa o calvinismo de pregar, na prática, uma salvação pela graça para a fé, em que a fé é resultado da salvação, quando o Novo Testamento fala de salvação pela graça por meio da fé, em que a fé é a condição para receber.
O caráter de Deus e a presciência
Na resenha de Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, Leonard resumiu o motivo de fundo da posição: “O verdadeiro problema para os arminianos é o caráter de Deus” (2008). O arminiano recusa o determinismo porque ele faz de Deus o autor e a causa eficiente do pecado, o que contradiz a bondade divina.
Sobre a presciência, ele segue Picirilli. Sabemos com certeza o que aconteceu ontem, e esse conhecimento não causou nada do que fizemos. O conhecimento que Deus tem do futuro torna os fatos certos, mas não necessários. A um amigo calvinista que dizia que Deus não mandaria o Filho morrer por quem ele sabia que o rejeitaria, Leonard respondeu que o argumento “prova demais”: pela mesma lógica, Deus não daria graça a ninguém que ele soubesse que ainda pecaria. A questão de fundo é se Deus preordenou o futuro, e ela precisa ser discutida sem atalho pela presciência (2008). O site trata do tema em Presciência, eleição e predestinação.
Eleição, perseverança e a vida da igreja
Em 1 Tessalonicenses 1:4, Paulo escreve a crentes perseguidos e desprezados pela cidade que eles foram escolhidos. Para Leonard, a palavra “eleição” ali não fala de determinismo nem de um decreto arbitrário que produz respostas mecânicas. Ela confere aos que creem uma posição de privilégio diante de Deus, e “esse privilégio é para todos os que creem” (2021). A leitura se aproxima da eleição em Cristo de Armínio e da eleição corporativa defendida por Brian Abasciano.
A perseverança, para ele, é condicional. A união com Cristo exige fé presente, e não só uma fé que existiu no passado. No estudo sobre a Epístola aos Hebreus (2008), ele argumenta a partir do livro inteiro, e não de versículos soltos, que o crente pode de fato deixar a fé. A continuidade na salvação é, como o começo, “pela graça por meio da fé”, e a apostasia é o abandono da fé, e não a perda da salvação a cada pecado.
A teologia aparece também no púlpito. Leonard defende o apelo ao fim do culto como continuação natural do sermão, desde que a igreja ore pela obra do Espírito que convence do pecado: “precisamos aprender a orar como se isso importasse, porque a oração realmente importa” (2011). Se falta essa oração, é melhor tirar o apelo. O arminiano, que crê numa oferta aberta a todos, tem mais motivo para orar por cada pessoa presente. Sobre o batismo, defende o batismo só dos que creem: é obrigação do novo discípulo, mas “não é algo que salva” (2020). O site trata do assunto em Batismo na Bíblia.
A história dos batistas arminianos
Em “Big Theology on Narrow Shoulders” (2017), Leonard conta a história da sua tradição. A teologia batista arminiana remonta à primeira congregação batista, a de Thomas Helwys, e a Thomas Grantham, e veio algumas décadas antes da teologia dos batistas calvinistas. A herança ficou com os batistas do livre-arbítrio, cerca de 2.200 igrejas: uma “grande teologia em ombros estreitos”. Leonard sustenta também que o arminianismo é a posição comum da igreja cristã, e que muitos crentes são arminianos sem saber, porque só conhecem o rótulo pela caricatura feita por autores calvinistas.
Diferenças com a declaração de fé do Diego
A declaração de fé do Diego concorda com Leonard na depravação total, na graça resistível, na expiação universal, na satisfação penal e na perseverança condicional. A diferença está na ênfase wesleyana do site: o arminianismo da Reforma não inclui a inteira santificação, obra da graça recebida pela fé que o site afirma com Wesley. Leonard também criticou “alguns” wesleyanos que, segundo ele, enfraquecem a expiação penal ou fazem a permanência na salvação depender de “não pecar”. Essas críticas valem para as correntes que ele descreve, e não para o wesleyanismo como um todo, que afirma com Wesley a substituição penal.
Obras principais
- “What Is Reformation Arminianism?” (2008)
- “Eternal Security and Exegetical Overview of the Book of Hebrews” (2008)
- Resenha de F. Leroy Forlines, Classical Arminianism, Journal for Baptist Theology and Ministry 8.1 (2011)
- Codex Schøyen 2650: A Middle Egyptian Coptic Witness to the Early Greek Text of Matthew’s Gospel (Brill, 2014)
- “Big Theology on Narrow Shoulders: A Brief Outline of Arminian Baptist History” (2017)
- “Election in 1 Thessalonians: Assurance for Persecuted Believers” (2021)
Para aprofundar
- James M. Leonard, Curriculum vitae (2009, cópia no Internet Archive).
- James M. Leonard, “Codex Schøyen 2650”, Tyndale Bulletin 65.1 (2014), p. 153-156.
- Brill, Codex Schøyen 2650, página do livro e nota sobre o autor; registro na Bibliothèque nationale de France.
- Evangelical Textual Criticism, “Gordon Fee Donates Specialized Collection to NOBTS” (2011).
- Society of Evangelical Arminians, “SEA Vice President James Leonard Gets His Ph.D.” (2011) e índice dos textos de James Leonard.
- James M. Leonard, “What Is Reformation Arminianism?” (2008).
- James M. Leonard, “Why Divine Foreknowledge Does Not Determine the Future” (2008).
- Society of Evangelical Arminians, “Leonard’s Review of Arminian Theology: Myths and Realities” (2008).
- James M. Leonard, “Why I’m an Arminian and Why Calvinism Is Dominating the Evangelical Book Market” (2015).
- James M. Leonard, “The Validity and Urgency of the Altar Call” (2011).
- James M. Leonard, “Big Theology on Narrow Shoulders” (2017).
- James M. Leonard, “Believer’s Baptism: Short Review of Its Rationale and History” (2020).
- James M. Leonard, “Election in 1 Thessalonians: Assurance for Persecuted Believers” (2021).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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