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J. P. Moreland: O químico que virou filósofo da alma e defensor da mente cristã

Diego Gonçalves13 min de leitura2.678 palavras

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Neste texto

No terceiro ano da faculdade, na Universidade do Missouri, um estudante de química que tinha crescido numa igreja metodista liberal ouviu, na casa da sua fraternidade estudantil, uma palestra da Cruzada Estudantil para Cristo. O assunto era o dilema popularizado por C. S. Lewis: Jesus disse ser Deus, e por isso só pode ter sido mentiroso, louco ou Senhor. O rapaz contaria depois que nunca tinha ouvido alguém apresentar razões de fato para a fé. Passou um mês conversando com um obreiro da Cruzada, leu um livro de Paul Little e, em novembro de 1968, entregou a vida a Cristo. Era James Porter Moreland, que o mundo evangélico conhece como J. P. Moreland, um dos filósofos cristãos mais influentes do nosso tempo.

Retrato de J. P. Moreland
J. P. Moreland, foto de divulgação, 2014. CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Da química à Cruzada Estudantil

Moreland nasceu em 9 de março de 1948 e cresceu num subúrbio de Kansas City, no Missouri. Formou-se em química, com distinção, pela Universidade do Missouri. A conversão mudou o rumo da carreira. Em 1970 ele recebeu uma bolsa para fazer doutorado em química nuclear na Universidade do Colorado, mas entrou para a equipe da Cruzada Estudantil, onde ficou de 1970 a 1975. Ao todo, serviu dez anos com a Cruzada. Nesse tempo sentiu o chamado para estudar filosofia com um objetivo claro: defender a doutrina cristã ortodoxa e ensinar num seminário.

Depois disso foi para o Seminário Teológico de Dallas, onde concluiu o mestrado em teologia (Th.M.) em 1979. De 1979 a 1984 ensinou teologia, apologética e filosofia na International School of Theology, o seminário ligado à Cruzada. Fez ainda um mestrado em filosofia na Universidade da Califórnia em Riverside.

Dallas Willard e o doutorado

O passo decisivo veio na Universidade do Sul da Califórnia (USC). No primeiro ano, Moreland assistiu à disciplina de história da filosofia ocidental dada por Dallas Willard e ficou marcado pela bondade e pela serenidade do professor. Willard orientou a tese dele, Universals and the Qualities of Things: A Defense of Realism, defendida em 1985, e foi seu mentor e amigo por trinta anos. Cerca de oito meses antes de morrer, em 2013, Willard chamou Moreland e lhe passou quatro preocupações sobre o futuro do cristianismo, que Moreland resumiu assim: o realismo metafísico, o realismo do conhecimento, uma visão robusta da pessoa humana e a realidade da formação espiritual em Cristo. Na morte do amigo, escreveu que a igreja tinha perdido “um general cinco estrelas nos exércitos de Deus”.

Pastor, professor e bioeticista

A carreira acadêmica de Moreland nunca se separou da igreja local. Foi pastor interino da Igreja Evangélica Livre de Corona, na Califórnia (1983-1984), copastor da Grace Fellowship Church, em Baltimore (1984-1987), onde ajudou a montar um seminário para leigos, e cofundador e copastor da Grace Evangelical Free Church, em Lynchburg, na Virgínia (1988-1990). Ao todo, ajudou a plantar três igrejas. De 1986 a 1994 trabalhou como especialista em ética contratado pela PersonaCare, uma rede de casas de repouso com unidades em seis estados.

De 1987 a 1990 foi professor de filosofia na Liberty University, onde recebeu o prêmio de professor do ano (1988-1989). Em 1990 chegou à Talbot School of Theology, da Biola University, em La Mirada, na Califórnia. Ali ajudou a criar o mestrado em filosofia e ética e passou mais de três décadas formando alunos. Hoje é Distinguished Professor de filosofia da Talbot. Em 2016 o site The Best Schools o pôs entre os cinquenta filósofos vivos mais influentes.

A obra é enorme: perto de cem livros escritos, organizados ou com capítulos dele e mais de oitenta e cinco artigos acadêmicos. Falou e debateu em mais de duzentos campi universitários, enfrentou o ateu Kai Nielsen num debate sobre a existência de Deus e é presença frequente no programa Closer to Truth, da televisão pública americana. É membro do Discovery Institute, o centro do movimento do design inteligente.

A ansiedade, o câncer e a Vineyard

Moreland tem, pelo lado da mãe, uma predisposição genética à ansiedade. No começo dos anos 2000, depois do ano mais estressante da sua vida de professor, sofreu um colapso nervoso: crises de pânico diárias, medo do telefone tocar, medo de abrir o e-mail. Foram sete meses até que a terapia e os remédios lhe devolvessem o equilíbrio. Uns dez anos depois a crise voltou, e no outono ele ficou sem condições de dar aula. Desta vez, desesperado, leu tudo o que encontrou sobre ansiedade e formação espiritual e concluiu que a ansiedade é, em grande parte, um hábito, que pode ser desfeito com outros hábitos. Contou a história em Finding Quiet (2019). O livro junta oração contemplativa, meditação diária em versículos memorizados, como o Salmo 46:10, e o exame dos pensamentos à luz de 2 Coríntios 10:5. Moreland insiste que tomar remédio não é sinal de fraqueza espiritual: “é difícil trabalhar a alegria no Senhor quando o seu polegar está levando marteladas”.

Nos últimos anos enfrentou uma doença que o deixa vulnerável a vários tipos de câncer e passou por vinte cirurgias em dez anos. Sobre esse tempo, disse que as coisas boas encorajam a fé, mas o sofrimento a desenvolve.

Moreland estudou em Dallas, um seminário cessacionista, isto é, que ensina que os dons milagrosos cessaram com os apóstolos. A experiência mudou a cabeça dele. Ele e a esposa, Hope, frequentam a Vineyard Anaheim, a igreja fundada por John Wimber, e Moreland se identifica com a chamada “terceira onda”, que busca a cura, a profecia e os sinais sem exigir um segundo batismo no Espírito nem o falar em línguas. O casal tem duas filhas e netos.

Pensamento

Onde Moreland fica nesta série

Classe: simpatizante. Moreland é um dos maiores defensores atuais do livre-arbítrio libertário, a tese de que, numa escolha livre, a pessoa podia ter escolhido de outro modo e é ela mesma, e não uma cadeia anterior de causas, a origem do ato. Em 2022 publicou com Tim Stratton, na revista Religions, “An Explanation and Defense of the Free-Thinking Argument”, que mira dois alvos: o naturalismo e o calvinismo que afirma o determinismo divino exaustivo, a ideia de que Deus determina todos os desejos, pensamentos, crenças e ações humanas. O argumento sustenta que, se tudo fosse determinado, ninguém poderia ser responsável pelo que pensa e crê. Em 2024, no podcast Thinking Christianly, que apresenta com Stan Wallace, ele dedicou uma série ao livre-arbítrio e um episódio inteiro às respostas calvinista e arminiana sobre a salvação.

Nesse mesmo episódio aparece a distância dele do arminianismo clássico. Wallace resumiu a posição que os dois defenderam: só a fé salva, a decisão de crer é livre, mas, uma vez tomada, a salvação não se perde, e “obras e perseverança de modo nenhum são requisitos para a salvação”. É a segurança eterna da tradição de Dallas. A nossa declaração de fé segue a perseverança condicional: o crente está seguro em Cristo enquanto permanece nele pela fé, e a fé pode ser abandonada (Hebreus 3:12-14). Moreland, portanto, está do lado arminiano na rejeição do determinismo e da graça irresistível, e do lado de Dallas na segurança da salvação.

A alma e o poder de agir

O centro da obra de Moreland é a defesa da alma. Em Body & Soul (2000, com Scott Rae), The Recalcitrant Imago Dei (2009) e The Soul (2014), ele defende o dualismo de substância na versão tomista: a pessoa humana é uma alma, uma substância imaterial, que tem um corpo e o anima. A consciência, o pensamento, a unidade do eu ao longo do tempo e a escolha livre não cabem numa descrição só física do cérebro. Em Consciousness and the Existence of God (2008), ele vai além e argumenta que a própria existência da consciência num universo de matéria é mais bem explicada por um Deus que é mente.

Daí vem a teoria da ação de Moreland. Ele distingue as “suscetibilidades passivas” das coisas, que reagem quando algo lhes acontece, do “poder ativo” de um agente, que começa uma mudança sem ser causado a isso. Um fósforo acende porque foi riscado; uma pessoa decide levantar o braço. Para ele, o naturalismo só conhece a primeira categoria: “o poder ativo não é algo admitido na ontologia das ciências duras, ponto” (The Recalcitrant Imago Dei, 2009, p. 46). A liberdade humana, portanto, é um sinal de que somos mais que máquinas.

Aqui cabe uma observação. O livre-arbítrio de Moreland é uma tese sobre a natureza da ação humana em geral. O arminianismo clássico concorda que o ser humano escolhe de verdade, mas acrescenta que, diante do bem salvador, a vontade caída está presa e só a graça preveniente, obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta, a liberta para crer. É o que explicamos em Livre-arbítrio e graça: a vontade libertada.

Amar a Deus com o entendimento

O segundo eixo é a vida da mente. Num artigo de 1996 no Journal of the Evangelical Theological Society, “Philosophical Apologetics, the Church, and Contemporary Culture”, Moreland abre com John Wesley. Em 1756, num discurso ao clero, Wesley perguntou se um ministro não devia ter, antes de tudo, “um bom entendimento” e capacidade de raciocinar com rigor, e recomendou lógica, metafísica e teologia natural. Moreland contrasta isso com as igrejas de hoje, onde a primeira reação à palavra “filosofia” é citar Colossenses 2:8 como proibição. Para ele, o abandono da filosofia ajuda a explicar por que os evangélicos falam quase só entre si. O artigo distingue quatro tipos de apologética filosófica: a defesa direta, que responde às objeções e constrói argumentos positivos; a crítica das visões rivais; a explicação teísta, que mostra como a fé explica bem fatos como a consciência e a lei moral; e a integração da fé com as outras áreas do conhecimento. Termina com uma frase provocadora: não precisamos de “outro comentário de Efésios”, mas de defesas do que cremos nas grandes questões do debate público.

O mesmo programa aparece em Love Your God with All Your Mind (1997), em Philosophical Foundations for a Christian Worldview (2003), com William Lane Craig, e em Scientism and Secularism (2018). Neste último, ele ataca o cientificismo, a ideia de que só a ciência produz conhecimento, mostrando que a própria tese não é científica e por isso se refuta. Sobre a defesa da fé em geral, temos o texto Apologética cristã: o que é e para que serve.

Moreland também defende que a Escritura não é a única fonte de conhecimento de Deus e da moral. Na reunião da Evangelical Theological Society de 2007, em San Diego, a palestra dele, “How Evangelicals Became Over-Committed to the Bible and What Can Be Done About It”, encheu a sala e causou polêmica. Ele pediu que os evangélicos recuperassem a razão, a lei natural, a experiência e a tradição como fontes subordinadas à Bíblia, que ele continua tendo por inerrante. A nossa declaração de fé chama a Bíblia de “autoridade final em matéria de fé e prática”, e a palavra “subordinadas” é o que mantém Moreland dentro desse quadro.

O Triângulo do Reino

Em Kingdom Triangle (2007), que ele chamou de seu “manifesto”, Moreland junta tudo. O Ocidente vive, diz ele, uma disputa entre três visões de mundo: o naturalismo científico, o pós-modernismo e o monoteísmo ético. As duas primeiras deixam um mundo “fino”, sem valor objetivo, propósito nem sentido; a fé cristã oferece um mundo “espesso”. O remédio tem três lados: recuperar a mente cristã, renovar a alma pela formação espiritual (o lado de Willard) e restaurar o poder do Espírito. Neste terceiro lado, Moreland relata curas, libertações e respostas de oração, como a chuva que caiu numa aldeia da Tailândia e levou 134 famílias a Cristo. O tema voltou em A Simple Guide to Experience Miracles (2021). Para a questão dos dons hoje, veja Dons espirituais cessaram? e a biografia de Craig Keener, outro estudioso dos milagres.

Obras principais

  • Scaling the Secular City: A Defense of Christianity (1987).
  • Love Your God with All Your Mind (1997; 2ª edição, 2012).
  • Body & Soul: Human Nature and the Crisis in Ethics, com Scott Rae (2000).
  • Philosophical Foundations for a Christian Worldview, com William Lane Craig (2003).
  • Kingdom Triangle (2007).
  • Consciousness and the Existence of God (2008).
  • The Recalcitrant Imago Dei (2009).
  • The Soul: How We Know It’s Real and Why It Matters (2014).
  • Theistic Evolution, organizado com outros quatro autores (2017).
  • Scientism and Secularism (2018).
  • Finding Quiet: My Story of Overcoming Anxiety and the Practices That Brought Peace (2019).
  • A Simple Guide to Experience Miracles (2021).

Livros em português

  • Filosofia e cosmovisão cristã, com William Lane Craig (Vida Nova, 2005). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • O triângulo do reino: restabelecendo a mente cristã, renovando a alma, restaurando o poder do Espírito (Vida). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Evolução teísta, organizado com Stephen C. Meyer, Christopher Shaw, Ann K. Gauger e Wayne Grudem (Vida Nova, 2022). Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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