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James Nichols: O tipógrafo leigo que traduziu Armínio para o inglês

Diego Gonçalves12 min de leitura2.392 palavras

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Neste texto

Por volta de 1793, um menino de oito anos trabalhava numa fábrica de Holbeck, nos arredores de Leeds, no norte da Inglaterra. A família tinha perdido o que possuía, e o filho precisava ganhar o pão. Nos intervalos do serviço, ele estudava sozinho a gramática latina. Pouco mais de trinta anos depois, esse menino, James Nichols, publicaria em Londres a primeira tradução inglesa das obras de Jacó Armínio, que, reeditada até hoje, continua a ser o caminho pelo qual o leitor de língua inglesa chega aos escritos do teólogo holandês. Nichols nunca recebeu ordens nem ocupou cátedra. Foi tipógrafo, livreiro e editor, e fez da oficina gráfica o seu púlpito.

Vida

A infância e os primeiros mestres

James Nichols nasceu em Washington, no condado de Durham, em 6 de abril de 1785. A família era metodista: o avô materno tinha sido um dos primeiros pregadores itinerantes de John Wesley, e os pais eram membros antigos das sociedades wesleyanas. Dos oito aos doze anos o menino trabalhou na fábrica de Holbeck. Quando a situação melhorou, o pai conseguiu matriculá-lo na Escola de Gramática de Leeds, onde o diretor, o reverendo Joseph Whiteley, se tornou o seu “preceptor, amigo, conselheiro e patrono”, nas palavras do próprio Nichols.

As primeiras impressões religiosas vieram, no entanto, do púlpito anglicano. Nichols as recebeu sob o ministério de John Crosse, vigário evangélico de Bradford, que o acompanhou por anos “com um carinho quase paterno”. Aos dezoito anos, Nichols era assistente na escola de Thomas Langdon, pastor batista de Leeds, e Crosse o convenceu a disputar o cargo de segundo mestre da Escola de Gramática de Bradford. O cargo prepararia a sua ordenação na Igreja da Inglaterra. Entre mais de trinta candidatos, ele chegou à final, mas perdeu a vaga para um clérigo já ordenado.

Escrúpulos, metodismo e falência

Nichols foi então trabalhar como preceptor dos quatro filhos de Richard Lear, um cavalheiro que morava perto de Harewood, onde ficou três anos. Num jantar em Leeds, um pastor dissidente o desafiou a defender o governo episcopal da igreja, e o rapaz percebeu que não tinha argumentos, só preferência. Começou a ler os dois lados, e os escritos de Richard Baxter contra o episcopado o inclinaram para o governo presbiteriano. Ainda assim, recusou tornar-se dissidente, mesmo diante da oferta de um cargo de professor de clássicos numa academia não conformista.

Nesse período de dúvida, Nichols entrou para a sociedade dos metodistas wesleyanos, a mesma dos pais e do avô. Pouco depois recebeu uma proposta de sociedade numa livraria. Os amigos aconselharam que aceitasse; o pai, prudente, previu o fracasso. O pai acertou. Durante cerca de cinco anos Nichols lutou com um estoque grande e encalhado. Em 1811, o reverendo Robert Cox, ministro da igreja de São Tiago, em Leeds, ofereceu-se para pagar todas as dívidas da sociedade se ele aceitasse ser ordenado. Nichols não se convenceu naquele momento, mas a bondade de Cox e do amigo dele, John Merry, cura de Rawdon, o levou a estudar de novo a questão. Só depois da crise nos negócios ele se firmou na convicção episcopal que manteria pelo resto da vida.

Em 1813 casou-se com uma senhora de sobrenome Bursey, de Stockton-on-Tees. Tiveram muitos filhos, dos quais só dois chegaram à idade adulta.

Tipógrafo em Leeds e em Londres

Nichols se estabeleceu como tipógrafo e livreiro em Briggate, a rua principal de Leeds. Imprimiu pequenos volumes, como os Poems de John Byrom (1814), e de janeiro a setembro de 1819 dirigiu o Leeds Literary Observer. Depois mudou-se para Londres e abriu uma oficina em Warwick Square, junto à Newgate Street.

Foi ali que escreveu e imprimiu o seu livro mais conhecido, Calvinism and Arminianism Compared in their Principles and Tendency (1824), um primeiro volume de mais de mil páginas, em duas partes. O poeta Robert Southey leu o volume e, em carta a Nichols de 24 de agosto de 1824, disse que o seu próprio The Book of the Church teria saído mais completa se ele conhecesse antes aquelas informações, e lamentou que o título soasse mais a controvérsia do que a história. Dois meses depois, escrevendo ao reverendo Neville White, Southey achou o livro mal organizado, mas declarou que era “a mais valiosa contribuição” para a história eclesiástica inglesa que já lhe tinha passado pelas mãos.

Em 1825 saiu o primeiro volume das Works of James Arminius, traduzidas do latim, com a vida de Armínio escrita por Caspar Brandt e muito ampliada, trechos das cartas particulares de Armínio, um longo relato do Sínodo de Dort e notícias da recepção das suas ideias na Grã-Bretanha. No prefácio, Nichols escreveu que preparar aquele volume lhe custara “mais trabalho do que teria bastado para a simples tradução de todas as obras de Armínio”. O segundo volume saiu em 1828. Em 1826 imprimiu as cartas de elogio que recebeu de dois estudiosos holandeses, Abraham des Amorie van der Hoeven e Adriaan Stolker. O bispo Charles Blomfield insistiu mais de uma vez para que ele se ordenasse, a fim de se dedicar só à teologia. Nichols continuou leigo.

Os anos de Hoxton Square

Em 1832 Nichols transferiu a oficina para Hoxton Square, em Londres, onde viveu até morrer. Ali produziu edições cuidadosas de clássicos anglicanos, como a Church History de Thomas Fuller (1837) e a Exposition of the Creed de John Pearson (1845), e trabalhou como editor para o livreiro William Tegg. O obituário do Athenaeum elogiou sobretudo as suas edições de James Thomson (1849) e de Edward Young (1855).

A obra de maior fôlego desse período foi a quinta edição dos Morning Exercises at Cripplegate, os sermões que pastores puritanos pregaram em Londres entre 1659 e 1689, conferidos e corrigidos por ele em seis volumes (1844-1845). Um crítico duro do calvinismo inglês preparou, assim, uma edição cuidadosa da pregação puritana, que voltou a ser impressa em 1981 com o título Puritan Sermons 1659-1689.

Nos últimos anos, Nichols preparou uma edição dos poemas de Samuel Wesley, o filho, irmão mais velho de John e de Charles Wesley. Conferiu os poemas com manuscritos do autor, emprestados por amigos ligados à família Wesley, entre eles o reverendo Thomas Jackson, e escreveu notas para quase todo o volume. A saúde, as aflições da família e os cuidados de um negócio cansativo não o deixaram terminar.

James Nichols morreu em Hoxton Square em 26 de novembro de 1861, aos 76 anos. O Athenaeum o chamou de “um da rara raça dos tipógrafos eruditos”. O filho William Nichols, também tipógrafo, concluiu a edição de Samuel Wesley em 1862 e lembrou o pai como um homem de conversa espirituosa, às vezes mordaz, mas de coração terno, fiel aos amigos na boa e na má sorte e minucioso até o excesso. Entre os amigos dele estavam Southey e Wordsworth.

Pensamento

Nichols foi arminiano clássico, na linha anglicana. Criado entre metodistas wesleyanos e despertado para a fé sob um vigário evangélico, defendeu a eleição condicional de Armínio como a doutrina original da Igreja da Inglaterra, na esteira de Henry Hammond, Thomas Pierce e Laurence Womack, que ele cita a cada passo e, no caso de Womack, reimprimiu. Quatro ideias organizam a obra dele.

Os que creem são os eleitos

Nichols resumiu toda a controvérsia em duas perguntas que tomou do teólogo luterano Niels Hemmingsen: “Os eleitos creem? Ou os que creem são os verdadeiros eleitos?” (Calvinism and Arminianism Compared, 1824, introdução). Quem responde à primeira pergunta faz da fé um efeito necessário de um decreto absoluto, e então as promessas e as ameaças da Escritura deixam de pesar sobre a conduta. Quem responde à segunda considera eleitos os que creem e obedecem, e a eleição fica ligada à fé. Nichols insistia que essa segunda posição também atribui a salvação, “em primeiro lugar”, ao bel-prazer de Deus, mas à vontade de Deus revelada na sua palavra, que não conhece outra eleição senão a da fé e da perseverança previstas. É o que os teólogos chamam de eleição condicional: Deus escolhe em Cristo os que, pela graça, creem e permanecem nele. A graça recebida, dizia Nichols, é como os bens que o senhor da parábola entrega aos servos, mandando que negociem com eles até a sua volta (Lucas 19:13).

Armínio deve ser lido pelos próprios escritos

Nichols sabia que muito do que se chamava “arminianismo” na Inglaterra estava longe de Armínio, e citou com aprovação um autor calvinista que dizia isto: para saber o que é o arminianismo, é preciso voltar aos escritos do próprio Armínio, e o ponto em que todos os seus seguidores o acompanharam é o fundamento do sistema, a presciência divina da fé e da perseverança dos que se salvam. Na epígrafe do livro de 1824, Nichols pôs uma frase de Armínio que afasta qualquer suspeita de pelagianismo: o homem caído não pode, por si mesmo, pensar, querer nem fazer o bem verdadeiro, e Armínio atribui à graça divina “o começo, a continuação e a consumação de todo bem”. A graça vem antes, acompanha e completa, e a fé não acrescenta mérito nenhum. A nossa tradução portuguesa da Declaração de Sentimentos foi feita a partir do texto inglês de Nichols.

A Igreja da Inglaterra no meio do caminho

A tese histórica central de Calvinism and Arminianism Compared é que a redenção geral, a ideia de que Cristo morreu por todos, não foi uma novidade holandesa. Nichols a encontrava nos pais da igreja antes de Agostinho, em Melanchthon e na maior parte dos luteranos, e nos reformadores ingleses que redigiram os Trinta e Nove Artigos. Com um autor anglicano do século XVII que ele cita longamente, Nichols via a Igreja da Inglaterra “no meio”, entre os luteranos e os calvinistas, e o calvinismo rígido como uma corrente que entrou nela de fora. Por isso ele tratou o Sínodo de Dort como assembleia estreita, que pretendia legislar para toda a Europa reformada sem a presença dos luteranos, e leu Armínio como um pastor que defendeu, dentro da tradição reformada, uma doutrina mais antiga que a de Calvino.

Arminianismo e liberdade

O subtítulo do livro de 1824 promete mostrar a ligação dessas doutrinas “com as liberdades civis e religiosas da humanidade”. Nichols via na ascensão do arminianismo holandês a continuação da luta dos leigos instruídos da Holanda contra a imposição de um sistema doutrinário pelo clero. Na Inglaterra do século XVII, lembrava ele, os clérigos arminianos foram os mais perseguidos: em 1643, por iniciativa dos presbiterianos, e em 1653, quando as comissões dos independentes afastavam pastores arminianos e barravam candidatos ao ministério. Por isso negava aos puritanos o título de pais da liberdade inglesa e o dava a outros: John Goodwin, Tobias Conyers, os batistas gerais e os arminianos das igrejas independentes, que espalharam pelo país as suas ideias de tolerância, com o Tratado do cisma de John Hales e os escritos dos remonstrantes holandeses, como Hugo Grócio e Simão Episcópio, ao fundo. Escrevia com o tom polêmico do seu tempo, mas com intenção histórica. Explicou que traduzia tantas citações porque as observações de “uma pessoa obscura” como ele seriam lidas como opinião pessoal, ao passo que os documentos originais falavam por si.

Há uma diferença em relação à declaração de fé deste site: Nichols defendeu o governo episcopal e a igreja estabelecida pelo Estado, enquanto a nossa declaração entende que cada igreja local deve governar-se segundo as diretrizes das Escrituras. Na doutrina da salvação, a eleição em Cristo, a expiação por todos e a graça que precede toda resposta humana, Nichols e a declaração dizem o mesmo.

O legado

A tradução de Nichols mudou a recepção de Armínio no mundo de língua inglesa. A Wesleyan-Methodist Magazine resenhou longamente os dois volumes, em 1825 e em 1828, e no mesmo ano de 1828 a Methodist Magazine de Nova York, dirigida por Nathan Bangs e John Emory, anunciou a obra. Em 1843 o próprio Bangs publicou The Life of James Arminius, compilada do material de Nichols, e em 1853 o metodista americano William R. Bagnall lançou uma edição em três volumes cujos dois primeiros se apoiam em Nichols. O terceiro volume de Londres saiu em 1875, traduzido por William Nichols. Em 1986 a editora Baker reeditou os três volumes com introdução de Carl Bangs, e essa continua a ser a edição inglesa de referência. Essa transmissão aparece no texto sobre a tradição arminiana de Armínio a Wesley.

Obras principais

  • Calvinism and Arminianism Compared in their Principles and Tendency (1824), vol. 1 em duas partes.
  • The Works of James Arminius, traduzidas do latim, vol. 1 (1825) e vol. 2 (1828); vol. 3 traduzido por William Nichols (1875).
  • Two Letters from Holland, Addressed to the Translator of the Works of Arminius (1826).
  • Edições de Thomas Fuller: Church History of Britain (1837), History of the University of Cambridge (1840) e The Holy State and the Profane State (1841).
  • Edições de John Pearson, An Exposition of the Creed (1845 e 1848), e de William Warburton, The Divine Legation of Moses (1846).
  • The Morning Exercises at Cripplegate (6 vols., 1844-1845).
  • Edições de James Thomson (1849) e de Edward Young (1855).
  • Samuel Wesley, o filho, Poems on Several Occasions, concluída por William Nichols (1862).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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