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HistóriaTeólogos arminianos17 de 233

J. Rodman Williams: o presbiteriano que escreveu a teologia da renovação carismática

Diego Gonçalves13 min de leitura2.590 palavras

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Neste texto

Na quarta-feira antes do Dia de Ação de Graças de 1965, 24 de novembro, um professor de teologia sistemática de um seminário presbiteriano do Texas estava sentado à escrivaninha de casa, em Austin, lendo a carta de um pastor que contava como tinha recebido o Espírito Santo. J. Rodman Williams tinha 47 anos, um doutorado pela Universidade Columbia e um livro recém-publicado sobre o existencialismo. Ajoelhou-se e orou, “pedindo, buscando, batendo”, como na parábola de Lucas 11:5-13. Começou então a falar em línguas e leu Atos 2 em voz alta, sentindo-se, como escreveu depois, como se estivesse lá. Daquela experiência saiu, vinte e poucos anos depois, a primeira teologia sistemática completa escrita do ponto de vista da renovação carismática.

Retrato de J. Rodman Williams
J. Rodman Williams no seu escritório na Universidade Regent, em 4 de outubro de 1995. Foto de Eumaeus71, CC0, via Wikimedia Commons.

Vida

Filho de presbitério e capelão de guerra

John Rodman Williams nasceu em 21 de agosto de 1918, em Clyde, na Carolina do Norte, e cresceu numa casa pastoral presbiteriana. Formou-se no Davidson College em 1939, com distinção (Phi Beta Kappa). Naquele mesmo ano foi a Amsterdã para a primeira Conferência Mundial da Juventude Cristã, que reuniu cerca de 1.500 jovens de mais de setenta países. Depois do encontro, percorreu boa parte da Europa de bicicleta com três amigos e voltou para casa em setembro de 1939, semanas depois do início da Segunda Guerra Mundial, sob ameaça de submarinos alemães.

Estudou no Union Theological Seminary, em Richmond, na Virgínia, onde recebeu o bacharelado em teologia em 1943 e o mestrado em 1944. Foi ordenado na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos em 1943. Em junho de 1944 tornou-se capelão da Marinha, designado para a Primeira Divisão de Fuzileiros Navais, e foi mandado para Okinawa, onde entrou em combate logo no primeiro dia. Foi uma experiência dolorosa: muitos dos soldados com quem conversava de dia estavam mortos à noite, e ele orava sobre os corpos, sozinho com um capelão católico, numa longa vala aberta por tratores. Serviu também na China e deixou a Marinha em 1946.

A guerra secou a fé de Williams a ponto de ele decidir que não se envolveria mais com nenhuma atividade religiosa. Com a ajuda do governo para ex-combatentes, entrou no programa conjunto de doutorado da Universidade Columbia e do Union Theological Seminary de Nova York. Na manhã da Páscoa de 1947, teve uma experiência inesperada e avassaladora do Cristo ressuscitado, que o levou a recebê-lo como seu Senhor e renovou a sua consagração ao ministério. Um ano e meio depois conheceu Jo, também estudante de pós-graduação, com quem se casou em agosto de 1949.

Professor, pastor e teólogo presbiteriano

Williams foi para o Beloit College, em Wisconsin, como capelão e professor de filosofia e religião (1949-1952). Deixou a escola para pastorear a Primeira Igreja Presbiteriana de Rockford, em Illinois, uma igreja grande e centenária, onde ficou sete anos e onde nasceram os três filhos do casal. Em 1954 concluiu o doutorado em filosofia da religião e ética. Em 1959 aceitou o convite do Austin Presbyterian Theological Seminary para ensinar teologia sistemática, aquilo que mais desejava fazer, e ali ficou até 1972.

Em 1964 e 1965 recebeu uma licença sabática que mudou o rumo do seu pensamento. Em agosto de 1964 esteve em Frankfurt, num encontro mundial das igrejas reformadas cujo tema era “Vem, Espírito Criador”. Em novembro, foi observador protestante oficial no Concílio Vaticano II, em Roma. De fevereiro a junho de 1965, ensinou em Taiwan. No verão de 1965 publicou Contemporary Existentialism and Christian Faith, uma crítica ao existencialismo. Pouco depois, Williams percebeu que nem esse livro nem o manuscrito de teologia sistemática que tinha preparado falavam quase nada do Espírito Santo. A teologia da “morte de Deus”, defendida por colegas próximos, também o perturbava.

De volta a Austin, aproximou-se de um pequeno grupo de oração, quase todo de igrejas históricas, que se reunia na cozinha de uma igreja presbiteriana. A esposa começou a orar em línguas antes dele, e o primeiro impulso de Williams foi se afastar. O sacerdote episcopal Dennis Bennett foi ao gabinete dele no seminário e orou para que recebesse o Espírito; nada pareceu acontecer, e Bennett sugeriu que talvez ele precisasse se tornar mais simples, como criança. Semanas depois veio aquele dia de novembro. A partir dali, durante anos, a casa dos Williams recebeu reuniões de oração todo domingo à noite, muitas vezes com mais de cem pessoas, muitas delas estudantes da Universidade do Texas e do seminário. Um grupo grande dos que frequentavam essas reuniões foi batizado num rio próximo por Williams e por um pastor batista também carismático.

Uma voz da renovação no mundo

Williams se tornou um dos teólogos do movimento carismático nas igrejas históricas. Presidiu a Comunhão Carismática Presbiteriana Internacional, colaborou com a comissão de estudo da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos sobre o batismo no Espírito Santo e fez parte da Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas. Esteve na primeira equipe do Diálogo Internacional Católico-Pentecostal, criado depois do Vaticano II, e escreveu o texto “Pentecostal Spirituality” para a primeira rodada, em Zurique, em junho de 1972. Russell Spittler, que trabalhou com ele ali, o chamou de construtor de pontes. Viajando pela Europa com o pentecostal David du Plessis, organizou a primeira conferência de líderes carismáticos europeus, no castelo de Craheim, na Baviera.

Em 1972 deixou Austin. O pastor Ralph Wilkerson, da Melodyland Christian Center, em Anaheim, na Califórnia, um anfiteatro de quatro mil lugares que tinha pertencido à Disneylândia, o convidou para fundar uma escola de formação de líderes. Williams foi o primeiro presidente e professor de teologia da Melodyland School of Theology, de 1972 a 1982. A escola chegou a ter mais de setecentos alunos.

Regent e a Renewal Theology

Em 1982, aos 64 anos, Williams aceitou o convite para ensinar teologia na CBN University, hoje Universidade Regent, em Virginia Beach. Ensinou ali por dezoito anos. Foi nesse período que escreveu a sua obra maior, a Renewal Theology, em três volumes (1988-1992), reunidos num só volume em 1996. Em 1985 presidiu a Society for Pentecostal Studies.

Em 1994, quando completou 75 anos e cinquenta anos de ordenação, alunos e colegas publicaram em sua homenagem Spirit and Renewal, com ensaios de Clark Pinnock, Gordon Fee, Vinson Synan, Max Turner e do jesuíta Francis Sullivan, entre outros. Em abril de 2000, na celebração de despedida, a Regent anunciou a criação da Cátedra J. Rodman Williams de Teologia da Renovação. Williams recebeu o título de professor emérito e, aposentado, passou a responder toda semana às perguntas teológicas dos leitores do site da CBN.

Morreu em casa, em Virginia Beach, em 18 de outubro de 2008, aos 90 anos. A Renewal Theology já tinha sido traduzida para o coreano e o alemão, e em 2011 saiu em português.

Pensamento

Uma teologia sistemática a partir da experiência do Espírito

Williams nunca deixou de ser presbiteriano, mas leu a sua tradição a partir do que viveu em 1965. Num ensaio da coletânea A Theological Pilgrimage, defendeu que Calvino tinha uma atitude essencialmente positiva diante dos dons espirituais: o reformador achava que os dons extraordinários tinham cessado, mas não ligava esse fim à morte dos apóstolos. Williams chegou a propor que a comunhão guiada pelo Espírito fosse uma “terceira marca” da igreja, ao lado da pregação da Palavra e dos sacramentos.

O centro da sua contribuição é o batismo no Espírito Santo. Para ele, o que aconteceu em Pentecostes (Atos 2:1-4) se repete em Samaria, em Cesareia e em Éfeso. Esse batismo é um revestimento de poder para o testemunho e o serviço, distinto da regeneração. Por isso é possível ser cristão, nascido de novo, sem ter sido batizado no Espírito. Williams via a língua estranha como o sinal inicial desse enchimento, com base em Atos 2, 10 e 19, mas insistia que ela nada tem a ver com a entrada no céu. Em “Why Speak in Tongues?”, explicou que ela é “louvor transcendente” a Deus, em linguagem dada pelo Espírito; por isso é pura, por mais imperfeito que seja quem fala, e é “a mais nobre linguagem deste lado do céu”.

A Renewal Theology nasceu dessa convicção e foi apresentada como “expressão de revitalização”, com o propósito de entender o conjunto do que a fé cristã proclama. Em “A Pentecostal Theology”, Williams mesmo citou as críticas de Spittler, para quem os pentecostais escreviam folhetos e não tratados, e de J. I. Packer, que achava a teologia carismática imatura; a obra foi a resposta a esse desafio. O pentecostal clássico Frank Macchia, numa resenha de 1994 na revista Pneuma, elogiou o cuidado com a soberania de Deus, mas criticou a leitura devocional da Bíblia, o pouco diálogo com a teologia contemporânea e a defesa da subordinação da mulher no ministério.

Eleição, graça e perseverança

Williams se considerava um teólogo reformado e recusava o rótulo de arminiano. Na soteriologia (a doutrina da salvação), porém, rejeitou os pontos centrais do calvinismo. Por isso ele entra nesta série como simpatizante do arminianismo, e não como arminiano clássico. Brian Abasciano, da Society of Evangelical Arminians, resumiu bem: ele nega a eleição incondicional e crê na possibilidade da apostasia, e pelo conteúdo do que defende está mais perto de Armínio do que de Calvino.

O ponto de partida é a incapacidade humana. Em Ten Teachings (1974), comentando Efésios 2:1-10, Williams descreveu o ser humano antes da salvação como morto, “sem esperança e sem ajuda”, incapaz de voltar a Deus ou de chegar sozinho a um arrependimento verdadeiro. O que rompe esse domínio do pecado é a cruz: em Cristo, Deus recebeu sobre si o seu próprio juízo, e Cristo morreu no nosso lugar e “fez o pagamento completo”. Cristo “morreu pelos pecados do mundo inteiro”, escreveu, mas não há nada de automático nisso; a salvação chega pela fé, e as obras não contribuem “absolutamente nada”.

Sobre a eleição, Williams afirmou que a eleição incondicional é uma visão extrema da soberania de Deus, que não deixa lugar nenhum para a decisão humana. Para ele, a eleição está ligada à fé: os eleitos são os que creem, e “sem fé não há eleição”. Quando um leitor lhe atribuiu a expressão “eleitos para crer”, ele corrigiu: tinha escrito “eleitos como crentes”, porque a primeira fórmula seria plenamente calvinista. Leu Mateus 22:14 (“muitos são chamados, mas poucos escolhidos”) como chamado universal, em que os escolhidos são os que respondem com fé, e afirmou que, se alguém fica de fora, isso não é obra de Deus. Rejeitou também a dupla predestinação, pois no Novo Testamento a palavra “predestinar” só aparece ligada à salvação. Mas guardava a prioridade de Deus: “Deus certamente tem a prioridade”, mas a resposta da fé precisa vir.

Na perseverança, a segurança do crente está em Deus, que lhe deu vida nova e habita nele pelo Espírito, e por isso ninguém precisa viver com medo de perder a salvação a cada tropeço (1 João 1:9). Mas a salvação pode ser perdida por quem deixa de permanecer em Cristo e continua pecando de forma persistente e deliberada, e Williams citava João 15:6 e Hebreus 10:26 como advertências reais aos crentes.

Até aqui, ele está de acordo com o arminianismo clássico e com a declaração de fé deste site. Mas Williams chegou a dizer que manter juntas a eleição e a fé evita o calvinismo extremo de um lado e o arminianismo do outro. Algumas fórmulas dele, como a de que os escolhidos o são “por sua própria decisão”, precisam ser lidas junto com o que ele disse sobre a morte espiritual e a prioridade de Deus; o arminianismo clássico prefere dizer que é a graça que liberta a vontade para crer. Há outra diferença na santificação: em Ten Teachings, Williams ensinou o crescimento contínuo em santidade, mas negou a perfeição de caráter nesta vida, enquanto a tradição wesleyana, seguida por este site, afirma a inteira santificação como obra da graça recebida pela fé.

O legado

Williams deu ao movimento carismático uma teologia sistemática completa, escrita por um teólogo de formação acadêmica que conversava com Calvino, com os pais da igreja e com o pentecostalismo clássico. Pentecostais como Stanley Horton e Antonio Gilberto trabalharam no mesmo campo; o brasileiro Gutierres Siqueira recomendou a tradução da obra como teologia pentecostal de fôlego. A trajetória dele mostra também um presbiteriano que chegou, pela leitura da Bíblia, à eleição condicional e à perseverança condicional; os textos sobre os decretos de Deus na teologia arminiana e sobre as diferenças entre metodistas e pentecostais ajudam a situar a posição dele.

Obras principais

  • Contemporary Existentialism and Christian Faith (1965).
  • The Era of the Spirit (1971).
  • The Pentecostal Reality (1972).
  • Ten Teachings (1974).
  • The Gift of the Holy Spirit Today (1980).
  • Renewal Theology, 3 vols.: God, the World, and Redemption (1988), Salvation, the Holy Spirit, and Christian Living (1990) e The Church, the Kingdom, and Last Things (1992); edição em um volume (1996).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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