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HistóriaTeólogos arminianos11 de 233

James D. Strauss: O professor de Lincoln que ensinou a levar cativo todo pensamento

Diego Gonçalves14 min de leitura2.710 palavras

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Neste texto

Em 1967, o Lincoln Christian Seminary, em Lincoln, no estado de Illinois, contratou um pastor para a cadeira de teologia e filosofia. A vaga tinha sido aberta pela demissão de um professor de ideias pouco ortodoxas, muito querido pelos alunos, e os estudantes protestaram. James D. Strauss ficou no seminário até 1994. Num dos anos, o catálogo da escola o listava como professor de 47 disciplinas, de Platão e Kant à filosofia da ciência, da exegese bíblica à pregação. Os alunos que passaram por ele eram chamados de “straussianos”, e muitos no Movimento de Restauração passaram a chamá-lo de “o Albert Einstein” da sua história.

Vida

De Herrin a Catlin

James Dean Strauss nasceu em 3 de julho de 1929, em Herrin, no sul de Illinois, filho de Earnest e Cleo Strauss. O pai, veterano da Primeira Guerra Mundial, era mineiro de carvão e guarda-livros; a mãe, enfermeira. Quando o menino estava na segunda série, a família mudou-se para Catlin, também em Illinois, onde ele passou o resto da infância e da juventude.

O pai vinha dos Discípulos de Cristo e a mãe era batista, mas nenhum dos dois frequentava igreja. Ainda adolescente, James trabalhava num armazém quando um freguês o convidou para a Igreja de Cristo de Catlin. Ele foi, converteu-se e levou os pais. Os presbíteros daquela igreja se tornaram os seus primeiros mestres: ensinaram-lhe métodos de estudo da Bíblia e o grego do Novo Testamento.

A Igreja de Cristo de Catlin pertencia ao Movimento de Restauração, também chamado movimento Stone-Campbell, nascido nos Estados Unidos no começo do século XIX com Barton Stone e Alexander Campbell. O movimento queria deixar os credos humanos e restaurar a igreja do Novo Testamento, e pregava o batismo por imersão como parte da resposta ao evangelho. Strauss serviu a vida inteira nas Igrejas Cristãs e Igrejas de Cristo, o ramo conservador desse movimento.

Os longos anos de estudo

Depois do colégio, Strauss foi para Cincinnati, no Ohio, estudar no Cincinnati Bible Seminary, a escola das Igrejas Cristãs, com R. C. Foster e Grayson Ensign. Fez o bacharelado e o mestrado na Butler University, em Indianápolis, e o bacharelado em divindade no Christian Theological Seminary, concluído em 1960, onde estudou com Walter Sykes. Fez ainda o mestrado em teologia na Chicago Graduate School of Theology. Na Universidade de Indiana cumpriu os requisitos de candidatura ao doutorado, mas a troca do corpo docente de um ano para outro desfez o programa e ele não chegou à tese. Mais tarde recebeu o doutorado em ministério do Eden Theological Seminary, em Webster Groves, no Missouri. Somou mais de quinhentas horas de créditos de pós-graduação.

Ao mesmo tempo pastoreava e escrevia. Desde 1958 publicava artigos na Christian Standard, a revista das Igrejas Cristãs, como “Three Titles for Christ” e “The Scriptures and Illness”. Em 1963 saiu o seu primeiro livro, um comentário do Apocalipse para a série Bible Study Textbook da College Press, de Joplin, no Missouri: The Seer, the Savior, and the Saved. Na dedicatória ele agradece aos pais, que se sacrificaram pela sua educação, ao casal Wayne e Janet Shaw, que o sustentaram “espiritual e financeiramente”, e à esposa, Jewel, e às duas filhas pequenas, Joye Lu e Jeaneen Kay, a quem tinha tomado o tempo por causa dos estudos prolongados. “Eu vivo diariamente dos esforços vicários dos outros”, escreveu.

Lincoln, 1967-1994

No Lincoln Christian Seminary, Strauss começou como professor associado de teologia e filosofia. Em pouco tempo dava a maior parte das disciplinas da casa: os filósofos clássicos e modernos, teoria do conhecimento, filosofia da ciência, linguística, arqueologia, o Iluminismo, o pecado, a teologia da promessa e a apologética. As apostilas tinham perto de cem páginas em espaço simples, com longas bibliografias comentadas.

Em 1969 publicou dois livros pela editora da escola, um deles sobre as missões à luz da natureza da igreja, e em 1973 escreveu verbetes para o Baker’s Dictionary of Christian Ethics, organizado por Carl F. H. Henry. Em 1974 publicou com Wayne Shaw Birth of a Revolution (Standard Publishing). Em 1975 entrou no debate entre calvinistas e arminianos com dois capítulos de Grace Unlimited, a coletânea organizada por Clark Pinnock que reuniu, entre outros, I. Howard Marshall, Jack Cottrell, Grant Osborne, Donald M. Lake, David Clines e A. Skevington Wood. Nas décadas de 1980 e 1990 escreveu ensaios longos no Journal for Christian Studies, a revista do seminário, sobre a ciência moderna, o marxismo e a hermenêutica.

Nesses anos, Strauss passava quase todos os fins de semana pregando e ensinando em igrejas e convenções pelo país. Em Lincoln funcionava um grupo de estudos de apologética, o Chi Lambda, cujos membros também eram conhecidos como straussianos. Um deles, John W. Loftus, contou depois que foi Strauss quem o fez querer ser apologista cristão. Loftus abandonou a fé anos mais tarde e se tornou escritor ateu, mas no tributo que publicou quando o professor morreu reconheceu que continuava usando o método que aprendera com ele.

Ao se aposentar, em 1994, Strauss recebeu o título de professor emérito de teologia e filosofia.

Os últimos anos

Em 1997, Richard Knopp e John Castelein, professores em Lincoln, organizaram em sua homenagem Taking Every Thought Captive (College Press). O título vem de 2 Coríntios 10:5, “levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo”, o lema da vida dele. O primeiro dos catorze ensaios se chama “A mente cristã: um tema straussiano sem variação”.

A universidade criou o James D. Strauss Institute e a James D. Strauss Worldview Lectureship, um ciclo anual de conferências sobre teologia, filosofia, apologética e cultura. A universidade atribui a ele a chegada do conceito de “cosmovisão bíblica” ao campus. Entre 2007 e 2011, Strauss reuniu em cinco livros parte dos seus escritos, entre eles uma teologia bíblica da graça, Pardon & Power (2008), e um estudo do seu movimento, Restoration: The Stone-Campbell Movement from the Enlightenment to Post-Modernism (2011).

James D. Strauss morreu em 19 de março de 2014, aos 84 anos, na The Christian Village, em Lincoln. Deixou Jewel, com quem foi casado por sessenta anos, e as duas filhas. A família pediu que, no lugar de flores, as doações fossem para o Strauss Institute.

Pensamento

Strauss foi um arminiano do Movimento de Restauração. A evidência mais clara está nos dois capítulos que escreveu para Grace Unlimited (1975), coletânea de autores evangélicos não calvinistas que D. A. Carson, ao resenhá-la, apresentou como exposição acadêmica de um dos lados do debate entre o evangelicalismo calvinista e o arminiano. O capítulo de Strauss sobre Romanos 9 foi mantido, atualizado, na reedição ampliada organizada por John D. Wagner com o título Grace for All: The Arminian Dynamics of Salvation. Já em 1963, no comentário do Apocalipse, ele tinha resumido a sua posição sobre a eleição: “nem o exclusivismo calvinista nem o inclusivismo universalista representam as doutrinas bíblicas”.

Cosmovisão e apologética

O centro do ensino de Strauss era a cosmovisão. Ele repetia que “toda verdade é verdade de Deus”, venha ela da ciência, da filosofia, da história ou da experiência, e que a fé cristã é a cosmovisão que melhor interpreta essas verdades. Daí a sua frase preferida em sala: “não precisamos de mais dados, precisamos de esquemas de interpretação melhores”. O seu ponto de partida era Deus. Ele dizia que, “se você não começa com Deus, nunca chega a Deus”. Strauss, porém, não seguia o pressuposicionalismo de Cornelius Van Til, que começa da Bíblia como revelação: argumentava que a existência de Deus dá mais sentido à Bíblia e ao mundo do que qualquer alternativa. Sobre o que é e para que serve essa disciplina, veja Apologética cristã.

O mesmo método aparece na leitura da Bíblia. No prefácio do comentário do Apocalipse, ele pede “humildade epistemológica” diante dos segredos que o livro ainda não revelou, e lembra que a mensagem básica do livro é clara.

Eleição, promessa e história

O primeiro capítulo de Strauss em Grace Unlimited se chama “God’s Promise and Universal History: The Theology of Romans 9” (“A promessa de Deus e a história universal: a teologia de Romanos 9”). Ele lê o capítulo de Paulo como a narrativa do destino histórico das nações, sobretudo de Israel, dentro do plano de Deus para a história universal, e não como um texto sobre o destino eterno de cada indivíduo. Thomas Schreiner, em artigo de 1993, citou Strauss como um dos defensores dessa leitura e a contestou. É uma leitura próxima da de Charles Edward White, e diferente da eleição corporativa de Brian Abasciano, para quem Deus elege um povo em Cristo e cada pessoa participa dessa eleição pela fé.

O comentário de 1963 mostra de onde vem essa leitura. Para Strauss, a eleição de Israel nasce do hesed, o amor fiel de Deus, e tem uma finalidade: “a eleição de Deus não é como o capricho arbitrário de um déspota; ela é sempre dirigida a um fim preciso, e esse fim é a salvação do homem”. Israel foi escolhido para uma missão em favor de toda a humanidade, e a obrigação da eleição é o serviço. Strauss cita com aprovação o estudioso H. H. Rowley: eleição e resposta andam juntas, e os que não respondem são a prova de que a eleição “não transforma o homem num fantoche”. Veja também A eleição condicional em Cristo.

Contra o determinismo de Jonathan Edwards

O segundo capítulo, “A Puritan in a Post-Puritan World: Jonathan Edwards” (“Um puritano num mundo pós-puritano”), ataca A liberdade da vontade (1754), o livro em que Jonathan Edwards sustentou que a vontade sempre segue o motivo mais forte e que isso não tira a responsabilidade moral. Strauss levanta três objeções. A primeira é que a definição de Edwards é circular: se a vontade é definida como o motivo mais forte, a ligação “necessária” entre motivo e ato fica provada por definição, e não por argumento. A segunda é que o próprio esforço de Edwards, “maciço e brilhante”, acaba gerando “uma redução ao absurdo da tese de que a ‘agência moral’ é logicamente conciliável com qualquer forma de determinismo radical” (p. 253). A terceira é que a presciência de Deus não torna necessário o que ele conhece de antemão.

O calvinista John Piper respondeu num artigo que procura defender Edwards nos três pontos. A discussão coloca Strauss na linha dos arminianos americanos que enfrentaram Edwards, como Daniel Whedon, Henry Tappan e Albert Bledsoe. Sobre o tema, veja Livre-arbítrio e graça: a vontade libertada.

Contra o universalismo

O outro lado da mesma convicção aparece no estudo que Strauss incluiu no comentário do Apocalipse, “O evangelho, o abismo da culpa e o universalismo ressurgente”. Ele parte do julgamento de Adolf Eichmann, em 1961, cujas primeiras palavras foram “não sou culpado”, para fazer a pergunta central do evangelho: como se atravessa o abismo da culpa entre o homem e Deus. Ele afirma “a incapacidade” do homem caído de suprir a própria necessidade, e a resposta está na cruz, onde Deus é ao mesmo tempo “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:26).

Strauss critica os teólogos que concluíam do amor de Deus a salvação de todos: Nels Ferré, Paul Tillich e Karl Barth, cuja doutrina da graça, diz ele, revela “o seu poder irresistível no triunfo da eleição em Cristo” (sobre a eleição em Barth, veja Querido Karl Barth, o que significa eleição para os indivíduos?). O argumento dele é que o amor de Deus é condição necessária da salvação, mas não condição suficiente, e lê 1 João como prova: “se amamos uns aos outros, Deus permanece em nós” (1 João 4:12). A conclusão do estudo é uma frase só: “O abismo da culpa foi transposto, mas somente para os que estão em Cristo!”

Perseverança, batismo e a distância do arminianismo clássico

Strauss ensinava que a salvação continua condicionada à fé. Comentando Apocalipse 17:14, que chama os que estão com o Cordeiro de “chamados, escolhidos e fiéis”, ele lembra 2 Pedro 1:10: se o crente não faz o que Pedro manda, “a nossa vocação e eleição não estão firmes”. Junto com isso vinha a ênfase do Movimento de Restauração no batismo. Lendo Atos 2:38, ele destaca os dois imperativos de Pedro, “arrependei-vos” e “seja batizado”, com a promessa da remissão dos pecados e do dom do Espírito, e combatia a prática da “membresia aberta”, que aceitava como membros os cristãos não imersos.

Em relação à declaração de fé deste site, as concordâncias são muitas: a eleição em Cristo e condicionada à fé, a graça que pode ser recusada, a perseverança condicional, a rejeição do universalismo e a afirmação da incapacidade humana diante da culpa. As diferenças estão em dois pontos. O site entende o batismo como testemunho público que segue a conversão (veja O que o batismo significa). E, nos escritos de Strauss, o acento cai na resposta que o evangelho ordena, enquanto o arminianismo clássico de Jacó Armínio e de John Wesley insiste que essa resposta só é possível porque a graça preveniente, obra do Espírito dada a todos, veio antes e libertou a vontade. Para a doutrina da perseverança, veja A perseverança dos santos.

Obras principais

  • The Seer, the Savior, and the Saved: A New Commentary, Workbook, Teaching Manual (College Press, 1963; reeditado em 1972).
  • The Christian and Twentieth Century Attacks on His Faith (1965).
  • Newness on the Earth Through Christ: In a Fragmented World Come of Age (Lincoln Christian College Press, 1969).
  • Challenge!!! Response??? World-wide Mission in Light of the Nature of the Church (Lincoln Christian College Press, 1969).
  • The Shattering of Silence: Job, Our Contemporary (College Press, 1971; reeditado em 1976).
  • Birth of a Revolution, com Wayne Shaw (Standard Publishing, 1974).
  • “God’s Promise and Universal History: The Theology of Romans 9” e “A Puritan in a Post-Puritan World: Jonathan Edwards”, em Grace Unlimited, org. Clark Pinnock (Bethany Fellowship, 1975).
  • Cosmic Specificity and Other Papers (2007).
  • Pardon & Power: A Biblical Theology of Grace (2008).
  • A Christian Response to Science and Other Papers (2011).
  • Postmodernism, the Emergent Church Movement, and Other Essays (2011).
  • Restoration: The Stone-Campbell Movement from the Enlightenment to Post-Modernism (2011).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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