
HistóriaTeólogos arminianos6 de 233
James Morison: O pregador escocês que anunciou que Cristo morreu por todos
No verão de 1839, um pregador de 23 anos viajou de vapor para Aberdeen lendo as Lectures on Revivals (Palestras sobre avivamentos) de Charles Finney. Ia para a Cabrach, um vale de pastores na divisa de Banffshire, onde a Igreja da Secessão mantinha uma pequena capela. No primeiro domingo, ao ver os homens de boina e as mulheres de touca branca, deixou de lado os sermões eruditos que trazia na mala e comentou de improviso o primeiro capítulo de Eclesiastes. À noite, no quarto de chão de terra, continuou com uma dúvida antiga: a Confissão de Westminster dizia que Cristo é o Redentor somente dos eleitos, e ele não sabia se era um deles. A resposta veio de textos como 1 João 2:2, onde Cristo é “a propiciação pelos pecados do mundo inteiro”: se Cristo morreu por todos, morreu por ele. No domingo seguinte, James Morison apontou para os bancos e disse que Cristo tinha morrido “por você, e por você, e por você”. Em quatro anos, essa convicção lhe custaria o lugar na igreja em que fora criado e daria origem a uma nova denominação escocesa.
Vida
Bathgate e Edimburgo
James Morison nasceu em 14 de fevereiro de 1816 em Bathgate, no condado de Linlithgow. O pai, Robert Morison, era o pastor da congregação da Igreja da Secessão na cidade, um dos ramos presbiterianos que tinham saído da Igreja da Escócia por causa do direito dos patronos de nomear pastores.
Na Universidade de Edimburgo, James chamou a atenção do professor John Wilson, o poeta conhecido como “Christopher North”, que escreveu no certificado dele que o aluno tinha mostrado tanta força intelectual quanto qualquer outro da sua turma. O excesso de estudo o levou a uma doença grave, e por meses temeu-se pela vida dele. Recuperado, entrou em 1834 no seminário da Igreja da Secessão Unida, em Edimburgo, e foi o aluno preferido de John Brown, professor de exegese, que no dia da licença para pregar, na primavera de 1839, o chamou de “a esperança” da igreja. De Brown herdou o gosto pelos livros e pela exposição cuidadosa das Escrituras.
O avivamento no norte
Depois da Cabrach, Morison pregou em Knockando, Elgin, Forres, Nairn, Tain e Lerwick, nas ilhas Shetland. Pregava todas as noites e ficava depois do culto conversando com quem o procurava. Em Nairn, numa igreja feita para cerca de 600 pessoas, mais de mil se apertaram dentro e às portas para ouvi-lo, e em catorze dias ele conversou em particular com 130 pessoas sobre a salvação. Em 1840 publicou a sua mensagem num folheto assinado como “Philanthropes”: The Question “What Must I Do to Be Saved?” Answered (A pergunta “Que devo fazer para ser salvo?” respondida).
Kilmarnock e a deposição
Ainda em 1840, a congregação de Clerk’s Lane, em Kilmarnock, chamou Morison para pastor. Na manhã da ordenação, em 29 de setembro, membros do presbitério o interrogaram por uma hora na sacristia, enquanto a igreja esperava. Achavam que o folheto ensinava que todos já estavam perdoados. Morison mostrou a diferença entre dizer que Cristo morreu por todos para que todos pudessem ser perdoados e dizer que todos já estavam perdoados, e prometeu recolher o folheto.
O folheto continuou circulando em outras edições, e Morison publicou ainda o sermão Not Quite a Christian (Quase cristão), que chegou a 27 mil exemplares, e The Nature of the Atonement (A natureza da expiação, 1841). Em 9 de março de 1841, o presbitério o suspendeu. As acusações incluíam a expiação universal, a ideia de que quem crê pode ter certeza da salvação e a afirmação de que Deus não exige de ninguém além das suas forças. Em 11 de junho, o sínodo confirmou a suspensão, embora John Brown tenha defendido o antigo aluno. Morison não reconheceu a sentença e continuou pregando. A congregação ficou com ele e ganhou 578 membros em dois anos. Naquele ano ele se casou com Margaret Dick, de Edimburgo, com quem teve três filhos. Em 1842 foi suspenso o pai, e em 1843 os pastores Alexander Rutherford, de Falkirk, e John Guthrie, de Kendal.
A União Evangélica
Entre 16 e 18 de maio de 1843, os quatro ministros suspensos e nove leigos se reuniram ao lado da capela de Clerk’s Lane. Robert Morison presidiu, e James leu o projeto que deu origem à União Evangélica (Evangelical Union). A primeira sessão aconteceu dois dias antes da Ruptura que criou a Igreja Livre da Escócia. A declaração aprovada dizia que a Bíblia era o único padrão de fé e que o texto não serviria como teste de comunhão. Os seus membros falavam das “três universalidades”: a expiação é para todos, a influência do Espírito Santo alcança todos, e a fé é simples, um crer no testemunho de Deus.
Na mesma reunião, a União abriu em Kilmarnock um seminário para formar pastores, e Morison foi o seu professor de teologia exegética e diretor até morrer. O movimento cresceu quando, em 1844, nove estudantes foram expulsos da academia congregacional de Glasgow por terem adotado as ideias “morisonianas”, e quando, em 1845, igrejas desligadas da União Congregacional da Escócia se juntaram a ele.
Nesses anos a teologia de Morison mudou num ponto. Em 1841 ele ainda defendia a eleição incondicional na aplicação da redenção: Cristo teria morrido por todos, mas só os eleitos receberiam a graça que leva à fé. Era o calvinismo moderado da redenção hipotética. Logo depois dos processos, o pai começou a lhe escrever apontando a contradição, e os dois passaram a pôr o limite da salvação na recusa culpada do ser humano, e não numa graça que Deus retém.
Glasgow
Em outubro de 1851, Morison mudou-se para Glasgow, onde foi construída para ele, em 1853, a igreja da North Dundas Street. De 1854 a 1867 editou a revista trimestral Evangelical Repository. Em 1854 o colega John Guthrie publicou em inglês a vida de Jacó Armínio escrita por Caspar Brandt.
Os comentários a Romanos 3 (1866), Mateus (1870) e Marcos (1873) deram a Morison o lugar de exegeta sério. Recebeu o título de doutor em teologia da universidade de Adrian, no Michigan, em 1862, e da Universidade de Glasgow em 1883. O filho mais velho, Robert, morreu em 1873 a caminho da Austrália, e Margaret morreu em 1875. Em 1877 Morison casou-se com Margaret Aughton, de Preston. Deixou o pastorado em 1884, sucedido pelo genro, George Gladstone.
No jubileu do seu ministério, em 1889, recebeu o retrato pintado por Robert Gibb. Em 1890, uma proposta para anular a sentença de 1841 foi derrotada na Igreja Presbiteriana Unida, herdeira da Secessão, mas em julho de 1893 mais de 1.900 leigos dessa igreja assinaram uma mensagem de homenagem a ele. James Morison morreu em casa, em Glasgow, em 13 de novembro de 1893, e foi sepultado na Necrópole da cidade. Em 1896, mais de noventa igrejas da União Evangélica se uniram à União Congregacional da Escócia.
Pensamento
Onde ele fica
Morison chegou ao arminianismo vindo do calvinismo moderado, e não do metodismo. Ensinou a expiação universal, a eleição condicional e a perseverança condicional, e costuma ser apontado como o primeiro a popularizar o arminianismo na Escócia. Na União, a leitura dos textos sobre a eleição era defendida abertamente como “interpretação arminiana”, e os seus autores reconheciam a mesma leitura nas Institutas teológicas de Richard Watson. Em dois pontos, porém, Morison se afasta do arminianismo clássico de Armínio e de John Wesley: na explicação da expiação e na descrição da incapacidade humana.
Cristo morreu por todos
A declaração de 1843 parte de 1 João 4:8, “Deus é amor”, e conclui que a propiciação foi feita “por todo pecado de todo pecador no mundo”. Se Cristo morreu só pelos eleitos, dizia Morison no processo de 1841, o pregador não pode oferecer a salvação a todos os ouvintes. O site defende a mesma expiação para todos.
Para explicar o que a cruz fez, Morison seguiu a teoria governamental, associada a Hugo Grócio e, mais tarde, a John Miley. Em The Nature of the Atonement ele escreve que a expiação não é “o pagamento de uma dívida”, e sim um recurso introduzido no governo moral de Deus que removeu os obstáculos legais entre o ser humano e a salvação. A cruz mostra ao universo o quanto Deus odeia o pecado, e por isso Deus pode perdoar sem parecer indiferente à sua lei. A declaração de fé do site entende a cruz como satisfação penal substitutiva (Capítulo 29: A expiação), e aqui está a principal distância entre os dois. Mesmo assim, no comentário a Romanos 3, Morison defende a justificação forense: Deus declara justo o crente por causa da justiça de Cristo, que lhe é “imputada” pela fé.
A fé que recebe
O livro Saving Faith (A fé salvadora, 1842) insiste que a Bíblia fala em ser salvo “pela” fé e “por meio da” fé, nunca “por causa da” fé. Ao crer, escreve Morison, “só vimos receber, na mão vazia, a esmola divina da salvação”. É quase a imagem do mendigo que estende a mão, que Armínio usou na Apologia contra 31 artigos (1609).
A fé, para ele, é dom de Deus e ao mesmo tempo ato real da pessoa. Comentando João 6:44, diz que o Pai atrai o coração, “mas não o arrasta”, e atrai ensinando, pelo Espírito, de modo que quem crê reconhece que crê pela graça. A declaração da União atribui “a Deus somente” a “glória inteira” de cada conversão. Daí vinha a ênfase de Morison na certeza da salvação: a fé é crer no testemunho de Deus, e quem crê pode ter paz sem depender de “estados e sentimentos”.
Eleição e Romanos 9
A Exposition of the Ninth Chapter of Romans (1849, ampliada em 1888) é o livro mais conhecido de Morison. Ele conta ali como Armínio, ao estudar o capítulo para defender Beza, foi abandonando a predestinação absoluta. Para Morison, Paulo discute em Romanos 9 a pretensão dos judeus de que a descendência de Abraão garantia a salvação. “Amei Jacó, mas aborreci Esaú” fala de dois povos e do papel de cada um na história, e não da salvação ou condenação eterna de dois indivíduos. Leituras arminianas posteriores do capítulo aparecem nas biografias de Brian Abasciano e de Charles Edward White.
No mesmo livro, Morison explica que “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” traz uma condição implícita: “e se perseverares na fé até o fim”. É a perseverança condicional, a mesma da declaração de fé do site.
A capacidade humana e a obra do Espírito
Aqui Morison fica mais longe do arminianismo clássico. Na defesa de 1841, apoiado em Jonathan Edwards, distinguiu a capacidade natural da incapacidade moral: todo ser humano tem as faculdades necessárias para crer e por isso é responsável, e a incapacidade está só na falta de vontade. Por isso dizia que o Espírito não dá ao pecador poder para crer; o Espírito “abre o coração” e o leva a prestar atenção à verdade, e a verdade compreendida produz a fé. A declaração de 1843 fala de uma influência do Espírito exercida por meio da Bíblia, da pregação e das circunstâncias da vida. É uma linguagem próxima da de Charles Finney, cuja pregação na Escócia, em 1859, ficou quase restrita às igrejas da União.
Morison afirmava a culpa e a depravação totais do ser humano e atribuía a Deus a iniciativa e toda a glória da salvação. Mas Armínio ensinava mais, nas Disputas públicas e na Declaração de Sentimentos (1608): a vontade caída está “perdida” para o bem e precisa ser libertada pela graça antes de qualquer resposta. A declaração de fé do site segue Armínio e Wesley: somos incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar, e a graça preveniente, dada a todos, capacita a pessoa a responder ao evangelho. Morison concorda que o Espírito age em todos e antes da fé, mas põe a incapacidade só na vontade e descreve a ação do Espírito como persuasão pela verdade.
Santificação
Em St. Paul’s Teaching on Sanctification (1886), uma exposição de Romanos 6, Morison explica que o crente “morreu para o pecado” porque, unido a Cristo pela fé, participa da morte que Cristo sofreu como representante dos pecadores. O perdão recebido a tão alto preço move o coração a amar e obedecer: “Nós o amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19).
Obras principais
- The Question “What Must I Do to Be Saved?” Answered (1840)
- Not Quite a Christian (1840)
- The Nature of the Atonement (1841)
- The Extent of the Propitiation (1842)
- Saving Faith (1842)
- Evangelical Union: Its Origin, with a Statement of Its Principles (1843)
- An Exposition of the Ninth Chapter of Paul’s Epistle to the Romans (1849; 1888)
- A Vindication of the Universality of the Atonement (1861)
- A Critical Exposition of the Third Chapter of Paul’s Epistle to the Romans (1866)
- A Practical Commentary on the Gospel according to St. Matthew (1870)
- A Practical Commentary on the Gospel according to St. Mark (1873)
- St. Paul’s Teaching on Sanctification (1886)
- Sheaves of Ministry (1890)
Para aprofundar
- Alexander Gordon, “Morison, James (1816-1893)”, Dictionary of National Biography, vol. 39 (1894), no Wikisource.
- F. Ferguson, A History of the Evangelical Union, from Its Origin to the Present Time (Glasgow, 1876), no Internet Archive.
- “Evangelical Union”, The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 4, na Christian Classics Ethereal Library.
- “Evangelical Union”, Encyclopaedia Britannica, 11ª edição (1911), no Wikisource.
- “Sailing for the Kingdom of God”, Christian History, número sobre Charles Finney.
- “James Morison (evangelical)”, Wikipédia em inglês.
- James Morison e outros, Evangelical Union: Its Origin, with a Statement of Its Principles (Kilmarnock, 1843), no Internet Archive.
- James Morison, The Nature of the Atonement e The Extent of the Propitiation, no Internet Archive.
- James Morison, “Saving Faith” (9ª edição, Toronto, 1886), no Internet Archive.
- James Morison, Exposition of the Ninth Chapter of the Epistle to the Romans (1888), no Internet Archive.
- James Morison, A Critical Exposition of the Third Chapter of Paul’s Epistle to the Romans (1866), no Internet Archive.
- James Morison, St. Paul’s Teaching on Sanctification (1886), no Internet Archive.
- Robert Gibb, Rev. James Morison, 1816-1893, National Galleries of Scotland.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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