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HistóriaTeólogos arminianos16 de 233

Steve Harper: O professor que decifrou o manual de orações de Wesley

Diego Gonçalves12 min de leitura2.447 palavras

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Neste texto

Entre 1727 e 1732, o jovem John Wesley manteve em Oxford um manual de orações escrito numa mistura de taquigrafia e símbolos que só ele entendia. Por volta de 1732, no fim de um dos seus diários, montou também um quadro para medir a própria vida espiritual: cada vez que falhava numa pergunta fixa, fazia uma marca, e no fim da semana somava as falhas. Quase dois séculos e meio depois, um pastor metodista do Texas que fazia doutorado na Universidade Duke foi o primeiro a transcrever aquele manual num texto inteiramente legível. Ele se chamava J. Steven Harper, conhecido como Steve Harper, e passou os trinta anos seguintes ensinando que a piedade de John Wesley era um caminho de graça, e não um placar de falhas.

Vida

Texas e Asbury

Harper se descreve como cristão wesleyano a vida inteira. Lembra que os pais tratavam como amigas todas as pessoas, e diz ter herdado deles e da igreja da infância a convicção de que o fruto do Espírito é o retrato da semelhança com Cristo. Formou-se na McMurry University, faculdade metodista de Abilene, no Texas, e casou-se com Jeannie em 1970. Tiveram dois filhos.

Fez o mestrado em divindade no Seminário Teológico Asbury, em Wilmore, no Kentucky, e concluiu o curso em 1973. Lá aprendeu o estudo bíblico indutivo, o método de ler um livro da Bíblia inteiro, observando o texto antes de interpretá-lo, que ele mesmo ensinaria depois. Foi ministro de jovens, evangelista e pastor na Conferência Anual do Noroeste do Texas, da Igreja Metodista Unida, onde serviu como presbítero por mais de três décadas, até 2004.

Duke e Frank Baker

Em 1977, Albert Outler e o evangelista Edmund W. Robb Jr. criaram A Foundation for Theological Education (AFTE), com o objetivo de fortalecer a tradição wesleyana evangélica nos seminários metodistas unidos. A fundação passou a pagar bolsas de doutorado a jovens pastores, os John Wesley Fellows. O primeiro escolhido foi Steve Harper.

Com a bolsa, ele foi para Duke e estudou sob Frank Baker, o editor das obras críticas de Wesley, que presidiu a sua banca. A tese, The Devotional Life of John Wesley, 1703-38, defendida em 1981, estudou a vida devocional de Wesley do nascimento até 1738, com a lista completa das leituras devocionais dele, e trouxe a transcrição do manual de orações.

Professor de formação espiritual

De 1980 a 1992, Harper ensinou formação espiritual no Seminário Asbury, em Wilmore. Os programas dos seus cursos no seminário mostram o tom do ensino: uma disciplina sobre a vida espiritual do pastor e outra construída em torno de uma ordem que Wesley deu aos seus pregadores, “lê e ora diariamente”. Nesses anos publicou John Wesley’s Message for Today (1983), uma exposição do caminho da salvação em Wesley, e Devotional Life in the Wesleyan Tradition (1983), que a Imprensa Metodista traduziu no Brasil em 1992.

Em 1992 deixou a sala de aula para cuidar de pastores. Com Jeannie fundou o Shepherd’s Care, um ministério de apoio a ministros, e de 1993 a 1996 dirigiu a AFTE. Em entrevista à Christianity Today naquele ano, disse que a fundação queria ser um catalisador evangélico de renovação no ensino teológico metodista unido. Harper acrescentou que as necessidades futuras da denominação estavam mais na pregação e no evangelismo do que na academia, e falou em criar “academias Aldersgate” para formar leigos.

De 1996 a 1998 foi deão da capela e diretor da Pathways Initiative no Upper Room, o ministério devocional da Igreja Metodista Unida, em Nashville. Ainda nos anos 1990, o Movimento Confessante, a corrente evangélica que pedia a volta da denominação às suas doutrinas históricas, publicou um opúsculo dele, Applying Wesleyan Distinctives to the Crisis of Our Church.

O campus da Flórida

Em 1998 o Seminário Asbury o chamou de volta para fundar o seu campus da Flórida, em Orlando, hoje Florida Dunnam Campus. Harper foi vice-presidente e diretor do campus até 2009 e continuou lecionando formação espiritual e estudos wesleyanos até 31 de dezembro de 2012. Em 2004 transferiu-se para a Conferência Anual da Flórida, pela qual se aposentou em 2012. Recebeu o Prêmio Francis Asbury em 2004 e, em 2012, o prêmio de ex-aluno de destaque do seminário.

Nesses anos escreveu o capítulo wesleyano de Four Views on Eternal Security (2002), organizado por J. Matthew Pinson, e revisou o livro de 1983, que reapareceu como The Way to Heaven: The Gospel According to John Wesley (2003), com dois capítulos novos sobre a missão de Wesley e a atualidade da sua mensagem. Em Talking in the Dark (2007), escreveu para quem tinha parado de orar porque a vida parecia injusta.

A mudança de 2014

Por décadas Harper esteve no grupo que, nos debates metodistas, se chamava “acolhedor, mas não afirmativo”: recebia pessoas homossexuais na igreja, mas não aceitava a união entre pessoas do mesmo sexo nem a ordenação de quem vivia nela. Na Quaresma de 2014, orando com o Livro de Oração Comum, chegou às orações pela cura das divisões e concluiu que não podia continuar a fazê-las mantendo a posição antiga. Daquele ano em diante defendeu a inclusão plena, com ordenação e casamento.

O primeiro livro dessa fase foi For the Sake of the Bride (2014), sobre a unidade da igreja no meio da briga pela sexualidade, apoiado no missionário metodista E. Stanley Jones. Depois da Conferência Geral Especial de 2019, que manteve as proibições da Igreja Metodista Unida, publicou Holy Love: A Biblical Theology for Human Sexuality (2019). Em 2020 contou a sua mudança numa série de depoimentos que acompanhou a carta de ex-alunos e ex-professores pedindo ao Seminário Asbury que se arrependesse do tratamento dado a alunos LGBT.

A obra mais recente

A produção wesleyana continuou. Five Marks of a Methodist (2015) comenta o folheto de Wesley O caráter de um metodista (1742) em cinco marcas: o metodista ama a Deus, alegra-se em Deus, dá graças, ora sem cessar e ama o próximo. Em 2026, a editora metodista unida escolheu o livro como ponto de partida para os estudos das conferências anuais.

Desde 2010 ele escreve no Oboedire, nome tirado do verbo latino “obedecer”, que ele define como ouvir com a intenção de pôr em prática o que se ouviu, a partir de Lucas 11:28. Mora em Winter Springs, na Flórida.

Pensamento

Um wesleyano

Harper é wesleyano. Foi convidado a escrever, em Four Views on Eternal Security, a “visão arminiana wesleyana”, ao lado de Michael Horton (calvinismo clássico), Norman Geisler (calvinismo moderado) e Stephen Ashby (arminianismo reformado). Toda a sua carreira acadêmica foi dedicada a Wesley, e toda a sua vida ministerial, à Igreja Metodista Unida.

Graça do começo ao fim

No capítulo de 2002, Harper começa pelo método teológico de Wesley e chega à graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Por ela Deus restaura de modo sobrenatural, em todas as pessoas, uma medida de liberdade, de modo que cada uma possa dizer sim ou não ao evangelho. A liberdade de crer, portanto, vem da graça, e não da natureza caída. Horton objetou que, assim, a fé tornaria a salvação efetiva e acrescentaria algo humano à obra de Cristo. O arminianismo clássico responde, desde Armínio, com a imagem do mendigo que estende a mão vazia: receber um presente não acrescenta mérito nenhum a ele.

Harper sustenta ainda que Wesley entendia a cruz como satisfação penal substitutiva, em que Cristo leva a pena do pecado no lugar do pecador, e não pela teoria governamental adotada por arminianos posteriores. Também afirma a soberania de Deus: os desígnios fundamentais de Deus na criação e na redenção, escreve ele, não podem ser frustrados no fim.

Segurança e perseverança

Sobre a segurança da salvação, Harper escreve que “estamos seguros em Cristo”, ainda que os cristãos divirjam sobre a natureza dessa segurança e sobre se algo pode fazê-la ser perdida (Four Views, p. 218). A posição dele é a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé. Seguindo Wesley, ele separa o pecado deliberado das falhas involuntárias. O pecado deliberado de que o crente não se arrepende se torna “mortal” e pode levá-lo a cair da graça; a falha involuntária só tem esse efeito quando, descoberta, é deixada sem cuidado (p. 240). Ashby, na sua resposta, resumiu a diferença entre os dois: para Harper, quem cai da graça não cai para fora do alcance da graça e pode ser restaurado, enquanto o arminianismo reformado considera a apostasia sem remédio.

A vida devocional como meio de graça

O centro do trabalho de Harper está em outro lugar, nos meios de graça, os canais que Deus instituiu para comunicar a sua graça. Em A vida devocional na tradição wesleyana, ele segue a divisão de Wesley entre os meios instituídos por Cristo (a oração, as Escrituras, a Ceia do Senhor, o jejum e a conferência cristã, isto é, a conversa espiritual nos pequenos grupos) e os meios prudenciais, que a igreja desenvolveu com o tempo, entre eles as obras de misericórdia.

Ele vê na vida de Wesley cinco marcas: realismo, disciplina, amplitude, comunidade e vínculo com a igreja. O realismo aparece no quadro de falhas de 1732, que Harper chama de “devocionalismo derrotista” e que Wesley acabou abandonando. A lição é que “é pela aplicação da graça de Deus, e não pela ampliação dos nossos problemas”, que a formação espiritual avança. A disciplina vale sobretudo nos tempos de secura, porque a vida de oração se apoia na vontade e não nas emoções. A comunidade e a igreja impedem que a devoção vire religião particular: “ninguém pode ser um cristão em isolamento”, e por isso Wesley comungava a cada quatro ou cinco dias e ficou na Igreja da Inglaterra apesar dos defeitos dela.

Sobre a Bíblia, o Harper de 1983 é taxativo. Os herdeiros de Wesley precisam afirmar a autoridade das Escrituras como a norma da fé e da vida, e não como uma fonte entre outras, porque a Bíblia é “o padrão pelo qual os resultados da tradição, razão e experiência são avaliados”. É a leitura correta do quadrilátero wesleyano. Ao mesmo tempo, Harper insiste que o valor principal da Escritura é devocional: ela leva homens e mulheres ao encontro com Deus. Em 2015, num artigo para a revista Christian History sobre a Regra de Bento e a Regra pastoral de Gregório Magno, ligou as duas à prática metodista de “vigiar uns aos outros em amor”.

Sexualidade e interpretação

Em Holy Love, Harper propõe uma “hermenêutica do amor” e afirma que o ponto em disputa “não é a inspiração e a autoridade da Escritura, mas a sua interpretação e aplicação”. Na sua leitura, o ensino bíblico é compatível com o amor de aliança entre pessoas de qualquer orientação sexual. Ele atribui a mudança à oração, ao convívio ecumênico e às amizades com cristãos homossexuais, e cita entre as influências Phyllis Tickle e Brian McLaren.

Em diálogo com a nossa declaração de fé

Harper e a nossa declaração de fé têm muito em comum: a graça preveniente dada a todos e resistível, a cruz como satisfação penal substitutiva, a perseverança condicional e, quase palavra por palavra, a lista dos meios de graça, com as obras de piedade e as de misericórdia. Há duas diferenças. A primeira é a sexualidade: cremos que a Escritura ensina com clareza o que agrada a Deus nessa área e que a igreja deve acolher cada pessoa com graça e verdade, como está em Homossexualidade e Bíblia: acolhimento sem hipocrisia. Para isso usamos a regra que o próprio Harper escreveu em 1983: a Bíblia julga a tradição, a razão e a experiência. A segunda é a leitura recente que ele faz das religiões do mundo e da chamada tradição perene, de onde, para ele, todas as religiões nasceram: nós afirmamos que Deus se revelou de modo único em Jesus Cristo e que a salvação vem somente pela fé nele. Isso não apaga o que Harper ensinou a gerações de pastores sobre a oração, a Palavra e a Ceia na escola de Wesley.

Obras principais

  • The Devotional Life of John Wesley, 1703-38 (tese de doutorado, Duke University, 1981).
  • John Wesley’s Message for Today (1983); 2.ª ed. revista: The Way to Heaven: The Gospel According to John Wesley (2003).
  • Devotional Life in the Wesleyan Tradition (1983); versão em caderno de estudo (1995).
  • Embrace the Spirit (1987).
  • Praying Through the Lord’s Prayer (1992).
  • “A Wesleyan Arminian View”, em J. Matthew Pinson (org.), Four Views on Eternal Security (2002).
  • Talking in the Dark: Praying When Life Doesn’t Make Sense (2007).
  • For the Sake of the Bride: Restoring the Church to Her Intended Beauty (2014).
  • Five Marks of a Methodist: The Fruit of a Living Faith (2015).
  • Stepping Aside, Moving Ahead: Spiritual and Practical Wisdom for Clergy Retirement (2016).
  • Holy Love: A Biblical Theology for Human Sexuality (2019).
  • Life in Christ (2020).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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