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James Leo Garrett Jr.: O teólogo batista que escreveu a história da teologia batista
No verão de 1950, um professor de 24 anos e a sua esposa viajaram do Texas até Cleveland, em Ohio, no banco de trás do carro de um amigo. Iam ao oitavo congresso mundial da Aliança Batista Mundial. Ele lembraria que os dois estavam “pobres como o peru de Jó” e que ali firmaram o compromisso com a família batista do mundo. O rapaz era James Leo Garrett Jr., recém-contratado pelo Seminário Teológico Batista do Sudoeste, em Fort Worth. Ao morrer, quase setenta anos depois, ele seria lembrado como o decano dos teólogos batistas do Sul e o autor da obra que muitos consideram a melhor história do pensamento batista.
Vida
Waco
Garrett nasceu em 25 de novembro de 1925, em Waco, no Texas. Foi filho único de James Leo Garrett Sr., professor de contabilidade em Baylor, e de Grace Hasseltine Jenkins Garrett, professora. Aos dez anos professou a fé em Cristo e, em 1935, foi batizado na Seventh and James Baptist Church. A Primeira Igreja Batista de Waco lhe deu a licença para pregar e depois o ordenou.
Formou-se em inglês por Baylor em 1945 e em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sudoeste, em Fort Worth, em 1948. No mesmo ano se casou com Myrta Ann Latimer, também formada pelo seminário, bibliotecária e companheira de ministério por 67 anos. Em 1949 concluiu o mestrado em teologia em Princeton. Enquanto estudava, pastoreou três pequenas igrejas batistas.
Fort Worth e Louisville
Em 1949 o Sudoeste o chamou para ensinar teologia sistemática e histórica, e ele ficou até 1959. O seu mestre ali foi W. T. Conner, que dava forma ao pensamento do seminário desde 1910, e sobre a teologia de Conner Garrett escreveu a tese de doutorado que defendeu em 1954. Em 1950 introduziu no currículo um curso de teologia católica romana, novidade na formação teológica da convenção.
Em Harvard, sob a orientação do historiador George Hunston Williams, preparou o ensaio de 1957 The Nature of the Church According to the Radical Continental Reformation, sobre a ideia de igreja dos anabatistas, dos espiritualistas e dos antitrinitários do século XVI.
De 1959 a 1973 ensinou teologia histórica e cristã no Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, no Kentucky. Quando Martin Luther King Jr. foi convidado a falar no seminário, Garrett esteve entre os professores que mantiveram o convite e receberam King, apesar da controvérsia na convenção, da presença da polícia no campus e do aviso do presidente da escola de que o gesto custaria milhares de dólares ao seminário. Em 1965, no texto “Recovering My Priesthood”, contou como uma viagem a um campo missionário e a preparação de uma marcha pelos direitos civis, que viu em Washington, o fizeram perguntar se tinha selado o seu testemunho “com obras de misericórdia e compaixão”.
Em 1965 Garrett assistiu à quarta e última sessão do Concílio Vaticano II, em Roma, como convidado do Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos. No mesmo ano saiu Baptists and Roman Catholicism, e em 1966 ele concluiu o doutorado em Harvard, com uma tese sobre os escritos protestantes americanos acerca do catolicismo. Em 1967 coordenou em Louisville a Conferência sobre o Conceito da Igreja dos Crentes, a primeira de uma longa série. De 1968 a 1975 presidiu a Comissão de Estudo sobre Cooperação Cristã da Aliança Batista Mundial.
Baylor e a volta ao Sudoeste
De 1973 a 1979 Garrett esteve em Baylor, como diretor do Instituto J. M. Dawson de Estudos sobre Igreja e Estado, editor do Journal of Church and State e professor de religião. Em 1979 voltou ao Sudoeste, onde ensinou até se aposentar, em 1997, como professor emérito de teologia.
Os alunos o chamavam de “Garrett Metralhadora”, pelo ritmo das aulas, e diziam ter sobrevivido à “teologia com o Leo”. Robert Stewart lembra que, quando um aluno começou uma pergunta com “Calvino não disse…?”, Garrett respondeu que acreditava ter lido tudo o que Calvino escreveu e não se lembrava de nada parecido.
Na disputa sobre a inerrância que dividiu a Convenção Batista do Sul a partir de 1979, Garrett afirmava a inspiração plena das Escrituras, “verdade sem mistura de erro”, mas evitava a palavra “inerrância”. Ao ex-aluno Malcolm Yarnell explicou, com lágrimas, que muitos a usavam como arma política “para ferir pessoas que eu amo”.
Em 1990 e 1995 saíram os dois volumes da Systematic Theology: Biblical, Historical, and Evangelical, cerca de 1.500 páginas, e em 1996 a tradução espanhola.
Os últimos anos
Na aposentadoria Garrett continuou escrevendo. Em 2007, a convite do jornal The Alabama Baptist, escreveu seis artigos sobre os batistas e o calvinismo, e em 2009 publicou Baptist Theology: A Four-Century Study, com mais de cem teólogos batistas estudados ao longo de quatro séculos, que o ex-aluno David Dockery chamou de “a melhor fonte sobre a história do pensamento batista já publicada”.
O casal foi por muitos anos membro da Meadowridge Community Baptist Church, uma igreja multirracial. Myrta morreu em 2015. A partir de 2017 saíram, em oito volumes, os seus escritos reunidos. Ele morreu em 5 de fevereiro de 2020, em Nacogdoches, no Texas, aos 94 anos, deixando três filhos. Dockery o chamou de “o principal teólogo batista da segunda metade do século XX”, e Yarnell, numa pregação na capela do Sudoeste, o descreveu como “o último dos teólogos cavalheiros”.
Pensamento
Onde ele fica
Classe: simpatizante. Garrett nunca se apresentou como arminiano e se situava na linha batista de Fort Worth, que Dockery descreve como um quadro reformado modificado. Mas rejeitou o calvinismo de Dort em pontos centrais: entendeu a obra de Cristo como universal, e não limitada aos eleitos; não aceitou a dupla predestinação e escreveu que a eleição “não se sustenta nem cai” junto com a reprovação, como se esta fosse a sua doutrina gêmea; e escreveu, em 2010, o prefácio de Whosoever Will, a crítica batista ao calvinismo de cinco pontos organizada por David Allen e Steve Lemke. Ao mesmo tempo, deixou em aberto a pergunta sobre se a eleição depende da presciência que Deus tem da fé, e por isso fica longe de Jacó Armínio, que respondeu a essa pergunta na Declaração de Sentimentos. Na justificação seguiu a doutrina protestante clássica, a declaração de justiça pela graça mediante a fé, e na cruz afirmou ao mesmo tempo a substituição e a vitória de Cristo sobre os poderes. Em 2008 ele chamou Roger Olson de “o principal defensor batista do arminianismo”, papel que nunca reivindicou para si.
A eleição como ponte
O capítulo sobre a eleição na Systematic Theology segue o método da obra: o Antigo Testamento, o Novo e depois as perguntas sistemáticas com as respostas que a história deu. A doutrina, escreve Garrett, “pressupõe um Deus pessoal” que tem o propósito de salvar as suas criaturas e é capaz de realizá-lo na história. Depois ele pergunta se a eleição implica a reprovação, se abrange toda a humanidade, se é chamado ao serviço ou também à salvação, se ajuda ou atrapalha a pregação e se é escolha de indivíduos ou de um povo.
Garrett afirma a eleição individual e a coletiva, mas insiste na coletiva: Deus está salvando para si um povo. Por isso chama a eleição de “ponte” entre a doutrina da vida cristã e a da igreja. É uma ênfase próxima da leitura que o site chama de eleição condicional em Cristo, em que o povo é eleito no Eleito, embora Garrett não feche a questão da condição.
Ele foi exigente também com quem pendia para o outro lado. Ao estudar Herschel Hobbs, em 2011, descreveu a posição dele como calvinismo de um ponto, a perseverança, somado a uma postura arminiana nos outros quatro, e chamou a doutrina da eleição de Hobbs, para quem Deus elegeu um plano e não indivíduos, de “essencialmente arminiana”. E perguntou se Hobbs tinha protegido a soberania divina tanto quanto a liberdade humana. Em Baptist Theology registrou que, com Dale Moody, a teologia batista do Sul chegou a abraçar “as cinco teses do arminianismo original”.
O pêndulo
A imagem preferida de Garrett para a soteriologia foi a do pêndulo. Em 1997, no artigo “Should Southern Baptists Adopt the Synod of Dort?”, escreveu que o balanço extremo do pêndulo muitas vezes foi o caminho da heresia, e o equilíbrio, o grito da ortodoxia: como as duas naturezas de Cristo, a soberania de Deus e a responsabilidade humana “precisam ser equilibradas”.
Na série de 2007, publicada depois como o livreto Baptists and Calvinism: An Informational Examination, Garrett popularizou entre os batistas do Sul a expressão “calvinismo dortiano”, para os cinco pontos do Sínodo de Dort (1618-1619). Quem não segue Dort, escreveu, não precisa provar que a fé e o arrependimento não são, em nenhum sentido, dom de Deus; precisa apenas mostrar que são também deveres de todo ser humano. E pediu aos leitores que se perguntassem se as marcas do calvinismo dortiano devem pesar sempre mais do que a oração de Jesus pela unidade dos discípulos, em João 17.
O alvo mais constante das suas advertências foi o hipercalvinismo, que ele via como inimigo das missões, dos convites ao arrependimento e da santidade. Em 2010 propôs cinco marcas para identificá-lo: a ordem supralapsária dos decretos, um pacto de redenção feito antes do tempo, uma justificação eterna separada da fé, a recusa de oferecer a graça aos não eleitos e o antinomismo. Mas também via o perigo oposto, e num estudo de 1959-1960 resumiu: se os nossos antepassados ficaram “petrificados na rocha do hipercalvinismo”, nós estamos “untados no escorregador do ativismo”. O equilíbrio valia para os aliados: em 2008, quando o amigo Fisher Humphreys chamou de “batistas tradicionais” os não calvinistas, Garrett lembrou que a maioria dos batistas de língua inglesa foram calvinistas “em algum sentido do termo”.
A Escritura suprema
Sobre a autoridade da Bíblia, Garrett cunhou uma distinção que se espalhou entre os batistas. Num estudo de 1978 sobre as fontes de autoridade no pensamento batista, mostrou que as confissões e os teólogos batistas afirmaram a autoridade suprema das Escrituras, “distinta da autoridade única”. Daí a expressão suprema scriptura, ao lado de sola scriptura: a Bíblia está acima da tradição, da razão, da experiência e de qualquer outra fonte de autoridade. E a doutrina, para ele, era estrutura: não se vive o evangelho sem doutrina básica, assim como não se come boa carne “de uma vaca sem ossos”.
A igreja dos que creem
O assunto que atravessa a obra inteira de Garrett é a igreja. No ensaio de 1957 ele comparou as ideias de igreja da Reforma Radical, de Münster aos huteritas, e ficou com a dos anabatistas suíços e de Menno Simons. Concluiu que o debate ecumênico do século XX deveria ouvir a visão da igreja como uma irmandade de discípulos “reunida, batizada, separada e disciplinada”, e terminou com as palavras de Balthasar Hubmaier: “a verdade divina é imortal”. É a mesma linha que liga batistas e anabatistas.
Daí vieram as bandeiras práticas: a membresia regenerada, isto é, uma igreja formada só por quem dá sinais de ter nascido de novo, e a disciplina na igreja, que ele estudou em Baptist Church Discipline (1962), advertindo contra um “novo legalismo farisaico”. Três ex-alunos dele, Tom Ascol, Malcolm Yarnell e Bart Barber, deram a redação final à resolução sobre membresia regenerada que a Convenção Batista do Sul aprovou em 2008.
A liberdade religiosa foi o outro tema batista que ele defendeu a vida toda. Em 1964 a definiu como “liberdade de consciência no pleno exercício da fé e da prática religiosa”, e em 1991 advertiu que o batismo dos crentes por imersão e a liberdade religiosa para todos estavam se tornando “crenças batistas em extinção”. Na Systematic Theology chamou as leituras racistas da maldição de Caim, da maldição de Cam e da confusão das línguas de “modelo de eisegese”, isto é, de pôr no texto os próprios preconceitos. Nos diálogos com católicos, ortodoxos e pentecostais seguiu duas regras: representar os batistas com fidelidade e expor a posição dos outros em termos que eles mesmos aceitassem como exatos.
Diferenças com a declaração de fé do site
Além da questão da eleição, há três diferenças. A confissão da convenção a que Garrett serviu afirma que os verdadeiros crentes nunca cairão do estado de graça, enquanto a declaração do site entende a perseverança como condicional. Garrett defendeu o batismo por imersão como marca batista, e o site aceita também a aspersão. Na escatologia ele rejeitou o dispensacionalismo, como o site, e tratou com cuidado as dificuldades de Apocalipse 20, que o site lê em chave amilenista.
Obras principais
- The Nature of the Church According to the Radical Continental Reformation (1957)
- Baptist Church Discipline (1962)
- Baptists and Roman Catholicism (1965)
- The Concept of the Believers’ Church: Addresses from the 1967 Louisville Conference (org., 1969)
- Baptist Relations with Other Christians (org., 1974)
- Are Southern Baptists “Evangelicals”?, com E. Glenn Hinson e James E. Tull (1983)
- Systematic Theology: Biblical, Historical, and Evangelical (2 vols., 1990 e 1995)
- We Baptists (1999)
- Baptist Theology: A Four-Century Study (2009)
- The Collected Writings of James Leo Garrett Jr., 1950-2015 (8 vols., org. Wyman Lewis Richardson, 2017-2023)
Para aprofundar
- Baptist Standard, Obituary: James Leo Garrett (2020).
- Bob Allen, James Leo Garrett, theologian who influenced two generations of Baptist scholars, dead at 94, Baptist News Global (13 de fevereiro de 2020).
- Julie Owens e Alex Sibley, James Leo Garrett Jr., leading Baptist theologian, dies at 94, Baptist Press (7 de fevereiro de 2020).
- David S. Dockery, James Leo Garrett Jr. (1925-2020): A Tribute, Southwestern Baptist Theological Seminary (2020).
- Alex Sibley, Yarnell honors legacy of “Gentleman Theologian” James Leo Garrett, Southwestern Baptist Theological Seminary (2020).
- Southwestern Journal of Theology 65, nº 1 (2022), número dedicado a Garrett, com os artigos de David S. Dockery (“James Leo Garrett Jr. and the Southwestern Theological Tradition”), Wyman Lewis Richardson (“Currents, Methods, and Tendencies in The Collected Writings”), Malcolm B. Yarnell III (“The Social Theology and Political Theology of James Leo Garrett Jr.”), Jason G. Duesing e Robert B. Stewart.
- Roger S. Oldham, Election: God’s gracious purpose, Baptist Press (2010), sobre o capítulo da eleição na Systematic Theology.
- James Leo Garrett Jr., Herschel Harold Hobbs: Pastoral and Denominational Expositor-Theologian, Southwestern Journal of Theology 54, nº 2 (2012).
- James Leo Garrett, The Nature of the Church According to the Radical Continental Reformation (1957).
- Baptist Standard, Baby Boomer Baptist theologians tilt toward Calvinism (28 de abril de 2008).
- Timmy Brister, The Alabama Baptist and Dortian Calvinism: Response 4 (2007).
- Southwestern Baptist Theological Seminary, New series collects writings of notable Southwestern professor, scholar (2017).
- Wikipédia, James Leo Garrett Jr.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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