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Batistas e anabatistas: duas histórias, duas visões de mundo

Diego Gonçalves6 min de leitura1.215 palavras

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Neste texto

Muita gente ouve os nomes “batista” e “anabatista” e imagina que se trata de duas ramificações da mesma árvore familiar, separadas apenas por detalhes secundários. Afinal, os dois grupos rejeitam o batismo infantil e afirmam que a água do batismo só deve ser administrada a quem faz uma profissão consciente de fé em Cristo.

A semelhança externa, porém, esconde uma distância teológica, histórica e cultural enorme. Enquanto os batistas se desenvolveram como herdeiros do protestantismo histórico e abraçaram a responsabilidade cívica na sociedade, os anabatistas nasceram como a ala mais radical da Reforma do século dezesseis, optando por um discipulado contracultural, pacifista e distante das estruturas do poder terreno. Para compreender essa diferença, precisamos olhar para as raízes, a teologia e o modo como cada tradição enxerga o Reino de Deus.

Gravura antiga mostrando Felix Manz amarrado e lançado ao rio Limmat, em Zurique, diante de uma multidão
Heinrich Thomann, Afogamento de Felix Manz no rio Limmat, 5 de janeiro de 1527, ilustração de c. 1605. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O berço histórico e a ruptura inicial

Os anabatistas surgiram por volta de 1525 em Zurique, na Suíça. Jovens discípulos de Ulrico Zuínglio, liderados por Conrad Grebel, Felix Manz e George Blaurock, julgavam que a reforma conduzida pelo mestre avançava devagar demais e dependia em excesso da aprovação dos magistrados da cidade. Para eles, reformar a igreja medieval não bastava; era preciso restaurar a igreja do Novo Testamento. Quando decidiram batizar uns aos outros na idade adulta, em janeiro de 1525, desobedeceram tanto às leis da igreja quanto às do Estado. O apelido “anabatista”, que significa “rebatizador”, foi dado por seus perseguidores católicos e protestantes. Em 1527, Felix Manz tornou-se o primeiro mártir do grupo entre os protestantes, executado por afogamento no rio Limmat, em Zurique. Mais tarde, Menno Simons reuniu os sobreviventes nos Países Baixos, e daí vieram os menonitas.

A história batista começa em outro cenário, quase um século depois. Os primeiros batistas surgiram do movimento puritano separatista inglês no início do século dezessete. Em 1609, exilados na Holanda sob a liderança do pastor John Smyth e do advogado Thomas Helwys, eles concluíram que a igreja bíblica deveria ser uma comunidade de crentes regenerados, batizados conscientemente. Helwys voltou à Inglaterra e abriu a primeira igreja batista em solo britânico, pagando com a prisão, e por fim com a vida, a defesa da liberdade religiosa para todos.

Os anabatistas foram moldados no choque contra a cristandade europeia, unida pela espada; os batistas nasceram da busca puritana por uma igreja pura, dentro do mundo anglo-saxão.

O batismo e a vida comunitária

Ambos praticam o batismo de adultos crentes, mas a ênfase teológica não é idêntica. Para os anabatistas, o batismo é um pacto de discipulado e de submissão à comunidade local. Por isso, muitos grupos anabatistas praticaram historicamente a afusão, o derramamento de água sobre a cabeça, como símbolo do derramamento do Espírito Santo prometido em Joel 2:28. Já para a tradição batista, o batismo é uma ordenança que exige a imersão completa na água, símbolo da morte, do sepultamento e da ressurreição com Cristo (Romanos 6:3-4).

Essa diferença também aparece no governo interno. Os batistas estruturaram um congregacionalismo formal. A congregação local é autônoma, vota em assembleias, aprova o orçamento e elege seus pastores e diáconos com base no sacerdócio universal de todos os crentes. Os batistas não abrem mão da autonomia local. Entre os anabatistas, a ênfase sempre esteve na comunidade de discípulos: as decisões buscam o consenso fraterno, e os líderes espirituais, como anciãos e pastores, costumam exercer autoridade pastoral e moral direta sobre a vida dos membros.

A espada, o Estado e a cultura

A maior divergência entre os dois movimentos aparece quando o assunto é o poder político e o uso da força.

Os anabatistas clássicos formularam sua fé na Confissão de Schleitheim em 1527, adotando a doutrina da não resistência. Tomando ao pé da letra o Sermão da Montanha (Mateus 5), eles rejeitam toda forma de violência ou retaliação. Para eles, o cristão não pode pegar em armas, nem mesmo em guerras convocadas pelo governo, e deve recusar juramentos em tribunais, limitando-se ao “sim, sim” e “não, não” (Mateus 5:37). Essa separação radical dos reinos levou menonitas, amish e huteritas a se afastarem da política partidária e dos cargos públicos, formando comunidades alternativas que testemunham a paz de Cristo diante de uma sociedade violenta.

Os batistas seguiram outro caminho. Inspirados por Thomas Helwys e Roger Williams, eles se tornaram pioneiros mundiais na defesa da liberdade religiosa e do Estado laico, mas nunca pregaram o abandono do dever cívico. Os batistas entendem que o Estado é uma instituição ordenada por Deus para preservar a ordem e a justiça (Romanos 13:1-4). Por isso, a maioria aceita a doutrina da guerra justa, serve nas forças armadas e estimula os membros a votar, prestar juramentos solenes e até concorrer a cargos públicos, para influenciar a cultura com os valores do evangelho.

O coração teológico: justificação e autoridade

No terreno da teologia sistemática, o contraste é ainda maior.

A herança anabatista sempre desconfiou do intelectualismo acadêmico e das formulações doutrinárias pesadas. Sua hermenêutica é cristocêntrica em sentido direto: as palavras e o exemplo de Jesus no Sermão da Montanha são a chave para ler o restante da Bíblia. Na doutrina da salvação (soteriologia), os anabatistas rejeitam o calvinismo e defendem que a fé salvadora nunca anda sozinha, mas vem acompanhada de obediência real. Para eles, a segurança eterna incondicional é uma ilusão perigosa, porque a Escritura adverte sobre a necessidade de perseverar fiel até o fim (Mateus 24:13).

Os batistas, por sua vez, adotaram uma abordagem confessional muito mais detalhada, como na Segunda Confissão de Fé de Londres, de 1689. Eles reconhecem a inspiração plena de todo o cânon bíblico, sem subordinar as cartas apostólicas aos Evangelhos. Na doutrina da salvação, embora o movimento batista tenha abrigado desde cedo vertentes arminianas e calvinistas, a maioria das igrejas batistas históricas defende a justificação somente pela fé (sola fide) e a perseverança dos santos, afirmando que a salvação garantida por Cristo jamais se perde. Essa última é a posição batista descrita aqui; a tradição wesleyana, por exemplo, entende a perseverança como condicionada à fé que permanece.

Dois caminhos, uma mesma busca por fidelidade

Hoje, a posteridade anabatista é representada principalmente pelos menonitas, pelos amish e pelos huteritas, conhecidos pelo testemunho de reconciliação, ajuda humanitária internacional e simplicidade de vida. Os batistas tornaram-se uma das maiores famílias denominacionais do planeta, com forte presença missionária, seminários teológicos influentes e envolvimento ativo no debate público.

O batista olha para o anabatista e pergunta se o isolamento social não enfraquece o impacto transformador da igreja na sociedade. O anabatista olha para o batista e pergunta se a proximidade com o poder e com a cultura não acabou domesticando o chamado radical de Cristo.

Os dois grupos nos deixam lições valiosas. De um lado, a coragem anabatista de pagar o preço da paz e viver o evangelho como comunidade santa; do outro, o compromisso batista com a proclamação das boas-novas, a liberdade de consciência e a autoridade da Palavra de Deus.