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James Hope Moulton: o metodista que leu o Novo Testamento nos papiros do Egito
Na noite de 4 de abril de 1917, o vapor City of Paris, que vinha de Karachi para Marselha, foi torpedeado por um submarino alemão no Mediterrâneo, ao largo da costa francesa. Num dos botes iam dois estudiosos da Bíblia, o metodista James Hope Moulton e o quaker Rendel Harris. O bote levou quatro dias para chegar à Córsega. Dos vinte e cinco que estavam nele, doze morreram de frio e de exaustão. Moulton remou enquanto teve força, ajudou a tirar a água do bote, ajudou a lançar ao mar os corpos dos que morriam e orou sobre os marinheiros indianos mortos. No terceiro dia, morreu também. O homem que acabava no fundo do Mediterrâneo era, segundo Adolf von Harnack, o maior especialista no grego do Novo Testamento, e voltava de dezessete meses de pregação e ensino na Índia.
Vida
Uma família de pregadores
James Hope Moulton nasceu em 11 de outubro de 1863, ao lado do Richmond College, o seminário wesleyano perto de Londres onde o pai, William Fiddian Moulton, era professor assistente. A família tinha pregadores metodistas desde os dias de John Wesley, que casou pessoalmente os trisavós dele, e o bisavô William Moulton entrou no ministério metodista em 1794. A mãe, Hannah Hope, era filha de outro pastor wesleyano. O pai foi um dos tradutores da Versão Revisada do Novo Testamento e editor inglês da gramática de Winer, a obra de referência sobre o grego do Novo Testamento, e um tio, James Egan Moulton, foi missionário em Tonga.
Em 1874 a Conferência Wesleyana nomeou o pai primeiro diretor da The Leys, escola metodista criada em Cambridge, e em 1875 James, com quase doze anos, estava entre os primeiros alunos. No dia em que fez onze anos, em 1874, viveu o que chamava de seu “nascimento espiritual”. Aos catorze anotou no diário a alegria de ter sido instrumento de Deus para levar alguém a Cristo. Na escola assinava os artigos com a palavra grega agan, “muito”, e fazia tudo com essa intensidade. Em dezembro de 1881 pregou o primeiro sermão, numa capela wesleyana de Waterbeach.
Cambridge
Entrou no King’s College, em Cambridge, com uma bolsa de estudos clássicos, no dia em que fez dezenove anos. Em novembro de 1882 assistiu à missão de Dwight L. Moody e Ira Sankey na cidade, que lembrou a vida toda como um tempo de despertamento. Obteve primeira classe nas duas partes do exame final de estudos clássicos, ganhou em 1885 a medalha do chanceler com um poema sobre Vasco da Gama e se especializou em filologia comparada. Com Edward Byles Cowell, orientalista que estudava as religiões do Oriente sem deixar de ser um cristão simples e convicto, aprendeu sânscrito e avéstico, a língua das escrituras de Zoroastro. Em 1888 foi eleito fellow do King’s College, o primeiro pastor não conformista a receber essa honra em Cambridge.
Em 1886 foi aceito no ministério wesleyano e designado assistente do pai na The Leys. Ficou ali dezesseis anos, ensinando os alunos, dando aulas na universidade e nos colégios femininos de Girton e Newnham e pregando quase todo domingo nas capelas do circuito. Em 1890 casou-se com Eliza Keeling Osborn, filha do superintendente metodista de Cambridge, e o casal teve quatro filhos.
Em 1895 publicou An Introduction to the Study of New Testament Greek. O pai morreu de repente em fevereiro de 1898, sentado nos degraus de uma ponte atrás da escola, e deixou ao filho a tarefa de refazer a gramática de Winer.
Manchester
Em 1902 Moulton foi nomeado professor de Novo Testamento no Didsbury College, o seminário wesleyano de Manchester onde William Burt Pope ensinara teologia. Um aluno, Wilbert F. Howard, escreveu que ele foi o único professor que conheceu capaz de “soprar vida nos ossos secos da gramática”.
Em 1906 saíram os Prolegomena, o primeiro volume de A Grammar of New Testament Greek. Adolf Deissmann, o estudioso alemão que tinha percebido a semelhança entre o grego do Novo Testamento e o dos papiros egípcios, saudou o livro. Em 1908 Moulton tornou-se professor Greenwood de grego helenístico e filologia indo-europeia na Universidade de Manchester. Ali foi também decano da faculdade de teologia, que reunia professores e alunos anglicanos e das igrejas livres.
A outra metade da sua obra foi o zoroastrismo. Em 1911 publicou Early Religious Poetry of Persia, dedicado à memória de Cowell, e em 1912 deu as Hibbert Lectures em Oxford e Londres, publicadas como Early Zoroastrianism (1913). Em 1913, para o centenário da Sociedade Missionária Wesleyana, deu a Fernley Lecture, Religions and Religion. Com George Milligan começou The Vocabulary of the Greek Testament, dicionário do Novo Testamento ilustrado pelos papiros, cuja primeira parte saiu em 1914.
Em Manchester, Moulton levou a fé do gabinete para a rua. Apoiou a Missão Metodista de Manchester e Salford, de Samuel F. Collier, onde organizou dois anos de palestras dominicais sobre a pergunta “O que é o cristianismo?”. Falava em campanhas contra o álcool, era liberal em política e foi vice-presidente da Sociedade da Paz.
A guerra
No início de 1914, numa polêmica na revista metodista Wesleyan Methodist Magazine, Moulton escreveu que “na guerra e no preparo para a guerra viramos as costas a Cristo”. Em julho atravessou o Atlântico no Lusitania para dar conferências na assembleia bíblica de Northfield, em Massachusetts, fundada por Moody, e ali soube que a guerra tinha começado. As conferências viraram o livro From Egyptian Rubbish-Heaps (1916). A invasão da Bélgica o fez rever a posição. Em outubro de 1914 leu aos pastores de Manchester o texto Christianity and Defensive War: a guerra continuava sendo, “do começo ao fim, anticristã”, mas um povo atacado podia ter de escolher entre resistir e ser exterminado.
Índia
Em junho de 1915 Eliza morreu depois de uma cirurgia. Logo depois do enterro chegou o convite de J. N. Farquhar, da Associação Cristã de Moços da Índia, para passar um ano no país com outros dois professores ingleses, estudando, ensinando e escrevendo um livro sobre o zoroastrismo dos parses, os descendentes dos persas que vivem sobretudo em Bombaim. Em outubro de 1915 ele embarcou em Marselha. Em dezessete meses percorreu dezesseis mil milhas, pregou, deu aulas a estudantes cristãos em Bangalore e falou aos parses em Bombaim. As oito conferências que deu aos parses foram publicadas por iniciativa deles mesmos, em inglês e em guzerate, como The Teaching of Zarathushtra (1917).
Em agosto de 1916 recebeu a notícia de que o filho mais velho, Ralph, tinha caído na França, na segunda noite na linha de frente. Em março de 1917 deixou Karachi, cansado e doente, e em Port Said encontrou Rendel Harris, que tentara chegar à Índia e ficara no Egito depois de ter o próprio navio afundado. Seguiram juntos no City of Paris, e as últimas conversas dos dois foram sobre a união das igrejas livres. Depois do naufrágio, o corpo de Moulton foi entregue ao mar.
A obra continuou depois dele. Milligan terminou o Vocabulary em 1929; Howard completou o segundo volume da gramática, e Nigel Turner escreveu o terceiro e o quarto. O filho Harold Keeling Moulton foi professor de Novo Testamento em Bangalore e secretário de traduções da Sociedade Bíblica Britânica.
Pensamento
Um wesleyano declarado
Moulton era wesleyano e o disse com todas as letras. Num artigo de 1913 para a revista americana Constructive Quarterly, “Methodism in the Catholic Unity”, resumiu o que o metodismo oferecia às outras igrejas em três doutrinas. A primeira era a conversão: a necessidade e a promessa de salvação pela visão de Cristo. A segunda era a experiência: cada pessoa pode dizer “eu era cego e agora vejo” (João 9:25), e essa certeza pessoal é a maior razão para crer. A terceira era a santidade: Deus não se satisfaz com nada menos que “o amor perfeito a Deus e ao homem”, e pelo Espírito que habita nele o crente pode e deve avançar para essa perfeição nesta vida, sem esperar a morte. Eram, escreveu, “as três grandes doutrinas que Wesley redescobriu”, e era por mantê-las que os metodistas continuavam wesleyanos. É a doutrina wesleyana da santificação, em que a perfeição cristã é amor a Deus e ao próximo que enche o coração, e não ausência de erros.
O sermão A Neglected Sacrament, pregado ao sínodo metodista de East Anglia em 1899, mostra a mesma teologia por dentro. Moulton leu o lava-pés de João 13:14 como uma parábola encenada por Cristo. Quem ia a um banquete tomava banho em casa, mas chegava com os pés sujos da poeira da rua. Assim, o batismo representa a purificação inicial do pecador, e o lava-pés representa a limpeza diária do crente, que já foi perdoado, “não voltou para a lama”, mas se suja no caminho. Aqui Moulton remete ao sermão de Wesley Sobre o pecado nos crentes: o regenerado ainda precisa pedir todo dia “perdoa as nossas dívidas”, sem que isso signifique uma apostasia diária. O meio de limpeza é o mesmo Cristo que expiou o pecado no começo, e o que muda é o modo: no lava-pés tudo é mútuo, os irmãos se servem e se perdoam uns aos outros. Por isso o chamava de sacramento esquecido, e insistia que o ensino vale mais que a forma.
A língua do povo
A contribuição que deixou nome foi mostrar que o grego do Novo Testamento é o grego comum, a koiné, falado no Mediterrâneo do primeiro século, e não uma língua sagrada à parte nem um grego cheio de hebraísmos. Os papiros achados nos depósitos de lixo do Egito, cartas, recibos e petições de gente simples, usavam as mesmas palavras e construções. Em From Egyptian Rubbish-Heaps tirou disso uma lição de fé: o Espírito Santo inspirou os autores do Novo Testamento a usar “a língua da vida diária”, a mesma em que as pessoas falavam em casa. Por isso a Bíblia deve ser traduzida numa língua que o povo entenda, como Paulo e Wesley pregavam numa língua que todos entendiam.
O exemplo mais conhecido é Hebreus 11:1. A palavra hypostasis, traduzida por “certeza”, aparece num papiro jurídico, a petição de uma viúva chamada Dionísia, como o termo técnico para o conjunto de documentos que provam a posse de uma propriedade. Moulton propôs ler: “a fé é a escritura de posse das coisas que se esperam”. Quem compra uma terra que ainda não viu tem os papéis na mão, e a esperança do Novo Testamento é essa certeza garantida por Deus.
As outras religiões e a luz de Cristo
Moulton estudou o zoroastrismo com respeito e o considerava a mais pura das religiões não cristãs. Ele se apoiava em João 1:9, “a luz verdadeira que ilumina a todo homem”, o mesmo versículo que Wesley, nas Notas sobre o Novo Testamento, lia como a luz da consciência, que mostra a cada pessoa ao menos as linhas gerais do bem e do mal, e que a teologia wesleyana liga à graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Moulton aplicava o texto às religiões: toda grande fé recebeu alguma luz, e todas elas são, nas suas palavras, “luzes partidas” daquele que veio trazer o dia perfeito. Em Religions and Religion registrou que os missionários que conheciam as outras religiões de perto não achavam nelas nada que corrigisse a fé em Cristo. Em The Treasure of the Magi propôs um critério: “a prova suprema de uma religião é o seu poder de produzir santos”. Um resenhista chamou o método dele de “polêmica tolerante”.
Onde ele se afasta de nós
Moulton foi ao mesmo tempo evangélico e crítico moderno da Bíblia. Na série How Stands the Bible?, publicada em The Christian Religion in the Study and the Street, ele afirmou que “as infalibilidades se foram”: negou a infalibilidade da Igreja e também a da Bíblia em matéria de história e ciência, aceitou os resultados da crítica do Antigo Testamento de seu tempo e a teoria da evolução, e tratava os padrões doutrinários, inclusive os sermões e as notas de Wesley, como resumo voluntário da fé e não como regra que se impõe. A declaração de fé do Diego afirma que os escritos originais das Escrituras foram preservados de erro, e nesse ponto a distância é real. Mesmo assim, nenhuma teoria sobre a formação da Bíblia abalou a confiança dele no evangelho que ela anuncia, e ele chamou a Bíblia de “o único livro” capaz de trazer paz e consolo aos homens na sua maior necessidade (From Egyptian Rubbish-Heaps, prefácio).
Obras principais
- An Introduction to the Study of New Testament Greek (1895).
- A Grammar of New Testament Greek, vol. 1: Prolegomena (1906); vol. 2 completado por W. F. Howard (1919-1929).
- Early Religious Poetry of Persia (1911).
- Early Zoroastrianism (Hibbert Lectures de 1912, publicadas em 1913).
- Religions and Religion (Fernley Lecture, 1913).
- The Vocabulary of the Greek Testament Illustrated from the Papyri (com George Milligan, 1914-1929).
- From Egyptian Rubbish-Heaps (1916).
- The Teaching of Zarathushtra (1917).
- The Treasure of the Magi: A Study of Modern Zoroastrianism (1917).
- A Neglected Sacrament and Other Studies and Addresses (póstumo, 1919).
- The Christian Religion in the Study and the Street (póstumo, 1919).
Para aprofundar
- W. Fiddian Moulton, James Hope Moulton (Londres: Epworth Press, 1919), Internet Archive.
- “Moulton, James Hope”, Dictionary of Methodism in Britain and Ireland.
- “Moulton, James Hope”, Who Was Who in Indology.
- “Notes of Recent Exposition”, The Expository Times 29.7 (abril de 1918), p. 289 e seguintes.
- Janet Scott, “From the archive: quiet heroes”, The Friend (28 de abril de 2017).
- “City of Paris”, uboat.net.
- Martin Wellings, “‘An extremely dangerous book’? James Hope Moulton’s Religions and Religion (1913)”, Studies in Church History 51 (2015).
- James Hope Moulton, Wikipédia em inglês.
- Obras dele no Internet Archive: A Neglected Sacrament, The Christian Religion in the Study and the Street, Religions and Religion, From Egyptian Rubbish-Heaps, Early Zoroastrianism e The Treasure of the Magi.
- Sobre a tradição dele: John Wesley: vida e legado, William Burt Pope, Dwight L. Moody e A santificação.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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