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James Strong: O leigo metodista que numerou as palavras da Bíblia

Diego Gonçalves12 min de leitura2.415 palavras

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Neste texto

Quando a Concordância Exaustiva de James Strong ficou pronta, em 1890, o manuscrito pesava mais de noventa quilos e formava um cubo de papel de quase um metro de lado. Durante cerca de trinta anos, Strong reuniu cada ocorrência de cada palavra da Bíblia inglesa, sem pular nem os artigos e as preposições, e deu a cada palavra hebraica, aramaica e grega um número. A muitos, registrar até as partículas pareceu desperdício de inteligência. Mais de um século depois, quem abre um léxico, uma Bíblia de estudo ou um programa bíblico e encontra ao lado de uma palavra um “H7307” ou um “G26” está usando o sistema desse leigo metodista, que nunca foi ordenado e passou um quarto de século ensinando hebraico a futuros pastores.

Retrato de James Strong
James Strong, fotografia do estúdio de Mathew Brady, entre 1855 e 1865. Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, coleção Brady-Handy. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Juventude e formação

James Strong nasceu na cidade de Nova York em 14 de agosto de 1822. Perdeu os pais ainda jovem e, adolescente, começou a estudar medicina, mas a saúde frágil o fez desistir, e ele passou para as línguas da Bíblia. Formou-se em 1844 na Wesleyan University, a faculdade metodista de Middletown, em Connecticut, como primeiro aluno da turma. A mesma universidade lhe deu depois os graus de doutor em teologia (1856) e em direito (1881).

De 1844 a 1846 lecionou na Troy Conference Academy, escola metodista de Poultney, em Vermont. Em 18 de julho de 1845 casou-se com Marcia Ann Dustin, de Middlebury, no mesmo estado. Tiveram seis filhos; duas filhas morreram antes do pai, Mary em 1854, com dois anos, e Stella em 1883, aos vinte e sete.

Flushing: a ferrovia e os livros

Uma nova crise de saúde o tirou da sala de aula. Em 1847 Strong foi morar em Newtown, em Long Island, e dois anos depois na vila vizinha de Flushing. Ali ocupou cargos na administração local, idealizou a ferrovia que ligaria Flushing a Nova York e presidiu por dois anos a companhia que a construiu. Ao mesmo tempo, estudava a Bíblia sem descanso. Em 1852 publicou A New Harmony and Exposition of the Gospels, que dispunha lado a lado as narrativas dos quatro evangelhos, com comentário contínuo. Vieram depois um manual dos evangelhos (1853), uma gramática grega (1856) e uma hebraica (1857).

Em 1853 começou também, com o pastor metodista John McClintock, a Cyclopaedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature. McClintock morreu em 1870, quando só três volumes tinham saído. Strong levou a obra sozinho até o décimo volume, em 1881, e acrescentou dois de suplemento. Teve muitos colaboradores, mas escreveu uma massa enorme de verbetes e revisou todos os outros.

O artigo que pedia um seminário

Em 22 de dezembro de 1853, o jornal The Christian Advocate, de Nova York, publicou um artigo longo de Strong que pedia a fundação imediata de uma escola de teologia metodista “nas vizinhanças de Nova York”. Os moços formados nas faculdades metodistas, argumentava, estavam indo estudar nos seminários de outras denominações, e a igreja precisava decidir se os obrigaria a isso ou se daria ela mesma essa formação. Dez ou quinze mil dólares bastariam para começar, e um leigo se dispunha a ensinar de graça a parte bíblica. Esse leigo, sem dúvida, era ele mesmo.

O editor do jornal teve de explicar várias vezes por que publicara o texto, e logo saiu uma resposta irônica que sugeria o nome de “Seminário Central da Salvação”, com um “Professor de Bastante Religião”. Strong não recuou. Em 1865 escreveu a um membro do comitê que organizava as ofertas do centenário do metodismo americano propondo que o dinheiro fosse para uma escola de formação de pastores. Catorze anos depois do artigo, com o dinheiro do financista Daniel Drew, o Seminário Teológico Drew abriu em Madison, Nova Jersey, em 1867.

Troy e Drew

Antes disso, de 1858 a 1861, Strong foi professor de literatura bíblica e presidente interino da Troy University, uma universidade metodista de vida curta. Em 24 de julho de 1868, os curadores de Drew o elegeram professor de teologia exegética. Era um leigo num corpo docente formado quase só de pastores. Ficou na cátedra até 1893 e fez parte do grupo que gerações de alunos chamaram de “os cinco grandes”, ao lado de John Miley, George R. Crooks, Samuel F. Upham e Henry A. Buttz.

Os alunos o lembravam como “uma maravilha intelectual”. Sabia tanto que a turma às vezes fazia uma pergunta inocente para que ele esquecesse o hebraico e falasse do resto da aula sobre outro assunto. Uma vez, diante de um aluno que não achava o sentido de uma palavra hebraica, Strong largou o livro, abriu a janela, olhou demoradamente para a direita e para a esquerda, fechou a janela e disse: “Isso é o que a palavra significa”. Num fevereiro de muita neve, uma dezena de estudantes empurrou um trenó até a casa dele para levá-lo à aula.

Em 1872, eleito pela Conferência de Newark, Strong foi delegado à Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal, a primeira a admitir leigos. A convite de Philip Schaff, integrou a seção do Antigo Testamento do comitê americano que revisou a Bíblia inglesa, trabalho do qual nasceram a Revised Version e, depois, a American Standard Version (1901). Em 1874 viajou pela Palestina e presidiu o conselho arqueológico da Oriental Topographical Society. Foi ainda o editor americano dos volumes de Ester e de Daniel no comentário de J. P. Lange.

A concordância e os últimos anos

A Concordância Exaustiva saiu em 1890. A primeira parte listava cada palavra da Bíblia do rei Tiago com todas as passagens em que aparece; só 47 palavras muito comuns, como “e”, “o” e “de”, ficaram num apêndice, citadas por capítulo e versículo. A segunda comparava a versão do rei Tiago com a Revised Version recém-publicada. A terceira trazia dois pequenos dicionários, um do hebraico e do aramaico, com números de 1 a 8.674, e outro do grego, de 1 a 5.624. Cada passagem vinha com o número da palavra original, e assim quem não lia hebraico nem grego podia saber qual termo estava por trás da tradução. No prefácio, Strong diz que quis uma obra “tão simples no arranjo que uma criança não possa errar o caminho”.

Nos últimos anos publicou ainda The Tabernacle of Israel in the Desert (1888), The Doctrine of a Future Life (1891), dois romances sobre a vida judaica no tempo de Jesus e de Paulo (1891) e um comentário de Eclesiastes (1893). A saúde o fez pedir demissão em 1892; ensinou mais um ano, até a escolha do sucessor. James Strong morreu em Round Lake, no estado de Nova York, em 7 de agosto de 1894, uma semana antes de completar 72 anos.

Pensamento

Strong foi wesleyano, membro leigo da Igreja Metodista Episcopal, e arminiano declarado. No prefácio de Irenics (1883), livro escrito para aproximar calvinistas e arminianos, ele avisa que não tem nenhuma intenção de “abandonar o arminianismo”, nem de pedir que outros abandonem o calvinismo.

A paz entre calvinistas e arminianos

O quinto ensaio de Irenics se chama “Reconciliação substancial do calvinismo e do arminianismo”. Strong lembra as brigas dos primeiros metodistas sobre os “cinco pontos” e as acusações do outro lado, que confundiam o wesleyanismo com o pensamento de Hugo Grócio e chamavam o arminianismo de semipelagiano. Para ele, os dois lados concordavam no essencial: a Trindade, a expiação e a necessidade de uma regeneração operada por Deus. “Nenhum arminiano” de que tivesse notícia, escreveu, negava “a depravação moral inata da raça humana”. A diferença real estava nos pontos que o Sínodo de Dort definiu e os remonstrantes contestaram.

Quando a Confissão de Westminster diz que Deus ordena tudo o que acontece, sem violentar a vontade das criaturas, Strong entendia que isso pode significar que Deus decidiu criar seres livres sabendo o que fariam e permitir que agissem, e nessa leitura não via objeção séria. Não cedia em Romanos 8:29: “aos que desde antes conheceu, também os predestinou” (Bíblia Livre). Para Charles Hodge, “conhecer desde antes” ali quer dizer escolher. Strong respondia que essa leitura não se sustenta no vocabulário e faz o versículo dizer duas vezes a mesma coisa. O que Deus conheceu de antemão foi que os predestinados cederiam à graça. Essa presciência é um conhecimento direto e absoluto de todo o futuro, certo ou contingente, assim como Deus conhece o passado.

A graça que conduz a conversão

O centro do ensaio é a conversão. Strong descreve um homem que o Espírito Santo detém no meio dos seus pecados: a convicção de culpa não o larga, ele decide entregar-se a Deus e, então, é capacitado a olhar para Cristo e receber o perdão. Por que cedeu desta vez, se resistiu mil vezes antes? Porque deixou o Espírito agir com mais liberdade. “A graça foi poderosa, mas não irresistível.” Strong usa a palavra “sinergismo” e chama a conversão de “processo mútuo”, mas fixa a ordem: o Espírito de Deus “vai à frente” e a pessoa segue. Comentando Filipenses 2:12-13, afirma que o poder de crer e de fazer o bem “vem de Deus”, e que a própria rendição é “resultado da graça”. É o que o arminianismo clássico chama de graça preveniente: a graça vem antes, liberta a vontade e torna possível a fé, que nada acrescenta à salvação, apenas a recebe. Hoje a palavra “sinergismo” pede mais cuidado, porque muitos a leem como se a pessoa completasse a obra de Deus, o que Strong não dizia.

Perseverança, santificação e juízo

Sobre a perseverança, Strong mantinha a posição arminiana: o crente pode cair do mais alto estado de graça e perecer, e “só o poder divino” impede alguém de destruir a si mesmo. As promessas de que ninguém arrancará as ovelhas da mão do Pai (João 10:29) e de que nada nos separará do amor de Deus (Romanos 8:39) falam das forças de fora, perseguição e tentação, e não garantem contra o abandono voluntário da fé, tema do texto sobre a apostasia na Bíblia.

Na inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor perfeito, Strong foi mais reservado do que a tradição metodista. Cria que todo cristão, incluindo ele mesmo, tinha direito a essa experiência, e que só a fraqueza da fé e a falta de consagração a impediam. Mas tratava o assunto como “uma questão de fato”, e não de doutrina, e achava melhor que ninguém declarasse publicamente tê-la alcançado. Aqui ele se afasta da nossa declaração de fé, que afirma a inteira santificação como doutrina, uma obra da graça posterior à regeneração e recebida pela fé.

Em The Doctrine of a Future Life (1891), ele entende a vida presente como tempo de prova, em que o caráter se forma pela repetição das escolhas. Por isso rejeitava uma “segunda prova” depois da morte, que chamava de fábula do purgatório “remodelada para ouvidos protestantes”, e também a aniquilação dos ímpios e o universalismo, citando Hebreus 9:27: “como está ordenado aos seres humanos morrerem uma vez, e depois disso, o juízo” (Bíblia Livre). O último ensaio de Irenics defende o castigo eterno, como a nossa declaração.

A Bíblia inteiramente verdadeira

O primeiro ensaio de Irenics pergunta se os autores bíblicos afirmam algo contrário à história, à ciência ou à boa filosofia, e responde que não. Strong passou a vida harmonizando evangelhos, cronologias e medidas do tabernáculo. A história do cinquentenário de Drew (1917) lamentou que ele rejeitasse em bloco a crítica bíblica, de Wellhausen a Driver, e chamou de “natimortas” as suas tabelas de cronologia, mas na mesma página disse que a concordância bastava para justificar a existência do seminário.

O legado

A Concordância Exaustiva nunca deixou de ser impressa e foi adaptada ao espanhol e a outras línguas. Em 2002 a Sociedade Bíblica do Brasil lançou o Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, ligado a uma edição da Almeida Revista e Atualizada com os números dele. Assim, muitos leitores brasileiros que nunca ouviram falar de John Wesley ou de Jacó Armínio usam todos os dias a obra de um arminiano. Strong deixou também o exemplo de um leigo que pôs a erudição a serviço da igreja, lutou por pastores bem formados e quis que calvinistas e arminianos se lessem com justiça.

Obras principais

  • A New Harmony and Exposition of the Gospels (1852).
  • A Manual of the Gospels (1853).
  • Gramáticas resumidas do grego (1856) e do hebraico (1857).
  • Cyclopaedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature, com John McClintock (10 vols., 1867-1881; 2 vols. de suplemento na década de 1880).
  • The Book of Esther (1877) e The Book of the Prophet Daniel, na edição americana do comentário de Lange.
  • Irenics (1883).
  • The Tabernacle of Israel in the Desert (1888).
  • The Exhaustive Concordance of the Bible (1890).
  • The Doctrine of a Future Life (1891).
  • Sketches of Jewish Life in the First Century: Nicodemus; Gamaliel (1891).
  • The Student’s Commentary: Ecclesiastes (1893).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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