
HistóriaTeólogos arminianos13 de 233
James Burton Coffman: O pregador das Igrejas de Cristo que comentou a Bíblia inteira depois dos 65 anos
Neste texto
- Vida
- O oeste do Texas e Abilene
- Os primeiros púlpitos e Houston
- Washington, Coreia e os capelães
- Uma igreja na ilha de Manhattan
- Os 37 volumes
- Os últimos anos
- Pensamento
- Contra os decretos
- A fé de Cristo
- A queda de Adão
- Apostasia e últimas coisas
- Onde ele se afasta do arminianismo clássico
- Obras principais
- Para aprofundar
Num domingo de maio de 2005, dois dias antes de completar cem anos, James Burton Coffman subiu ao púlpito da igreja de Cristo de West University, em Houston, e pregou o sermão da manhã. Tinha deixado o ministério regular em 1971. Depois disso, já com mais de 65 anos, escreveu um comentário versículo por versículo de todos os livros da Bíblia, em 37 volumes, terminado em 1992, quando tinha 87. Morreu pouco mais de um ano depois daquele sermão, lembrado como uma das figuras mais influentes das Igrejas de Cristo no século XX.
Vida
O oeste do Texas e Abilene
James Burton Coffman nasceu em 24 de maio de 1905, no condado de Taylor, no oeste do Texas, numa família de pioneiros que morava tão longe da cidade que a ida e a volta levavam dois dias. Estudou no colégio de Abilene e entrou no Abilene Christian College, escola das Igrejas de Cristo (hoje Abilene Christian University). Foi batizado em 1923, durante as conferências anuais da faculdade, e formou-se em 1927, com bacharelado em história e música.
As Igrejas de Cristo são um ramo do movimento Stone-Campbell, nascido nos Estados Unidos no começo do século XIX para deixar os credos e restaurar a igreja do Novo Testamento, o movimento de Barton W. Stone e, num ramo vizinho, de Jack Cottrell. Cantam sem instrumentos, celebram a Ceia todo domingo e ensinam que o batismo por imersão faz parte da resposta ao evangelho.
Antes de pregar, Coffman foi educador. Dirigiu por dois anos uma escola secundária no condado de Callahan e depois ensinou história e inglês no colégio de Abilene. Pregou o primeiro sermão na College Church, a igreja da faculdade, hoje University Church of Christ.
Os primeiros púlpitos e Houston
Em 1930 recebeu o convite para ser ministro auxiliar e dirigente do canto numa igreja de Wichita Falls, no Texas, e ali começou o ministério em tempo integral. No ano seguinte casou-se com Thelma Bradford, de Arlington, chamada de “Sissy” pela família, com quem viveu 64 anos e teve três filhas. Pregou depois em Lawton, em Oklahoma, e em Sherman, no Texas.
O primeiro grande pastorado foi na Central Church of Christ, em Houston, onde ficou treze anos. Ali ajudou a levantar o dinheiro para o prédio da congregação no Montrose Boulevard. Ao longo da vida, fez centenas de séries de reuniões evangelísticas pelos Estados Unidos. Numa contagem, chegou a mais de três mil batismos.
Washington, Coreia e os capelães
Depois de Houston, Coffman foi pregar em Washington, na igreja da rua Dezesseis. Dali partiu, convidado como capelão visitante das Forças Armadas americanas, para noventa dias no Japão e na Coreia, onde fez reuniões evangelísticas nos dois países. Em 1952 começou uma campanha para aumentar o número de capelães da Força Aérea vindos das Igrejas de Cristo; naquele momento, havia um só.
A viagem à Coreia trouxe também uma polêmica. Em janeiro de 1954, o Firm Foundation relatou declarações que ele teria feito por lá, e os presbíteros da igreja de Norhill, em Houston, pediram no Gospel Guardian que os irmãos o rejeitassem como pregador. Eram os anos em que as Igrejas de Cristo se dividiam sobre a cooperação entre congregações, e Coffman ficou do lado que a aceitava.
Passou ainda um ano como vice-presidente do Harding College, em Searcy, no Arkansas. A escola lhe ofereceu a efetivação, e ele recusou para voltar ao trabalho de igreja local.
Uma igreja na ilha de Manhattan
O passo seguinte foi Nova York. Como ministro da Manhattan Church of Christ, Coffman tomou a frente de uma campanha nacional para dar à congregação um prédio próprio. Ele mesmo explicou o motivo: durante cem anos, as Igrejas de Cristo da cidade tinham se reunido em casas adaptadas, salões de loja maçônica, funerárias e teatros, e “cem anos bastam para provar” que esse caminho não dava resultado. Em 1957, quando a igreja ainda funcionava num imóvel da rua 80 Leste, apoiou o plano de arrecadar um milhão de dólares num só domingo, com uma oferta especial das igrejas de todo o país. A campanha, chamada por ele de “Manhattan Project”, foi atacada pela ala que rejeitava a centralização de fundos entre congregações. O prédio da esquina da rua 80 Leste com a Madison Avenue saiu do papel e foi o primeiro templo construído para uma Igreja de Cristo no condado de Nova York. Atribui-se a ele a frase de que iriam construir uma igreja “no olho do diabo”. A congregação continua no Upper East Side.
Nesses anos publicou The Ten Commandments, Yesterday and Today (Revell, 1961), um livro sobre os Dez Mandamentos.
Os 37 volumes
Coffman deixou o ministério regular em 1971, ano em que a Abilene Christian University o escolheu como ex-aluno do ano, e voltou para Houston. Então começou a obra pela qual é lembrado. Os primeiros volumes, a começar pelo Novo Testamento, saíram pela Firm Foundation, de Austin; o de Romanos em 1973 e o de 1 e 2 Coríntios em 1977. Em 1984 a ACU Press assumiu a série e passou a publicar também o Antigo Testamento, de Gênesis e Êxodo (1985) a Isaías (1990), Ezequiel (1991) e Salmos (1992). Em 1992 o comentário estava completo: todos os livros da Bíblia, versículo por versículo.
A ACU Press descreveu a série como um “comentário para leigos” preparado com o cuidado de um pesquisador; a bibliografia do volume de Gênesis lista 84 obras. Coffman punha lado a lado as interpretações em disputa, defendia a inerrância da Bíblia contra a crítica liberal e dava a própria opinião sem rodeios.
Os últimos anos
Em 1987, Coffman e a esposa receberam o prêmio de serviço cristão da Abilene Christian University, que também criou com o nome dele a Burton Coffman Chair of Biblical Research, uma cátedra de pesquisa bíblica. Recebeu doutorados honorários da própria ACU, da Pepperdine University e do Magic Valley Christian College, em Albion, no Idaho. Em 1990 começou a escrever as memórias, em cinco partes, cujo manuscrito está no Center for Restoration Studies da ACU.
Thelma morreu depois de 64 anos de casamento, e Coffman casou-se de novo, com June Bristow. Ele morreu em 30 de junho de 2006, aos 101 anos, deixando a esposa, três filhas, oito netos e seis bisnetos.
Pensamento
Coffman foi um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. Ele rejeitou a eleição incondicional, a graça irresistível e a perseverança incondicional, e afirmou que Deus chama todas as pessoas e que o crente verdadeiro pode cair. Mas leu o pecado de Adão sem culpa herdada, explicou a atração de Deus pela pregação da Palavra, sem falar de uma graça interior anterior a ela, e recusou a justificação somente pela fé. É a posição comum das Igrejas de Cristo, que combatem o calvinismo sem se chamar arminianas.
Contra os decretos
Os comentários de Coffman voltam ao calvinismo sempre que o texto toca a eleição. Sobre João 6:44, “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer”, ele escreveu que supor que Deus atrai alguns e não outros seria fazer de Deus parcial e injusto (Atos 10:34). Deus atrai as pessoas pela Palavra, e quem ouve a Palavra e vem a Jesus foi atraído por Deus. As teorias de “decretos imutáveis, chamado eficaz, eleição eterna e atração irresistível”, aplicadas a uns e não a outros, eram para ele especulações “vãs e nocivas”, sem base na razão nem no texto (comentário de João).
Em Romanos 9, a escolha de Jacó foi um ato soberano de Deus, mas não decidiu o destino eterno de nenhum dos gêmeos; a vida que cada um levou decidiu. Sobre o oleiro e o barro, lembrou que o ser humano não é um vaso e procura entender o governo de Deus, e que o próprio uso que Paulo faz da figura mostra que o capricho não decide nada. Na leitura de Romanos 8:29-30, “conhecer de antemão” quer dizer apenas que Deus sabia antes tudo o que aconteceria, e a predestinação tem por objeto o corpo inteiro dos salvos, e não pessoas escolhidas uma a uma: “os predestinados incluem todas as pessoas, embora muitas recusem o seu destino” (Commentary on Romans). É uma leitura coletiva da eleição, parecida com a de Chad Thornhill e com a eleição condicional em Cristo.
A fé de Cristo
O centro da soteriologia de Coffman é uma tese sobre a expressão “fé de Jesus Cristo” em Romanos 3:22 e Gálatas 2:16. Ele defendia a tradução da versão King James: Paulo fala da fé do próprio Cristo, isto é, da sua fidelidade e obediência perfeita ao Pai, e não da fé do pecador em Cristo. O argumento era este: a base da justificação nunca pode estar na fé de gente falível e pecadora. “A justiça de Deus, em resumo, é a justiça de Jesus Cristo”, e “a fé de Cristo foi obediente” (Commentary on Romans). O pecador é salvo quando passa a estar “em Cristo”, identificado com aquele que é justo, e então a fé e a obediência perfeitas de Cristo valem por ele. Sobre Efésios 1:22 escreveu que os que estão em Cristo são perfeitos “não pelo seu mérito, mas pelo mérito e pela justiça de Cristo”.
Daí vem a recusa da “fé somente”. A fé do pecador é condição indispensável para entrar em Cristo, mas não é a base da salvação, e não é a única condição. Para Coffman, Atos 2:38 põe o arrependimento e o batismo “para remissão dos pecados” como condições juntas, e o texto seria “o túmulo” da doutrina luterana da fé somente. Ele dizia que a única maneira de estar em Cristo é ser batizado nele (ver Gálatas 3:27), e por isso rejeitava a ideia de que Deus imputa ao pecador a justiça de Cristo pelo simples ato de crer. Ao mesmo tempo, negava que as obras do cristão sejam fundamento da justificação: elas são condições prévias da vida eterna, que o Pai, por amor, pode dispensar quando há motivo, e a fé não dá motivo de glória, porque é fé “no Salvador crucificado”, e não em si mesmo (comentário de Efésios 2:9-10).
A queda de Adão
Em Romanos 5:12, Coffman recusou a doutrina do pecado original no sentido de culpa herdada. A culpa de Adão não passou aos descendentes, e a prova seria a inocência que Jesus reconheceu nas crianças. Mas ele não fazia o ser humano nascer intacto: Adão, pelo pecado, apagou a imagem divina que trazia, e “a contaminação do homem natural foi transmitida” em cada nascimento. A comparação que usava era a de um motorista imprudente cujos passageiros inocentes sofrem com ele o acidente.
Apostasia e últimas coisas
Coffman ensinava que um cristão verdadeiro pode abandonar a fé e perder-se. Sobre Hebreus 6:4-6, afirmou que os descritos ali foram de fato convertidos, e que a ideia calvinista da impossibilidade da apostasia, ou da perseverança final dos santos, “sempre foi apenas uma ilusão” (Commentary on Hebrews). Para entender a passagem, disse, só é preciso abrir mão do calvinismo. Veja Apostasia na Bíblia e A perseverança dos santos.
Nas últimas coisas era amilenista: os mil anos de Apocalipse 20 representam “todo o período da dispensação cristã”, a primeira ressurreição é espiritual, os tronos estão no céu e os cristãos reinam com Cristo durante toda a era da igreja.
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
Com a declaração de fé deste site, Coffman concorda na expiação por todos, no chamado universal, na eleição condicional, na perseverança condicional, na inerrância das Escrituras e no amilenismo. As diferenças são três. A primeira é o pecado: o site afirma o pecado original e a depravação total, como Jacó Armínio, para quem a vontade caída está “aprisionada, destruída e perdida” para o verdadeiro bem; Coffman negou a culpa herdada (ver O pecado original e a depravação total). A segunda é a graça: o site crê na graça preveniente, obra interior do Espírito em todas as pessoas que liberta a vontade para crer, enquanto Coffman pôs a atração de Deus na Palavra pregada. A terceira é a justificação: o site, com Armínio e Wesley, afirma a justificação somente pela fé e a imputação da justiça de Cristo (ver A justificação pela fé), e entende o batismo como testemunho público que segue a conversão (ver Batismo na Bíblia), enquanto Coffman fez do batismo condição da salvação. Ele mesmo, porém, insistia em que tudo isso descansa na justiça de Cristo, e não no mérito de quem obedece.
Obras principais
- The Ten Commandments, Yesterday and Today (Fleming H. Revell, 1961).
- Commentary on Romans (Firm Foundation, 1973; ACU Press, 1984).
- Commentary on 1 and 2 Corinthians (Firm Foundation, 1977).
- Commentary on Hebrews, da série de comentários do Novo Testamento (Firm Foundation; ACU Press, 1984).
- Commentary on John (ACU Press, 1984).
- Commentary on Genesis (ACU Press, 1985).
- Commentary on Exodus (ACU Press, 1985).
- Commentary on Isaiah (ACU Press, 1990).
- Commentary on Ezekiel (ACU Press, 1991).
- Commentary on Psalms (ACU Press, 1992).
- James Burton Coffman Commentaries, 37 volumes sobre toda a Bíblia (Firm Foundation e ACU Press, completados em 1992).
Para aprofundar
- Abilene Christian University, Burton Coffman dies at 101, nota de falecimento (3 de julho de 2006).
- The Christian Chronicle, Minister Burton Coffman dies at 101 (1º de agosto de 2006).
- ACU Press, James Burton Coffman Biography e Coffman Commentaries.
- Abilene Christian University, Center for Restoration Studies, James Burton Coffman Papers, 1901-1990 (manuscrito das memórias).
- Drew Kizer, James Burton Coffman (1905-2006), Ashville Road Church of Christ (2006).
- Presbíteros da igreja de Norhill, nota sobre Burton Coffman, Gospel Guardian (25 de fevereiro de 1954); Charles A. Holt, A Million Dollars In One Day, Gospel Guardian (23 de maio de 1957).
- Logos, Coffman Commentary Series (37 vols.).
- Wikipédia, James Burton Coffman.
- James Burton Coffman, Coffman’s Commentaries on the Bible, texto integral em StudyLight e em Truth According to Scripture; ver os comentários de João 6, Romanos 3, Romanos 5, Romanos 8, Romanos 9, Gálatas 2, Hebreus 6 e Apocalipse 20.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens