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O. Glenn McKinley: O evangelista metodista wesleyano que pôs o calvinismo e o arminianismo lado a lado
Neste texto
- Vida
- Pastor e evangelista da Igreja Metodista Wesleyana
- A família e a guerra
- Porto Rico e o Canadá
- A doença e o livro
- Pensamento
- Um arminiano wesleyano
- Três lugares de encontro
- A leitura da história
- Justificação, novo nascimento e testemunho do Espírito
- A segurança condicional
- A eleição da Igreja
- A inteira santificação
- Diferenças com a declaração de fé do site
- O alcance do livro
- Obras principais
- Para aprofundar
No domingo, 22 de junho de 1952, uma tenda com lugar para quinhentas pessoas, protegida da chuva e dos mosquitos, abriu uma campanha de duas semanas na Rednersville Gospel Beach, perto de Belleville, em Ontário, no Canadá. O jornal da cidade apresentou o pregador como evangelista de Houghton, no estado de Nova York, conhecido como orador, escritor e cantor, recém-chegado de Porto Rico. Entre os sermões anunciados estavam “Avivamento ou ruína?” e “O verdadeiro Pentecostes”. O pregador era Ora Glenn McKinley, que assinava O. Glenn McKinley. Alguns anos depois ele publicaria Where Two Creeds Meet (“Onde dois credos se encontram”), livro pequeno que examina os textos bíblicos em que calvinistas e arminianos divergem.
Vida
Pastor e evangelista da Igreja Metodista Wesleyana
McKinley pertencia à Igreja Metodista Wesleyana da América, formada em 1843 por metodistas que romperam com a Igreja Metodista Episcopal por causa da escravidão e que depois se tornou uma das igrejas do movimento de santidade. Morava em Houghton, no oeste do estado de Nova York, sede do Houghton College, escola fundada por essa igreja.
Em junho de 1928, o jornal de New Castle, na Pensilvânia, anunciava uma série de cultos evangelísticos na igreja metodista wesleyana da cidade com o “evangelista O. G. McKinley, de Houghton”. Numa das noites ele pregou sobre Marcos 8:36, “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”, e anunciou para o domingo um sermão sobre a volta do Senhor e o cumprimento das profecias.
Em 1952, o jornal canadense resumia a carreira dele assim: havia 27 anos que McKinley era pastor, organizador e construtor de igrejas na Igreja Metodista Wesleyana, e nos últimos oito anos se dedicava ao trabalho de evangelista nos Estados Unidos e no Canadá.
A família e a guerra
Os filhos de McKinley estudaram em Houghton. Jerry era da turma de 1941 do Houghton College. Merrill morreu na Segunda Guerra Mundial; dos 360 ex-alunos de Houghton que serviram na guerra, dez foram mortos. Com o seguro de vida militar recebido pela morte do filho, McKinley construiu na vila a McKinley House, uma residência para estudantes rapazes. No porão funcionavam uma barbearia e uma lanchonete de hambúrgueres, o “Foxhole” (“trincheira”).
Na dedicatória do livro de 1959, McKinley conta que a esposa, Marion, tinha saído de um “formalismo frio” para o novo nascimento e o batismo com o Espírito Santo pelo ministério do arminianismo wesleyano, e agradece a ajuda dela como secretária e as orações. Em 1968 os dois registraram o hino That Blessed Hope (“Aquela bendita esperança”, expressão de Tito 2:13), com letra e melodia dele e arranjo dela.
Porto Rico e o Canadá
Em 1951, McKinley publicou em Houghton um folheto de 32 páginas, The Bible Preview of World War III (“A Bíblia antevê a Terceira Guerra Mundial”), que no ano seguinte, segundo o jornal de Belleville, vinha atraindo muito interesse.
Em maio de 1952, a Sociedade de Jovens Wesleyanos da igreja patrocinou uma campanha evangelística em San Juan, em Porto Rico. A equipe tinha McKinley como evangelista, o casal de missionários Robert e Norva Crosby e Orval Butcher como líder dos jovens. Numa grande tenda fizeram quatro semanas de cultos. No ano seguinte a igreja mandou professores missionários à ilha, e em setembro de 1953 nasceu a congregação de Caparra Terrace. Algumas semanas depois de voltar, McKinley estava na tenda de Rednersville.
A doença e o livro
No prefácio de Where Two Creeds Meet, McKinley conta que o livro nasceu de uma enfermidade grave. Enquanto se recuperava, sentiu que Deus o mandava voltar ao campo evangelístico e escrever: “um livro pequeno” sobre os três pontos em que calvinismo e arminianismo se encontram. Seguiram-se sete anos de estudo. Leu as Institutas de Calvino, Richard Watson, H. Orton Wiley, John Fletcher e W. T. Purkiser, mas também defensores da segurança incondicional, como H. A. Ironside e John R. Rice, e conversou com ministros e professores dos dois lados. Dizia não ter pretensão de grande autoridade teológica: queria ser “o humilde intérprete” dessas verdades para o povo comum.
A primeira edição saiu em 1957, publicada pelo próprio autor em Houghton, com o subtítulo A Sincere Evaluation of Calvinism and Arminianism e prefácio de Myron F. Boyd, metodista livre, então presidente da National Holiness Association. Em 1959 a Beacon Hill Press, editora da Igreja do Nazareno em Kansas City, lançou a edição definitiva, com o subtítulo A Biblical Evaluation of Calvinism and Arminianism, reimpressa em 1965.
A edição de 1959 traz o apoio de líderes de três igrejas de santidade. O nazareno Russell V. DeLong achou a lógica “irrespondível”; Oliver G. Wilson, ex-editor do Wesleyan Methodist, elogiou o cuidado em evitar “observações cáusticas”; e Roy S. Nicholson, ex-presidente da Igreja Metodista Wesleyana, resumiu o livro como exame de três pontos: a justificação pela fé, a segurança do crente e a inteira santificação.
Pensamento
Um arminiano wesleyano
McKinley é um arminiano wesleyano, do ramo de santidade do metodismo. Foi pastor e evangelista da Igreja Metodista Wesleyana e escreveu para defender o que chamava de arminianismo wesleyano, que considerava “a verdadeira doutrina da Bíblia”. Para ele, Jacó Armínio deu o primeiro passo para longe da predestinação incondicional, e John Wesley e os seus companheiros levaram a obra adiante: o arminianismo wesleyano seria a Reforma Protestante “crescida até a estatura plena”, e o calvinismo, a Reforma ainda na infância.
Três lugares de encontro
McKinley via as duas correntes do protestantismo se encontrando no desejo comum de ganhar almas, “seja em amor cristão, seja em debate irado”. Em cada ponto de encontro, expõe as posições, junta os textos dos dois lados e procura a “harmonia da Escritura”, recorrendo muito ao sentido das palavras hebraicas e gregas. Ele queria diminuir a divisão, e não alargá-la: “ela já é larga demais”.
A leitura da história
Segundo McKinley, a igreja dos primeiros quatro séculos pregava a “graça livre”, isto é, a salvação oferecida a todos, e a eleição incondicional e a perseverança final entraram na igreja com Agostinho, que ele julga marcado pelos anos de maniqueísmo e de neoplatonismo. Calvino as teria herdado. Ele apoia a tese num texto de Wesley sobre a predestinação absoluta e transcreve de Wiley os cinco artigos da Remonstrância de 1610. É o lado mais duro do livro: McKinley diz crer que Agostinho e Calvino foram salvos, mas os vê como grandes intelectuais e não como teólogos a seguir.
Justificação, novo nascimento e testemunho do Espírito
No primeiro encontro os dois lados estão quase unidos: os evangélicos verdadeiros, calvinistas ou arminianos, creem na justificação somente pela fé, por causa da morte de Cristo como oferta vicária pelos pecados de toda a raça humana. McKinley define a justificação como ato judicial de Deus, que declara justo o pecador arrependido que crê, e a distingue da regeneração, em que o Espírito dá vida nova e quebra o domínio do pecado, e do testemunho do Espírito (Romanos 8:16), a certeza interior de ser filho de Deus.
O alvo da crítica é a “justificação antinomiana”, a ideia de que todos os pecados, passados, presentes e futuros, estariam perdoados de antemão. McKinley responde com Romanos 3:25: Deus remite “os pecados dantes cometidos”, e o pecado posterior precisa ser confessado e perdoado do mesmo modo. O perdão é como o indulto de um juiz, que não cobre crimes futuros. Ele insiste também na distinção entre pecado voluntário e imperfeição humana: quem chama de pecado todo erro e limitação acaba dizendo que ninguém pode ser liberto do pecado nesta vida, e isso enfraquece a fé de quem busca salvação.
A segurança condicional
O capítulo mais longo trata da segurança do crente. McKinley abre com a própria conversão: quando ele mal tinha uma hora de vida espiritual, o diabo lhe sugeriu que seria incapaz de manter o que tinha recebido, e o Espírito lhe mostrou que o mesmo Deus que o salvara podia guardá-lo, com uma condição: obedecer e confiar inteiramente em Cristo. Nessa condição está, para ele, toda a diferença entre os dois credos.
Ele reconhece três formas de segurança incondicional entre os calvinistas: quem cai nunca foi convertido; quem cai será trazido de volta; quem foi salvo irá para o céu, faça o que fizer. Depois percorre os textos de segurança e mostra que cada promessa vem com uma condição, dita ou implícita. Em João 10:27-29, ninguém arranca as ovelhas da mão do Pai, mas o perigo descrito vem de fora, e a fé é a marca da ovelha: “se a fé é condição para se tornar ovelha, é condição para continuar ovelha”. Em 1 Pedro 1:5, os crentes são guardados pelo poder de Deus “mediante a fé”.
Para ele, essa segurança basta a qualquer cristão, e nenhum crente sincero gostaria de ser guardado enquanto continua no pecado voluntário. O tema é tratado no site em perseverança e apostasia na teologia arminiana.
A eleição da Igreja
Para McKinley, a predestinação de Romanos 8:29-30 e Efésios 1:5-12 fala da Igreja como grupo. O verbo grego quer dizer marcar limites de antemão, e o que Deus marcou foi o padrão de caráter do seu povo: ser conforme a imagem do Filho. Os eleitos são os “chamados para fora”, como sugere a palavra ekklesia: Deus chama a todos e, quando alguém atende, essa pessoa passa a fazer parte do povo eleito. A leitura se aproxima da eleição corporativa, que o site apresenta em eleição condicional em Cristo.
McKinley afasta a acusação de salvação pelas obras: arrependimento e fé “não são boas obras”, e não podem acontecer “sem a ajuda do Espírito Santo”, porque ninguém vem a Cristo se o Pai não o trouxer (João 6:44). Contra o chamado eficaz dirigido só aos eleitos, usa a imagem de uma mãe que chama os dois filhos, mas só levanta a voz para aquele que de fato quer ver chegar.
A inteira santificação
O terceiro encontro é a santidade. McKinley resume a posição calvinista como crescimento gradual, sem crise depois da conversão, e a wesleyana como uma segunda obra da graça. No novo nascimento o crente é liberto da prática do pecado, mas a natureza carnal continua; numa segunda crise, posterior à regeneração, o batismo com o Espírito Santo purifica o coração desse pecado interior. Em 1 Tessalonicenses 5:23 ele lê o verbo “santificar” no aoristo, tempo grego de uma ação pontual, como sinal de uma obra instantânea de Deus. O pecado original está no espírito, e não no corpo: é uma perversão herdada, mais funda que a vontade. A inteira santificação não traz perfeição absoluta nem de desempenho, mas a perfeição cristã, um coração perfeito no amor.
O livro termina com um pedido. Se os dois credos deixassem de discutir terminologia e buscassem juntos a purificação e a plenitude do Espírito, poderia vir um novo Pentecostes, até o dia em que todos se encontrassem onde Calvino e Armínio, Wesley e Whitefield já se encontraram, “onde não há credos”.
Diferenças com a declaração de fé do site
Na expiação por todos, na perseverança condicional, no testemunho do Espírito e na inteira santificação como obra da graça recebida pela fé, McKinley está muito perto da declaração de fé do site. Há três diferenças.
A primeira está na linguagem sobre a vontade humana. McKinley transcreve com aprovação o artigo remonstrante sobre a incapacidade do homem caído e diz que a fé não acontece sem o Espírito, mas, na polêmica contra Agostinho, põe entre os erros dele a incapacidade de querer o bem e descreve os eleitos como quem cedeu “por livre vontade” ao Espírito. O site afirma a depravação total e a incapacidade, como Armínio, e fala da vontade libertada pela graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta.
A segunda está na justificação. McKinley diz que a salvação é justiça “comunicada, e não imputada”. O site, com Armínio e com Wesley no sermão O Senhor, justiça nossa, afirma a imputação da justiça de Cristo na justificação, sem negar a transformação real que vem com o novo nascimento.
A terceira está no tom. O site descreve o calvinismo como os calvinistas o entendem e lembra que o arminianismo nasceu dentro da igreja reformada holandesa; a tese da origem pagã da predestinação é de McKinley.
O alcance do livro
Where Two Creeds Meet circulou nas igrejas de santidade: em 1981 o manual nazareno Discipleship, de Neil B. Wiseman, o sugeria como leitura. O Wycliffe Bible Dictionary o cita no verbete sobre a perseverança, ao lado de Life in the Son, de Robert Shank, e a Encyclopedia of Protestantism (2005), no verbete sobre o arminianismo.
Obras principais
- The Bible Preview of World War III (Houghton, 1951), folheto de 32 páginas.
- Where Two Creeds Meet: A Sincere Evaluation of Calvinism and Arminianism (Houghton: edição do autor, 1957).
- Where Two Creeds Meet: A Biblical Evaluation of Calvinism and Arminianism (Kansas City: Beacon Hill Press, 1959; brochura em 1965).
- That Blessed Hope, hino, com arranjo de Marion A. McKinley (Buffalo: B-K Publishing Co., 1968).
Para aprofundar
- O. Glenn McKinley, Where Two Creeds Meet: A Biblical Evaluation of Calvinism and Arminianism (Kansas City: Beacon Hill Press, 1959; impressão de 1965), no Internet Archive; também na Wesleyan-Holiness Digital Library.
- O. Glenn McKinley, Where Two Creeds Meet: A Sincere Evaluation of Calvinism and Arminianism (Houghton, 1957), com prefácio de Myron F. Boyd.
- “Rev. G. McKinley Holds Campaign at Rednersville”, The Ontario Intelligencer, Belleville, 23 de junho de 1952, p. 6.
- Anúncios dos cultos de O. G. McKinley na igreja metodista wesleyana, New Castle News, New Castle (Pensilvânia), 9 de junho de 1928 e 15 de junho de 1928.
- Ira Ford McLeister e Roy S. Nicholson, Conscience and Commitment: The History of the Wesleyan Methodist Church of America (Marion: Wesley Press, 1976), sobre a campanha em Porto Rico.
- Ira Ford McLeister, History of the Wesleyan Methodist Church of America (Marion: Wesley Press, 1959).
- Wayne E. Caldwell (org.), Reformers and Revivalists: The History of the Wesleyan Church (Indianapolis: Wesleyan Publishing House, 1992), p. 424.
- Beverly J. Barnett, Houghton’s Pantry: Its Proprietors, Patrons and Panache (1999), sobre a McKinley House.
- Library of Congress, Catalog of Copyright Entries, 1952, panfletos, e 1968, música.
- Neil B. Wiseman, Discipleship: Your New Life in Christ (Kansas City: Nazarene Publishing House, 1981), apêndice de leituras sugeridas.
- Wycliffe Bible Dictionary (Peabody: Hendrickson, 1998), verbete “Perseverance”; J. Gordon Melton, Encyclopedia of Protestantism (Nova York: Facts On File, 2005), verbete “Arminianism”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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