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John Telford: O editor das cartas de Wesley que trabalhou até o último dia

Diego Gonçalves13 min de leitura2.601 palavras

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Neste texto

Na sessão de encerramento da Conferência Metodista de 1936, em Newcastle upon Tyne, o secretário leu a carta em que a Conferência agradecia a quem tinha hospedado e servido os representantes. Quem a redigira era um velho ministro que havia muitos anos ocupava uma mesa na plataforma como um dos redatores oficiais de cartas da Conferência. Naquele dia ele não estava lá: adoecera gravemente e fora levado para uma casa de saúde. À noite, um amigo o visitou e orou com ele, e o doente agradeceu chamando-o pelo primeiro nome, como sempre. Morreu na manhã de sábado, 25 de julho, aos 84 anos. Era John Telford, que passou meio século escrevendo sobre John Wesley e reuniu as cartas dele na edição que serviu de referência por quase cinquenta anos.

Vida

De Wigton a Didsbury

John Telford nasceu em 5 de outubro de 1851 em Wigton, no antigo condado de Cumberland, no noroeste da Inglaterra. Os colegas viam na sua independência e na sua tenacidade a marca da gente da Cúmbria. Ele contou que, menino, na escola dominical metodista, chegou à pergunta do catecismo “O que é a providência de Deus?” e decorou a resposta: a preservação e o governo santíssimo, sábio e poderoso que Deus exerce sobre todas as criaturas e todas as ações delas. A resposta ficou com ele como uma lâmpada para os pés e, mais de meio século depois, virou o tema do seu livro mais pessoal.

Estudou no colégio teológico wesleyano de Didsbury, perto de Manchester, e foi recebido como ministro itinerante da Igreja Metodista Wesleyana em 1873.

Assistente e genro de Rigg

Em 1878, James Harrison Rigg, diretor do Westminster Training College, o colégio metodista de formação de professores em Londres, foi eleito presidente da Conferência Wesleyana e fez de Telford o seu assistente. No ano letivo de 1878-1879 Telford deu aulas em Westminster, e mais de cinquenta anos depois um aluno ainda lembrava a sua erudição e o modo magistral como tratava as evidências do cristianismo.

Em 1880 casou-se com Helen Sophia, a filha mais nova de Rigg. Por mais de trinta anos, escreveu, ouviu de perto os juízos do sogro “sobre os homens e as coisas”, e nas Conferências os colegas reparavam no cuidado com que acompanhava o velho Rigg. Quando ele morreu, em 1909, a família pediu a Telford a biografia, publicada no mesmo ano.

Trinta e dois anos de circuito

De 1873 a 1905 Telford foi pastor de circuito, o grupo de capelas que os metodistas confiavam a uma equipe de pregadores trocada de tempos em tempos. Um dos que escreveram sobre ele em 1936 lembrou que Telford tinha sido, quarenta anos antes, o pastor de sua mãe e nunca deixou de se interessar pela família.

No circuito começou a escrever. Em 1886 publicou Two West-End Chapels, sobre duas capelas metodistas de Londres, e a Life of John Wesley. A biografia mostrou que Wesley nunca foi morávio em sentido algum e que a sociedade de Fetter Lane, tal como Wesley a organizou, não era morávia, e o próprio Rigg reescreveu parágrafos do seu livro sobre Wesley na segunda edição, de 1886. Nos Estados Unidos, a Conferência Geral metodista pôs o livro no programa de estudos dos candidatos ao ministério.

Vieram depois a vida de Charles Wesley, Women in the Mission Field (1895), uma Popular History of Methodism e A History of Lay Preaching in the Christian Church (1897), que ele apresentou como a primeira história da pregação leiga, dos profetas de Israel aos pregadores de Wesley. A tese era prática: nenhum corpo de clérigos daria conta das grandes cidades e dos campos missionários sem ampliar o trabalho dos leigos.

Editor da Conexão

Em 1905 a Conferência o nomeou editor conexional, responsável pelas publicações oficiais da igreja. Dirigiu a Wesleyan Methodist Magazine e, a partir de 1906, a London Quarterly Review, revista de teologia, crítica bíblica, filosofia e literatura. Nunca saudou um livro fraco como obra-prima, mesmo de amigo, corrigia os colaboradores com franqueza e simpatia e lembrava a eles que a literatura trata da vida. Por muitos anos editou também os obituários dos ministros nas Atas da Conferência.

A rotina dele virou lenda na editora metodista da City Road, em Londres. Levantava às seis, saía de casa em Dorking pouco depois das sete, descia em London Bridge e ia a pé até a City Road, onde chegava por volta das oito e quinze. Às nove já tinha despachado o trabalho e saía, com a pequena maleta preta, para pesquisar no Museu Britânico ou escrever em casa.

Em 1907 publicou A Sect that Moved the World, sobre os evangélicos de Clapham, o círculo de William Wilberforce. Em 1908 fez a Fernley Lecture, a palestra teológica anual da Conferência, sobre Man’s Partnership with Divine Providence, “a parceria do homem com a providência divina”. Escreveu para a Encyclopaedia Britannica de 1911 os verbetes sobre a família Wesley, John Wesley e a Igreja Metodista Wesleyana, preparou The Methodist Hymn-Book Illustrated (1906), sobre a história dos hinos do hinário, e reeditou em sete volumes, como Wesley’s Veterans, as autobiografias que os primeiros pregadores escreveram a pedido de Wesley para o Arminian Magazine.

A edição padrão das cartas

A obra maior veio no fim. Pesquisando no Museu Britânico e na Guildhall Library e trocando correspondência com especialistas de vários países, Telford reuniu The Letters of the Rev. John Wesley, a “edição padrão” em oito volumes concluída em 1931 pela Epworth Press, com 2.670 cartas, introduções e notas. Tinha 79 anos. A edição foi a referência até que Frank Baker começou a publicar as cartas na edição de Oxford das obras de Wesley, em 1980; mais de um quinto das cartas hoje conhecidas não estava nela.

Com a união das igrejas metodistas britânicas, em 1932, a London Quarterly se fundiu com a Holborn Review, dos metodistas primitivos, e Telford a dirigiu com B. Aquila Barber até 1934. Em 1933 sucedeu John S. Simon na presidência da Wesley Historical Society.

Os últimos anos

Ao se aposentar, em 1934, recebeu a homenagem unânime da Conferência reunida em Leicester. Continuou morando em Dorking e pregando nas capelinhas de aldeia do circuito de Dorking e Horsham, onde entrava nas casas dizendo “Paz seja nesta casa”. Barber o descreveu como “um vitoriano com um brilho do século XX nos olhos”, fiel ao lema ancora imparo, “ainda aprendo”. Viúvo havia alguns anos e sem parentes vivos, pregou e visitou famílias até o fim.

No testamento deixou 30 mil libras para a formação de ministros metodistas, o “legado Telford”, cujas finalidades o Supremo Tribunal fixou depois de uma disputa judicial: ajuda aos estudantes, de preferência em Oxford ou Cambridge. Na imprensa metodista, o dr. Harrison o chamou de “o mais verdadeiro filho de John Wesley” que ainda restava entre eles.

Pensamento

Um wesleyano de toda a vida

Telford é um wesleyano. Foi ministro da Igreja Metodista Wesleyana por 63 anos e resumia a doutrina do avivamento, como Wesley, em arrependimento, justificação pela fé e santidade de coração e de vida. Foi mais historiador do que teólogo sistemático, e a sua teologia aparece no modo como conta a história de John Wesley e na palestra sobre a providência.

A graça livre e o decreto

Na Life of John Wesley (1886), a questão do livre-arbítrio e da soberania divina é, desde Agostinho, “o grande campo de batalha teológico do Ocidente”. Telford cita o resumo da predestinação que Wesley fez no sermão Free Grace (1740), um decreto eterno e irresistível que salvaria uns infalivelmente e condenaria os outros, e a carta de Susanna Wesley ao filho, em 1725, que fundava a eleição na presciência de Deus (Romanos 8:29-30): Deus predestinou os que viu que aceitariam a misericórdia oferecida. Para Telford, essa era em substância a posição do sermão. É a eleição condicional dos arminianos.

Sobre a ruptura com George Whitefield, ele toma o lado dos Wesley sem azedume. Whitefield dizia que, como não sabia quem eram os eleitos, oferecia o evangelho a todos; para os Wesley isso não bastava, porque o calvinismo se espalhava e o antinomismo, a ideia de que o crente está livre da lei moral, entrava nas sociedades. Os líderes do maior avivamento da Inglaterra “não tinham liberdade para ficar calados”. Na Popular History of Methodism vem a razão de fundo: os Wesley viam que só uma salvação capaz de restaurar cada alma “ao favor e à imagem de Deus” atenderia às necessidades do mundo.

No mesmo livro, Telford adota a leitura de R. W. Dale. Muitos dissidentes do século XVIII tinham um arminianismo frio, tirado do deísmo: o homem era livre porque Deus estava longe. Wesley cria que em Deus vivemos e existimos, e sabia que era livre “para receber ou rejeitar a graça infinita” que o Deus vivo lhe oferecia com insistência. No arminianismo de Wesley, a liberdade é resposta a uma graça que chega primeiro e pode ser recusada, a graça preveniente. Na History of Lay Preaching Telford celebra que o velho calvinismo tinha cedido lugar ao zelo evangelístico: o evangelho devia chegar ao coração e à consciência de cada pessoa.

Na controvérsia de 1770, ele elogia a “caridade invencível” dos Checks to Antinomianism de John Fletcher. E escreveu sob a mesma regra: no prefácio da biografia de Wesley, diz que tratou os temas disputados sem querer ofender pessoas razoáveis de nenhum partido.

A certeza da fé e a santidade

Na luta de Wesley com a dúvida, Telford vê a origem da ênfase metodista na segurança da salvação: nenhum cristão precisa andar nas trevas, porque pode ter a certeza de ter sido aceito por Deus. A inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor, é “o alvo para o qual todo cristão deve avançar”, e Wesley não lhe marcou data nem método. O melhor resumo do avivamento, para Telford, estava no Earnest Appeal: uma religião de amor a Deus e a toda a humanidade, recebida pela fé.

Daí o lugar dos hinos. Telford abriu o guia de 1906 com a observação de John Stoughton de que, onde um homem lia os sermões de Wesley, mil cantavam os hinos. As cartas, por sua vez, eram para ele “a ordem de marcha” do avivamento e o retrato mais íntimo de Wesley, “uma extensão da sua cura de almas”, trabalho de um verdadeiro epískopos, o supervisor das sociedades espalhadas.

A parceria com a providência

Na Fernley Lecture de 1908, a crença na providência está na raiz de toda religião, mas precisa ser exposta com cuidado, porque muitas tristezas do mundo vêm de desafiar a providência ou de não cooperar com ela. Deus “não passa por cima da ação humana, embora a governe”. Nessa parceria, “Deus é o sócio predominante”, e o homem fica sempre subordinado: a sua glória mais alta é ser “aluno e aliado” da providência. Entre as ajudas dessa cooperação, “a primeira e mais poderosa é a graça do Espírito”.

Telford rejeita o fatalismo: a liberdade não é destruída, e o homem é guiado para se tornar aliado consciente de Deus, que, nas palavras de William Newton Clarke, governa os seres livres “acima da liberdade deles”. A oração é o elo entre a providência divina e a humana. E há uma “eleição para o serviço”: quando a providência eleva um homem, uma igreja ou uma nação, o favor é chamado a servir, e não privilégio. O tema aqui é o governo de Deus na história e nas famílias, e não a salvação pessoal.

Onde ele se afasta da declaração de fé do site

No essencial da salvação, Telford segue a tradição de Wesley que a declaração de fé deste site adota: graça oferecida a todos e resistível, eleição fundada na presciência, justificação pela fé, certeza do Espírito e inteira santificação recebida pela fé. Há duas diferenças de ênfase. Na palestra de 1908 ele defende o livre-arbítrio a partir da consciência moral, enquanto a declaração fala da vontade libertada pela graça preveniente, embora ele mesmo ponha a graça do Espírito à frente. E a palestra termina com a esperança de uma vitória construída geração após geração dentro da história, otimismo mais perto do pós-milenismo do começo do século XX do que do amilenismo do site.

Legado

Telford deixou fontes, mais do que uma escola. Sobre a tradição que ele serviu, ver a tradição arminiana de Armínio a Wesley, a conversão de John Wesley e as biografias de William Burt Pope, cuja definição de providência ele usou em 1908, e de John Shaw Banks.

Obras principais

  • Two West-End Chapels (1886).
  • The Life of John Wesley (1886).
  • Women in the Mission Field (1895).
  • A History of Lay Preaching in the Christian Church (1897).
  • The Popular History of Methodism (3.ª ed., 1899).
  • The Life of the Rev. Charles Wesley (edição revista, 1900).
  • A Short History of Wesleyan Methodist Foreign Missions (1906).
  • The Methodist Hymn-Book Illustrated (1906).
  • A Sect that Moved the World (1907).
  • Man’s Partnership with Divine Providence, Fernley Lecture (1908).
  • The Life of James Harrison Rigg, D.D., 1821-1909 (1909).
  • Sayings and Portraits of John Wesley (1924).
  • The Letters of the Rev. John Wesley, edição padrão, 8 vols. (1931).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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