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HistóriaTeólogos arminianos19 de 253

Jerry L. Walls: o filósofo metodista que perguntou se Deus ama todos

Diego Gonçalves15 min de leitura2.925 palavras

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Neste texto

Na igrejinha rural de Knockemstiff, um vilarejo operário no sul de Ohio, pregava-se muito sobre o inferno e a condenação. Foi ali que um menino de 11 anos se converteu ao ouvir um sermão sobre a frase “há apenas um passo entre ti e a morte”, eco de 1 Samuel 20:3. Aos 13 pregou o primeiro sermão, e aos 18 já tinha subido ao púlpito dezenas de vezes. Esperava-se dele uma vida de pregador do interior. Jerry L. Walls tornou-se filósofo da religião, escreveu sobre o inferno um livro publicado pela Universidade de Notre Dame e passou a vida perguntando se o Deus que condena é o mesmo Deus que ama todas as pessoas.

Vida

Knockemstiff e o encontro com a filosofia

Walls é um dos seis filhos de uma família de Knockemstiff, e o ambiente simples e trabalhador da cidade marcou o seu modo de ver as coisas. No ensino médio leu Pollution and the Death of Man, de Francis Schaeffer, e o livro o levou à filosofia. A partir dali passou a ler cada obra de Schaeffer assim que saía.

Fez o bacharelado no Houghton College, no estado de Nova York, e seguiu para o Seminário Teológico de Princeton, onde concluiu o mestrado em Divindade. Em Princeton liderou o grupo dos estudantes evangélicos e sentiu o choque entre a fé da igreja de Knockemstiff e o ceticismo de parte da formação teológica. Em Yale, onde fez em um ano o mestrado em Teologia Sagrada (S.T.M.) trabalhando sobretudo com Paul Holmer, escreveu a dissertação sobre o inferno.

Ordenado presbítero da Igreja Metodista Unida, na Conferência do Oeste de Ohio, pastoreou entre Yale e o doutorado. Ainda na pós-graduação publicou The Problem of Pluralism (1986), pela Good News, o movimento evangélico de renovação dentro do metodismo unido. O livro criticava o “pluralismo teológico” adotado pela igreja em 1972 e pedia que ela recuperasse uma identidade doutrinária.

O doutorado em filosofia foi feito na Universidade de Notre Dame, com professores como Alvin Plantinga, Alfred Freddoso, Thomas Flint e Philip Quinn. O orientador foi Thomas V. Morris, que Walls aponta como o professor que mais o influenciou, e a tese tratou da doutrina da condenação eterna. Walls chamou Notre Dame de “de longe a maior experiência educacional” da sua vida.

Asbury

Em 1987 começou a ensinar filosofia da religião no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, onde ficou por mais de vinte anos. Era um professor procurado pelos alunos e conhecido pelo humor: em tom de brincadeira, dizia ser a pessoa mais humilde que conhecia. Um dos alunos que tiveram aula com ele em julho de 1989, David Baggett, decidiu por causa dele fazer doutorado em filosofia e se tornou o seu principal parceiro de escrita.

Em Asbury saíram os livros que o tornaram conhecido. Hell: The Logic of Damnation (1992), pela editora de Notre Dame, defendia que a doutrina tradicional do inferno pode ser crida com integridade intelectual e moral. Com Scott Burson escreveu C. S. Lewis and Francis Schaeffer (1998), sobre os dois apologistas que o formaram. Heaven: The Logic of Eternal Joy (2002) saiu pela Oxford University Press. Em 2004, com o colega de Novo Testamento Joseph R. Dongell, publicou pela InterVarsity Why I Am Not a Calvinist, que saiu ao mesmo tempo que Why I Am Not an Arminian, de dois autores calvinistas. Dongell cuidou sobretudo da parte bíblica e Walls da parte filosófica.

Organizou também a coletânea The Chronicles of Narnia and Philosophy (2005), com Gregory Bassham, e o Oxford Handbook of Eschatology (2008), uma obra de referência de setecentas páginas sobre as últimas coisas. Com Gary Habermas e Baggett organizou C. S. Lewis as Philosopher (2008). É John Wesley Fellow, membro da Sociedade de Filósofos Cristãos, e passou o ano de 2009-2010 como pesquisador do Centro de Filosofia da Religião de Notre Dame. Também escreve poesia.

Houston

Mais tarde mudou-se para o Texas, como professor de filosofia e scholar in residence da Houston Baptist University, que depois passou a se chamar Houston Christian University. Ali completou a trilogia sobre a vida futura com Purgatory: The Logic of Total Transformation (2011) e reuniu as três obras num livro para o público leigo, Heaven, Hell, and Purgatory (2015). Com Baggett escreveu quatro livros sobre o argumento moral a favor da existência de Deus, de Good God (2011), premiado pela revista Christianity Today como o melhor livro de apologética de 2012, a The Good, the Right, and the Real (2025).

Em 2017, nos quinhentos anos da Reforma, publicou com Kenneth J. Collins Roman but Not Catholic, para protestantes tentados a se converter a Roma. No mesmo ano nasceu dele a ideia de A Reforming Catholic Confession. Depois de ler um livro do teólogo calvinista Kevin Vanhoozer, Walls lhe escreveu dizendo que era preciso mostrar, com conteúdo, que os protestantes conseguem concordar em matérias de substância, e propôs uma confissão do “protestantismo puro e simples”. Um arminiano convidou um calvinista para escrever o primeiro rascunho. Os dois reuniram dezoito teólogos luteranos, metodistas, anglicanos, presbiterianos, pentecostais e batistas, e a confissão de doze artigos foi divulgada em 12 de setembro de 2017.

Aposentou-se em maio de 2025, aos 70 anos, e voltou a morar em Wilmore.

O Brasil

Em 2014 a Editora Reflexão lançou Por que não sou calvinista, numa tradução de que participou Wellington Mariano. Em agosto de 2015 a editora levou Walls ao Brasil: foram nove palestras em oito dias, em São Paulo, Rio de Janeiro, Cuiabá, Natal e Recife, com uma visita a um seminário das Assembleias de Deus e a Conferência de Teologia Arminiana no fim da semana.

Na volta, Walls disse que Armínio tinha no Brasil um “fã-clube crescente”, bem informado e cheio de energia. O que mais o surpreendeu foi a quantidade de livros calvinistas nas livrarias, inclusive na do seminário pentecostal, que tinha mais obras sérias de calvinistas do que de arminianos. Como o pentecostalismo nasceu dos movimentos wesleyano e de santidade, os seus instintos são arminianos, e Walls via os calvinistas tentando convencer os pentecostais de que a teologia reformada era a deles. Resumiu o apelo da teologia wesleyana numa frase: Deus “não determina; ele capacita, habilita, encoraja”. Roger Olson, que não pôde fazer a viagem, tinha indicado Walls para ela.

As palestras viraram livro. Nos Estados Unidos saiu Does God Love Everyone? The Heart of What’s Wrong with Calvinism (2016), e no Brasil a Reflexão publicou no mesmo ano Qual o caminho das Assembleias de Deus?, dirigido aos pastores e líderes da denominação.

Pensamento

Onde ele fica no arminianismo

Walls é um arminiano wesleyano. Foi ordenado presbítero metodista, formou-se na tradição de John Wesley e defende a doutrina wesleyana da graça preveniente. A Society of Evangelical Arminians o inclui entre os seus autores, na história da confissão de 2017 ele aparece como o arminiano do par que a propôs, e Kevin Timpe o chama de “filósofo wesleyano”. O ponto de partida dele é o mesmo dos reformadores: num texto de 2008, lembra que calvinistas e wesleyanos afirmam juntos a depravação total, a ideia de que o pecado incapacitou o ser humano para obedecer a Deus. A diferença está no que Deus faz diante dessa incapacidade. Para Wesley, explica Walls, a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, devolve a cada pessoa uma medida de liberdade para aceitar ou recusar o evangelho, e a eleição depende dessa resposta. Daí a frase que resume a posição: os perdidos “não estão perdidos porque não são eleitos; não são eleitos porque escolhem livremente permanecer perdidos”.

O caráter de Deus

A tese que atravessa toda a crítica de Walls ao calvinismo é que o centro da disputa é o caráter de Deus, e não a liberdade humana em abstrato. Why I Am Not a Calvinist pergunta qual sistema representa melhor o Deus bíblico, “cuja natureza é amor santo” (p. 8). Em Does God Love Everyone? ele repete: “A diferença mais profunda diz respeito a como entendemos o caráter de Deus” (p. 80).

O argumento tem uma peça técnica. O calvinismo costuma adotar o compatibilismo, a tese de que uma escolha pode ser livre mesmo quando está inteiramente determinada, desde que a pessoa aja segundo os desejos que tem. Walls responde que, se isso fosse verdade, Deus poderia salvar todas as pessoas sem ferir a liberdade de ninguém, bastando dar a todas a graça que muda o desejo. Se não salva, é porque escolheu não salvar quem poderia. “Não é uma questão do que Deus poderia fazer (poder), mas do que ele faria (caráter).” Num artigo de 2011 em Philosophia Christi, foi além: nenhum cristão ortodoxo deveria ser compatibilista, porque essa posição agrava o problema do mal e o da responsabilidade moral.

Em Does God Love Everyone? o raciocínio vira uma série de premissas. Deus ama verdadeiramente todas as pessoas; amar alguém é desejar e promover o verdadeiro bem dessa pessoa; o verdadeiro bem de todos está na comunhão salvadora com Deus; nem todos serão salvos. Se Deus pudesse dar a todos uma graça irresistível, todos seriam salvos. O arminiano resolve a tensão negando a graça irresistível. O calvinista precisa negar que Deus ame todos, ou redefinir o amor. Por isso, diz Walls, o calvinista tem dificuldade para dizer com sinceridade a qualquer ouvinte que Deus o ama e que Cristo morreu por ele. Günther Juncker partiu dessas mesmas premissas num estudo de 2025.

Walls não troca a soberania pela liberdade. Com Dongell, sustenta que Deus, soberano, pode escolher criar um mundo com liberdade real: “Menos controle não é o mesmo que menos soberania, se Deus escolhe ter menos controle”. E insiste que versículos isolados não resolvem a questão para nenhum dos lados. As bases dessa visão estão em Por que Armínio rejeitou o calvinismo e Por que John Wesley rejeitou o calvinismo.

Inferno, céu e purgatório

Em Hell, Walls parte de um princípio sobre a bondade de Deus: Deus faz tudo o que pode para salvar todas as pessoas, menos destruir a liberdade delas. Para isso propõe a ideia de graça ótima, a forma e a medida de graça mais adequadas para levar cada pessoa a uma resposta positiva, sem passar por cima da sua liberdade. O inferno, nessa leitura, é a consequência natural de uma vida de pecado, e não um castigo arbitrário: escolher o mal é escolher a miséria, e quem o escolhe o faz livremente. A influência de C. S. Lewis, que Walls chama de “incalculável”, aparece aqui: O grande divórcio lhe mostrou como seres humanos podem preferir o mal.

Heaven defende que a doutrina do céu, hoje vaga e esquecida, ajuda a responder às perguntas sobre o fundamento da moral, o sentido da vida e o problema do mal. Recuperar a esperança do céu, conclui, é recuperar a própria humanidade.

Purgatory é o livro mais discutido da trilogia. Walls separa dois modelos de purgatório: o da satisfação, em que a alma paga depois da morte uma dívida de pena, e o da santificação, em que a alma é purificada e transformada. Os reformadores, lembra ele, reagiram ao primeiro, que no tempo de Tetzel tinha virado comércio de indulgências e anulava, nas palavras de Calvino, a cruz de Cristo. Walls aceita só o segundo e o liga a Hebreus 12:14, a santidade “sem a qual ninguém verá o Senhor”. Num artigo para a revista Christian History, em 2014, citou John Fletcher: perguntar qual é o verdadeiro purgatório, isto é, como a alma é purificada dos restos do pecado, é perguntar como seremos salvos. Na capa de Heaven, Hell, and Purgatory pôs o lava-pés de Pedro (João 13:6-9), imagem de uma purificação graciosa feita por um Deus de amor santo. Defende também a possibilidade de uma oportunidade de arrependimento depois da morte.

Aqui Walls se afasta da tradição metodista e da declaração de fé deste site. Os Artigos de Religião metodistas (art. XIV) rejeitam a doutrina romana do purgatório, e o próprio Walls sugere que as razões de Wesley para rejeitá-lo eram mais reformadas do que se esperaria. A declaração do site espera a inteira santificação nesta vida, pela fé, como obra da graça que purifica o coração, e não prevê uma purificação depois da morte nem uma segunda chance. Em outros pontos Walls está do lado do site: afirma a realidade do inferno eterno, a justificação somente pela fé e a santificação como obra da graça com a qual o crente coopera.

O argumento moral e a convicção

Com Baggett, Walls defende que o teísmo cristão oferece uma explicação da verdade moral “racionalmente poderosa” e também atraente para a vida concreta: deveres morais reais e o valor das pessoas apontam para um Deus santo e amoroso.

Num texto de 2014, Walls pediu que os arminianos aprendessem uma coisa com os calvinistas: a convicção. Queria arminianos confiantes “não em si mesmos, mas na verdade da sua teologia”, que ensinassem a soberania, a predestinação e a eleição em vez de deixar esses temas aos calvinistas, sem arrogância e sem deixar de cooperar com os outros cristãos ortodoxos. O modelo que apontou foram os pregadores itinerantes metodistas do século XIX, graciosos e firmes ao mesmo tempo.

Obras principais

  • The Problem of Pluralism: Recovering United Methodist Identity (1986)
  • Hell: The Logic of Damnation (1992)
  • C. S. Lewis and Francis Schaeffer (com Scott Burson, 1998)
  • Heaven: The Logic of Eternal Joy (2002)
  • Why I Am Not a Calvinist (com Joseph R. Dongell, 2004)
  • The Chronicles of Narnia and Philosophy (org. com Gregory Bassham, 2005)
  • The Oxford Handbook of Eschatology (org., 2008)
  • C. S. Lewis as Philosopher (org. com David Baggett e Gary Habermas, 2008)
  • Good God: The Theistic Foundations of Morality (com David Baggett, 2011)
  • Purgatory: The Logic of Total Transformation (2011)
  • Heaven, Hell, and Purgatory: Rethinking the Things That Matter Most (2015)
  • Does God Love Everyone? The Heart of What’s Wrong with Calvinism (2016)
  • God and Cosmos: Moral Truth and Human Meaning (com David Baggett, 2016)
  • Roman but Not Catholic (com Kenneth J. Collins, 2017)
  • Two Dozen (or So) Arguments for God: The Plantinga Project (org. com Trent Dougherty, 2018)
  • The Moral Argument: A History (com David Baggett, 2019)
  • The Good, the Right, and the Real: Is Value a Fact? (com David Baggett, 2025)

Livros em português

  • Por que não sou calvinista, com Joseph R. Dongell (Reflexão, 2014). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Qual o caminho das Assembleias de Deus? Amor para todos ou somente alguns? (Reflexão, 2016). Ver na Amazon
  • As Crônicas de Nárnia e a filosofia, org. com Gregory Bassham (Madras, 2006). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Cristãos, muçulmanos e judeus adoram o mesmo Deus? Quatro visões, com um capítulo de Walls (Thomas Nelson Brasil, 2022). Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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