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J. N. D. Kelly: O patrólogo de Oxford que ensinou a ler os pais da Igreja
Neste texto
No Domingo da Pascoela de 1958, o primeiro domingo depois da Páscoa, que caiu em 13 de abril, um padre anglicano de Oxford completou 49 anos e datou o prefácio de um manual de 500 páginas. Os primeiros capítulos tinham sido rascunhados, e os últimos datilografados, em Bincombe, a casa de campo de uns amigos em Somerset. O autor dizia que o seu objetivo era “modesto”: dar aos estudantes um esboço do desenvolvimento da teologia na Igreja dos pais. O livro era Early Christian Doctrines, e o autor, John Norman Davidson Kelly. Mais de sessenta anos depois, o manual continua nas bibliotecas dos seminários, inclusive no Brasil, onde saiu pela Vida Nova com o título Patrística.
Vida
Uma infância escocesa
Kelly nasceu em 13 de abril de 1909, em Bridge of Allan, no condado de Perth, na Escócia. Era o quarto dos cinco filhos de John Davidson Kelly, diretor de escola escocês, e de Ann, uma inglesa. Quando a escola do pai entrou em dificuldades financeiras, o pai ficou sem emprego, e John e a irmã Ann, três anos mais nova, estudaram em casa, ensinados por ele. Kelly lamentaria mais tarde o pouco convívio social desses anos.
A família era presbiteriana. Kelly cresceu nessa tradição e, já adulto, foi confirmado na Igreja da Inglaterra.
Glasgow, Oxford e a ordenação
Estudou na Universidade de Glasgow, onde se formou em 1931 com honras. Seguiu para Oxford com bolsa, no Queen’s College, e lá estudou letras clássicas e teologia, com resultado de primeira classe em 1934. Entre 1933 e 1934 preparou-se para o ministério em St Stephen’s House, a casa de formação da ala anglo-católica da Igreja da Inglaterra. Foi ordenado diácono em 1934, com o primeiro posto como cura auxiliar na igreja de St Lawrence, em Northampton, e presbítero em 1935.
St Edmund Hall
No mesmo ano da ordenação, o diretor de St Edmund Hall, A. B. Emden, convidou-o a voltar a Oxford como capelão e professor de teologia e filosofia. St Edmund Hall, a “Teddy Hall” dos estudantes, era a mais antiga das “halls” medievais que ainda restavam na universidade e desde 1557 vivia sob a tutela do Queen’s College. Kelly passou ali o resto da vida. Em 1937 tornou-se vice-diretor. Na Segunda Guerra Mundial pediu para ser capelão militar, mas Emden não o liberou, e ele fez trabalho linguístico para o Ministério das Relações Exteriores. De 1945 a 1948 deu as preleções de estudos bíblicos da universidade, e depois foi professor de patrística, o estudo dos pais da Igreja, até 1976. Em 1948 recebeu o título de cônego da catedral de Chichester, que manteve até 1993.
Em 1951 Emden se aposentou por doença, e Kelly assumiu a direção da casa. Ele considerava o antecessor a força que mais transformou a história da Hall, e coube a ele terminar o que Emden tinha começado em 1937. Com a cooperação do Queen’s College, a Hall foi incorporada como colégio da universidade em 1957, e o duque de Edimburgo entregou a carta régia em 1958. Kelly conduziu também uma grande campanha de doações, que pagou novos alojamentos para os alunos e um novo refeitório. No fim da sua gestão, a Hall passou a admitir mulheres na graduação, com as primeiras matrículas em 1979, ano em que ele se aposentou e passou a membro honorário do colégio. Dez anos depois escreveu a história da casa, St Edmund Hall: Almost Seven Hundred Years (1989).
Os livros
O primeiro livro grande foi Early Christian Creeds (1950), estudo de 446 páginas sobre a origem e o uso dos credos nos primeiros séculos. O anglicano evangélico Alan Stibbs, ao resenhá-lo na revista The Churchman, chamou-o de manual que todo estudante do assunto “precisa possuir”. Em 1951 Oxford lhe deu o doutorado em divindade. Vieram depois a tradução comentada do Comentário ao Credo dos Apóstolos de Rufino (1955), na coleção Ancient Christian Writers, e, em 1958, Early Christian Doctrines, que traça o desenvolvimento da doutrina do fim do século I até o Concílio de Calcedônia (451) e chegou à quinta edição revista. Os dois livros viraram texto-padrão nos seminários de língua inglesa.
Nos anos 1960 Kelly escreveu dois comentários para a série Black’s New Testament Commentaries: um sobre as epístolas pastorais (1963) e outro sobre as epístolas de Pedro e de Judas (1969). Nas pastorais, depois de pesar os argumentos contra a autoria de Paulo, concluiu que o testemunho antigo e o ambiente primitivo das cartas inclinam a balança para a autoria tradicional. A revista Interpretation aconselhou o livro sobretudo aos alunos que descartam depressa demais a posição conservadora. Em Pedro, ao contrário, tratou a segunda epístola como pseudônima, e escreveu que quase ninguém mais duvidava disso, frase que Michael Kruger tomou como ponto de partida para defender a autenticidade da carta. Em 1964 publicou The Athanasian Creed, das Paddock Lectures de 1962 e 1963, sobre o credo Quicumque vult.
Na maturidade, voltou-se para a biografia. Jerome (1975) apresenta São Jerônimo, o tradutor da Vulgata, como um homem briguento, raramente em paz consigo mesmo. Golden Mouth (1995), sobre João Crisóstomo, foi resenhado na Bryn Mawr Classical Review como a biografia completa e atualizada em inglês que podia substituir o antigo estudo de Chrysostomus Baur. Entre um e outro, publicou The Oxford Dictionary of Popes (1986), com todos os papas e antipapas, de Pedro em diante, livro que Michael Walsh revisou e atualizou em 2010.
A Igreja e Roma
Kelly foi também um homem de Igreja. De 1963 a 1968 presidiu a comissão do arcebispo de Cantuária para as relações com a Igreja Católica Romana, e em março de 1966 acompanhou o arcebispo Michael Ramsey na visita a Roma, o primeiro encontro oficial entre um arcebispo de Cantuária e um papa desde a Reforma. Foi membro fundador do conselho acadêmico do Instituto de Estudos Teológicos Avançados de Jerusalém. Em Oxford, foi pró-vice-chanceler e, em 1966, ocupou por pouco tempo o cargo de vice-chanceler, o chefe executivo da universidade, até que uma doença interrompeu o mandato. Em 1965 foi eleito membro da Academia Britânica.
Kelly não se casou. Morreu em 31 de março de 1997, aos 87 anos, quando trabalhava num livro sobre os arcebispos de Cantuária, companheiro do dicionário dos papas. As cinzas foram depositadas na antecapela de St Edmund Hall.
Pensamento
Onde Kelly fica no arminianismo
Kelly entra nesta série como simpatizante. Foi um historiador da doutrina, anglicano de formação anglo-católica, e não tomou partido no debate entre calvinistas e arminianos. Mas, ao narrar a controvérsia pelagiana em Early Christian Doctrines, deixa claro, na própria voz, onde está. Diz que Agostinho, para manter a eleição de um número fixo de pessoas, “teve de torcer” o texto de 1 Timóteo 2:4, “Deus quer que todos os homens sejam salvos”, fazendo-o significar que Deus quer salvar todos os eleitos. E registra que a Igreja ocidental, ao aceitar a doutrina de Agostinho no Concílio de Orange (529), deixou cair em silêncio dois pontos dele: a graça irresistível e a interpretação severa da predestinação. A vontade universal de Deus de salvar e a graça que pode ser recusada são exatamente os pontos em que o arminianismo se separa do calvinismo. Ao mesmo tempo, Kelly nunca se disse arminiano, e a sua tradição é a da Igreja da Inglaterra lida pelos pais, e não a de Armínio ou de John Wesley.
Graça e livre-arbítrio nos pais
Para Kelly, o pelagianismo errou pela “visão excessivamente cor-de-rosa” da natureza humana e por não reconhecer o bastante a dependência do homem em relação a Deus. Ele expõe com cuidado o que Agostinho respondeu: a graça é absolutamente necessária, e antes que possamos sequer aspirar ao bem ela já tem de agir dentro de nós. Kelly lembra que o próprio nome “graça preveniente” vem de Agostinho, que o tirou do Salmo 59:10 na versão latina: a misericórdia de Deus “irá adiante de mim” (praeveniet). É a graça que começa em nós tudo o que pensamos, desejamos e queremos de bom. Esse é o mesmo ponto de partida da graça preveniente na teologia arminiana, que afirma, com Agostinho e com Orange, que a graça vem antes de qualquer querer humano, e afirma, contra o último Agostinho, que essa graça pode ser recusada.
Kelly também mostra que a Igreja grega pensava diferente do Ocidente. Cirilo de Alexandria, Teodoro de Mopsuéstia e Teodoreto afirmavam a herança da queda e a necessidade da graça, mas mantinham que o livre-arbítrio não tinha sido suprimido.
Há, porém, um ponto em que Kelly vai além do que o arminianismo clássico aceita. Ele trata com simpatia os monges do sul da Gália, como João Cassiano, a quem se deu no século XVII o nome de “semipelagianos”, que ele julga “pouco gentil”. Diz que eles sofreram “injustamente” a suspeita de pelagianismo. Cassiano ensinava que às vezes o primeiro movimento da boa vontade nasce do próprio homem, e que a vontade caída está doente, e não morta. Armínio e Wesley rejeitaram essa ideia: para eles a vontade sem a graça está perdida, e o primeiro passo é sempre de Deus. Nesse ponto a soteriologia arminiana fica com Orange. O tema é o mesmo de Wesley entre agostinianos e pelagianos.
A cruz: recapitulação e substituição
Na doutrina da obra de Cristo, Kelly propôs uma leitura que se tornou clássica. Os pais usavam três explicações que parecem não combinar: a “física” ou mística, em que a natureza humana é santificada pela encarnação; o resgate pago ao diabo; e a “realista”, em que Cristo se põe no lugar dos pecadores e leva a pena que a justiça exigia deles. Kelly argumenta que as três tentam esclarecer a mesma verdade por ângulos diferentes e podem ser vistas como complementares, e que o fio que as une é a ideia de recapitulação de Ireneu: Cristo refaz, como novo Adão, o caminho em que o primeiro Adão caiu.
Ao tratar de João Crisóstomo, Kelly mostra a substituição e o alcance universal da cruz juntos. Cristo, sendo a própria justiça, foi condenado como pecador e levou não só a morte que devíamos, mas a nossa culpa. E Crisóstomo escreveu que ele “morreu por todos, para salvar a todos”, de modo que, se nem todos são salvos, a razão está na recusa em recebê-lo. É a mesma combinação que este site defende no capítulo sobre a expiação: satisfação penal e alcance universal.
Escritura, tradição e credos
Sobre a autoridade, Kelly concluiu que, para os pais, a Escritura e a tradição eram autoridades complementares, de forma diferente e conteúdo coincidente. A Escritura era “abundantemente suficiente” em princípio, e a tradição era a pista mais segura para interpretá-la. Ele também desfez um engano comum: para os pais, “tradição” era antes de tudo a doutrina que o Senhor e os apóstolos entregaram à Igreja, por escrito ou de boca. A declaração de fé deste site põe a Bíblia como autoridade final, e a tradição anglo-católica de Kelly dá à tradição, aos sacramentos e ao ministério da Igreja um peso maior. O tema volta em Bíblia e tradição.
Nos credos, a tese dele contrariou uma ideia antiga: a de que os credos cresceram só para excluir hereges. Para Kelly, o fim principal do ensino aos catecúmenos era positivo, contar a quem chegava a história do que Deus fez pelo homem no seu Filho. Os credos declarativos, de forma fixa, pertenciam à preparação para o batismo, e não ao rito em si, e até o século IV eram todos locais, cada um nascido da liturgia de uma igreja. O Credo Apostólico, nessa leitura, é o antigo credo de Roma ampliado aos poucos.
No prefácio de 1958, ele resumiu o método de toda a obra: a única maneira de entender a mente da Igreja antiga é “embeber-se dos escritos patrísticos”. Por isso enchia as páginas de citações dos pais com a referência exata. Uma geração depois, o metodista Thomas Oden fez o mesmo caminho de volta aos pais da Igreja. Outro anglicano da série é Jeremy Taylor, e outro professor de Oxford que simpatizou com a teologia arminiana sem adotar o nome foi C. S. Lewis.
Obras principais
- Early Christian Creeds (1950; 3ª edição, 1972).
- What is Catholicism? (1952).
- Rufino, A Commentary on the Apostles’ Creed, tradução e notas (Ancient Christian Writers 20, 1955).
- Early Christian Doctrines (1958; 5ª edição revista, 1978).
- A Commentary on the Pastoral Epistles: I Timothy, II Timothy, Titus (1963).
- The Athanasian Creed (Paddock Lectures, 1964).
- The Motive of Christian Asceticism (1964).
- A Commentary on the Epistles of Peter and of Jude (1969).
- Aspects of the Passion (1970).
- Jerome: His Life, Writings and Controversies (1975).
- The Oxford Dictionary of Popes (1986; edição revista por Michael Walsh, 2010).
- St Edmund Hall: Almost Seven Hundred Years (1989).
- Golden Mouth: The Story of John Chrysostom, Ascetic, Preacher, Bishop (1995).
Livros em português
- Patrística: origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã (Vida Nova, 1994; antes publicado como Doutrinas centrais da fé cristã). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines (Nova York: Harper & Brothers, 1959), prefácio e cap. XIII e XIV, Internet Archive.
- Alan M. Stibbs, resenha de Early Christian Creeds, The Churchman 64, n. 4 (1950), p. 242-243, Church Society.
- History of the Hall, St Edmund Hall, Universidade de Oxford.
- Principal Emden: “the force that did what had waited 700 years”, blog de St Edmund Hall.
- Thomas Renna, Early Christian Doctrines by J. N. D. Kelly, EBSCO Research Starters (2022).
- Richard Lim, resenha de Golden Mouth, Bryn Mawr Classical Review 1996.01.07.
- Christa Gray, Jerome: a model scholar?, OUPblog (2015).
- The Pastoral Epistles, de J. N. D. Kelly, descrição e trechos, Verbum.
- Michael J. Kruger, The Authenticity of 2 Peter, Journal of the Evangelical Theological Society 42, n. 4 (1999).
- Patrística, Edições Vida Nova.
- John Norman Davidson Kelly, Wikipédia em inglês (com a bibliografia de H. E. J. Cowdrey na Proceedings of the British Academy 101, 1999, e no Oxford Dictionary of National Biography).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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