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HistóriaTeólogos arminianos14 de 253

Carl Friedrich Keil: O aprendiz de carpinteiro que comentou quase todo o Antigo Testamento

Diego Gonçalves12 min de leitura2.476 palavras

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Neste texto

Em 7 de maio de 1821, um menino de catorze anos saiu a pé de Lauterbach, aldeia do Vogtland, na Saxônia, rumo a Lübeck, ao lado de um aprendiz de ourives. Dali seguiria de navio para São Petersburgo, onde um tio era mestre carpinteiro e lhe ensinaria o ofício. O tio achou o sobrinho pequeno e fraco demais para a bancada e o mandou de volta à escola. O carpinteiro que não chegou a existir tornou-se Carl Friedrich Keil, autor da maior parte do comentário Keil-Delitzsch, que pastores e estudantes ainda abrem para ler o Antigo Testamento hebraico.

Retrato litografado de Carl Friedrich Keil, jovem, com colarinho clerical branco e veste escura
Carl Friedrich Keil em litografia impressa em Dorpat, autor desconhecido, século XIX. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

De Lauterbach a São Petersburgo

Johann Friedrich Karl Keil, que assinava Carl Friedrich Keil, nasceu em 26 de fevereiro de 1807 em Lauterbach, perto de Oelsnitz, no reino da Saxônia. Os pais, Johann Gottfried Keil e Anna Sophie Modes, eram gente simples do campo, e ele foi o único filho do casal que sobreviveu.

Em São Petersburgo, o tio o pôs para aprender russo e francês e o matriculou na Petrischule, a escola alemã da Igreja de São Pedro. O menino se destacou pelo esforço e pelo talento e concluiu os estudos em 1826. Com uma bolsa do conselho daquela igreja e o apoio da imperatriz-viúva Maria Feodorovna, foi estudar teologia em Dorpat, hoje Tartu, na Estônia. A cidade pertencia ao Império Russo, mas a universidade ensinava em alemão e formava os pastores luteranos do Báltico.

Dorpat e Berlim

Keil estudou em Dorpat de 1827 a 1830. Ali os professores Lenz e Sartorius marcaram a sua formação, e Kleinert o encaminhou para o Antigo Testamento. De 1830 a 1833 continuou os estudos em Berlim. Nas duas cidades encontrou homens que, com amizade paterna, o levaram a uma fé viva. Em Berlim pesaram o pregador da corte Strauss e, acima de todos, Ernst Wilhelm Hengstenberg, o líder dos luteranos que enfrentavam o racionalismo nas universidades. Com Hengstenberg, Keil se tornou luterano confessional dentro do movimento de despertamento, o reavivamento alemão do começo do século XIX que unia piedade pessoal, conversão e confiança na Bíblia. Às vezes chegou a editar a Evangelische Kirchenzeitung, o jornal combativo de Hengstenberg.

Em Berlim também assistiu às aulas de sânscrito de Franz Bopp, fundador da linguística comparada. Alexander von Humboldt tentou, sem sucesso, atraí-lo para os estudos orientais. Em 1833 doutorou-se em filosofia e obteve a licenciatura em teologia com um Ensaio apologético sobre os livros das Crônicas, em que defendia a confiabilidade de Crônicas e a integridade do livro de Esdras.

Vinte e cinco anos em Dorpat

No mesmo ano de 1833 voltou a Dorpat como docente livre. Em 1838 tornou-se professor extraordinário e, em 1839, titular da cadeira de exegese e línguas orientais. Ensinava a interpretação do Antigo e do Novo Testamento, além de aramaico, árabe e siríaco. Em 1837 foi o primeiro a dar aulas de sânscrito em Dorpat, e nas preleções chegou a tratar do Alcorão e do Mahabharata. Foi decano da faculdade de teologia de 1841 a 1851.

Em anos de intervenção do governo russo na universidade, ao lado de Friedrich Adolf Philippi, Theodosius Harnack e Johann Heinrich Kurtz, Keil deu marca luterana aos pastores formados em Dorpat na década de 1840. Era estimado, mas não formou discípulos acadêmicos.

Desse período são O templo de Salomão (1839), os comentários a Reis (1846) e a Josué (1847), a Introdução histórico-crítica aos escritos canônicos do Antigo Testamento (1853) e o Manual de arqueologia bíblica (1858-1859). Em 1841 casou com Margarethe Pohrt, filha de pastor, que morreu em 1852. Em 1853 casou com Dorothee Bienemann, a Doris, filha de Friedrich Gustav Bienemann, pastor principal de Dorpat.

Leipzig e o grande comentário

Em 1858 Keil recusou a reeleição para a cátedra. Percebia que em Dorpat não teria sucessores e queria concluir, com Franz Delitzsch, um comentário a todo o Antigo Testamento. Em 1859, aos 52 anos, mudou-se para Leipzig com a aposentadoria garantida e ali viveu quase trinta anos como estudioso independente, sem cátedra. Participava da vida da igreja e amava as missões. A casa dele e de Doris recebia tantos visitantes bálticos que os amigos a chamavam, de brincadeira, de “albergue da Livônia”.

O primeiro volume do Comentário bíblico sobre o Antigo Testamento saiu em 1861, com Gênesis e Êxodo. O prefácio, assinado por Keil, abre com a frase que resume o projeto: “O Antigo Testamento é a base do Novo”. A proposta era oferecer, sobretudo a estudantes de teologia e pastores, uma explicação gramatical e histórica que fosse também bíblica, para ajudar a entender a economia da salvação, o modo como Deus conduziu a redenção na história de Israel. Keil escreveu todos os volumes, menos os de Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos e Isaías, que ficaram com Delitzsch. A editora T. & T. Clark, de Edimburgo, publicou a série em inglês entre 1864 e 1878, e nessa forma ela é reimpressa até hoje.

Keil defendia a autoria mosaica do Pentateuco, lia os milagres de Israel como intervenção de Deus e rejeitava a crítica literária que ganhava terreno na Alemanha, a que Delitzsch, no fim da vida, cedeu em parte. Mesmo assim, no prefácio à terceira edição dos Profetas Menores de Keil (1888), Delitzsch contou ter ouvido muitas vezes de pastores dedicados ao estudo que eles preferiam os comentários de Keil a todos os outros, inclusive aos dele. Delitzsch o descreveu também como um pesquisador que avançava devagar e com cuidado, “nada fantasioso, mas por isso mesmo mais sensato e mais claro”.

Aos setenta anos, Keil passou ao Novo Testamento: Mateus (1877), Marcos e Lucas (1879), João (1881), as cartas de Pedro e Judas (1883) e Hebreus (1885). Em 1887 mudou-se para Rödlitz, perto de Lichtenstein, na Saxônia, e ali morreu em 5 de maio de 1888, aos 81 anos. A história da exegese o guarda como o último grande intérprete da escola de Hengstenberg.

Pensamento

Um luterano ao lado dos arminianos

Keil nunca se chamou arminiano. Foi luterano confessional, formado por Hengstenberg e pelo despertamento, e o luteranismo tem a sua própria doutrina da eleição desde a Fórmula de Concórdia (1577). Por isso a série o apresenta como simpatizante: nos comentários, ele rejeita por nome a leitura predestinacionista de Calvino e Beza e afirma que Deus quer a salvação de todos, que Cristo pagou o preço até por quem depois o nega, que a graça pode ser recusada até o fim e que o convertido pode abandonar a fé. É a mesma posição do amigo Delitzsch.

Keil também não dá ao ser humano caído nenhuma bondade natural. No comentário a Gênesis 8:21 (1861), ele explica que Deus resolve não destruir de novo a terra porque “o intento do coração do ser humano é mau desde sua juventude” (Bíblia Livre), isto é, desde que a pessoa começa a agir com consciência: o mal é inato no homem, e por isso ele precisa da paciência de Deus.

O endurecimento de Faraó

O texto mais claro está no comentário a Êxodo 4:21 (1861). Dez vezes, nota Keil, o livro diz que o Senhor endureceu o coração de Faraó, e outras dez que Faraó endureceu o próprio coração. Nas cinco primeiras pragas, o endurecimento é sempre obra de Faraó, que ouviu os próprios magos dizerem “dedo de Deus é este” (Êxodo 8:19). Só depois da sexta praga o texto diz que o Senhor endureceu o coração do rei (Êxodo 9:12). Desse lado, escreve Keil, o endurecimento foi “fruto do pecado”, um abuso contínuo e crescente da liberdade da vontade, que permite ao pecador resistir a Deus enquanto vive.

Deus também endurece, mas como juízo sobre quem persiste na resistência, e não por prazer na perdição de ninguém. Keil insiste que Deus deseja que o ímpio se converta e viva (Ezequiel 33:11) e “quer que todas as pessoas se salvem” (1 Timóteo 2:4). Para explicar os efeitos opostos, ele toma uma imagem de Teodoreto: o mesmo sol que amolece a cera endurece o barro. A bondade e a graça de Deus conduzem o arrependido à salvação, e a mesma misericórdia se torna juízo para quem se endurece contra ela. Mesmo depois do endurecimento vindo de Deus, Faraó ainda teve ocasiões de se arrepender e chegou a confessar o seu pecado (Êxodo 9:27; 10:16). O episódio inteiro é estudado em Moisés e as pragas do Egito.

A paciência que alcança todos

No comentário às cartas de Pedro (1883), Keil volta ao tema. Em 2 Pedro 3:9, o Senhor é paciente, “não querendo que alguns pereçam, mas sim que todos venham ao arrependimento” (Bíblia Livre). Keil diz que o “alguns”, posto em contraste com “todos”, não pode ser restrito aos eleitos “de modo predestinacionista, com Calvino, Beza e outros”: refere-se a todos a quem o evangelho foi anunciado. A paciência de Deus, diz ele, brota do amor com que Deus, como Criador, abraça todos os seres humanos. Por esse amor ele enviou o Filho para salvar todo o que nele crê (João 3:16) e não deixa o fim chegar antes que o evangelho seja pregado a todas as nações (Mateus 24:14). O versículo aparece também no estudo indutivo de 2 Pedro 3:1-9.

Em 2 Pedro 2:1, os falsos mestres “negarão ao Senhor que os comprou”. Para Keil, esse Senhor é Cristo, que os comprou pagando um preço, o seu sangue (1 Pedro 1:19; Apocalipse 5:9). Negá-lo, por palavra e por obra, é abandonar de fato o discipulado. Cristo pagou o preço, portanto, também por quem depois o renega: é a expiação universal.

Em 2 Pedro 2:20-21, Keil lê o “primeiro estado” dos que voltam às contaminações do mundo como o estado anterior à conversão a Cristo; o último é pior porque dele não há redenção a esperar (Hebreus 10:26). São convertidos que abandonam a fé, a apostasia que a perseverança condicional leva a sério.

Eleitos em Cristo

Em 1 Pedro 1:2, os cristãos são “escolhidos segundo o pré-conhecimento de Deus Pai”. O termo grego é prognōsis, presciência. Keil explica que essa presciência não é simples previsão nem sinônimo de predestinação, mas um conhecer de Deus que se inclina para os seus e os traz para a comunhão com ele. Esse conhecer se apoia no propósito livre da graça de redimir a humanidade caída, e não em mérito ou obras que Deus antevê; esse propósito foi realizado em Cristo para toda a humanidade e se cumpre em cada pessoa que chega à salvação. E o Pai conhece de antemão, no Filho, “os que creem no seu Filho unigênito”.

A eleição, para Keil, é eleição em Cristo, dos que creem, sem nenhum mérito humano. Ele fala a língua do luteranismo e não usa a fórmula de Armínio sobre a fé prevista no quarto decreto da Declaração de Sentimentos, mas fica perto da eleição condicional em Cristo. Em Malaquias 1:2-3, ele lê o “odiei a Esaú” como a escolha de Jacó, e de Israel, para herdar a promessa, e lembra que em Deus nada é arbitrário.

A Escritura como história da salvação

Keil lia a Bíblia como um todo que caminha para Cristo. Na introdução geral ao Pentateuco, escreve que o Antigo Testamento contém as revelações de Deus que “prepararam o caminho para a redenção do homem caído por Cristo”. O prefácio de 1861 culpa o deísmo e o racionalismo do século XVIII por minar a fé na inspiração do Antigo Testamento e entupir esse “poço da verdade salvadora”.

Onde ele difere da declaração de fé do site

A confissão luterana que Keil seguia ensina a regeneração pelo batismo, o batismo de crianças e a presença real do corpo e do sangue de Cristo na Ceia; a declaração de fé do Diego entende o batismo como testemunho que segue a conversão e a Ceia como memorial. O luteranismo também não ensina a inteira santificação wesleyana. Na doutrina da Escritura, Keil está próximo do site, porque defendeu a confiabilidade de todos os livros do cânon. E na graça oferecida a todos, na expiação universal, na graça que pode ser recusada e na possibilidade real de apostasia, ele está do mesmo lado de John Wesley e dos arminianos. Sobre o luteranismo diante do calvinismo, ver Luteranos e reformados.

Obras principais

  • Apologetischer Versuch über die Bücher der Chronik und über die Integrität des Buches Esra (1833)
  • Der Tempel Salomo’s (1839)
  • Commentar über die Bücher der Könige (1846)
  • Commentar über das Buch Josua (1847)
  • Lehrbuch der historisch-kritischen Einleitung in die kanonischen Schriften des Alten Testaments (1853; 3ª ed., 1873; em inglês, 1869-1870)
  • Handbuch der biblischen Archäologie (1858-1859; 2ª ed., 1875; em inglês, 1887-1888)
  • Biblischer Commentar über das Alte Testament, com Franz Delitzsch (1861-1875; em inglês, Biblical Commentary on the Old Testament, 1864-1878). Volumes de Keil: Pentateuco, Josué a Ester, Jeremias e Lamentações, Ezequiel, Daniel e Profetas Menores
  • Commentar über die Bücher der Makkabäer (1875)
  • Comentários ao Novo Testamento: Mateus (1877), Marcos e Lucas (1879), João (1881), Pedro e Judas (1883) e Hebreus (1885)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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