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HistóriaTeólogos arminianos9 de 253

John Dickins: o pregador que fundou a editora do metodismo americano

Diego Gonçalves12 min de leitura2.434 palavras

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Neste texto

No fim do verão de 1798, a febre amarela voltou a Filadélfia pela terceira vez em cinco anos, e a maior parte dos amigos e irmãos de John Dickins deixou a cidade. Ele ficou e continuou visitando os doentes. Escreveu então ao amigo Francis Asbury “como nas mandíbulas da morte”: não sabia se tornaria a vê-lo nesta vida, mas esperava encontrá-lo “na presença de Deus”. Quando pensava em partir, lembrava-se da providência que tinha feito tanto por ele, “um pobre verme”, e tinha medo de desconfiar dela. “Assim, entrego a mim e à minha família nas mãos de Deus, para a vida ou para a morte.” Em 27 de setembro estava morto. Tinha passado os últimos nove anos pondo livros nas mãos dos metodistas americanos, e a editora que ele começou existe até hoje.

Vida

De Londres à Virgínia (1747-1780)

John Dickins nasceu em Londres, filho de John e Elizabeth Aston Dickins. Na Bíblia da família ele mesmo anotou a data: nascido, “como supunha”, em 24 de agosto de 1747. Estudou em Londres e, segundo uma tradição antiga, em Eton; lia latim e grego e tinha estudado matemática.

Em 1774 já estava na Virgínia, onde se converteu e se uniu à sociedade metodista. Em 12 de maio de 1777 tornou-se pregador itinerante, dos que viajavam a cavalo por um “circuito” de vilas e fazendas, na Virgínia e na Carolina do Norte. Um historiador do século XIX escreveu que ele pregava “como um leão”. Em 18 de abril de 1779 casou-se com Elizabeth Yancey, a Betsy, filha de fazendeiros do condado de Halifax, na Carolina do Norte, e o casal fez casa às margens do Fishing Creek.

Durante a guerra de independência, quase todos os pastores anglicanos do Sul voltaram para a Inglaterra, e os metodistas, que ainda recebiam deles o batismo e a Ceia, ficaram sem sacramentos, porque nenhum pregador metodista era ordenado. Em 1779 um grupo de pregadores do Sul decidiu ordenar uns aos outros, e Dickins estava entre os líderes dessa ala. Em maio de 1780, na conferência de Manakintown, Asbury anotou que achou o seu “conterrâneo John Dickins” contrário a que os metodistas continuassem unidos à Igreja Anglicana. Leu aos pregadores o que Wesley tinha escrito contra a separação e, entre os papéis, uma carta em que Dickins lhe respondia. O acordo foi suspender os sacramentos por um ano e escrever a Wesley.

Um mês depois, em 18 de junho, Asbury ouviu Dickins pregar sobre o amor e deixou um retrato dele: a voz estava gasta, ele “raciocina demais”, é homem “de grande piedade, de grande habilidade no saber”, que bebe grego e latim depressa, “e ainda assim ora muito e anda perto de Deus”. No dia seguinte, Dickins redigiu a subscrição para uma escola no modelo de Kingswood, a escola de Wesley na Inglaterra. Gabriel Long e um irmão chamado Bustion assinaram primeiro, com o primeiro dinheiro dado para a educação metodista na América, e o plano acabou no Cokesbury College, em Maryland. Asbury fechou o dia assim: “Espero que John Dickins seja, depois disto, amigo meu e do metodismo.”

Nova York e a Conferência de Natal (1781-1788)

Em 1781 Dickins deixou a itinerância e passou dois anos como pregador local. Em abril de 1783, quando chegou a notícia da paz, Asbury o convenceu a voltar e o mandou para Nova York, onde o esperava “muito mais útil”. Dickins foi o primeiro pregador casado da capela da rua John, e Betsy, a primeira mulher de pregador a morar numa casa pastoral metodista na América.

Estava em Nova York quando Thomas Coke desembarcou, em novembro de 1784, com o plano de Wesley para uma igreja metodista americana, com superintendentes e presbíteros ordenados. Dickins foi o primeiro pregador a ouvir o plano. Coke anotou que ele o aprovou com entusiasmo e insistiu para que o tornasse público, porque “o senhor Wesley já decidiu a questão”, que devia ser cumprida, e não discutida. O homem que em 1780 queria ordenações feitas por conta própria aceitava agora a ordem que vinha de Wesley.

Na Conferência de Natal, em Baltimore (24 de dezembro de 1784 a 2 de janeiro de 1785), nasceu a Igreja Metodista Episcopal. O pregador Thomas Ware, que estava lá, contou que alguém propôs esse nome, e ele achava que tinha sido Dickins; a proposta passou sem voto contrário, e poucos eram ouvidos na conferência com mais respeito do que ele. Dickins foi eleito diácono. Entre 1785 e 1786 fez o trabalho que mais durou: a primeira Disciplina, o livro de doutrina e de regras da igreja, tinha saído da conferência como uma série desordenada de perguntas e respostas, e ele a reorganizou em seções, no formato que as edições seguintes conservaram. Em abril de 1786, na casa dele, Asbury leu “a nossa Forma de Disciplina, em manuscrito, que o irmão Dickins está preparando para a impressão”. Em 16 de setembro do mesmo ano, em Nova York, Asbury o ordenou presbítero.

O primeiro editor da igreja (1789-1798)

Em 1789 a conferência criou a Methodist Book Concern, a editora da igreja, e Dickins foi o seu primeiro administrador, o book steward, e ao mesmo tempo pregador da igreja de São Jorge, em Filadélfia. O primeiro lançamento no livro-caixa, com a letra dele, é de 17 de agosto de 1789. Para começar, emprestou à editora cerca de seiscentos dólares, dinheiro da venda da parte que Betsy tinha na fazenda do pai. Não tinha prensa: escolhia as obras, revisava os textos, comprava o papel, contratava impressores e mandava os volumes pelos pregadores itinerantes.

Os primeiros livros foram a Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, na versão abreviada por Wesley, e o Primitive Physic, o manual de remédios caseiros de Wesley. Vieram depois O descanso eterno dos santos, de Richard Baxter, um hinário de bolso, a Disciplina e, a partir de 1790, partes dos Checks to Antinomianism de John Fletcher. Em dez anos publicou 55 títulos: dezessete vinham do trabalho de Wesley, e 24 eram de autores americanos, entre eles Asbury e Freeborn Garrettson. Em 1795 reuniu num volume as atas das conferências americanas de 1773 a 1794. E não aumentou o preço de nenhum livro.

O dinheiro foi o problema constante, porque a conferência mandava aplicar os lucros no colégio, nos pregadores necessitados e nas escolas. Em 1797 Dickins escreveu a Asbury que só conseguia papel pagando à vista, que o dinheiro entrava devagar e devia ir para dívidas antigas: “Contudo, preciso fazer o melhor que puder.” A conferência de 1796 o elogiou pela fidelidade e decidiu que nenhum livro sairia sem o consentimento de um bispo e de dois terços da conferência de Filadélfia. Para sustentar a família, Dickins abriu uma pequena loja de papel e livros, e contou ao amigo Edward Dromgoole que só cedeu à insistência dos amigos.

Em julho de 1794 foi ele quem orou na abertura da capela que Richard Allen montou numa antiga ferraria de Filadélfia. Pediu que a casa fosse um “Betel” para o ajuntamento de milhares de almas, e o nome ficou: Bethel, a igreja-mãe da Igreja Metodista Episcopal Africana. O filho do casal, nascido em 1780, chamava-se Asbury.

A morte (1798)

Dickins atravessou as epidemias de febre amarela de 1793 e de 1797 sem sair da cidade. Em julho de 1798 contou a Dromgoole que uma doença no peito o deixava pregar só uma vez por semana. Tinha seis filhos. Em setembro a febre levou a filha Elizabeth, e Dickins morreu no dia seguinte, 27 de setembro de 1798, com 51 anos. Betsy contou a Asbury as últimas horas. No primeiro dia da doença ele pediu que ela e os filhos não se perturbassem, “porque a sabedoria divina não pode errar”. Depois, com as mãos juntas e lágrimas no rosto, dizia: “A minha alma goza agora de uma comunhão tão doce com ele que eu não a trocaria pelo mundo inteiro.” E aos que estavam em volta: “Amem-no; confiem nele; louvem-no.”

Asbury escreveu que Dickins tinha sido para ele, “em pessoa e em afeto”, outro Thomas White, o amigo que o abrigara durante a guerra. Dias depois, em Baltimore, anotou que em piedade, honestidade, pregação proveitosa, vida santa, educação cristã dos filhos e oração secreta duvidava que houvesse “na Europa ou na América” alguém superior a ele. Ezekiel Cooper, o sucessor na editora, pregou o sermão fúnebre em 6 de janeiro de 1799 e calculou que, nos últimos quatro anos, Dickins tinha posto em circulação cerca de 114 mil livros e folhetos. Asbury deixou a Betsy, em testamento, uma pensão anual de oitenta dólares; ela morreu em Baltimore em 1835. O filho, Asbury Dickins, foi secretário do Senado dos Estados Unidos de 1836 a 1861.

Pensamento

A Arminian Magazine americana

Dickins foi wesleyano: pregador da Igreja Metodista Episcopal desde a fundação, organizador da sua Disciplina e editor da primeira revista do metodismo americano, que trazia a defesa da redenção universal no título. Não deixou tratado de teologia; ela está nos livros que escolheu imprimir, no catecismo que escreveu e nas cartas.

Em 1789 e 1790 ele editou os dois volumes da Arminian Magazine americana, “extratos e tratados originais sobre a redenção geral”. O prefácio, assinado por Coke e Asbury, explica a razão. O evangelho tinha chegado ao Norte do país “principalmente pelo meio calvinista”, e os livros que circulavam ensinavam a eleição e a reprovação incondicionais, a ideia de que Deus escolheu desde a eternidade, sem condição nenhuma, quem seria salvo e quem seria perdido. A revista defenderia que Deus “quer que todos os homens sejam salvos” (1 Timóteo 2:4), que Cristo morreu por todos e que a perseverança dos que creram não é “infalível e incondicional”. São as teses de Jacó Armínio e de John Wesley: expiação universal, eleição condicional e perseverança condicional, isto é, o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé.

Uma carta de Wesley a Dickins, de 15 de julho de 1789, mostra a fronteira dessa doutrina. Wesley pediu que ele corrigisse os erros dos extratos que reimprimia, porque o revisor inglês tinha deixado passar frases riscadas, “duas ou três das quais afirmam a Restituição Universal”, isto é, a salvação final de todos. Cristo morreu por todos, mas nem todos são salvos: a cruz basta para todos e salva os que creem.

O catecismo e a imprensa

A obra própria de Dickins é o Short Scriptural Catechism, catecismo para as sociedades metodistas, reimpresso pela editora por décadas. Nathan Bangs o via como prova da solidez de Dickins como teólogo: continha “um corpo de divindade em poucas palavras”, tiradas das Escrituras e postas em ordem, na linguagem em que “o Espírito Santo ensina”. O ensino da igreja era dito com as palavras da Bíblia.

A imprensa tinha para ele um lugar quase pastoral. Em 1789 Coke escreveu que, com a editora, o povo teria “livros de pura divindade”, cuja leitura vinha logo depois da pregação em importância, e a conferência de 1796 repetiu a ideia. Para os metodistas, como para Wesley, ler era um meio de graça, um canal pelo qual Deus desperta e alimenta a fé.

A graça nas cartas

Em janeiro de 1797 Betsy quase morreu no parto da última filha. À noite, já fora de perigo, Dickins escreveu a Asbury: “Se a graça divina algum dia me levar ao céu, penso que serei lá um dos principais devedores.” Em julho de 1798, a Dromgoole, achava-se “uma criatura muito pobre” e resumia: “Amo a Deus e não tenho confiança em nada a não ser nos méritos de Jesus Cristo.” É a doutrina wesleyana da justificação, que Wesley dizia não diferir “nem um fio de cabelo” da de Calvino: o pecador é aceito por Deus somente pelos méritos de Cristo, recebidos pela fé. No leito de morte, Dickins disse também que tinha feito do agradar a Deus a sua “ocupação constante”. O perdoado vive para agradar a quem o perdoou.

Diante da declaração de fé deste site

No essencial da salvação, Dickins e a declaração de fé do site dizem o mesmo: Deus quer que todos sejam salvos, Cristo morreu por todos, a salvação é recebida pela fé nos méritos de Cristo e o crente persevera permanecendo nele. A diferença está no batismo: a igreja de Dickins, pelos Artigos de Religião de 1784, conservava o batismo de crianças, e o site entende que o batismo segue a conversão. Na história da tradição arminiana de Armínio a Wesley, Dickins lembra que alguém precisou revisar, imprimir e mandar a cavalo os livros que levaram essa teologia a milhares de casas.

Obras principais

  • A Form of Discipline da Igreja Metodista Episcopal, reorganizada por ele entre 1785 e 1786; várias edições publicadas por ele a partir de 1789.
  • The Arminian Magazine, vols. 1 e 2 (1789-1790), como editor.
  • Minutes of the Methodist Conferences, Annually Held in America, from 1773 to 1794 (1795), como organizador e editor.
  • A Short Scriptural Catechism, Intended for the Use of the Methodist Societies (4.ª edição, 1796).
  • The Methodist Magazine, vols. 1 e 2 (1797-1798), como editor.
  • Cartas a Francis Asbury (1797 e 1798) e a Edward Dromgoole (12 de julho de 1798).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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