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John Milton: O poeta cego que cantou a graça oferecida a todos
Neste texto
- Vida
- Bread Street e Cambridge
- Estudo e viagem
- Panfletos, casamento e liberdade de imprensa
- Secretário da República
- Restauração e os poemas da velhice
- Pensamento
- Onde Milton fica no arminianismo
- Predestinação condicional e eleição geral
- A graça que vem antes
- A cruz e a justificação
- Perseverança condicional
- Onde Milton se afasta da fé da igreja
- Milton entre os metodistas
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 1823, num armário do antigo arquivo de Estado em Whitehall, em Londres, um arquivista encontrou um pacote de papéis esquecido havia quase século e meio. Dentro havia um tratado de teologia em latim, escrito por várias mãos de copistas e dedicado “a todas as igrejas de Cristo”. O autor era John Milton, o poeta de Paraíso perdido. Publicado em 1825, o livro mudou a imagem do poeta. Ali ele negava a Trindade e escrevia, com todas as letras, que “não há predestinação ou eleição particular, mas só geral”, e que ela pertence a todos os que creem de coração e permanecem crendo (Doutrina cristã, I, 4).
Vida
Bread Street e Cambridge
John Milton nasceu em 9 de dezembro de 1608, na Bread Street, no centro de Londres, o terceiro de seis filhos. O pai, também John Milton (1562-1647), era escrivão e compositor de música sacra, e tinha sido deserdado pelo próprio pai, católico, por ter se tornado protestante. A mãe chamava-se Sara Jeffrey. Aos quinze anos, em 1624, o menino fez uma paráfrase do Salmo 136, “Let us with a gladsome mind”, que ainda se canta nas igrejas de língua inglesa.
Teve como preceptor o presbiteriano escocês Thomas Young e entrou no Christ’s College, em Cambridge, em 12 de fevereiro de 1625. Formou-se bacharel em 1629 e mestre em 1632. No Natal de 1629 escreveu a ode Na manhã da Natividade de Cristo.
A família o destinava ao ministério, mas o arcebispo William Laud exigia dos clérigos juramentos que Milton recusava. Ele diria que foi “expulso da igreja pelos prelados” (The Reason of Church-Government, 1642), e escolheu a poesia como vocação cristã, um ofício que, para ele, ficava ao lado do púlpito.
Estudo e viagem
Depois passou seis anos estudando por conta própria na casa do pai, em Hammersmith e em Horton. Desses anos são Comus (1634) e a elegia Lycidas (1638). Em 1638 partiu para a França e a Itália. Em Paris conheceu Hugo Grócio, o jurista arminiano exilado, e em Florença visitou Galileu, preso em casa pela Inquisição. As notícias da crise política na Inglaterra o trouxeram de volta em julho de 1639, e em Londres ele abriu uma pequena escola particular.
Panfletos, casamento e liberdade de imprensa
Com Of Reformation (1641) entrou na campanha contra os bispos. Em junho de 1642 casou-se com Mary Powell, que voltou para a casa dos pais poucas semanas depois. Daí nasceram os panfletos sobre o divórcio (1643-1645). O casal se reconciliou em 1645 e teve três filhas e um filho que morreu pequeno.
Em novembro de 1644 publicou Areopagítica, contra a lei de censura prévia aprovada pelo Parlamento em 1643. Ali aparece a semente da sua teologia futura. Muitos reclamam da providência por ter deixado Adão pecar, diz Milton, mas “quando Deus lhe deu a razão, deu-lhe a liberdade de escolher, porque a razão não passa de escolher”. Em 1644, porém, ele ainda olhava Armínio com desconfiança: no mesmo livro conta que o “agudo e sutil Armínio” se perverteu ao ler um escrito anônimo de Delft que pretendia refutar.
Secretário da República
Depois da execução de Carlos I, em janeiro de 1649, Milton defendeu o direito do povo de julgar o rei em The Tenure of Kings and Magistrates. Em março o Conselho de Estado o nomeou secretário de línguas estrangeiras, encarregado da correspondência diplomática em latim, e ele defendeu a república diante da Europa em Eikonoklastes (1649) e nas duas Defensio (1651 e 1654). Em 1655 redigiu os protestos de Oliver Cromwell contra o massacre dos valdenses do Piemonte e escreveu o soneto que começa “Vinga, Senhor, os teus santos massacrados”.
Em 1652 estava cego e passou a ditar tudo a secretários, entre eles o poeta Andrew Marvell. No mesmo ano morreu Mary Powell. O soneto sobre a cegueira termina com uma frase que muitos crentes sabem de cor: “também servem os que apenas ficam de pé e esperam”. Em novembro de 1656 casou-se com Katherine Woodcock; ela e a filha pequena morreram em fevereiro de 1658.
Restauração e os poemas da velhice
Em abril de 1660, Milton ainda fez um último apelo pela república. Com a volta de Carlos II, escondeu-se. Os seus livros contra o rei foram mandados à fogueira, e no outono ele passou alguns meses preso, até que amigos, Marvell entre eles, conseguiram o perdão. Em fevereiro de 1663 casou-se com Elizabeth Minshull, que cuidou dele até o fim.
Cego e derrotado, ditou os grandes poemas. Paraíso perdido saiu em 1667, em dez livros; Milton vendeu os direitos ao impressor Samuel Simmons por cinco libras de entrada. A segunda edição, de 1674, reorganizou o poema em doze livros. Em 1671 vieram Paraíso reconquistado e Sansão agonista. Nos últimos anos viveu afastado de todas as igrejas. Morreu em novembro de 1674, atormentado pela gota, e foi sepultado ao lado do pai na igreja de St Giles, Cripplegate.
O tratado teológico teve outro destino. Em Amsterdã, o editor Daniel Elzevier recusou publicá-lo, entre outros motivos porque negava a Trindade, e o teólogo remonstrante Filipe van Limborch aconselhou que não saísse. O manuscrito ficou guardado pelo governo inglês até 1823. Em 1991, William B. Hunter contestou a autoria de Milton; exames do manuscrito e estudos do estilo levaram a maior parte dos especialistas a manter a atribuição.
Pensamento
Onde Milton fica no arminianismo
Na doutrina da salvação, Milton é um arminiano clássico da vertente puritana inglesa do século XVII, ao lado do seu aliado político John Goodwin. Na Doutrina cristã ele faz a predestinação depender da fé, afirma que Deus dá a todos graça suficiente, ensina que Cristo satisfez a justiça divina por todos e apoia-se nos “teólogos remonstrantes”, os discípulos de Jacó Armínio. E em Of True Religion (1673) saiu em defesa deles: o arminiano é condenado “por levantar o livre-arbítrio contra a graça livre”, escreveu, “mas essa acusação ele rejeita em todos os seus escritos e se apoia amplamente só na Escritura”. Os estudiosos descrevem esse caminho como a passagem de um calvinismo de juventude, ainda visível na Areopagítica, para o arminianismo da maturidade.
Fora da doutrina da salvação, porém, Milton se afastou da fé histórica da igreja em pontos graves, como veremos adiante.
Predestinação condicional e eleição geral
O capítulo quarto do primeiro livro da Doutrina cristã abre com a definição: Deus, por compaixão da humanidade, “embora previsse que ela cairia por sua própria vontade, predestinou para a salvação eterna, antes da fundação do mundo, os que haveriam de crer e permanecer na fé”. Milton recusa aplicar a palavra à reprovação, porque na Bíblia ela fala sempre da eleição (Romanos 8:29-30; Efésios 1:5).
Daí vem a ideia de uma eleição geral: Pedro não é eleito como Pedro, nem João como João, mas “enquanto são crentes e permanecem crendo”. É uma leitura próxima da eleição corporativa (veja o estudo sobre a eleição condicional em Cristo). O argumento é a integridade de Deus: se a Escritura oferece a salvação a todos sob a condição da fé, o decreto real tem de ser igual ao anunciado, ou Deus estaria dizendo uma intenção e escondendo outra.
Milton também separa a presciência da causa. Deus conhece todo o futuro, mas não decretou tudo de modo absoluto, para que o pecado não lhe seja imputado. Por isso “ninguém crê porque Deus previu a sua fé, mas Deus prevê a fé porque a pessoa haveria de crer” (I, 4). A queda de Adão, diz ele, era certa, mas não necessária (I, 3). No Paraíso perdido, o Pai diz o mesmo: “se eu previ, a presciência não teve influência sobre a culpa deles” (III, 117-118). Milton fica, assim, longe do teísmo aberto, que nega que Deus conheça o futuro.
A graça que vem antes
Ao tratar do castigo do pecado, Milton descreve a privação da justiça e da liberdade para o bem, e a escravidão ao pecado e ao diabo, como “a morte da vontade” (I, 12). A saída vem de Deus. Quando decidiu restaurar a humanidade, Deus também decretou que a liberdade perdida fosse ao menos em parte recuperada. E Milton acrescenta: “se Deus não tivesse primeiro mostrado misericórdia, ninguém teria poder nem de querer nem de correr” (I, 4, com Filipenses 2:13). Essa graça alcança todos, embora não em igual medida: por sua vontade soberana Deus “não concede a todos graça igual”, mas por sua justiça “não há ninguém a quem ele não conceda graça suficiente para a salvação” (I, 4).
O poema diz o mesmo em verso. No livro III, o Pai anuncia que o homem “não se perderá de todo”, e que será salvo quem quiser, mas “não por vontade dele, e sim pela graça em mim, dada livremente” (III, 173-175). No livro XI, Adão e Eva se arrependem porque “a graça preveniente, descendo, tinha tirado deles o coração de pedra” (XI, 3-4). É o termo técnico da tradição, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e torna possível a fé (leia mais sobre a graça preveniente). O poder de querer e de crer, diz ele, ou é dom de Deus ou, no que há dele no próprio homem, “não tem a natureza de mérito nem de boa obra” (I, 4). Armínio falaria aqui só de dom da graça; Milton deixa um lugar para a faculdade natural restaurada, mas sem dar a ela valor de mérito.
Há no poema um ponto em que Milton foge do esquema arminiano. Logo depois daqueles versos, o Pai diz que escolheu alguns “por graça peculiar, eleitos acima dos demais”, enquanto “os demais” ouvirão o chamado e terão graça suficiente (III, 183-190). Os estudiosos viram aí uma sobra calvinista, e John Wesley pensou o mesmo: na sua edição do poema, em 1763, cortou os dois versos e trocou “os demais ouvirão o meu chamado” por “todos ouvirão o meu chamado”.
A cruz e a justificação
Nesse ponto Milton difere de Goodwin, que negava a satisfação penal. Para Milton, “a satisfação de Cristo é a reparação completa feita por ele, na dupla condição de Deus e homem, pelo cumprimento da lei e pelo pagamento do preço exigido por toda a humanidade” (I, 16). Ela foi feita por todos, argumenta, porque se a graça suficiente é dada a todos, sem essa satisfação nenhuma graça poderia ter sido concedida. No poema, a justiça exige “a rígida satisfação, morte por morte”, e só o Filho se oferece para pagá-la (III, 210-212). Na justificação, Milton fala como um reformador: assim como os nossos pecados foram imputados a Cristo, a justiça de Cristo nos é imputada pela fé, e o homem, “sem pagar nada de sua parte, apenas crendo, recebe como dom a justiça imputada de Cristo” (I, 22). É a mesma doutrina que Armínio e Wesley defenderam (veja o capítulo sobre a expiação e o capítulo sobre a justificação pela fé).
Perseverança condicional
A perseverança final, para Milton, é dom de Deus, que guarda os crentes de modo que nunca caiam de todo, “enquanto nada faltar da parte deles” e eles continuarem na fé e no amor (I, 25). Em 1 João 3:9, “quem é nascido de Deus não pode pecar”, segue a leitura dos remonstrantes: o regenerado não cai facilmente, e a semente de Deus permanece nele enquanto ele não a apaga, porque até o Espírito pode ser apagado. Ao mesmo tempo, os que não perseveram, nos casos comuns, devem ser tidos como quem nunca teve fé verdadeira (veja o capítulo sobre a perseverança).
Onde Milton se afasta da fé da igreja
A Doutrina cristã tem heresias que nada devem ao arminianismo. Milton ensina que o Filho foi gerado por um decreto do Pai, “dentro dos limites do tempo”, e que “não é da mesma essência” do Pai, mas inferior a ele (I, 5). É uma forma de subordinacionismo muito próxima do arianismo. Ele ainda ensina que a alma morre e dorme com o corpo até a ressurreição (o chamado mortalismo), que Deus criou o mundo a partir da sua própria substância e não do nada, que a poligamia não é proibida pela Escritura e que o batismo é só para crentes e por imersão.
Aqui a distância em relação à fé que seguimos neste site é grande. Cremos num só Deus em três pessoas coeternas e coiguais, da mesma essência (leia o capítulo sobre a Trindade). A soteriologia de Milton fica de pé sem essas ideias, porque ele a recebeu de arminianos trinitários.
Milton entre os metodistas
Wesley copiava trechos de Paraíso perdido desde 1725, fez os alunos de Lincoln College estudarem o poema e o pôs nas bibliotecas dos pregadores leigos. Em 1763 publicou An Extract from Milton’s Paradise Lost, com notas simples para “pessoas de educação comum”, e marcou com asterisco os versos que julgava excelentes. Um deles foi “não por vontade dele, e sim pela graça em mim”. No século XX, C. S. Lewis dedicou ao poema A Preface to Paradise Lost (1942). Milton tinha definido o propósito do poema logo no começo: “justificar os caminhos de Deus para com os homens” (I, 26).
Obras principais
- On the Morning of Christ’s Nativity, ode (1629).
- Comus, mascarada (1634).
- Lycidas, elegia (1638).
- Of Reformation (1641).
- The Reason of Church-Government (1642).
- The Doctrine and Discipline of Divorce (1643).
- Of Education e Areopagitica (1644).
- Poems (1645).
- The Tenure of Kings and Magistrates e Eikonoklastes (1649).
- Pro populo anglicano defensio (1651) e Defensio secunda (1654).
- The Readie and Easie Way to Establish a Free Commonwealth (1660).
- Paradise Lost (1667, em dez livros; 2ª edição em doze livros, 1674).
- The History of Britain (1670).
- Paradise Regained e Samson Agonistes (1671).
- Of True Religion, Heresy, Schism, Toleration (1673).
- De doctrina christiana, escrita nas décadas de 1650 e 1660 (publicada em 1825).
Livros em português
- Paraíso perdido, tradução de Daniel Jonas, edição bilíngue (Editora 34, 2015). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Paraíso reconquistado, tradução coordenada por Guilherme Gontijo Flores, edição bilíngue (Cultura, 2014). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Areopagítica: discurso pela liberdade de imprensa ao Parlamento da Inglaterra, tradução de Raul de Sá Barbosa (Topbooks, 1999). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- John Milton, 1608-74, British Civil Wars, Commonwealth and Protectorate Project.
- Warren Chernaik, Milton and the Burden of Freedom (Cambridge University Press, 2017), introdução.
- Larisa Kocic, Predestination in Milton’s Paradise Lost and De Doctrina Christiana: Reply to Paul R. Sellin, The AnaChronisT (2003), p. 65-84.
- Tobias Gregory, A terrier and a camel, resenha de Jason A. Kerr, Milton’s Theological Process, London Review of Books 48, n. 3 (2026).
- Preachers & Poets, Christian History 22 (1989), Christian History Institute.
- A Friend in the Lord Protector, Christian History, Christian History Institute.
- Randy L. Maddox (ed.), introdução a Extract of Paradise Lost (1763), de John Wesley, Center for Studies in the Wesleyan Tradition, Duke Divinity School.
- Edwin Hatfield, John Milton, em Poets of the Church (1884), Hymnology Archive.
- John Milton, A Treatise on Christian Doctrine, tradução de Charles R. Sumner (Boston: Cummings, 1825), vol. 1 e vol. 2, Internet Archive.
- John Milton, Paradise Lost, Projeto Gutenberg.
- John Milton, Areopagitica, Projeto Gutenberg.
- John Milton, Of True Religion (1673), reeditado em Protestant Union, org. Thomas Burgess (Londres: Rivington, 1826), Internet Archive.
- John Milton, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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