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John Milton: O poeta cego que cantou a graça oferecida a todos

Diego Gonçalves14 min de leitura2.754 palavras

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Neste texto

Em 1823, num armário do antigo arquivo de Estado em Whitehall, em Londres, um arquivista encontrou um pacote de papéis esquecido havia quase século e meio. Dentro havia um tratado de teologia em latim, escrito por várias mãos de copistas e dedicado “a todas as igrejas de Cristo”. O autor era John Milton, o poeta de Paraíso perdido. Publicado em 1825, o livro mudou a imagem do poeta. Ali ele negava a Trindade e escrevia, com todas as letras, que “não há predestinação ou eleição particular, mas só geral”, e que ela pertence a todos os que creem de coração e permanecem crendo (Doutrina cristã, I, 4).

Retrato de John Milton aos 62 anos, gravura de William Faithorne
John Milton aos 62 anos, gravura de William Faithorne desenhada do natural, 1670. Metropolitan Museum of Art. Domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.

Vida

Bread Street e Cambridge

John Milton nasceu em 9 de dezembro de 1608, na Bread Street, no centro de Londres, o terceiro de seis filhos. O pai, também John Milton (1562-1647), era escrivão e compositor de música sacra, e tinha sido deserdado pelo próprio pai, católico, por ter se tornado protestante. A mãe chamava-se Sara Jeffrey. Aos quinze anos, em 1624, o menino fez uma paráfrase do Salmo 136, “Let us with a gladsome mind”, que ainda se canta nas igrejas de língua inglesa.

Teve como preceptor o presbiteriano escocês Thomas Young e entrou no Christ’s College, em Cambridge, em 12 de fevereiro de 1625. Formou-se bacharel em 1629 e mestre em 1632. No Natal de 1629 escreveu a ode Na manhã da Natividade de Cristo.

A família o destinava ao ministério, mas o arcebispo William Laud exigia dos clérigos juramentos que Milton recusava. Ele diria que foi “expulso da igreja pelos prelados” (The Reason of Church-Government, 1642), e escolheu a poesia como vocação cristã, um ofício que, para ele, ficava ao lado do púlpito.

Estudo e viagem

Depois passou seis anos estudando por conta própria na casa do pai, em Hammersmith e em Horton. Desses anos são Comus (1634) e a elegia Lycidas (1638). Em 1638 partiu para a França e a Itália. Em Paris conheceu Hugo Grócio, o jurista arminiano exilado, e em Florença visitou Galileu, preso em casa pela Inquisição. As notícias da crise política na Inglaterra o trouxeram de volta em julho de 1639, e em Londres ele abriu uma pequena escola particular.

Panfletos, casamento e liberdade de imprensa

Com Of Reformation (1641) entrou na campanha contra os bispos. Em junho de 1642 casou-se com Mary Powell, que voltou para a casa dos pais poucas semanas depois. Daí nasceram os panfletos sobre o divórcio (1643-1645). O casal se reconciliou em 1645 e teve três filhas e um filho que morreu pequeno.

Em novembro de 1644 publicou Areopagítica, contra a lei de censura prévia aprovada pelo Parlamento em 1643. Ali aparece a semente da sua teologia futura. Muitos reclamam da providência por ter deixado Adão pecar, diz Milton, mas “quando Deus lhe deu a razão, deu-lhe a liberdade de escolher, porque a razão não passa de escolher”. Em 1644, porém, ele ainda olhava Armínio com desconfiança: no mesmo livro conta que o “agudo e sutil Armínio” se perverteu ao ler um escrito anônimo de Delft que pretendia refutar.

Secretário da República

Depois da execução de Carlos I, em janeiro de 1649, Milton defendeu o direito do povo de julgar o rei em The Tenure of Kings and Magistrates. Em março o Conselho de Estado o nomeou secretário de línguas estrangeiras, encarregado da correspondência diplomática em latim, e ele defendeu a república diante da Europa em Eikonoklastes (1649) e nas duas Defensio (1651 e 1654). Em 1655 redigiu os protestos de Oliver Cromwell contra o massacre dos valdenses do Piemonte e escreveu o soneto que começa “Vinga, Senhor, os teus santos massacrados”.

Em 1652 estava cego e passou a ditar tudo a secretários, entre eles o poeta Andrew Marvell. No mesmo ano morreu Mary Powell. O soneto sobre a cegueira termina com uma frase que muitos crentes sabem de cor: “também servem os que apenas ficam de pé e esperam”. Em novembro de 1656 casou-se com Katherine Woodcock; ela e a filha pequena morreram em fevereiro de 1658.

Restauração e os poemas da velhice

Em abril de 1660, Milton ainda fez um último apelo pela república. Com a volta de Carlos II, escondeu-se. Os seus livros contra o rei foram mandados à fogueira, e no outono ele passou alguns meses preso, até que amigos, Marvell entre eles, conseguiram o perdão. Em fevereiro de 1663 casou-se com Elizabeth Minshull, que cuidou dele até o fim.

Cego e derrotado, ditou os grandes poemas. Paraíso perdido saiu em 1667, em dez livros; Milton vendeu os direitos ao impressor Samuel Simmons por cinco libras de entrada. A segunda edição, de 1674, reorganizou o poema em doze livros. Em 1671 vieram Paraíso reconquistado e Sansão agonista. Nos últimos anos viveu afastado de todas as igrejas. Morreu em novembro de 1674, atormentado pela gota, e foi sepultado ao lado do pai na igreja de St Giles, Cripplegate.

O tratado teológico teve outro destino. Em Amsterdã, o editor Daniel Elzevier recusou publicá-lo, entre outros motivos porque negava a Trindade, e o teólogo remonstrante Filipe van Limborch aconselhou que não saísse. O manuscrito ficou guardado pelo governo inglês até 1823. Em 1991, William B. Hunter contestou a autoria de Milton; exames do manuscrito e estudos do estilo levaram a maior parte dos especialistas a manter a atribuição.

Pensamento

Onde Milton fica no arminianismo

Na doutrina da salvação, Milton é um arminiano clássico da vertente puritana inglesa do século XVII, ao lado do seu aliado político John Goodwin. Na Doutrina cristã ele faz a predestinação depender da fé, afirma que Deus dá a todos graça suficiente, ensina que Cristo satisfez a justiça divina por todos e apoia-se nos “teólogos remonstrantes”, os discípulos de Jacó Armínio. E em Of True Religion (1673) saiu em defesa deles: o arminiano é condenado “por levantar o livre-arbítrio contra a graça livre”, escreveu, “mas essa acusação ele rejeita em todos os seus escritos e se apoia amplamente só na Escritura”. Os estudiosos descrevem esse caminho como a passagem de um calvinismo de juventude, ainda visível na Areopagítica, para o arminianismo da maturidade.

Fora da doutrina da salvação, porém, Milton se afastou da fé histórica da igreja em pontos graves, como veremos adiante.

Predestinação condicional e eleição geral

O capítulo quarto do primeiro livro da Doutrina cristã abre com a definição: Deus, por compaixão da humanidade, “embora previsse que ela cairia por sua própria vontade, predestinou para a salvação eterna, antes da fundação do mundo, os que haveriam de crer e permanecer na fé”. Milton recusa aplicar a palavra à reprovação, porque na Bíblia ela fala sempre da eleição (Romanos 8:29-30; Efésios 1:5).

Daí vem a ideia de uma eleição geral: Pedro não é eleito como Pedro, nem João como João, mas “enquanto são crentes e permanecem crendo”. É uma leitura próxima da eleição corporativa (veja o estudo sobre a eleição condicional em Cristo). O argumento é a integridade de Deus: se a Escritura oferece a salvação a todos sob a condição da fé, o decreto real tem de ser igual ao anunciado, ou Deus estaria dizendo uma intenção e escondendo outra.

Milton também separa a presciência da causa. Deus conhece todo o futuro, mas não decretou tudo de modo absoluto, para que o pecado não lhe seja imputado. Por isso “ninguém crê porque Deus previu a sua fé, mas Deus prevê a fé porque a pessoa haveria de crer” (I, 4). A queda de Adão, diz ele, era certa, mas não necessária (I, 3). No Paraíso perdido, o Pai diz o mesmo: “se eu previ, a presciência não teve influência sobre a culpa deles” (III, 117-118). Milton fica, assim, longe do teísmo aberto, que nega que Deus conheça o futuro.

A graça que vem antes

Ao tratar do castigo do pecado, Milton descreve a privação da justiça e da liberdade para o bem, e a escravidão ao pecado e ao diabo, como “a morte da vontade” (I, 12). A saída vem de Deus. Quando decidiu restaurar a humanidade, Deus também decretou que a liberdade perdida fosse ao menos em parte recuperada. E Milton acrescenta: “se Deus não tivesse primeiro mostrado misericórdia, ninguém teria poder nem de querer nem de correr” (I, 4, com Filipenses 2:13). Essa graça alcança todos, embora não em igual medida: por sua vontade soberana Deus “não concede a todos graça igual”, mas por sua justiça “não há ninguém a quem ele não conceda graça suficiente para a salvação” (I, 4).

O poema diz o mesmo em verso. No livro III, o Pai anuncia que o homem “não se perderá de todo”, e que será salvo quem quiser, mas “não por vontade dele, e sim pela graça em mim, dada livremente” (III, 173-175). No livro XI, Adão e Eva se arrependem porque “a graça preveniente, descendo, tinha tirado deles o coração de pedra” (XI, 3-4). É o termo técnico da tradição, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e torna possível a fé (leia mais sobre a graça preveniente). O poder de querer e de crer, diz ele, ou é dom de Deus ou, no que há dele no próprio homem, “não tem a natureza de mérito nem de boa obra” (I, 4). Armínio falaria aqui só de dom da graça; Milton deixa um lugar para a faculdade natural restaurada, mas sem dar a ela valor de mérito.

Há no poema um ponto em que Milton foge do esquema arminiano. Logo depois daqueles versos, o Pai diz que escolheu alguns “por graça peculiar, eleitos acima dos demais”, enquanto “os demais” ouvirão o chamado e terão graça suficiente (III, 183-190). Os estudiosos viram aí uma sobra calvinista, e John Wesley pensou o mesmo: na sua edição do poema, em 1763, cortou os dois versos e trocou “os demais ouvirão o meu chamado” por “todos ouvirão o meu chamado”.

A cruz e a justificação

Nesse ponto Milton difere de Goodwin, que negava a satisfação penal. Para Milton, “a satisfação de Cristo é a reparação completa feita por ele, na dupla condição de Deus e homem, pelo cumprimento da lei e pelo pagamento do preço exigido por toda a humanidade” (I, 16). Ela foi feita por todos, argumenta, porque se a graça suficiente é dada a todos, sem essa satisfação nenhuma graça poderia ter sido concedida. No poema, a justiça exige “a rígida satisfação, morte por morte”, e só o Filho se oferece para pagá-la (III, 210-212). Na justificação, Milton fala como um reformador: assim como os nossos pecados foram imputados a Cristo, a justiça de Cristo nos é imputada pela fé, e o homem, “sem pagar nada de sua parte, apenas crendo, recebe como dom a justiça imputada de Cristo” (I, 22). É a mesma doutrina que Armínio e Wesley defenderam (veja o capítulo sobre a expiação e o capítulo sobre a justificação pela fé).

Perseverança condicional

A perseverança final, para Milton, é dom de Deus, que guarda os crentes de modo que nunca caiam de todo, “enquanto nada faltar da parte deles” e eles continuarem na fé e no amor (I, 25). Em 1 João 3:9, “quem é nascido de Deus não pode pecar”, segue a leitura dos remonstrantes: o regenerado não cai facilmente, e a semente de Deus permanece nele enquanto ele não a apaga, porque até o Espírito pode ser apagado. Ao mesmo tempo, os que não perseveram, nos casos comuns, devem ser tidos como quem nunca teve fé verdadeira (veja o capítulo sobre a perseverança).

Onde Milton se afasta da fé da igreja

A Doutrina cristã tem heresias que nada devem ao arminianismo. Milton ensina que o Filho foi gerado por um decreto do Pai, “dentro dos limites do tempo”, e que “não é da mesma essência” do Pai, mas inferior a ele (I, 5). É uma forma de subordinacionismo muito próxima do arianismo. Ele ainda ensina que a alma morre e dorme com o corpo até a ressurreição (o chamado mortalismo), que Deus criou o mundo a partir da sua própria substância e não do nada, que a poligamia não é proibida pela Escritura e que o batismo é só para crentes e por imersão.

Aqui a distância em relação à fé que seguimos neste site é grande. Cremos num só Deus em três pessoas coeternas e coiguais, da mesma essência (leia o capítulo sobre a Trindade). A soteriologia de Milton fica de pé sem essas ideias, porque ele a recebeu de arminianos trinitários.

Milton entre os metodistas

Wesley copiava trechos de Paraíso perdido desde 1725, fez os alunos de Lincoln College estudarem o poema e o pôs nas bibliotecas dos pregadores leigos. Em 1763 publicou An Extract from Milton’s Paradise Lost, com notas simples para “pessoas de educação comum”, e marcou com asterisco os versos que julgava excelentes. Um deles foi “não por vontade dele, e sim pela graça em mim”. No século XX, C. S. Lewis dedicou ao poema A Preface to Paradise Lost (1942). Milton tinha definido o propósito do poema logo no começo: “justificar os caminhos de Deus para com os homens” (I, 26).

Obras principais

  • On the Morning of Christ’s Nativity, ode (1629).
  • Comus, mascarada (1634).
  • Lycidas, elegia (1638).
  • Of Reformation (1641).
  • The Reason of Church-Government (1642).
  • The Doctrine and Discipline of Divorce (1643).
  • Of Education e Areopagitica (1644).
  • Poems (1645).
  • The Tenure of Kings and Magistrates e Eikonoklastes (1649).
  • Pro populo anglicano defensio (1651) e Defensio secunda (1654).
  • The Readie and Easie Way to Establish a Free Commonwealth (1660).
  • Paradise Lost (1667, em dez livros; 2ª edição em doze livros, 1674).
  • The History of Britain (1670).
  • Paradise Regained e Samson Agonistes (1671).
  • Of True Religion, Heresy, Schism, Toleration (1673).
  • De doctrina christiana, escrita nas décadas de 1650 e 1660 (publicada em 1825).

Livros em português

  • Paraíso perdido, tradução de Daniel Jonas, edição bilíngue (Editora 34, 2015). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Paraíso reconquistado, tradução coordenada por Guilherme Gontijo Flores, edição bilíngue (Cultura, 2014). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Areopagítica: discurso pela liberdade de imprensa ao Parlamento da Inglaterra, tradução de Raul de Sá Barbosa (Topbooks, 1999). Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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