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John D. Wagner: O jornalista que devolveu Armínio, Goodwin e Whedon às livrarias
Neste texto
Em 12 de maio de 2017, John D. Wagner datou uma carta de dezessete páginas a R. C. Sproul, um dos mais conhecidos divulgadores do calvinismo nos Estados Unidos. Começou pelo que tinham em comum: ouvia o programa de rádio de Sproul, Renewing Your Mind, e gostava de Knowing Scripture, de The Holiness of God e até do romance Thy Brother’s Keeper. Depois foi ao ponto. Discordava de quase tudo o que Sproul tinha escrito sobre a predestinação em Chosen by God, e passou as páginas seguintes respondendo, versículo por versículo e léxico por léxico, aos argumentos do livro. A Society of Evangelical Arminians publicou a carta no seu site em junho daquele ano. Sproul morreu em dezembro de 2017.
Vida
Do jornalismo ao debate
Wagner fez mestrado em jornalismo na Universidade do Arizona e tem longa experiência como redator e editor. Na carta a Sproul ele conta que, antes de crer, fez a um evangelista arminiano a objeção que muitos fazem: se Cristo é o único caminho, o que acontece com os que vivem em lugares onde a mensagem nunca chega?
Em 2017 ele dizia estudar havia mais de vinte anos a controvérsia entre calvinistas e arminianos e ter debatido com calvinistas na internet “incontáveis vezes”. Em 1999 participou de um debate formal contra um pastor calvinista. O pastor usou um argumento do próprio Sproul: o verbo grego de João 6:44, traduzido por “trazer” ou “atrair”, significaria “arrastar”. Wagner respondeu com os léxicos, e o mesmo ponto volta, ampliado, na carta de 2017.
Nos anos 2000, Wagner dava aulas ocasionais de estudo bíblico na Lake Avenue Church, igreja evangélica de Pasadena, na Califórnia, e era membro da Evangelical Theological Society, a associação dos teólogos evangélicos americanos.
O editor de livros antigos
Wagner ficou conhecido pela reedição de obras arminianas esquecidas ou difíceis de ler. Ele mesmo descreveu o método: tomava um livro antigo, revisava-o a fundo e publicava a versão nova, sempre pela Wipf and Stock, editora de teologia de Eugene, no Oregon, ou pelo seu selo Resource Publications.
O primeiro foi Redemption Redeemed: A Puritan Defense of Unlimited Atonement (2001), de John Goodwin (1594?-1665), pastor puritano de Londres. Goodwin publicou o livro em 1651, quatro anos depois de John Owen lançar The Death of Death in the Death of Christ (1647), a defesa clássica da expiação limitada, a ideia de que Cristo morreu só pelos eleitos. A edição de Wagner, feita a partir de uma edição de 1846, tem 237 páginas; uma reimpressão londrina de 1840 tinha 740. A editora relançou o livro em 2004. A editora reproduz o juízo da antiga Methodist Quarterly Review: se fosse a única obra de Goodwin, ela teria bastado “para perpetuar a sua fama”. Wagner apresentava o livro como a resposta arminiana ao tratado de Owen, que os calvinistas costumam chamar de irrespondível.
O segundo foi Freedom of the Will: A Wesleyan Response to Jonathan Edwards (2009), versão editada do tratado de 1864 em que o metodista Daniel Whedon respondeu à Liberdade da vontade de Jonathan Edwards. Um professor de Wagner no seminário falava do livro com entusiasmo, e ele o recomendou a Sproul como o livro que desmonta os argumentos de Edwards.
O terceiro, Arminius Speaks: Essential Writings on Predestination, Free Will, and the Nature of God (2010), tem 406 páginas e reúne, em linguagem revista para o leitor de hoje, os escritos centrais de Jacó Armínio. As Works de Armínio em inglês somam três volumes e cerca de 2.300 páginas, sem ordem que ajude quem começa. Wagner escolheu as Disputas públicas, debatidas em Leiden entre 1603 e 1609; a Declaração de Sentimentos, de 1608; o Exame do panfleto de Perkins; a Defesa contra os 31 artigos, de 1609; e a Carta a Hipólito a Collibus. O prefácio é de Robert Picirilli, que agradece ao editor por tornar acessível uma obra “imponente”. A apresentação da editora mostra Armínio como um teólogo muito mal compreendido, que ensinou a depravação humana e a necessidade da graça preveniente e nunca foi pelagiano.
Grace for All
O quarto livro foi o mais ambicioso. Em 1975, Clark Pinnock tinha organizado Grace Unlimited, uma coletânea de autores evangélicos contra o calvinismo. Pinnock depois caminhou para o teísmo aberto, a ideia de que Deus não conhece de antemão as escolhas livres, e morreu em 2010. Wagner fez uma versão nova do livro de 1975 com as peças que continuavam valendo e com ensaios novos, e o publicou em 2015 com o título Grace for All: The Arminian Dynamics of Salvation, pelo selo Resource Publications, com o nome de Pinnock e o seu como organizadores. Na carta a Sproul ele explica a escolha: aproveitou o Pinnock de 1975, “quando ele era um arminiano tradicional, muito antes de defender o teísmo aberto”.
Da edição antiga ficaram Vernon Grounds, Jack Cottrell, William G. MacDonald, David Clines, I. Howard Marshall, Grant Osborne e James D. Strauss. Entraram Roger Olson, com o ensaio de abertura, “Arminianism Is God-Centered Theology”; Glen Shellrude; Picirilli, sobre o alcance da expiação; J. Matthew Pinson, sobre Armínio; Vic Reasoner, sobre John Wesley; e Steve Witzki, sobre a fé salvadora. Wagner atualizou e ampliou dois capítulos antigos, o de MacDonald sobre “o Espírito da graça” e o de Strauss sobre Romanos 9. No caso deste último, a revisão foi tão grande que ele passou a se considerar coautor.
Olson anunciou o livro no seu blog em abril de 2015, e Ben Henshaw, na resenha de outubro, chamou o volume de “um grande avanço” em relação ao original.
O seminário e a carta
Em 2017, Wagner tinha acabado de concluir, a distância, um mestrado em estudos bíblicos no Trinity Theological Seminary, de Evansville, em Indiana, e começava ali o doutorado em apologética cristã e teologia. Foi nesse momento que escreveu a Sproul. A carta ficou no site da Society of Evangelical Arminians, e em agosto de 2026, um ex-calvinista contou na seção de testemunhos da sociedade que aquelas dezessete páginas o ajudaram a deixar o calvinismo.
Pensamento
Wagner se define como arminiano da Reforma, o nome que Picirilli, Pinson e Olson dão ao arminianismo clássico, fiel ao próprio Armínio (veja Por que Armínio rejeitou o calvinismo). Na carta a Sproul ele explica: tira a maior parte da sua teologia sobre a expiação, a eleição e o livre-arbítrio dos escritos de Armínio, que tinha uma visão elevada de Deus e da Escritura, aceitava os “solas” da Reforma e afirmava a depravação total, a ideia de que o pecado atingiu o ser humano inteiro, a ponto de ele não poder voltar-se para Deus por conta própria.
O arminianismo não é semipelagiano
O primeiro protesto de Wagner é contra o rótulo. Sproul costumava identificar o arminianismo com o semipelagianismo, a doutrina de que o ser humano dá o primeiro passo em direção a Deus e a graça vem depois, como ajuda. Wagner responde que Armínio rejeitou com veemência tanto o pelagianismo quanto o semipelagianismo. No arminianismo clássico, escreve ele, “a graça de Deus, isto é, a graça preveniente, convence e atrai o pecador primeiro, antes que o incrédulo faça mais alguma coisa” (carta a Sproul, 2017). Graça preveniente é a graça que vem antes da resposta humana: o Espírito Santo age no coração de todos, convence do pecado e torna possível crer. Quando Sproul pergunta onde a Bíblia ensina isso, Wagner aponta João 16:8, em que o Espírito “convencerá o mundo do pecado”, e explica que o verbo grego lembra um advogado que expõe as provas diante do júri. Junta João 1:9 e Tito 2:11, e cita Thomas Oden e Gregory Crofford. Sobre a doutrina, veja A graça preveniente em Armínio.
Atrair ou arrastar
O argumento que Wagner pede a Sproul que aceite, “mesmo que rejeite todo o resto”, é sobre João 6:44: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”. Sproul tinha lido o verbo grego como “arrastar” ou “compelir”, sentido que ele de fato tem quando se arrasta alguém fisicamente, como em Atos 16:19. Wagner abre o mesmo dicionário de Kittel que Sproul citava e mostra que, nos usos de João, o verbo descreve Deus atraindo para si “em amor”, sem força. Acrescenta outros cinco léxicos, entre eles o BDAG, todos com o sentido de atrair moralmente. E fecha com João 12:32, onde o mesmo verbo aparece: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”. Se o verbo significasse arrastar, Cristo arrastaria todos os homens.
Daí vem a ordem da salvação que ele defende. A graça convence e atrai, mas pode ser recusada, como mostram Mateus 23:37 e Atos 7:51; a pessoa crê, e a regeneração vem com a fé, e não antes dela. Para isso Wagner cita João 20:31: o evangelho foi escrito para que, “crendo, tenhais vida em seu nome”. Quem já tivesse a vida antes de crer não precisaria crer para recebê-la.
Soberania e permissão
Wagner concorda com Sproul que nada acontece fora da permissão soberana de Deus. A divergência está no verbo “ordenar”: os calvinistas com quem debatia diziam que ordenar é decretar, e ele lhes perguntava se Deus tinha decretado o Holocausto. Para Wagner, Deus, na sua soberania, dá às criaturas uma liberdade real. Por isso os fariseus puderam rejeitar, “quanto a si mesmos, o desígnio de Deus” (Lucas 7:30).
A eleição em Cristo
Sobre a eleição, Wagner rejeita a imagem, comum entre críticos, de um Deus que “olha pelos corredores do tempo” para ver quem vai crer. Deus não está preso ao tempo, que ele mesmo criou, e a presciência é simplesmente o seu conhecimento. O centro da eleição é Cristo. Ele é o Escolhido de Deus (1 Pedro 1:20; Lucas 9:35; Isaías 42:1), e quem está unido a ele pela fé entra na sua condição de escolhido. Por isso Efésios 1:4 diz que Deus “nos escolheu nele”, e não que nos escolheu para nos pôr nele. É a eleição condicional em Cristo do arminianismo clássico.
Em Romanos 9, Wagner avisa a Sproul que diverge “educadamente” do próprio Armínio. Ele lê os capítulos 9 a 11 como uma unidade e volta aos textos do Antigo Testamento que Paulo cita. “Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú” (Romanos 9:13) vem de Malaquias 1, escrito mais de mil anos depois dos dois irmãos, e fala de Israel e de Edom como nações. A eleição em jogo é a da linhagem de Abraão, Isaque e Jacó, escolhida para produzir a descendência prometida, que é Cristo (Gálatas 3:16). O oleiro de Romanos 9:21 remete a Jeremias 18, em que Deus muda o que faria com uma nação conforme ela se arrepende ou não. É a leitura histórica de Strauss, com alguns elementos da eleição corporativa de Brian Abasciano, em que Deus elege um povo em Cristo e cada pessoa participa dessa eleição pela fé.
Cristo morreu por todos
O último tema da carta é a expiação. Sproul dizia que uma expiação universal seria só “potencial” e que, se Cristo tivesse pago pelos pecados de todos, todos seriam salvos. Wagner responde com a distinção entre provisão e posse: “Cristo morreu por todas as pessoas, mas não automaticamente em todas as pessoas”, porque cada uma precisa receber a salvação pelo arrependimento e pela fé (carta a Sproul, 2017). Lembra os comentários de Calvino a João 3:16-17 e recomenda o estudo de David L. Allen sobre o alcance da expiação. Quanto à palavra “mundo”, desafia os calvinistas a mostrar um único léxico ou dicionário teológico em que kosmos signifique “os eleitos”.
A carta termina com uma frase que resume o seu pensamento: “a graça de Deus é, acredite ou não, graciosa”.
Em relação à declaração de fé do site
As concordâncias são quase completas: a expiação por todos, a graça preveniente dada a todos e resistível, a eleição em Cristo e condicionada à fé, a regeneração que acompanha a fé, e a recusa do teísmo aberto, que levou Wagner a separar o Pinnock de 1975 do Pinnock posterior. Há uma diferença de acento. Wagner entende que estar “mortos nos vossos delitos e pecados” (Efésios 2:1) é estar separado de Deus, culpado e a caminho da condenação, e afirma que ninguém busca a Deus sem a ação do Espírito (Romanos 3:11). Armínio, e com ele a declaração de fé deste site, vai mais longe na descrição: a vontade caída está “aprisionada, destruída e perdida”, e a graça preveniente começa libertando essa vontade, antes de qualquer resposta.
Obras principais
- John Goodwin, Redemption Redeemed: A Puritan Defense of Unlimited Atonement, edição de John D. Wagner (Wipf and Stock, 2001; nova edição em 2004).
- Daniel D. Whedon, Freedom of the Will: A Wesleyan Response to Jonathan Edwards, edição de John D. Wagner (Wipf and Stock, 2009).
- James Arminius, Arminius Speaks: Essential Writings on Predestination, Free Will, and the Nature of God, edição de John D. Wagner, prefácio de Robert E. Picirilli (Wipf and Stock, 2010).
- Clark H. Pinnock e John D. Wagner (org.), Grace for All: The Arminian Dynamics of Salvation (Resource Publications, 2015).
- A Letter to Dr. R. C. Sproul Sr. (2017), carta aberta sobre Chosen by God.
Para aprofundar
- John D. Wagner, carta a R. C. Sproul (12 de maio de 2017), PDF, e a página da publicação, Society of Evangelical Arminians.
- Wipf and Stock, Redemption Redeemed, Arminius Speaks e página do autor, com as notas biográficas do editor.
- Robert E. Picirilli, Foreword to Arminius Speaks, Society of Evangelical Arminians (2011).
- Ben Henshaw, Grace For All: The Arminian Dynamics of Salvation (Book Review), Arminian Perspectives (2015).
- Roger E. Olson, A New Book (Or Revision of an Old Book) about Arminian Theology (2015).
- Book Review: Whedon’s Freedom of the Will, Society of Evangelical Arminians (2011).
- This Ain’t Your Grandpa’s Arminianism, Society of Evangelical Arminians (2011).
- X-Calvinist Corner Files: Testimony #57, Society of Evangelical Arminians (2026).
- John Goodwin, Redemption Redeemed (reimpressão de Londres, 1840), e a edição de Wagner (2001), no Internet Archive.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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