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John Hales: O erudito de Eton que deu boa-noite a Calvino no Sínodo de Dort
Neste texto
Na noite de 22 de janeiro de 1619, o Sínodo de Dort discutia em sessão fechada como Cristo pode ser chamado de “fundamento da eleição”. Matias Martínio, teólogo de Bremen, disse que Cristo era o autor da eleição, e não só o seu executor. O professor Francisco Gomaro levantou-se na mesma hora, jogou a luva diante dele e pediu ao sínodo licença para um duelo. Depois da oração final, Gomaro renovou o desafio, e os dois se separaram “sem golpes”. Quem contou a cena ao embaixador inglês foi um capelão de 34 anos que assistia às sessões sem voto: John Hales, professor de grego e membro do Eton College. Hales chegou a Dort calvinista. Anos depois, dizia aos amigos que foi ali que deu boa-noite a João Calvino.
Vida
Bath, Oxford e o grego
John Hales nasceu em 19 de abril de 1584, na paróquia de St. James, em Bath, na Inglaterra. Em abril de 1597, aos treze anos, o menino entrou no Corpus Christi College, em Oxford, e concluiu o bacharelado em 1603.
O grego dele chamou a atenção de Sir Henry Savile, diretor do Merton College, que o fez eleger membro (fellow) do colégio em 1605. Hales recebeu as ordens da Igreja da Inglaterra, tirou o mestrado em 1609 e ajudou Savile na edição das obras de João Crisóstomo (1610-1613), tanto que o conde de Clarendon lhe atribuiu boa parte do serviço. Em 1612 tornou-se professor público de grego da universidade. Em 1613 pronunciou a oração fúnebre de Sir Thomas Bodley, o fundador da Biblioteca Bodleiana, seu primeiro texto publicado, e em 24 de maio entrou como membro no Eton College, de que Savile era reitor. Eton seria a sua casa pelo resto da vida.
Capelão em Haia e observador em Dort
Em 1616, Hales foi para os Países Baixos como capelão de Sir Dudley Carleton, embaixador inglês em Haia. Quando o Sínodo de Dort se reuniu para julgar os remonstrantes, os seguidores de Jacó Armínio, Carleton mandou o capelão acompanhar as sessões e escrever-lhe tudo. Hales chegou em 13 de novembro de 1618 e ficou até o começo de fevereiro de 1619, quando Walter Balcanqual, da delegação britânica, assumiu a correspondência.
As cartas de Hales são uma das melhores testemunhas do sínodo. Ele registrou o discurso de abertura de Simão Episcópio, o porta-voz dos remonstrantes, e a briga sobre a ordem dos assuntos. Os remonstrantes queriam discutir logo a reprovação, e Episcópio explicou por quê: não suportava a doutrina de que Deus teria decretado de modo absoluto lançar fora a maior parte da humanidade “só porque quis” (carta de 27 de dezembro de 1618). Gomaro respondeu que ninguém ensinava que Deus rejeita o homem sem o pecado, porque Deus decreta o fim e também os meios: predestinou o homem à morte e, para isso, ao pecado.
Na segunda-feira, 14 de janeiro de 1619, o presidente do sínodo, Johannes Bogerman, expulsou os remonstrantes com um discurso que os acusava de fraude e mentira e terminava com uma ordem seca: “Exite”, saiam. Hales anotou as palavras de Episcópio na saída: “O Senhor Deus julgará as fraudes e as mentiras”. Ele acompanhou também o debate sobre o alcance da cruz. Contou que o bispo George Carleton, chefe da delegação inglesa, tinha escrito a Martínio para tirá-lo da sua opinião sobre a “graça universal”, e que o texto em que Martínio mais se apoiava era João 3:16. No começo de fevereiro, pediu para voltar a Haia: “do jeito que o sínodo procede”, escreveu, não valia a pena ficar.
O homem dos livros em Eton
De volta a Eton, Hales viveu entre os livros e ia a Londres mais ou menos uma vez por ano, onde era disputado pelos letrados. Fez parte do grupo de Great Tew, reunido em torno de Lucius Cary, visconde de Falkland, e acompanhou de perto a escrita de A religião dos protestantes (1637), de William Chillingworth.
Anthony Wood o chamou de “biblioteca ambulante”. Clarendon escreveu que Hales tinha lido e guardado na memória mais do que qualquer homem que ele conheceu, com a única exceção de Falkland. John Pearson, que editou os seus escritos, lembrou que ninguém foi mais pressionado a escrever e ninguém resistiu tanto, embora conversasse com tanta generosidade que “o seu quarto era uma igreja, e a sua cadeira, um púlpito”.
O tratado do cisma e o arcebispo Laud
Por volta de 1636, Hales escreveu para um amigo, provavelmente Chillingworth, uma carta sobre o cisma. O texto circulou em cópias e chegou ao arcebispo William Laud, que se ofendeu. Em 1638, Laud o chamou a Lambeth. Clarendon conta que os dois debateram sobre Ireneu e os pais mais antigos e que Laud o dispensou com cortesia. Pouco depois fez dele seu capelão e lhe deu um canonicato em Windsor, onde Hales tomou posse em 27 de junho de 1639, depois de muita insistência, porque não queria ter o cuidado de almas.
Na carta que escreveu a Laud, Hales pediu desculpas pelo tom do tratado, mas não retirou nenhuma ideia, e deixou uma frase que resume a sua vida: a busca da verdade foi o seu único cuidado “desde que entendi pela primeira vez o significado da palavra”.
A guerra civil e a pobreza
Em 1642, o tratado foi impresso sem o seu nome e sem a sua permissão, e no mesmo ano o Parlamento lhe tirou o canonicato. Durante os confiscos, Hales, que era tesoureiro do colégio, escondeu-se por nove semanas numa casa em Eton para guardar os documentos e as chaves do colégio. Viveu de pão escuro e cerveja; a dona da casa cobrava seis pence por semana, e ele ofereceu doze. Em 1649 recusou o Engagement, o juramento de fidelidade à república sem rei nem Câmara dos Lordes, e perdeu o lugar no colégio. O sucessor ofereceu-lhe metade dos rendimentos, e Hales recusou: se tinha direito a uma parte, tinha direito ao todo.
Preferiu ser tutor do filho da senhora Salter, em Richings, perto de Colnbrook, até que uma ordem contra quem abrigasse realistas o fez voltar para Eton. Para viver, vendeu boa parte da biblioteca ao livreiro Cornelius Bee por setecentas libras, quando os livros lhe tinham custado cerca de 2.500, e repartiu o dinheiro com clérigos e estudiosos que também tinham perdido os seus lugares.
John Hales morreu em Eton em 19 de maio de 1656, aos 72 anos. No testamento pediu para ser enterrado no cemitério, sem sermão e sem sino, perto do afilhado: como em vida não tinha prestado serviço à igreja, não queria que a igreja lhe prestasse honra na morte. Em 1659 saíram os seus Golden Remains (Restos de ouro), com sermões, cartas e as notícias de Dort, e daí veio o título com que passou a ser lembrado: “o sempre memorável John Hales”.
Pensamento
Onde Hales fica no arminianismo
Hales é um simpatizante do arminianismo: deixou o calvinismo depois de Dort e reconheceu apoio na Escritura para a posição remonstrante sobre a reprovação e a graça oferecida a todos, mas nunca se chamou arminiano nem escreveu um sistema sobre a graça. O testemunho mais direto é do pregador Anthony Farindon, seu amigo íntimo. Numa carta de setembro de 1657, publicada nos Golden Remains, Farindon escreveu que Hales foi calvinista na juventude, ainda no tempo do sínodo, e que, ao ouvir João 3:16 bem defendido, disse: “Ali dei boa-noite a João Calvino”, como lhe contou muitas vezes. Farindon atribui o argumento a Episcópio; as cartas de Hales ligam o versículo a Martínio. O historiador John Tulloch resumiu a mudança: se Hales deu boa-noite a Calvino, “não disse bom-dia a Armínio”.
No sermão Sobre como tratar os cristãos que erram, pregado em Londres sobre Romanos 14:1, Hales apresenta as duas posições que dividiam as igrejas. Uns ensinam, “com probabilidade da Escritura”, que a causa da perdição dos que se perdem é a corrupção original, agravada “pela negligência ou recusa da graça oferecida”. Outros fazem da reprovação um ato só da vontade de Deus, sem nenhuma causa nas criaturas. Hales vê algo de piedoso nas duas: a primeira quer livrar Deus da acusação de rigor desnecessário; a segunda quer humilhar o homem diante da majestade divina. A primeira é, em substância, a posição dos remonstrantes, e a segunda, a de Gomaro. O erro, para Hales, está em transformar qualquer uma delas em verdade obrigatória, porque o Espírito Santo pede dos cristãos “a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Efésios 4:3), e não a identidade de opinião.
Aqui fica a distância em relação ao arminianismo clássico, que afirma, com a Declaração de Sentimentos de Armínio e a Remonstrância de 1610, que a eleição é em Cristo e condicional. Hales preferiu dizer que o modo da predestinação só será conhecido “no dia em que todo conhecimento será perfeito”. A primeira das duas posições, que ele reconhece como bíblica, nada tem de semipelagiana: parte da corrupção original de todo ser humano e põe a causa da perdição na recusa de uma graça que Deus de fato oferece, perto da graça resistível dos remonstrantes e da expiação para todos que nós afirmamos.
Cisma, heresia e caridade
O Tratado sobre o cisma e os cismáticos começa com uma frase famosa: heresia e cisma, como se costuma usar as palavras, são “dois espantalhos teológicos”, com que os chefes de partido assustam quem quer examinar as suas ideias. Hales não diminui o pecado em si: a heresia ofende a verdade, e o cisma, a caridade. Cisma, para ele, é “a separação desnecessária” de cristãos da igreja visível a que pertenciam. Quando a igreja exige crer no falso ou fazer o ilícito, o cismático é quem provocou a separação, e não quem se separa.
O exemplo vem dos Países Baixos. Enquanto remonstrantes e contrarremonstrantes brigavam com a pena, o cisma não tinha nascido; quando um dos partidos varreu um velho claustro, pôs nele um púlpito e fez dele uma igreja à parte, a controvérsia virou cisma. Para evitar divisões por opinião, Hales propôs liturgias com só o que todos os cristãos aceitam: oração, confissão, ação de graças, leitura das Escrituras e sacramentos “da maneira mais simples e clara”. Carregar o culto com as opiniões de um partido seria o melhor jeito de perpetuar o cisma até o fim do mundo. Clarendon guardou uma frase dele no mesmo espírito: Hales renunciaria à Igreja da Inglaterra no dia seguinte se ela o obrigasse a crer que outros cristãos seriam condenados, e ninguém conclui que outro homem está condenado sem desejar que esteja.
A Escritura e o juízo de cada cristão
No sermão de 1617 sobre 2 Pedro 3:16, contra quem torce as passagens difíceis da Bíblia, Hales afirma que só há dois intérpretes infalíveis da Escritura: ela mesma, quando o sentido é claro, e o Espírito Santo que a inspirou. A infalibilidade não está ligada “à sé de nenhum bispo, nem aos pais, nem aos concílios, nem à igreja, nem a nenhum poder criado”. Daí a insistência em que cada cristão examine o que lhe ensinam, em vez de aceitar tudo, como animais de carga, por “obediência cega”.
Nos Diversos tratados (1677), Hales trata a Ceia do Senhor como memorial, com dois fins: lembrar a morte do Filho de Deus e testemunhar a nossa união com Cristo e a comunhão uns com os outros. A nossa declaração de fé também chama a Ceia de memorial, mas a conta entre os meios de graça pelos quais Deus sustenta o crente, linguagem que Hales não usava. No ensaio sobre o poder das chaves, ele leu Mateus 16:19 como o encargo de abrir a mensagem do evangelho, dado a todo cristão que possa ajudar outro: para salvar uma alma, escreveu, todo homem é sacerdote.
Essa liberdade lhe valeu a fama de sociniano, isto é, de negar a Trindade. A acusação nasceu de dois tratados anônimos que lhe foram atribuídos, Dissertatio de pace et concordia Ecclesiae (1628) e Brevis disquisitio (1633), escritos na verdade por socinianos do continente. Os Golden Remains trazem uma curta Confissão da Trindade de Hales, que resume a doutrina de um só Deus em três pessoas. Os historiadores põem Hales entre os precursores dos latitudinários da geração seguinte. Sobre o sínodo, leia também Sínodo de Dort: concílio ou purga?.
Obras principais
- Oratio funebris, oração fúnebre de Sir Thomas Bodley (1613).
- Sermão sobre o abuso das passagens obscuras da Escritura, pregado em Oxford (1617).
- The Way towards the Finding of a Decision, anônimo (1641).
- A Tract Concerning Schisme and Schismatiques (1642).
- Of the Blasphemie against the Holy Ghost, anônimo (1646).
- Golden Remains of the Ever Memorable Mr. John Hales of Eton College, sermões, cartas de Dort e escritos diversos (1659; segunda edição ampliada em 1673).
- Several Tracts, com os textos sobre a Ceia do Senhor, o poder das chaves e o cisma (1677; segunda edição em 1716, com a carta a Laud).
- The Works of the Ever Memorable Mr. John Hales, organizadas por Sir David Dalrymple, Lord Hailes, 3 volumes (Glasgow, 1765).
Para aprofundar
- Alexander Gordon, Hales, John (1584-1656), Dictionary of National Biography, vol. 24 (1890), via Wikisource.
- Alexander Chalmers, Hales, John, The General Biographical Dictionary (1812-1817), via From Old Books.
- Anthony Wood, John Hales, Athenae Oxonienses, vol. 2, via From Old Books.
- John Tulloch, Rational Theology and Christian Philosophy in England in the Seventeenth Century, vol. 1 (1872), cap. IV, “John Hales of Eton: Religion and Dogmatic Orthodoxy”, Internet Archive.
- John Hales, Golden Remains of the Ever Memorable Mr. John Hales, 2ª edição (Londres, 1673), com o prefácio de John Pearson, a carta de Anthony Farindon e as cartas de Dort, transcrição do EarlyPrint.
- John Hales, A Tract concerning Schism and Schismatics (Londres, 1700), transcrição do EarlyPrint.
- Kevin Jackson, The Calvinists Who Became Arminians at Dort, Society of Evangelical Arminians (2009).
- John Hales (theologian), Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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