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John Mark Hicks: O teólogo das Igrejas de Cristo que separou Armínio dos remonstrantes

Diego Gonçalves13 min de leitura2.598 palavras

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Neste texto

Em 1978, numa aula sobre a doutrina de Cristo no Westminster Theological Seminary, em Filadélfia, um aluno perguntou ao professor Robert Strimple: “Um arminiano pode ser salvo?”. Na carteira estava um jovem das Igrejas de Cristo que se assustou com a pergunta, porque estava acostumado a fazê-la ao contrário, perguntando se um calvinista podia ser salvo. Strimple respondeu numa frase curta: “se ele confia em Cristo”. John Mark Hicks contou a cena num ensaio de 2001 e acrescentou que tinha se convertido em Westminster: entrou com uma visão do ser humano que ele mesmo chamou de pelagiana e saiu arminiano, “mais na linha do próprio Armínio”. Dessa virada nasceu a tese de doutorado que separou, com as fontes latinas na mão, a teologia de Jacó Armínio da teologia dos remonstrantes que vieram depois dele.

Vida

Origem e formação

John Mark Hicks nasceu em Fort Sumner, no Novo México. Os pais, Mark N. Hicks e Edith Lois Hicks, eram texanos e tinham se mudado para a Virgínia em 1951 para plantar uma igreja. O filho cresceu na Virgínia e aprendeu desde cedo a teologia e a prática tradicionais das Igrejas de Cristo, o ramo do Movimento de Restauração que descende da pregação de Barton W. Stone e de Alexander Campbell.

Estudou na Freed-Hardeman College, em Henderson, Tennessee, onde se formou em Bíblia em 1977, aos dezenove anos. Em maio de 1977 casou com Sheila Christian Pettit. O plano do casal era o campo missionário na Alemanha. Hicks fez o mestrado em estudos teológicos em Westminster (1979) e um mestrado em filosofia na Western Kentucky University (1980), orientado por Ronald Nash.

Em 30 de abril de 1980, Sheila morreu em Ellijay, na Geórgia, de complicações depois de uma cirurgia na coluna. Estavam casados havia quase três anos. Depois dessa perda, Hicks trocou o projeto missionário pela vida acadêmica e voltou a Westminster para o doutorado.

A tese sobre Armínio e Limborch

O doutorado foi em história da Reforma e da pós-Reforma, sob a orientação de Richard C. Gamble. O leitor externo da banca foi Carl Bangs, o biógrafo de Armínio. Hicks defendeu a tese em março de 1985 com o título The Theology of Grace in the Thought of Jacobus Arminius and Philip van Limborch: A Study in the Development of Seventeenth Century Dutch Arminianism.

Philip van Limborch (1633-1712) era sobrinho-neto de Simão Episcópio, ensinou teologia no seminário remonstrante de Amsterdã a partir de 1667 e escreveu a Theologia Christiana (1686), a exposição mais completa da teologia remonstrante do seu século. Hicks trabalhou direto nos textos latinos para responder se o arminianismo de Armínio leva logicamente ao remonstrantismo de Limborch. A resposta foi negativa: os dois diferem sobre os efeitos da queda, a capacidade do homem caído, a obra do Espírito, a morte de Cristo e a justiça que salva. Ambos falam de condição, de cooperação e de graça universal, mas sobre pressupostos opostos. A conclusão do resumo é direta: Armínio “deve ser considerado um teólogo da Reforma”, e Limborch defendia uma teologia que mina as marcas distintivas da Reforma.

Hicks nunca transformou a tese em livro. Resumiu o argumento num artigo de 1991 e pôs o texto completo na internet em 2010. Roger Olson usou a tese com frequência em Teologia arminiana: mitos e realidades (2006 no original), como notou J. Matthew Pinson ao resenhar o livro.

Professor e ministro

Em 1982 Hicks começou a ensinar teologia na Alabama Christian School of Religion, em Montgomery. Casou de novo em 1983. Passou pela Magnolia Bible College, no Mississippi (1989-1991), e foi professor de doutrina cristã na Harding University Graduate School of Religion, em Memphis (1991-2000). Em Memphis foi ministro de educação de adultos da Ross Road Church of Christ.

Em 2000 chegou à Lipscomb University, em Nashville, como professor de teologia. Foi ministro de educação de adultos da Woodmont Hills Church of Christ (2001-2006) e escreveu os verbetes “Salvação” e “Expiação” da Encyclopedia of the Stone-Campbell Movement (2004).

Lecionou em tempo integral de 1982 a 2023, os últimos 24 anos na Lipscomb. Aposentado, continua dirigindo os cursos de educação continuada a distância do departamento de Bíblia e criou o Hazelip Exchange, uma série de encontros abertos sobre ministério e hermenêutica.

O luto e o livro sobre o sofrimento

Do segundo casamento nasceu Joshua, que recebeu o diagnóstico da síndrome de Sanfilippo tipo A (mucopolissacaridose IIIA), doença genética que destrói aos poucos a fala e as funções do corpo. Em 1999 Hicks publicou Yet Will I Trust Him: Understanding God in a Suffering World. O livro une teologia e experiência e propõe o lamento fiel de Jó, dos Salmos, de Lamentações e de Habacuque como caminho para encontrar Deus na dor. Hicks chama os amigos de Jó de “médicos inúteis” e rejeita consolos prontos como “foi a vontade de Deus”. Num episódio que ele narra, alunos mais velhos zombaram de Joshua no ônibus escolar, e o pai foi para o escritório e “derramou o coração” diante de Deus. Joshua morreu em 21 de maio de 2001, aos dezesseis anos.

Hicks voltou ao tema em 2012, ao responder aos teístas abertos. A perda da esposa e a do filho o afastaram de uma imagem mecânica de Deus e o levaram a uma fé mais funda num Deus soberano, “mais parecido com o que o arminianismo clássico enxerga”. Quando orou pela saúde da esposa e do filho, escreveu, Deus tomou uma decisão específica de curar ou de permitir a morte.

Sacramentos, hermenêutica e reforma nas Igrejas de Cristo

A partir de 2002 Hicks escreveu uma trilogia sobre o culto: Come to the Table (2002), sobre a Ceia; Down in the River to Pray (2004, com Greg Taylor), sobre o batismo como obra transformadora de Deus; e A Gathered People (2007, com Bobby Valentine e Johnny Melton), sobre a assembleia. Com Valentine publicou Kingdom Come (2006), sobre David Lipscomb e James A. Harding. Em Searching for the Pattern (2019) contou como abandonou a busca de um “projeto” de igreja deduzido de mandamentos, exemplos e inferências do Novo Testamento, o método que aprendera na juventude, porque percebeu que cada passo daquele raciocínio já era uma inferência. Em lugar dele propôs uma leitura teológica, em que o padrão é a história de Deus em Jesus. Ao todo, assinou ou ajudou a escrever mais de cinquenta livros.

Ao lado disso, continuou estudando Armínio, com artigos no Trinity Journal (2012) e em Reconsidering Arminius (2014).

Pensamento

Arminiano clássico, na linha de Armínio

Hicks é um arminiano clássico: diz que se tornou arminiano em Westminster, “mais na linha do próprio Armínio”, e em 2012 defende o arminianismo clássico contra o teísmo aberto. As Igrejas de Cristo rejeitaram o calvinismo desde Stone e Campbell, muitas vezes superestimando a capacidade humana, e Hicks chama de pelagiana a sua formação de juventude. Como Jack Cottrell no mesmo movimento, ele combateu o calvinismo, mas sua contribuição própria foi mostrar um arminianismo evangélico, reformado nas raízes, distante do moralismo.

Arminianismo e remonstrantismo

O centro da obra acadêmica de Hicks é a distinção entre o arminianismo de Armínio e o remonstrantismo de Limborch, que ele mostra em dois pontos. O primeiro é a expiação. Para Armínio, a morte de Cristo foi satisfação plena da justiça de Deus, que ele chama de “inflexível”: Cristo levou em nosso lugar a pena devida pelos pecadores. É a satisfação penal substitutiva dos reformadores, com a diferença de que os benefícios da cruz se estendem potencialmente a todos. Para Limborch, Deus decidiu aceitar a morte de Cristo como satisfação, embora ela não pagasse tudo o que a justiça exigia. A lei foi abrandada, e o pecador cumpre o que resta dela. Hicks compara: a diferença entre Armínio e Limborch é a mesma que há entre Calvino e Hugo Grócio, entre a teoria penal e a teoria governamental.

O segundo é a justificação. Interrogado em Haia em 1608, Armínio respondeu citando as perguntas 60 e 61 do Catecismo de Heidelberg. Para ele, o pecador é contado justo “somente pela obediência de Cristo”, cuja justiça é imputada (atribuída) a quem crê. A fé é ato humano, mas nasce da graça preveniente, que vem antes de qualquer movimento da vontade, e não tem mérito nenhum. Para Limborch, Deus conta a própria fé como justiça. Hicks conclui o artigo de 1991 com uma imagem que vem do próprio Armínio: a fé é “uma mão estendida e vazia” que espera de Deus a justiça. E traça a linha: “A tradição arminiana é a linha histórica de Armínio e Wesley. A tradição remonstrante é a linha histórica de Grócio, Limborch e do latitudinarismo” (Evangelical Journal, 1991).

Sobre a graça, a tese de 1985 responde à velha pergunta se Armínio era monergista (a salvação é obra só de Deus) ou sinergista (Deus e o homem cooperam). Num sentido, diz Hicks, Armínio é monergista: em nenhum momento o homem crê ou faz algum bem sem a ajuda interna da graça, e o livre-arbítrio “não é causa concorrente” da salvação, apenas “o receptáculo que recebe o fluxo da graça”. Em outro sentido, é sinergista: a vontade, libertada pela graça, consente ou resiste, e a graça pode ser recusada. A graça começa, sustenta e completa a obra, e a pessoa, liberta por ela, crê sem acrescentar mérito.

Eleição, segurança e a convivência com os calvinistas

No ensaio Election and Security: An Impossible Impasse? (2001), Hicks parte de pontos que calvinistas e arminianos já partilham. Deus tomou a iniciativa, e por isso toda vanglória fica excluída. Cristo é o Eleito, e nós somos eleitos nele. Conhecemos a eleição pela revelação na história de Jesus, e não pela especulação sobre a vontade secreta de Deus. Ele resume a eleição arminiana assim: Deus elegeu Cristo para salvar o mundo, e nós somos eleitos em Cristo pela fé, que funciona como instrumento e não como ato meritório. Quando alguém se perde, a razão está na incredulidade dessa pessoa, e não num decreto de Deus, que deseja que todos creiam.

Sobre a segurança, Hicks separa quatro posições: a segurança pelas obras, que ele chama de pelagiana; a segurança pela fé que opera, de Armínio; a perseverança dos santos, de Calvino; e o “uma vez salvo, salvo para sempre” de quem dispensa até a evidência das obras. A posição de Armínio é a dele: a fé é o meio da segurança, e “quando a incredulidade expulsa a fé, não há salvação”. É a perseverança condicional. Arminianos e calvinistas, nas posições do meio, estão juntos contra o legalismo e o antinomismo, e Hicks cita I. Howard Marshall para dizer que o efeito prático das duas é o mesmo: quem crê se agarra a Cristo.

A providência e o teísmo aberto

No Trinity Journal (2012), Hicks respondeu a John Sanders, que apresentava o teísmo aberto como uma pequena correção do arminianismo. No arminianismo clássico, explica, Deus concorre em cada ato e lhe dá propósito sem determiná-lo; no teísmo aberto, alguns efeitos da história escapam ao governo de Deus. Armínio afirmava com os reformados uma providência meticulosa: não há mal gratuito, porque Deus limita o pecado e o dirige para fins bons. Ao mesmo tempo, “Deus permite o pecado; Deus não é a causa primária do pecado”. Por isso o teísmo aberto, que nega essa providência e o pleno conhecimento do futuro, é para Hicks uma revisão radical do arminianismo. O site concorda, como mostra a sua doutrina dos decretos.

Sacramentos e diferenças com a declaração de fé do site

Hicks trata o batismo, a Ceia e a assembleia como meios de graça, “símbolos participativos por meio dos quais Deus age”. O batismo é o meio pelo qual o crente encontra o ato salvador de Deus na morte e ressurreição de Cristo, e os três conduzem o discípulo “rumo à inteira santificação” (Recentering, 2021).

A declaração de fé do site também fala de meios de graça e de inteira santificação, mas difere em dois pontos. O site vê o batismo como testemunho público que segue a conversão e aceita a imersão e a aspersão; Hicks, como as Igrejas de Cristo, liga o batismo de crentes por imersão ao momento em que Deus aplica a salvação. Sobre a inteira santificação, Hicks a apresenta como alvo do caminho do discípulo, enquanto o site a confessa também como obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé. Na soteriologia, porém, a distância é pequena: graça que vem antes, justificação pela justiça imputada de Cristo, fé sem mérito, eleição em Cristo e perseverança condicional.

Obras principais

  • The Theology of Grace in the Thought of Jacobus Arminius and Philip van Limborch (tese de doutorado, Westminster Theological Seminary, 1985).
  • “The Righteousness of Saving Faith: Arminian versus Remonstrant Grace”, Evangelical Journal 9 (1991).
  • Yet Will I Trust Him: Understanding God in a Suffering World (1999).
  • Come to the Table (2002).
  • “Mediating the War Between Calvinists and Arminians on Election and Security”, Stone-Campbell Journal 6.2 (2003).
  • Down in the River to Pray, com Greg Taylor (2004).
  • Kingdom Come, com Bobby Valentine (2006).
  • A Gathered People, com Bobby Valentine e Johnny Melton (2007).
  • “Classic Arminianism and Open Theism”, Trinity Journal 33 (2012).
  • “Was Arminius an Open Theist?”, em Reconsidering Arminius (2014).
  • Searching for the Pattern: My Journey in Interpreting the Bible (2019).
  • Discipleship in Community, com Mark Powell e Greg McKinzie (2020).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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