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HistóriaTeólogos arminianos12 de 253

Johannes Wtenbogaert: o pregador da corte que redigiu a Remonstrância

Diego Gonçalves12 min de leitura2.465 palavras

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Neste texto

Na madrugada de 29 de agosto de 1618, um pregador de sessenta e um anos atravessou a Haia para conversar com o seu amigo mais poderoso, Johan van Oldenbarnevelt, o advogado dos Estados da Holanda. Queriam acertar um pedido que levariam aos Estados. Foi a última vez que se viram. Naquele mesmo dia Oldenbarnevelt foi preso por ordem do príncipe Maurício de Nassau, e o pregador entendeu que também ele não estava mais seguro na cidade onde tinha servido por quase trinta anos. Fugiu para Roterdã e dali para Antuérpia. Chamava-se Johannes Wtenbogaert, também escrito Uytenbogaert, e era o homem que tinha redigido a Remonstrância, o documento que deu nome aos seguidores de Armínio.

Retrato de Johannes Wtenbogaert por Rembrandt
Retrato de Johannes Wtenbogaert, por Rembrandt, 1633. Rijksmuseum, Amsterdã. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Utrecht e Genebra

Johannes Wtenbogaert nasceu em Utrecht em 11 de fevereiro de 1557, filho mais novo de Augustijn Pieterszoon Wtenbogaert, mestre-escola e chantre auxiliar da igreja de São Pedro, e de Heylwich Hamel. Estudou na escola de São Jerônimo e depois direito, e trabalhou no escritório de um procurador do tribunal da cidade. Ainda católico de nome, ouvia as pregações de Huibert Duifhuis, um padre que tinha passado aos poucos para o protestantismo, e lia Erasmo, Lutero, Bullinger e Melanchthon. Um livro popular de Johannes Anastasius Veluanus, o Der Leken Wechwyser, “guia dos leigos”, levou-o a romper com Roma, por volta de 1578.

Decidido a ser pregador, foi contratado como leitor e catequista pelo pequeno grupo calvinista da cidade, os “consistoriais”, assim chamados porque tinham conselho de presbíteros. Em 1580 eles o mandaram a Genebra, em parte com dinheiro da cidade, para estudar teologia. Ali ouviu Teodoro de Beza e Charles Perrot, um pastor conhecido pela moderação, que o aconselhou a nunca condenar os outros por diferenças de opinião. Ali também conheceu Jacó Armínio, três anos mais novo, e começou uma amizade que decidiria a vida dos dois. Wtenbogaert já discordava de Beza na predestinação e disse isso ao próprio mestre, que mesmo assim o despediu com uma bela carta de recomendação.

Voltou a Utrecht em 1584 como pregador dos consistoriais. A cidade estava dividida entre eles, presos à Confissão Belga e ao Catecismo de Heidelberg, e a congregação de Duifhuis, sem consistório, aberta a todos na ceia e voltada para a vida moral. Na doutrina da eleição, Wtenbogaert estava mais perto de Duifhuis. Ficou com os consistoriais por outra razão, que explicou na autobiografia: a igreja “não podia existir sem ordem e disciplina” (Leven, 1647). Acrescentou que nunca tinha aceitado com rigor a doutrina dos contrarremonstrantes, “mas sempre procurado a moderação”.

Pregador na Haia

Quando a briga chegou ao auge, o magistrado de Utrecht afastou os pregadores dos dois lados. Wtenbogaert aceitou então o chamado da Haia, apoiado pelo jovem príncipe Maurício e por Oldenbarnevelt. Tornou-se pregador da corte, dirigiu cultos em francês na capela do palácio e foi professor de latim e de religião do menino Frederico Henrique, meio-irmão de Maurício. A mãe do menino, Louise de Coligny, viúva de Guilherme de Orange, foi sua amiga fiel até o fim. A partir de 1599 acompanhou o exército como capelão, inclusive na batalha de Nieuport (1600).

Com Oldenbarnevelt criou uma amizade estreita; foi ele quem trouxe o estadista de volta à ceia do Senhor depois de muitos anos. Em Amsterdã, Wtenbogaert tentou acalmar a disputa entre Armínio e o pastor Petrus Plancius, e em 1602 propôs que o amigo fosse chamado para a cadeira de teologia de Leiden, ao lado de Franciscus Gomarus. No mesmo ano, quando a peste chegou a Amsterdã e Armínio cuidava de doentes que ninguém visitava, foi a Wtenbogaert que ele confiou os seus manuscritos. O pregador da corte também incomodava: criticava a vida leviana dos nobres e os defeitos do próprio Maurício, e isso o foi afastando do príncipe.

A Remonstrância

A disputa entre Armínio e Gomarus sobre a predestinação chegou aos Estados da Holanda, e Wtenbogaert acompanhou as conferências entre os dois professores. Armínio morreu em outubro de 1609, e o amigo, que o visitou nas últimas semanas, tornou-se o líder do grupo. Em 14 de janeiro de 1610, mais de quarenta pregadores assinaram a Remonstrância que ele havia redigido. O texto expunha em cinco artigos o que pensavam sobre a predestinação e a graça, protestava contra as calúnias e pedia aos Estados proteção e um sínodo livre, capaz de rever as confissões. Desse pedido veio o nome de remonstrantes. No mês seguinte, ele publicou um tratado sobre a autoridade do governo cristão nos assuntos da igreja, o Tractaet.

Seguiram-se anos de luta. Wtenbogaert recusou a cadeira de Armínio, mas trabalhou para que fosse dada a Conrado Vorstius, acusado de socinianismo pelos adversários, e isso o afastou ainda mais de Maurício. Foi o principal negociador remonstrante nas conferências da Haia (1611) e de Delft (1613), e em 1612 Utrecht adotou uma ordem eclesiástica de sua autoria. Em 1614 os Estados aprovaram a resolução pela paz das igrejas, redigida por Hugo Grócio sob a influência dele e de Oldenbarnevelt, que proibia pregar sobre os pontos disputados. Os adversários o apelidaram de “papa da Holanda”.

Na Haia, os contrarremonstrantes passaram a se reunir à parte e em julho de 1617 tomaram a Kloosterkerk, a igreja do antigo convento. No domingo 23 de julho, Maurício, com grande comitiva, deixou de ir à capela da corte, onde Wtenbogaert pregava, e foi à Kloosterkerk. Todos entenderam de que lado estava a espada do príncipe. Wtenbogaert quis renunciar pela paz da igreja, mas Oldenbarnevelt não o liberou. Um ano depois vieram a prisão do advogado e a fuga.

Exílio e fundação da irmandade

O sínodo provincial reunido em Delft o depôs sem ouvi-lo, e em 24 de maio de 1619 ele foi banido para sempre da República, com os bens confiscados. O Sínodo de Dort, que ele via como tribunal de partido, condenou os remonstrantes e expulsou os seus pastores. Simão Episcópio liderou a defesa no sínodo; Wtenbogaert, de Antuérpia, continuava a ser o motor do grupo. O que ele mais temera aconteceu, uma igreja separada: em 30 de setembro de 1619, em Antuérpia, sob a sua direção, os exilados fundaram a Irmandade Remonstrante Reformada.

Em Antuérpia recusou as ofertas de conversão ao catolicismo. Com o fim da Trégua dos Doze Anos, em 1621, mudou-se para Ruão, na França, com Episcópio. Dali dirigia a irmandade e passava semanas em Paris com Grócio, que tinha fugido do cárcere de Loevestein.

A volta e os últimos anos

Maurício morreu em 1625, e o sucessor foi Frederico Henrique, o antigo aluno. Em 1626 Wtenbogaert voltou em segredo a Roterdã. O príncipe não quis recebê-lo, mas deixou claro que nada lhe aconteceria. A tolerância continuava frágil: em 1628 ele escreveu a Grócio que não suportava mais o caos e o medo ao seu redor. Em 1629 voltou a pregar na casa de um amigo na Haia e retomou a própria casa.

Os seguidores o chamavam de pai da igreja remonstrante. Redigiu uma ordem eclesiástica para a irmandade e apoiou a criação do seminário remonstrante de Amsterdã, onde Episcópio foi o primeiro professor. Em 13 de abril de 1633, aos 76 anos, anotou na agenda: “pintado por Rembrandt, para Abraham Anthonissen”. O comerciante Abraham Anthonisz Recht, remonstrante convicto, pendurou o retrato em casa; hoje ele está no Rijksmuseum. Rembrandt também o gravou em água-forte em 1635, e Grócio escreveu versos para a gravura: “muito sacudido, mas não quebrado pelos anos, assim volta a ti, ó Haia, o teu Wtenbogaert”.

Casou-se duas vezes, com Anna van den Broeck e depois com Maria Petitpas, que morreu em 1640, e não teve filhos. Morreu na Haia em 4 de setembro de 1644, aos 87 anos, lúcido e trabalhando até o fim na sua História eclesiástica. No leito de morte declarou que tinha servido a Deus com a consciência limpa e que só tinha buscado a verdade, a paz, a unidade e uma vida cristã piedosa para todos.

Pensamento

Um arminiano clássico que confiava nos teólogos

Wtenbogaert pertence ao arminianismo clássico, na sua forma remonstrante: redigiu a Remonstrância, dirigiu a irmandade que a guardou e escreveu o catecismo oficial dela. Não se via como grande pensador. Na teologia, apoiava-se em Armínio e depois em Episcópio; a força dele estava em organizar, negociar e dar uma casa à liberdade teológica dos amigos.

O catecismo é a Onderwysinge in de christelicke religie (1640), “instrução na religião cristã”. A assembleia dos pastores remonstrantes o encomendou em 1631, e ele só terminou o rascunho em 1638. Saiu sem nome de autor, em 121 perguntas e respostas, como resumo da Confissão de Episcópio (1621) para os jovens.

A graça vem antes de tudo

Podemos fazer o que Deus quer por nossas próprias forças? “De modo nenhum”, responde o catecismo: tudo deve vir da graça de Deus, “que é o começo, o progresso e o cumprimento de todo bem” (pergunta 87). A fé e o novo nascimento não vêm da força do livre-arbítrio, porque no estado de pecado o ser humano não tem em si nenhum bem que salve (pergunta 91). É a afirmação de Armínio na Declaração de Sentimentos: a vontade caída precisa ser libertada por Deus antes de poder crer. Essa graça que vem antes, a graça preveniente, Deus a dá com o propósito sério de levar à fé todos os que chama (pergunta 88).

Graça que pode ser recusada

A diferença com o calvinismo está no modo como a graça age. O ser humano pode rejeitá-la “sem nenhuma dúvida” (pergunta 92). Se ela fosse irresistível, argumenta o catecismo, seria inútil prometer a vida a quem crê e ameaçar com a morte quem não crê, e seria crueldade castigar uma incredulidade da qual a pessoa não pode escapar. A Bíblia fala dos que “resistiram ao Espírito Santo” (Atos 7:51). Por isso, quando se fala de chamado eficaz e ineficaz, a diferença está no resultado, e não na intenção de Deus: o mesmo chamado suficiente frutifica em uns e fica estéril em outros pela má vontade humana (pergunta 89).

Eleição condicional e perseverança

Deus decidiu escolher para a vida eterna todos os que creem em Cristo, obedecem ao evangelho e perseveram até o fim, e rejeitar os incrédulos e impenitentes (pergunta 39). É a eleição condicional: Deus elege em Cristo os que creem, e a fé que ele considera é a que a própria graça torna possível. Um decreto absoluto, que escolhe alguns e destina a maioria ao inferno sem olhar condição alguma, não está revelado na Palavra de Deus e “anularia o mérito de Cristo” (pergunta 40).

Na perseverança, o catecismo vai além da Remonstrância, que pedira mais exame das Escrituras. Crentes verdadeiros podem, por culpa própria, abandonar a fé e o amor, de modo que “o último estado se torna pior que o primeiro” (pergunta 52, com 2 Pedro 2:20-22), embora a graça possa renovar até esses ao arrependimento (pergunta 53). É a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé.

Igreja, governo e tolerância

O tema que mais ocupou Wtenbogaert foi a relação entre igreja e Estado. O Tractaet van ‘t ampt ende authoriteyt eener hoogher christelicker overheydt in kerckelicke saecken (1610) traz no frontispício Mateus 22:21, “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, e examina três modelos. Rejeita a supremacia papal, em que a igreja manda no poder civil, e a “colateralidade”, em que igreja e governo são dois poderes iguais lado a lado. Defende que o governo soberano tem, no seu país, a autoridade mais alta nas coisas da religião, “bem entendido, abaixo de Deus e segundo a sua santa Palavra”.

Para ele, essa era a garantia da liberdade. Se os sínodos decidissem sozinhos, a maioria rigorosa imporia a confissão a todos e expulsaria quem pensasse diferente; os Estados, acima dos partidos, podiam manter na mesma igreja as duas opiniões sobre a predestinação. As confissões, insistia, são textos humanos e falíveis, que podem ser revistos. A tolerância dele tinha limites: ordem e disciplina foram, a vida toda, a outra metade do seu programa.

A declaração de fé deste site concorda com Wtenbogaert na incapacidade humana, na graça preveniente e resistível, na eleição em Cristo e na perseverança condicional. Difere em dois pontos: afirma que cada igreja local deve governar-se segundo as Escrituras, sem dar ao governo civil a palavra final sobre a religião, e ensina a inteira santificação, que John Wesley formularia um século depois. Veja também Soteriologia Arminiana.

Obras principais

  • Remonstrantie (1610), redação.
  • Tractaet van ‘t ampt ende authoriteyt eener hoogher christelicker overheydt in kerckelicke saecken (Haia, 1610).
  • Naerder bericht (1612).
  • Oprecht ende noodtwendigh bericht (1614).
  • Noodighe antwoordt op der Contra-Remonstranten tegenvertoogh (1617).
  • Schriftelijcke verantwoordinghe (1619), defesa enviada a Maurício.
  • Oorspronck ende voortganck der Nederlantsche kerckelijcke verschillen (1623, anônimo).
  • Oprecht verhael (1628).
  • Ses de laetste predicatiën (1639), sermões.
  • Onderwysinge in de christelicke religie (Roterdã, 1640), o catecismo remonstrante.
  • De kerckelicke historie (1646, póstumo).
  • Leven, kerckelijcke bedieninge ende zedige verantwoordingh (póstumo), autobiografia.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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