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HistóriaTeólogos arminianos17 de 253

Joannes Tideman: o historiador que guardou a memória dos remonstrantes

Diego Gonçalves12 min de leitura2.464 palavras

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Neste texto

Na noite de 1º de junho de 1869, em Roterdã, a Fraternidade Remonstrante comemorava 250 anos com um jantar. À mesa estavam o presidente e o vice-presidente do sínodo da Igreja Reformada holandesa, a mesma igreja que, em 1619, depois do Sínodo de Dort, tinha expulsado os seguidores de Jacó Armínio. O primeiro a erguer o copo foi o professor do seminário remonstrante, Joannes Tideman. Disse que os pais da Fraternidade se viam como os verdadeiros reformados, e por isso lhes pesara tanto serem postos para fora da igreja que amavam; naquela mesa os filhos viam o que os pais desejaram e não chegaram a ver. Tideman passou a vida entre essas duas coisas: a memória da expulsão e a esperança da reconciliação.

Retrato de Joannes Tideman
Joannes Tideman, professor remonstrante em Amsterdã, fotografia em carte-de-visite de autor anônimo, entre 1860 e 1887. Rijksmuseum, domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.

Vida

Estudante em Amsterdã e Leiden

Joannes Tideman nasceu em Amsterdã em 12 de outubro de 1807. Estudou no seminário da Fraternidade Remonstrante, a escola que Simão Episcópio fundara em 1634, e assistia às aulas do Athenaeum Illustre, a escola superior da cidade, onde está registrado como estudante de teologia em 1829. O seminário tinha então um único professor, Abraham des Amorie van der Hoeven, pregador famoso e futuro antecessor de Tideman na cátedra.

Em 18 de janeiro de 1830 recebeu em Leiden o grau de doutor em letras e mestre em filosofia com a Dissertatio literaria de Deo Platonis, um estudo de mais de duzentas páginas sobre o Deus de Platão. Ali sustentava, contra o historiador alemão Tennemann, que o Deus supremo de Platão, pai e artífice de todas as coisas, não se confunde com a alma do mundo. Uma resenha anônima chegou a duvidar de que um estudante tivesse escrito aquilo sozinho, e a Vaderlandsche Letteroefeningen saiu em defesa do jovem doutor.

Pastor em Roterdã (1830-1856)

No mesmo ano passou no exame de proponente, o candidato aprovado para o ministério, e foi chamado pela congregação remonstrante de Roterdã, onde entrou em novembro de 1830. Ali Tideman ficou 25 anos, ao lado de colegas como Simon Bonga e H. N. van Teutem. De outubro de 1832 a abril de 1835 atendeu também a pequena congregação de Delft, que não tinha pastor próprio.

Casou-se com Johanna Petronella van Hall, filha do pastor Maurits van Hall. Em 6 de janeiro de 1837 nasceu em Roterdã o filho Bruno, que seria pastor remonstrante em Amersfoort, Hoorn e Haarlem. Johanna morreu em 1848. Em 1856 Tideman casou-se de novo, com H. C. Loncq.

Os anos de Roterdã foram os do pesquisador. Em 1845, por indicação de Van der Hoeven, a assembleia geral da Fraternidade decidiu publicar a lista dos seus pastores, que até então circulava em cópias manuscritas incompletas, e deu a tarefa a Tideman. Ele foi aos arquivos das congregações e, em 1847, publicou a lista biográfica de todos os professores, pastores e candidatos da Fraternidade desde 1619. O livro lançou a base para a história da igreja, e Tideman continuou a corrigi-lo e a completá-lo até o fim da vida. Num levantamento encomendado pela assembleia, concluiu que os membros se dividiam em terços: abastados, classe média e gente humilde.

Em 1851 saiu De Remonstrantie en het Remonstrantisme, estudo histórico sobre a Remonstrância de 1610 e o movimento que nasceu dela. Em 1852 vieram uma história da catequese remonstrante e um livrinho sobre Friedrichstadt, a cidade do Schleswig, às margens do rio Eider, onde vivia uma congregação remonstrante de origem holandesa. A velha igreja de lá fora destruída num bombardeio em 1850, e a venda do livro devia ajudar na reconstrução. O poeta P. A. de Génestet, pastor em Delft, ajudou a buscar assinantes, mas o dinheiro arrecadado deu só para uma jarra de prata para a Ceia.

Professor do seminário (1856-1872)

Van der Hoeven morreu em julho de 1855, voltando de uma viagem de tratamento. Em novembro, a Fraternidade nomeou Tideman para sucedê-lo. Depois de celebrar em Roterdã os 25 anos de ministério, deu a aula inaugural em 31 de março de 1856. Em 1857 a Universidade de Leiden lhe deu o doutorado honorário em teologia.

Como professor, assumiu também dezesseis pregações por ano na igreja de Amsterdã, compromisso que cumpriu de abril de 1856 a dezembro de 1872, e continuou a pregar três vezes por ano em Roterdã até 1870. Colaborou com a revista Waarheid in liefde, dos teólogos de Groningen, e com a Sociedade Missionária Holandesa. Em 1863 publicou os Theologische studiën: um estudo sobre a organização das disciplinas da teologia, outro sobre o sentido da morte do Senhor nos escritores do Novo Testamento e um terceiro sobre a primeira carta de Clemente de Roma. Um resenhista viu no livro um alívio depois da “unilateralidade dos modernos”.

Os modernos eram a nova escola teológica holandesa, ligada a Leiden, que submetia a Bíblia à crítica histórica e rejeitava o sobrenatural. Em 1859, quando o jovem pastor de Roterdã Cornelis Petrus Tiele publicou um semanário com essas ideias, a comissão da Fraternidade ainda o advertiu. A partir de 1872, porém, os modernos passaram a ser maioria, e Tideman tornou-se a voz de uma minoria.

Em 1868, num parecer pedido pela direção, Tideman enfrentou a pergunta: a Fraternidade ainda tinha razão de existir? Reconheceu que, desde 1848, a liberdade e a tolerância tinham se firmado em boa parte das igrejas reformada e luterana, e com isso caía a razão essencial de um ramo remonstrante separado. Mesmo assim, desaconselhou a dissolução e a união com a ala moderna da Igreja Reformada, que faria da Fraternidade uma associação moderna, e não uma igreja fundada no evangelho segundo as Escrituras. No ano seguinte foi o orador da festa dos 250 anos e, em 1871 e 1872, publicou em dois volumes a sua obra principal, De stichting der Remonstrantsche Broederschap, 1619-1634.

Os alunos eram poucos, e em 1870 o último deles fez o exame final. Uma comissão propôs transferir o seminário para Leiden, junto da faculdade de teologia da universidade. Tideman pediu demissão, alegando problemas de saúde, e respondeu por escrito em maio de 1872: Leiden servia para formar estudiosos, Amsterdã para formar pastores, e ligar o ensino da Fraternidade a uma faculdade dominada por uma só escola seria agir contra o seu princípio de liberdade. A assembleia aprovou a mudança por 37 votos a 18. Tideman pediu que constasse em ata o seu voto contrário. Em 16 de dezembro de 1872 deu a aula de despedida, e o sucessor foi Tiele.

Os últimos anos

Aposentado com título e salário, Tideman viveu em Amsterdã e depois em Hilversum. Continuou a escrever na Vaderlandsche Letteroefeningen sobre a história dos remonstrantes e sobre o ensino superior, defendendo, como num artigo de 1869, que a teologia confessional e a formação de pastores cabem às igrejas, e não ao Estado.

Em 1879 a Fraternidade reescreveu a sua declaração de princípios. Desde 1861 ela dizia ser uma comunidade cristã em que o evangelho de Jesus Cristo “segundo as Escrituras” é confessado e anunciado em liberdade e tolerância, fórmula que saíra de um rascunho do próprio Tideman. A nova proposta falava em promover “a vida religiosa no espírito de Jesus Cristo” e tirava a menção às Escrituras. Tideman mandou uma circular a todos os membros da assembleia e apresentou uma emenda para manter o texto antigo. Ela foi derrotada por 51 votos a 7. Depois disso ele deixou de comparecer às assembleias, sempre por motivo de saúde.

Em 1891 a Fraternidade comprou o manuscrito com as correções que ele fizera na lista de pastores durante quarenta anos, base da segunda edição, de 1905. Joannes Tideman morreu em Hilversum em 9 de outubro de 1891. Os filhos deram à igreja de Roterdã um retrato dele pintado a óleo.

Pensamento

Tideman é um remonstrante: foi pastor por 25 anos e professor por 17 na igreja que os seguidores de Armínio fundaram depois de Dort. Dentro da Fraternidade do século XIX, pertencia à ala que o historiador T. R. Barnard chama de ortodoxia moderada, ou evangélico-ortodoxa, próxima dos teólogos de Groningen, que resistiu à entrada do modernismo.

O que foi o remonstrantismo

No livro de 1851, Tideman lê a Remonstrância como protesto, petição, defesa e confissão ao mesmo tempo: a primeira vez que os que recusavam o determinismo calvinista falaram juntos e em público. Insiste que foi uma voz de dentro da igreja, e não contra ela. Para ele, a disputa sobre a predestinação veio primeiro e gerou a disputa sobre a autoridade das confissões, e não o contrário.

Na conclusão, resume o movimento como defesa da liberdade humana e do lado moral do cristianismo contra o determinismo e contra a imposição das confissões. E reconhece um limite: forçado ao combate, o remonstrantismo ficou mais negativo do que positivo, limitou mais a autoridade dos formulários do que definiu a da Palavra de Deus, e combateu mais a graça absoluta do que desenvolveu a graça condicional. Graça absoluta é a que salva os eleitos de modo irresistível, sem condição; graça condicional é a que se oferece a todos e é recebida pela fé. O que o movimento deixou ao cristianismo, escreve, foi uma forma “ampla, e no entanto não frouxa, não fechada”, com lugar para a graça divina em Cristo, para a liberdade humana e para o amor.

Evangelho, Escritura e liberdade

A fórmula de 1861 resume o que ele pensava de uma igreja: o evangelho de Jesus Cristo, segundo as Escrituras, confessado em liberdade e tolerância. No discurso de 1869, tirou dos fundadores três pontos: cristãos que concordam nas coisas necessárias à salvação são um só; o essencial da fé pode e deve ser achado na Bíblia; e essas coisas necessárias não se opõem à liberdade e à tolerância. Numa nota, lembrou que a Fraternidade sempre combateu a “licença desenfreada”.

Por isso a circular de 1879 é o seu texto mais claro. Contra a nova declaração, argumentou que toda a história remonstrante, da Remonstrância e da Confissão de Episcópio às declarações da época racionalista, põe como primeira marca do remonstrantismo que, “para a fé e a vida cristã”, em lugar dos formulários da igreja, se fique “com o evangelho das Escrituras”. Recusou também que a Fraternidade se definisse por um objetivo que escolhe para si: como parte da igreja cristã, o seu fim já está dado, e o evangelho trata da vida inteira, e não apenas da “vida religiosa”. E pediu que as congregações fossem obrigadas a batizar, porque nenhuma igreja trata o batismo como coisa que se pode abolir.

Num volume de sermões de 1861, Tideman pregou sobre 2 Coríntios 5:18, “tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo” (ARA), como o resumo paulino da essência do cristianismo: a reconciliação com Deus pela fé no Filho de Deus e do homem. A divergência entre cristãos, dizia, nasce da busca livre da verdade.

O historiador

Tideman pensava a teologia remonstrante pela história. No prefácio de De stichting (1871), escreveu que, assim como a vida religiosa é o que há de mais alto na vida da humanidade, o nascimento de uma comunidade religiosa está entre as coisas mais notáveis da história, sobretudo quando nasce de convicções sustentadas com paciência no sofrimento. O livro conta, a partir das atas e cartas dos dirigentes, muitas inéditas, os quinze anos entre a expulsão de 1619 e a abertura do seminário em 1634, período que o historiador Gerard Brandt não chegou a cobrir.

Onde ele fica no arminianismo

Tideman escreveu pouco sobre a doutrina da salvação. O seu tema é a igreja: a liberdade diante das confissões, a tolerância, a Escritura como regra e a esperança de voltar a unir os protestantes holandeses. Nisso continua Episcópio e a linha remonstrante (ver O arminianismo é reformado?). Ao resumir o remonstrantismo como defesa da liberdade humana e do lado moral do cristianismo, porém, ele o descreve com as categorias da sua época. Armínio pôs no centro a graça, que vem antes de qualquer querer humano e liberta a vontade presa pelo pecado (ver A graça preveniente em Armínio), e é essa a ênfase da declaração de fé deste site.

Há outra distância. Barnard observa que, para Tideman e Van Teutem, como para a escola de Groningen, a mensagem da Bíblia era digna de confiança, mas a Escritura não era infalível. A declaração de fé do site afirma que os escritos originais foram preservados de erro. Mesmo assim, Tideman lutou para que a Fraternidade continuasse presa ao evangelho das Escrituras quando a maioria já preferia uma fórmula sem elas. A tradição que ele guardou está resumida em A tradição arminiana: de Armínio a Wesley.

Obras principais

  • Dissertatio literaria de Deo Platonis (1830), tese de doutorado em Leiden.
  • De Remonstrantsche Broederschap: biographische naamlijst van hare professoren, predikanten en proponenten (1847); segunda edição ampliada por H. C. Rogge e B. Tideman (1905).
  • De Remonstrantie en het Remonstrantisme: historisch onderzoek (1851).
  • Historisch overzicht van de catechetische litteratuur der Remonstranten (1852).
  • Frederikstad aan de Eider en hare Hollandsche gemeente (1852).
  • Theologische studiën (1863).
  • Gedenkrede nos 250 anos da Fraternidade Remonstrante (1869).
  • De stichting der Remonstrantsche Broederschap, 1619-1634, 2 volumes (1871-1872).
  • Het seminarium der Remonstranten te Amsterdam (1872), aula de despedida.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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