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HistóriaTeólogos arminianos7 de 253

John Griffith: O pastor batista geral que passou catorze anos preso

Diego Gonçalves12 min de leitura2.462 palavras

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Neste texto

Em 18 de abril de 1683, por volta das quatro da tarde, dois presos de Newgate foram levados ao tribunal da Old Bailey, em Londres, diante do presidente do Supremo Tribunal, Edmund Saunders, de outros três juízes, do prefeito e dos vereadores. O primeiro, Francis Bampfield, recusou o juramento de fidelidade ao rei e foi mandado de volta. O escrivão estendeu então um livro ao segundo e disse: “Tire a luva”. Era para pôr a mão sobre o livro e jurar. O preso pediu licença para falar em sua defesa. Era John Griffith, pastor de uma pequena igreja batista em Bishopsgate, que já conhecia a cadeia de Newgate. Terminou o discurso com uma frase que os historiadores batistas repetiriam por dois séculos: “venha a vida, venha a morte, com a ajuda do Senhor, eu nunca farei o juramento de fidelidade”.

Vida

Origem e primeira igreja

John Griffith nasceu por volta de 1622. Em Londres chamavam-no de “doutor Griffith”, e o título vinha provavelmente da medicina. O historiador W. T. Whitley o chama de “o erudito presbítero batista geral de Dunning’s Alley”.

Os batistas gerais eram os batistas ingleses que criam que Cristo morreu por todos, em oposição aos batistas particulares, que limitavam a redenção aos eleitos. Griffith aderiu às convicções batistas por volta de 1640, foi batizado como crente e começou a reunir uma congregação em Londres, da qual foi ordenado pastor em 1646. Era uma das igrejas batistas gerais da cidade, ao lado das de Thomas Lamb, John Gosnold e Edward Barber. A congregação se fixou em Dunning’s Alley, uma passagem que ligava a rua Bishopsgate, fora dos muros, ao campo de Moorfields. Ele a pastoreou por cerca de 54 anos.

A imposição de mãos e o God’s Oracle

No governo de Oliver Cromwell, os batistas gerais de Londres cresceram, e entre eles se espalhou uma prática que dividiria as igrejas: a imposição de mãos sobre todo crente recém-batizado, com oração, para que recebesse a promessa do Espírito, como fizeram Pedro e João em Samaria (Atos 8:14-17) e Paulo em Éfeso (Atos 19:6). Os que adotavam a prática liam Hebreus 6:1-2 como uma lista de seis fundamentos da doutrina de Cristo: o arrependimento de obras mortas, a fé em Deus, a doutrina dos batismos, a imposição de mãos, a ressurreição dos mortos e o juízo eterno. Em Londres, ela se tornou o principal laço entre as cinco igrejas que a praticavam, e Griffith foi um dos seus defensores mais firmes.

Em 1655, um grupo de quinze batistas, entre eles Henry Danvers, Edmund Chillenden e John Sturgion, fez circular entre as congregações um papel impresso com oito perguntas contra a obrigatoriedade da prática. Griffith respondeu no mesmo ano com o seu livro mais importante, God’s Oracle and Christ’s Doctrine, or the Six Principles of Christian Religion (O oráculo de Deus e a doutrina de Cristo, ou os seis princípios da religião cristã). O livro expõe Hebreus 6:1-2 ponto por ponto e responde às oito perguntas. Um ano antes tinha publicado um ataque aos quacres, A Voice from the Word of the Lord (1654).

O debate de Cranbrook

Numa assembleia geral dos batistas de Kent, em Cranbrook, nos anos de 1650, Griffith foi escolhido com outros para responder a dúvidas de alguns irmãos, e o ponto mais disputado foi a queda da graça. Griffith defendeu a tese de que “os crentes em Cristo podem cair”. O outro lado sustentou que os justificados não podem cair, nem total nem finalmente, da graça da união com o Senhor Jesus, e apresentou treze argumentos. Griffith respondeu a oito; a noite chegou, e ele prometeu responder aos outros por escrito. O resultado foi A Treatise touching Falling from Grace (Tratado sobre a queda da graça), dedicado aos presbíteros e diáconos das igrejas de Kent.

Newgate, 1661

A volta de Carlos II ao trono, em 1660, acabou com a liberdade dos dissidentes. Em 1661, Griffith publicou A Complaint of the Oppressed against the Oppressors (Queixa dos oprimidos contra os opressores). O folheto conta que crentes eram tirados da cama à meia-noite por soldados, sem mandado, e levados a homens “chamados juízes, mas só no nome e no título”, e explica por que os presos não podiam jurar fidelidade ao rei para comprar a liberdade.

Pouco depois, com o boato de um complô, as reuniões dos dissidentes foram dissolvidas em toda a cidade. Griffith ficou dezessete meses em Newgate “por nenhum outro crime senão pregar a uma congregação de protestantes”, nas palavras do historiador Thomas Crosby. Da cadeia saiu um livrinho em versos, Some Prison-Meditations and Experiences (1663), “escrito em Newgate por John Griffith, um prisioneiro de lá”. Num dos poemas ele diz que a prisão não é coisa desagradável “se Cristo estiver lá”.

Amersham e a segunda prisão

Em 1675, cerca de vinte batistas de Amersham, em Buckinghamshire, convenceram-se de que a imposição de mãos era bíblica, deixaram a igreja que a combatia e pediram ajuda a Dunning’s Alley. Em 14 de dezembro de 1675, Griffith impôs as mãos sobre dezoito pessoas, que se constituíram em igreja e, em 12 de março seguinte, celebraram a Ceia pela primeira vez. Em 1681, Griffith publicou The Unlawfulness of Mixt-Marriages (A ilegitimidade dos casamentos mistos), contra um livro que defendia o casamento de crentes com descrentes. Para ele, o crente deve casar-se “somente no Senhor” (1 Coríntios 7:39).

Em 1683, no auge da perseguição dos últimos anos de Carlos II, Griffith foi preso de novo por pregar. Na Old Bailey, citou o artigo 39 da própria Igreja da Inglaterra: quem jura deve jurar “em verdade, em juízo e em justiça”. Aquele juramento o obrigava a obedecer aos herdeiros do rei, que poderiam ser católicos romanos, e a leis que ainda não existiam, além de conformar-se à Igreja oficial. Griffith respondeu com a frase sobre a vida e a morte e voltou para Newgate. Ali escreveu The Case of Mr. John Griffith (1683), que termina assim: “Aqui permaneço prisioneiro do Senhor”.

Na mesma prisão estavam o batista particular Hercules Collins e o batista geral Lawrence Wise. Bampfield morreu em Newgate em 16 de fevereiro de 1684. A igreja de Amersham mandava mensageiros e ofertas a Newgate, e os livros dela mostram Griffith ainda preso em janeiro de 1686. Só em 1687, com a declaração de liberdade de consciência de Jaime II, ele ficou livre da perseguição. Somando as prisões, passou catorze anos encarcerado.

Últimos anos

Em 1698, o capitão Pierce Johns deixou um legado para seis igrejas batistas gerais de Londres, e Dunning’s Alley, a menor, recebeu meia cota.

Griffith morreu em 16 de maio de 1700, depois de uma longa doença. O sermão fúnebre foi pregado em 20 de maio por Richard Allen, sobre Filipenses 1:21: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”. Allen disse que Griffith nunca trouxe desonra à fé e que “até o fim se alegrou na plena certeza da esperança”. Fez uma reserva: achava-o “um tanto estreito” nas condições para a comunhão, por zelo às leis de Cristo. O sucessor, Robert Jemmett, morreu por volta de 1718, e em 1729 a igreja foi declarada extinta.

Pensamento

Onde Griffith fica no arminianismo

Griffith é um batista geral, da corrente que hoje chamamos de batistas arminianos ou do livre-arbítrio, e a classe vem dos livros dele. No God’s Oracle ele ensina que Cristo “provou a morte por todo homem” (Hebreus 2:9), que se deu “em resgate por todos” (1 Timóteo 2:6) e que Deus quer que todos sejam salvos pela fé. No Tratado sobre a queda da graça, afirma a eleição condicional e a possibilidade da apostasia. Chegou a essas conclusões dentro da tradição batista inglesa, meio século depois de Jacó Armínio, na mesma Londres em que John Goodwin defendia a redenção universal.

Cristo morreu por todos

Para Griffith, Cristo é aquele por meio de quem Deus se reconcilia com “o mundo inteiro” (1 João 2:2). Por isso a incredulidade é “o pecado que condena”: chama Deus de mentiroso ao recusar o testemunho que ele deu do Filho. Quem não crê que Cristo morreu por ele “nega o Senhor que o resgatou” (2 Pedro 2:1). Griffith se queixa dos que, diante dos textos que dizem que Cristo “morreu por todos”, respondem que “todos” quer dizer só alguns, os eleitos (leia mais sobre a expiação para todos).

A justificação, para ele, é inteiramente pela graça. O pecador “lança fora toda justificação pela lei” e é justificado “gratuitamente” pela redenção que há em Cristo Jesus (Romanos 3:24), que Deus fez a sua justiça (1 Coríntios 1:30). A fé é “para com Deus” porque se dirige a Jesus, que o evangelho declara ser “da mesma essência que o Pai”.

Como a fé nasce

O ponto mais característico do God’s Oracle é a explicação de como alguém chega a crer. A fé vem pela pregação ouvida (Romanos 10:14-17): Deus apresenta Cristo e persuade o pecador com “cordas de amor” (Oseias 11:4). O pecador pode crer porque Deus pôs no coração humano uma “faculdade de crédito”, voluntária, que não força ninguém a crer nem a recusar. Jesus disse “não quereis vir a mim” (João 5:40), e não “não podeis”. Se Deus exigisse a fé de quem não tem como crer, agiria como o faraó, que exigia os tijolos e negava a palha. A conclusão dele: “Ele primeiro dá, antes de exigir qualquer fruto de alguém” (God’s Oracle, 1655).

Aqui há uma diferença em relação ao arminianismo clássico. Armínio ensina que a vontade caída está morta para o bem e só fica livre para crer pela graça preveniente, obra sobrenatural do Espírito Santo que vem antes de qualquer resposta humana e alcança também quem nunca ouviu a pregação. A declaração de fé do Diego segue Armínio e Wesley nesse ponto (leia sobre a graça preveniente em Armínio). Griffith atribui a Deus o dom da capacidade de crer e a iniciativa de chamar, e ensina que o coração é iluminado pela pregação. Mas descreve essa capacidade como algo posto por Deus na natureza humana e liga a iluminação à Palavra pregada, com uma linguagem menos precisa que a de Armínio sobre a incapacidade humana. Outros batistas gerais da época, como Henry Denne e William Jeffery, falavam do mesmo modo.

A queda da graça

O Tratado sobre a queda da graça responde aos treze argumentos de Cranbrook um por um. A tese central está numa frase curta: “a união e a salvação são condicionais”. A entrada é condicional, porque “quem crer e for batizado será salvo” (Marcos 16:16), e a permanência também: quem não permanece na videira é cortado (João 15:2-6). Deus não muda quando dá a vida a quem persevera e não tem prazer em quem volta atrás (Hebreus 10:38).

Ao comentar 1 Pedro 1:5 (“guardados pelo poder de Deus, mediante a fé”), Griffith diz que esse poder não é força que obriga, mas o meio poderoso que Deus usa, o evangelho, que é “o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). Quem abandona a fé deixa de ser guardado, e a culpa nunca está em Deus, que não falta com os meios a ninguém. Sobre Romanos 8:29-30, sustenta que Deus conheceu de antemão “alguns homens em Cristo, pela fé e pela obediência” e os predestinou: é a eleição condicional. Se o crente não pudesse cair, seriam inúteis os pastores e as exortações a vigiar (1 Timóteo 4:1). A doutrina contrária, diz ele, leva a “tirar o próprio poder da religião e da piedade”. É a mesma posição da declaração de fé do Diego sobre a perseverança (veja o capítulo sobre a perseverança dos santos).

Igreja, comunhão e últimas coisas

Para Griffith, quem, mesmo batizado, recusa a imposição de mãos não deve ser admitido à comunhão. A declaração de fé do Diego reconhece a igreja visível onde a Palavra é pregada com pureza e os sacramentos são administrados, sem essa condição.

Griffith também esperava o reino de mil anos: deseja aos irmãos parte “na primeira ressurreição” (Apocalipse 20:6), e os versos de Newgate falam da queda da “mãe das prostitutas” de Apocalipse 17. No relato de 1683, declarou-se pronto a dar testemunho “contra o anticristo, o papa e a Sé de Roma”.

Legado

O God’s Oracle e o Tratado sobre a queda da graça foram republicados juntos em 1707 como Two Discourses, “cuidadosamente revistos, melhorados e ampliados” por Joseph Jenkins. Os batistas do livre-arbítrio, herdeiros dessa tradição, voltam hoje a essas raízes inglesas, como faz J. Matthew Pinson, e a teologia deles ganhou forma sistemática com F. Leroy Forlines.

Obras principais

  • A Voice from the Word of the Lord, to those Grand Impostors called Quakers (1654)
  • God’s Oracle and Christ’s Doctrine, or the Six Principles of Christian Religion (1655)
  • A Treatise touching Falling from Grace (anos de 1650; reeditado em 1707)
  • A Complaint of the Oppressed against the Oppressors (1661)
  • Some Prison-Meditations and Experiences (1663)
  • The Unlawfulness of Mixt-Marriages (1681)
  • The Case of Mr. John Griffith, Minister of the Gospel, and now Prisoner in Newgate (1683)
  • Two Discourses (1707, póstumo, edição de Joseph Jenkins)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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