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John McClintock: O professor metodista que foi a julgamento por defender escravos fugidos
Na tarde de 2 de junho de 1847, um professor de grego e latim do Dickinson College foi em casa buscar um livro de leis e voltou com ele ao tribunal de Carlisle, na Pensilvânia. Dois senhores de escravos de Maryland tinham capturado na cidade três fugitivos, um homem, uma mulher chamada Hester e uma menina de dez anos, e o juiz acabara de entregá-los aos donos sem que se provasse que a mulher e a criança eram escravas. O professor sabia que uma lei estadual daquele ano proibia aquilo, e o texto era para o advogado que tentava um novo habeas corpus. Quando os negros livres da cidade arrancaram a mulher e a menina das mãos dos captores, e um dos senhores caiu ferido, a culpa recaiu sobre ele. John McClintock foi preso, acusado de incitar o motim, e julgado ao lado de 28 negros de Carlisle. Anos depois seria o primeiro presidente do Seminário Teológico Drew e o editor da maior enciclopédia teológica do metodismo americano.
Vida
Filadélfia e Nova York
John McClintock nasceu em Filadélfia em 27 de outubro de 1814, filho de John McClintock e Martha McMackin, irlandeses do condado de Tyrone. O pai tinha uma loja de tecidos e era líder de classe na igreja de St. George, a congregação metodista mais antiga da cidade. Aos oito anos o menino entrou na escola preparatória da Universidade da Pensilvânia, onde aprendeu grego e latim com rigor. Um filho do diretor contou depois que ele discutia em plena aula “presciência, vontade e destino” com um colega calvinista, e que os dois levavam castigo do professor, que achava que falavam de piões e bolinhas de gude.
Aos catorze anos o pai o pôs no balcão da loja. Em 1830, aos dezesseis, ele foi para Nova York como guarda-livros da Methodist Book Concern, a editora da igreja. Num avivamento na igreja da rua Allen, decidiu em 3 de fevereiro de 1831 buscar a Deus. Na noite de 10 de fevereiro, ajoelhado no altar, com o pastor Samuel Merwin orando ao lado e lembrando os pais que tanto tinham orado por ele, creu que Deus lhe perdoara os pecados. No dia seguinte escreveu aos pais que o Senhor o tirara “das trevas para a luz”.
Formação e primeiro pastorado
A conversão reacendeu a vontade de estudar. Entrou em 1832 na Wesleyan University, em Middletown, mas adoeceu na primeira semana. Em outubro estava no primeiro ano da Universidade da Pensilvânia, onde fez em três anos o curso de quatro, pregando ao mesmo tempo em Nova Jersey. Em abril de 1835 a Conferência de Filadélfia o recebeu como pregador itinerante e o mandou para Jersey City; em julho ele se formou com distinção.
O esforço lhe custou a voz. Em 1836 começou a cuspir sangue, os médicos lhe disseram que deixasse o púlpito ou morreria, e em setembro ele se despediu da igreja. O Dickinson College, em Carlisle, o contratou como professor assistente de matemática, e em julho de 1837 ele passou a catedrático. Pouco depois casou-se com Caroline Augusta Wakeman, nascida, como anotou no diário, no mesmo dia e no mesmo ano que ele.
Carlisle
Em 1840 McClintock trocou a matemática pelo grego e pelo latim. A garganta melhorou, ele foi ordenado presbítero pelo bispo Elijah Hedding e voltou a pregar. Com o colega George R. Crooks escreveu livros escolares de latim e de grego, e em 1847 publicou, com Charles Blumenthal, a tradução da Vida de Cristo do historiador alemão August Neander.
Em Carlisle também tomou partido contra a escravidão. Em 1844 prometeu combater “com pena e língua” a anexação do Texas como estado escravista, e no começo de 1847 publicou no Christian Advocate artigos que cobravam da igreja uma ação firme pela extinção da escravidão. Elogiava a coragem dos abolicionistas, mas não se contava entre eles, porque não achava que todo dono de escravos devesse ser excluído da comunhão cristã.
Veio então o caso de junho. No julgamento, em agosto de 1847, testemunhas juraram que ele gritara aos negros “vão em frente, eu respondo por vocês”. O advogado Adair mostrou que ele passara quase toda aquela tarde a seu lado, cuidando do habeas corpus, e outra testemunha o ouvira pedir a um homem exaltado que não batesse em ninguém. O júri o absolveu. Dez dos réus negros foram condenados a três anos de penitenciária; McClintock levou o caso à Suprema Corte da Pensilvânia, que em maio de 1848 anulou as sentenças e mandou soltá-los. No diário ele resumiu o caso: as suas simpatias “humanas e cristãs” tinham ficado abertamente ao lado dos negros pobres.
O editor
De 1848 a 1856 McClintock editou a Methodist Quarterly Review. Fez dela uma revista erudita, abriu-a a autores de fora do metodismo e publicou uma longa análise do positivismo de Auguste Comte, que considerava a expressão mais forte do ateísmo do seu tempo. No começo de 1850 a esposa morreu. Em 1851 ele se casou com Catharine Emory, viúva do amigo Robert Emory, presidente de Dickinson, e recusou a presidência da Wesleyan University, como recusaria em 1855 a da Troy University. Em 1853 começou, com o leigo James Strong, a Cyclopaedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature.
Na Conferência Geral de 1856, quis propor um capítulo novo na disciplina da igreja declarando que a regra geral proibia comprar e vender escravos e era contrária, em espírito, a mantê-los, mas o debate foi encerrado antes que ele falasse. Na mesma conferência deixou a revista, e o sucessor foi Daniel Whedon.
Nova York e Paris
Em 1857 foi com o bispo Matthew Simpson como delegado à Conferência Metodista Wesleyana da Grã-Bretanha e à Aliança Evangélica em Berlim. Na volta assumiu a igreja de St. Paul, em Nova York, onde um dos membros era o especulador Daniel Drew. Em 1860 passou a pastorear a Capela Americana de Paris, congregação protestante interdenominacional.
Em abril de 1861, com a Guerra Civil recém-começada, falou num culto missionário wesleyano no Exeter Hall de Londres, diante de cerca de quatro mil pessoas, e respondeu ao Times, que dissera que “a grande República não existe mais”. Lembrou que, poucos anos antes, jornais de Londres o tinham atacado por não ser abolicionista o bastante, e que agora a imprensa da mesma cidade tratava como fanatismo a luta contra a escravidão. Até 1864 escreveu e discursou a favor da União e presidiu o ramo europeu da Comissão Sanitária, que socorria soldados feridos e doentes.
Drew e os últimos anos
De volta a St. Paul’s, pregou em 19 de abril de 1865, dia do funeral de Abraham Lincoln, que a escravidão fora “a mãe da traição”, e pediu que nenhuma paz fosse aceita até que ela estivesse “inteiramente extirpada”.
Em 1866 presidiu a comissão central do centenário do metodismo americano. Daniel Drew ofereceu 250 mil dólares para uma escola de teologia e quis que o seu antigo pastor fosse o primeiro presidente. O Seminário Teológico Drew abriu em Madison, Nova Jersey, em 6 de novembro de 1867, para ensinar teologia “no sentido mais amplo da palavra” e formar pregadores e pastores; a constituição obrigava os professores a treinar os alunos a pregar sem ler sermões escritos. McClintock dava os cursos de teologia prática, montou a biblioteca e escolheu os colegas.
No começo de 1870 uma inflamação da traqueia o prendeu em casa, e em 3 de março veio a febre. Pouco depois da meia-noite ele acordou e perguntou ao colega Randolph Foster se estava muito doente. Foster disse que sim, mas que havia esperança. “Não, não”, respondeu McClintock, “mas, seja qual for o desfecho, está tudo bem.” Foram as últimas palavras. Morreu na madrugada de 4 de março de 1870, em Madison, aos 55 anos.
Pensamento
McClintock foi wesleyano, pastor e teólogo da Igreja Metodista Episcopal, e arminiano declarado. O verbete “Arminianism” da Cyclopaedia, que ele terminou em janeiro de 1866, diz que a doutrina pura de Armínio ressurgiu com John Wesley, John Fletcher e Richard Watson, e chama os Theological Institutes de Watson de o corpo de doutrina mais completo da língua inglesa. Em 1842 ele já publicara uma Analysis dessa obra para os estudantes e as comissões que examinavam os candidatos ao ministério.
O meio-termo entre Calvino e Pelágio
O verbete define o arminianismo como o “meio-termo de ouro” entre o calvinismo e o pelagianismo, lugar que é também o de Wesley entre agostinianos e pelagianos. Para responder à acusação de pelagianismo, McClintock reproduz ali um texto da Edinburgh Encyclopedia: quem torna as boas obras necessárias à justificação, nega o pecado original ou trata a virtude humana como mérito diante de Deus é discípulo de Pelágio, e não de Armínio. Os arminianos verdadeiros “afirmam a corrupção da natureza humana em toda a sua extensão”, ensinam que somos justificados só pela fé, que a justificação nasce só da graça e tem como causa a justiça de Cristo, e que toda a santificação é obra do Espírito Santo. É a depravação total do arminianismo clássico: depois da queda, ninguém pode, por si mesmo, querer nem fazer o bem que agrada a Deus.
O mesmo verbete lamenta que, nas mãos de alguns herdeiros de Simão Episcópio, o arminianismo tenha sido “corrompido por um semirracionalismo”, e que na Inglaterra o nome tenha coberto muita coisa que era pelagianismo.
A graça que pode ser recusada
Numa carta de 1852 a um amigo mais jovem que estudava a controvérsia sobre a vontade, McClintock resumiu: “a doutrina de Paulo sobre a graça e a eleição estende o alcance do amor de Cristo o máximo possível; Calvino o limita o máximo possível”. E aconselhou: estude quanto quiser, mas “nunca se torne um necessitarista”, isto é, alguém que pensa que a vontade é determinada por causas que não deixam escolha.
O argumento aparece num sermão sobre Lucas 16:31, “The Gospel Enough”, publicado em Living Words (1871). Deus converte o mundo pela Palavra, explicada pelos ministros e “levada aos nossos corações pela força do seu Espírito Santo”. Se usasse uma força irresistível, a mudança seria “mecânica, e não moral”, e obedeceríamos “como as estrelas obedecem”, feito máquinas, sem a obediência amorosa dos filhos. A Palavra nos mostra “a nossa incapacidade de fazer o bem” e aponta para o Cordeiro de Deus. Quem continua resistindo resiste “porque a vontade está corrompida”, e não por falta de meios. É a graça resistível do arminianismo: Deus age antes, pela Palavra e pelo Espírito, e só por essa ação a pessoa pode crer; quem se perde, se perde por recusar a graça oferecida.
A santificação
Em outubro de 1839, ano do centenário do metodismo, o diário mostra McClintock lendo o livro de Asa Mahan sobre a perfeição cristã, que o tocou mais do que qualquer outro tratado prático, e o último dos Checks de Fletcher; achou “estranhamente magro” o que Watson escrevera sobre o tema. No sermão “The Way to Forgiveness”, sobre 1 João 1:9, ele explica que o pecado existe em nós como culpa a perdoar e como impureza a remover, e que o texto promete as duas coisas: “a santificação nos é prometida tanto quanto a justificação”, e a purificação é “de toda injustiça”. Rejeita a ideia de uma natureza humana perfeita: a perfeição cristã afirma apenas que a obra de salvação de Cristo pode ser completa no crente. É a inteira santificação wesleyana, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor, que a nossa declaração de fé também afirma.
Em A Defense of Christian Perfection (1896), Daniel Steele citou como de McClintock, num sermão do centenário de 1866, a afirmação de que os metodistas eram a única igreja que pusera como ideia fundamental “a santidade da alma, do coração, da mente e da vontade”, e de que essa era a sua missão.
Um metodismo erudito
McClintock não via conflito entre erudição e piedade. Trouxe ao metodismo americano a teologia alemã de Neander, enfrentou o positivismo, respondeu na Cyclopaedia por todos os verbetes de teologia sistemática, histórica e prática e deu em Drew um curso de enciclopédia teológica, publicado em 1873 a partir das notas dos alunos. O amigo e biógrafo George Crooks escreveu que ele nunca deixou o credo que herdara dos pais e que a sua maior aspiração era ser “um cristão bíblico”.
Obras principais
- Analysis of Watson’s Theological Institutes (1842).
- A First Book in Latin (1846) e A First Book in Greek (1848), com George R. Crooks, e os volumes seguintes da série.
- Tradução da Vida de Cristo de August Neander, com Charles E. Blumenthal (1847).
- Sketches of Eminent Methodist Ministers (1854).
- Tradução da History of the Council of Trent de Félix Bungener (1855).
- Discourse Delivered on the Day of the Funeral of President Lincoln (1865).
- Cyclopaedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature, com James Strong (10 vols., 1867-1881; 2 vols. de suplemento, 1885-1887).
- Living Words; or, Unwritten Sermons (póstumo, 1871).
- Lectures on Theological Encyclopaedia and Methodology (póstumo, 1873).
Para aprofundar
- George R. Crooks, Life and Letters of the Rev. John M’Clintock (Nova York, 1876), Internet Archive.
- Dickinson College Archives, “John McClintock (1814-1870)”, Dickinson Chronicles.
- House Divided Project, Dickinson College, “McClintock, John” e o verbete da Appletons’ Cyclopaedia of American Biography.
- Drew University, “John McClintock”, a partir de The Teachers of Drew, 1867-1942 (1942).
- “McClintock, John”, em The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 7, CCEL.
- “John McClintock (theologian)”, Wikipédia em inglês.
- John McClintock e James Strong, “Arminianism”, Cyclopaedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature, vol. 1 (Nova York, 1867), Internet Archive.
- John McClintock, Living Words; or, Unwritten Sermons (Nova York, 1871), Internet Archive.
- John McClintock, Lectures on Theological Encyclopaedia and Methodology (Cincinnati, 1873), Internet Archive.
- John McClintock, Discourse Delivered on the Day of the Funeral of President Lincoln (Nova York, 1865), Internet Archive.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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