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HistóriaTeólogos arminianos15 de 253

Johan van Oldenbarnevelt: O estadista que protegeu os remonstrantes e morreu no cadafalso

Diego Gonçalves12 min de leitura2.471 palavras

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Neste texto

Na noite de 12 de maio de 1619, numa sala do Binnenhof, em Haia, um homem de 71 anos escreveu à mulher, aos filhos e aos netos que devia se preparar para morrer no dia seguinte. “Consolo-me em Deus, o Senhor, que conhece todos os corações e julgará todos os homens”, dizia a carta. Horas depois, diante dos pregadores que vieram consolá-lo, ele fez uma confissão de fé que os surpreendeu: “Nunca pude crer na alta predestinação.” O homem era Johan van Oldenbarnevelt, por 33 anos o advogado da Holanda, o político mais poderoso da República das Províncias Unidas e o principal protetor dos remonstrantes, os discípulos de Jacó Armínio.

Retrato de Johan van Oldenbarnevelt
Retrato de Johan van Oldenbarnevelt por Michiel Jansz. van Mierevelt, 1617, Museum Flehite, Amersfoort. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Amersfoort, Leuven e Heidelberg

Johan van Oldenbarnevelt nasceu em Amersfoort, no bispado de Utrecht, em setembro de 1547, numa família da pequena nobreza que não era rica. Entre 1566 e 1570 estudou artes e direito em Leuven, Bourges, Colônia e Heidelberg, e viajou pela Itália.

Em Heidelberg, capital do calvinismo alemão, tornou-se protestante. A cidade discutia a predestinação, e ali ele formou a convicção que manteria até o fim. Levou-a aos professores Pierre Boquin e Jerônimo Zanchi e ao pregador Gaspar Oleviano, que lhe disseram que podia descansar nela.

O advogado da revolta

Em 1570 começou a advogar no Tribunal da Holanda, em Haia. Em 1572, quando a Holanda se levantou contra Filipe II, foi um dos três advogados que primeiro reconheceram Guilherme de Orange como governador legítimo da província. Lutou como voluntário, à própria custa: quase morreu na tentativa de socorrer Haarlem, em 1573, e no cerco de Leiden, em 1574, supervisionou a abertura dos diques que afastou os espanhóis.

Em 1575 casou-se com Maria van Utrecht, herdeira de uma família patrícia, cujo dote foi a base da sua fortuna. O casal teve dois filhos, Reinier e Willem, e duas filhas. No começo de 1577 tornou-se pensionário de Rotterdam, o jurista que representava a cidade, e com isso ganhou assento nos Estados da Holanda. Defendeu a União de Utrecht (1579) e o Ato de Abjuração (1581).

Advogado da Holanda

Depois do assassinato de Guilherme de Orange, em 1584, Oldenbarnevelt chefiou as embaixadas que ofereceram a soberania das províncias à França e à Inglaterra. Para conter o conde de Leicester, enviado por Isabel I como governador-geral, fez nomear estatuder, isto é, governador e chefe militar da Holanda, o jovem Maurício de Nassau, filho de Guilherme. Em março de 1586 aceitou, depois de recusar várias vezes, o cargo de advogado da Holanda (landsadvocaat).

O cargo fazia dele primeiro-ministro, ministro das finanças e ministro do exterior ao mesmo tempo. Ele deu forma à República das Sete Províncias Unidas, que a partir de 1588 se governou sem príncipe: Maurício vencia batalhas, e Oldenbarnevelt cuidava dos impostos e da diplomacia. Em 1598 levou o jovem Hugo Grócio numa embaixada a Henrique IV, e em 1602 promoveu a fundação da Companhia Holandesa das Índias Orientais. A sua obra maior foi a Trégua dos Doze Anos com a Espanha, assinada em 9 de abril de 1609 contra a vontade de Maurício, que queria continuar a guerra.

A controvérsia arminiana

Em 1603 Armínio foi nomeado professor de teologia em Leiden, e o colega Franciscus Gomarus logo o acusou de heresia na doutrina da predestinação. Em 30 de outubro de 1608 Armínio apresentou aos Estados da Holanda a sua Declaração de Sentimentos. Morreu no ano seguinte, e em janeiro de 1610 os seus discípulos redigiram a Remonstrância, escrita sobretudo por Johannes Wtenbogaert, pregador da corte e amigo do advogado, que a levou aos Estados.

A política de Oldenbarnevelt teve três linhas. A primeira era a tolerância: as duas opiniões sobre a predestinação podiam conviver na mesma igreja reformada. A segunda era a autoridade dos Estados de cada província sobre a igreja, inclusive para nomear professores. Por isso ele apoiou a nomeação de Conrado Vorstius para a cadeira de Armínio e se opôs a um sínodo nacional, que decidiria por maioria uma questão que, a seu ver, pertencia a cada província. A terceira era a paz pública: redigiu a carta em que Jaime I, rei da Inglaterra, recomendou aos Estados a tolerância mútua nos cinco pontos disputados, e em 1614 os Estados da Holanda aprovaram, com o apoio dele e a pena de Grócio, uma resolução que mandava os pregadores guardarem moderação.

Os contra-remonstrantes, como se chamaram os calvinistas estritos, viram nisso a proteção do Estado a hereges. Atribui-se a Maurício a frase de que não sabia se a predestinação era verde ou azul, mas sabia que a flauta dele e a do advogado não tocariam a mesma música. Em 1617 o estatuder passou a frequentar publicamente o culto dos contra-remonstrantes em Haia.

A Resolução Afiada e a queda

Em 4 de agosto de 1617, por proposta de Oldenbarnevelt, a maioria dos Estados da Holanda aprovou a Resolução Afiada (Scherpe Resolutie). Ela recusava o sínodo nacional e autorizava as cidades a recrutar tropas próprias, que deviam obediência aos magistrados que as pagavam. Maurício viu nisso um ataque ao seu comando do exército.

Em 24 de abril de 1618 Oldenbarnevelt escreveu a Maurício lembrando os seus serviços e oferecendo, mais uma vez, deixar os cargos e o país, e juntou à carta a Remonstrantie que apresentaria aos Estados da Holanda, uma defesa da sua vida pública e das suas finanças. Em 29 de agosto de 1618, a caminho da sessão dos Estados, o advogado foi chamado à presença do príncipe e preso na antessala. Grócio e Rombout Hogerbeets foram presos no mesmo dia. Em novembro o Sínodo de Dort se reuniu, e os remonstrantes compareceram como réus.

Processo e morte

Um tribunal especial de 24 juízes, quase todos seus adversários, julgou o advogado. Ele não teve defensor, livros nem acesso aos seus papéis, e reconstruiu de memória quarenta anos de política para responder aos interrogatórios. Entre as acusações estavam ter deixado Armínio introduzir opiniões novas em Leiden e ter defendido Vorstius.

Em 12 de maio de 1619 os promotores vieram avisá-lo de que ouviria a sentença de morte na manhã seguinte. Naquela noite Antonius Walaeus, professor de Middelburg e delegado em Dort, chegou para consolá-lo. Oldenbarnevelt pediu-lhe que levasse a Maurício um recado: sempre o servira com afeto e esperava que o príncipe o perdoasse e protegesse os seus filhos. Depois, com Walaeus e Jean de la Motte, pregador francês de Haia, conversou sobre a predestinação.

Na manhã de 13 de maio ouviu a sentença no grande salão do antigo palácio dos condes da Holanda: morte pela espada e confisco dos bens. Às nove e meia subiu ao cadafalso, apoiado num bastão, diante de mais de três mil pessoas, e ajoelhou-se nas tábuas nuas enquanto La Motte orava. Disse então à multidão: “Homens, não acrediteis que eu seja um traidor da pátria. Sempre agi com retidão e lealdade, como bom patriota, e como tal morrerei.” Cobriu os olhos com o barrete e disse: “Cristo será o meu guia. Senhor, meu Pai celestial, recebe o meu espírito.” O registro dos Estados da Holanda descreveu-o como um homem “extraordinário em todos os sentidos” e acrescentou a advertência de 1 Coríntios 10:12: quem está de pé, veja que não caia.

Depois do cadafalso

Em 1623 os dois filhos tramaram o assassinato de Maurício. Willem fugiu e passou ao serviço da Espanha, e Reinier foi decapitado em Haia. Quando a viúva foi pedir clemência pelo filho, Maurício lhe perguntou por que não a pedira pelo marido. Ela respondeu: “O meu marido era inocente; o meu filho é culpado.” A conspiração serviu de pretexto para nova perseguição aos remonstrantes.

Em 1625 o poeta Joost van den Vondel publicou Palamedes, em que o herói grego condenado por uma acusação falsa representa o advogado, e foi processado por isso. Para os historiadores holandeses, Oldenbarnevelt é o fundador da República; para os remonstrantes, o mártir da tolerância.

Pensamento

Oldenbarnevelt não foi teólogo. Não escreveu tratados nem sermões, e as suas convicções religiosas estão na Remonstrantie de 1618 e na conversa com os pregadores na véspera da morte. Por isso o classificamos como simpatizante dos remonstrantes, e não como teólogo arminiano: rejeitava a reprovação decretada antes de qualquer pecado, protegeu Armínio e os seus discípulos, mas declarou que não aceitou nem rejeitou simplesmente a opinião de nenhum dos partidos.

A fé de um leigo

Na Remonstrantie ele conta que, desde Heidelberg, abraçou como sã e cristã esta doutrina: o bom cristão deve crer que está predestinado para a salvação “pela graça de Deus” e pela satisfação que o seu Redentor fez pelos seus pecados, e que pela mesma graça recebeu a fé. A salvação está fundada só na graça de Deus e nos méritos de Cristo. Se o crente cai em pecados graves, deve esperar com firmeza que Deus não o deixará neles e que, pedindo misericórdia, será levado ao arrependimento e perseverará na fé até o fim.

Na véspera da morte repetiu a confissão quase com as mesmas palavras, precedida da frase que abre este texto: “Nunca pude crer na alta predestinação. Deixei-a nas mãos de Deus, o Senhor.” Os pregadores responderam que a fé é dom de Deus e não é dada a todos, e a conversa virou disputa. Os dois lados concordavam que a salvação vem só da graça, que a fé é dom e que Cristo satisfez pelo pecado. Discordavam sobre a outra metade do decreto: se Deus, desde a eternidade, nega a fé a uma parte da humanidade e a destina à condenação. De manhã, Walaeus e La Motte disseram que se alegravam com a “bela confissão” e que nunca a tinham esperado dele.

A recusa era antiga. Por volta de 1592, quando se examinava em Haia o caso de Herman Herbertsz, pastor de Gouda que se recusava a dizer que Deus é o autor do pecado, ele advertiu Wtenbogaert de que a discussão sobre a reprovação traria grandes problemas, por ser assunto “que não convinha a cristãos”. Dizia pensar assim desde 1568 e nada ter aprendido de Armínio nesse ponto.

Graça, eleição e o arminianismo clássico

A confissão de Oldenbarnevelt coincide com o arminianismo clássico no que este tem de reformado. Armínio também afirmava que o ser humano caído não pode, por si, querer nem fazer o bem verdadeiro, e que a graça é o começo, a continuação e o fim de todo bem. A diferença de Armínio estava no modo como a graça opera: ela é dada a todos como graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta e liberta a vontade para crer, e pode ser resistida, de modo que a eleição é dos que creem em Cristo, conforme a presciência de Deus. Oldenbarnevelt nunca desenvolveu essa doutrina. Recusava a reprovação incondicional, que lhe parecia fazer de Deus o autor do pecado, e deixou a sorte dos demais “nas mãos de Deus”.

Tolerância e governo da igreja

O que Oldenbarnevelt pensou com mais clareza foi a relação entre a fé e a ordem pública. Para ele, os pontos altos da predestinação eram mistérios sobre os quais os doutores reformados divergiam desde antes da guerra contra a Espanha, e tratá-los como divisão de fé arruinaria a união das igrejas e do país diante do inimigo. Na véspera da morte disse aos pregadores que, se tivessem sido mais gentis uns com os outros, as coisas não teriam chegado àquele ponto. Junto com a tolerância vinha a convicção de que o magistrado cristão tem autoridade sobre a igreja visível: nomeia professores, regula sínodos e impõe silêncio para preservar a paz. Para ele, isso impedia que uma maioria de pregadores expulsasse da igreja parte dos seus pastores e fiéis.

Diferenças com a nossa declaração de fé

A declaração de fé deste site concorda com Oldenbarnevelt na salvação somente pela graça, na satisfação de Cristo pelos pecados e na rejeição da reprovação incondicional. Diferimos em três pontos. Primeiro, afirmamos com Armínio que Cristo morreu por todos e que a graça preveniente alcança todas as pessoas, ponto que a confissão dele deixa em silêncio. Segundo, a declaração ensina a perseverança condicional, com a possibilidade real de abandonar a fé, enquanto ele falava da esperança firme de que Deus fará o crente perseverar até o fim, mais perto da doutrina reformada. Terceiro, afirmamos que cada igreja local se governa pelas Escrituras, e não pela autoridade do governo civil. Na tolerância estamos mais perto dele do que de Dort: com John Wesley, entendemos que convicção firme e amor aos que pensam diferente andam juntos. Veja também Sínodo de Dort: concílio ou purga?, A tradição arminiana de Armínio a Wesley, O Arminianismo é Reformado? e a biografia de Simão Episcópio.

Obras principais

  • Carta ao príncipe Maurício (24 de abril de 1618), impressa em 1628.
  • Remonstrantie aos Estados da Holanda e da Frísia Ocidental (1618); tradução inglesa: Barnevels Apology (Londres, 1618).
  • Carta de despedida à família (12 de maio de 1619), impressa na Warachtige historie (1620).
  • Verhooren van Johan van Oldenbarnevelt, os interrogatórios do processo (Utrecht, 1850).
  • Gedenkstukken van Johan van Oldenbarnevelt en zijn tijd, cartas e documentos (a partir de 1860).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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