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HistóriaTeólogos arminianos13 de 253

Johann Jakob Wettstein: O crítico do texto do Novo Testamento que os remonstrantes acolheram

Diego Gonçalves12 min de leitura2.363 palavras

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Neste texto

Em 13 de maio de 1730, o Pequeno Conselho de Basileia votou o caso do diácono da igreja de São Leonardo e, por 22 votos contra 18, o tirou do cargo. No mesmo dia o pai dele, velho pastor da mesma igreja, tinha pedido clemência, e 42 chefes de família da paróquia haviam assinado uma petição a favor do seu ministro. A acusação era de que o diácono preparava um Novo Testamento grego “que cheirava a socinianismo”. Johann Jakob Wettstein, ou Wetstein, como ele preferia assinar, tinha 37 anos. Ainda em 1730 estava em Amsterdã, onde os remonstrantes, herdeiros de Jacó Armínio, lhe dariam uma cátedra. O Novo Testamento que provocou o processo saiu 21 anos depois e mudou a maneira de editar a Bíblia grega.

Vida

Basileia

Wettstein nasceu em Basileia em 5 de março de 1693, segundo dos treze filhos de Johann Rudolf Wettstein, pastor de São Leonardo, e de Sara Sarasin, e bisneto do célebre burgomestre de mesmo nome. Entrou na universidade aos 13 anos e em 1709 fez-se mestre em filosofia. Estudou teologia com o tio Johann Rudolf Wettstein, com Samuel Werenfels, precursor da exegese crítica, com Jakob Christoph Iselin e com Johann Ludwig Frey, que mais o animou a estudar as variantes do texto bíblico, e hebraico, aramaico e siríaco com Johann Buxtorf. Ainda estudante, colacionou os manuscritos gregos da biblioteca da universidade.

Em março de 1713 foi admitido ao ministério com a dissertação De variis Novi Testamenti lectionibus (“Sobre as diversas leituras do Novo Testamento”), em que sustentava que as variantes entre os manuscritos não diminuem a autoridade da Bíblia. Esse foi o assunto da sua vida.

Atrás dos manuscritos

Em 1714 partiu numa viagem de estudos. Em Paris conviveu com os beneditinos de Saint-Germain-des-Prés, entre eles Bernard de Montfaucon, e colacionou o Código Claromontano e o Código de Efrém, um palimpsesto: manuscrito bíblico do século V raspado na Idade Média para receber tratados de Efrém, o Sírio. Em 1715 foi à Inglaterra, examinou o Código Alexandrino em Londres e conheceu em Cambridge Richard Bentley, que planejava uma edição crítica do Novo Testamento.

Em 1716 era capelão da legião suíça do coronel Chambrier, transferida para a Holanda, quando obteve três meses de licença para colacionar de novo o Código de Efrém, agora por encomenda de Bentley. No mesmo ano copiou, para uso próprio, o Código de Beza inteiro.

Diácono e réu

Em julho de 1717 voltou a Basileia como diácono auxiliar da cidade e dava aulas particulares de exegese em casa. Três anos depois, por sorteio, o método que a cidade usava para preencher os cargos e que ele mesmo condenava, tornou-se diácono de São Leonardo, colega do pai. Cuidava da paróquia por dever; a alegria dele eram os manuscritos. Decidiu então preparar a sua edição crítica e rompeu com Bentley, que lançou as próprias Proposals em 1720.

Frey e Iselin, a quem Wettstein havia apontado erros, voltaram-se contra ele e conseguiram que fosse proibido de usar os manuscritos da biblioteca. Em julho de 1729, Zurique e Berna avisaram Basileia de que o diácono queria publicar um Novo Testamento com cheiro de socinianismo, a doutrina antitrinitária que negava a divindade eterna de Cristo. Em setembro começou o interrogatório no convento eclesiástico, e o principal juiz era Frey.

As acusações iam longe: tolerância com Roma, desrespeito à tradução de Lutero, arianismo e socinianismo. O centro era 1 Timóteo 3:16. Wettstein tinha observado que o Código Alexandrino traz “o qual se manifestou em carne”, e não “Deus se manifestou em carne”, como haviam lido Brian Walton e John Mill, e os acusadores viram nisso uma tentativa de tirar a divindade de Cristo. Juntaram outros indícios: num hinário de 1728 ele trocara o verso “Amado Jesus, aqui estamos” por “Deus e Pai, aqui estamos”, e explicava alguns milagres de modo natural. Boa parte do material veio de boatos e de cadernos de antigos alunos. Wettstein declarou solenemente a sua adesão à Confissão de Basileia, mas foi deposto.

Amsterdã

Em Amsterdã a família tinha uma das grandes casas editoras da cidade, e ali saíram, sem nome de autor, os Prolegomena ad Novi Testamenti Graeci editionem (1730), a introdução do seu Novo Testamento. A Fraternidade Remonstrante, a igreja que reuniu os arminianos depois da condenação no Sínodo de Dort, procurava um sucessor para Jean Le Clerc, velho e doente, e entrevistou Wettstein em 1731, com uma condição: que ele se livrasse antes da suspeita de heresia. Ele voltou a Basileia, entregou por escrito a sua confissão de fé, e em 22 de março de 1732 o conselho, contra os teólogos, o readmitiu ao ministério.

Os teólogos não o aceitaram como colega. Em maio de 1733, depois de uma queixa dura ao conselho, que mandou rasgá-la diante dele e o suspendeu de novo, partiu para a Holanda, e em junho de 1733 uma assembleia da Fraternidade Remonstrante o nomeou para o seminário.

Para não comprometer o seminário diante das autoridades da cidade, aceitou condições duras: não daria aulas de teologia propriamente dita, não trataria do socinianismo e não publicaria por enquanto o seu Novo Testamento. Ensinou letras, filosofia e hebraico, e a partir de 1739 também grego. Em 1744 ganhou, por sorteio, a cátedra de grego em Basileia. Os remonstrantes aumentaram o salário, deram-lhe a cadeira de história da Igreja e acenaram com a liberdade de publicar, e em janeiro de 1745 ele recusou a volta.

O Novo Testamento de 1751-1752

Em 1746 voltou à Inglaterra para colacionar manuscritos siríacos; ao todo, comparou com as próprias mãos mais de cem manuscritos. Em 1751 e 1752 saíram os dois volumes in-fólio do Novum Testamentum Graecum. A página tinha quatro andares: o texto recebido, na edição dos Elzevir de 1624; as leituras que Wettstein considerava melhores; a lista das variantes dos manuscritos, das versões antigas e dos Pais da Igreja; e um comentário com uma enorme quantidade de paralelos de autores gregos, latinos e rabínicos. Wettstein designou os manuscritos maiúsculos, os mais antigos, por letras latinas maiúsculas, e os minúsculos por algarismos arábicos, e é por isso que o Código Alexandrino ainda se chama A, e o de Beza, D.

A obra lhe abriu a Academia de Ciências da Prússia, em 1752, e a Royal Society de Londres, em 1753. Também trouxe ataques: o luterano Johann David Michaelis voltou a acusá-lo de socinianismo, e o pietista Johann Albrecht Bengel, tão admirado por John Wesley, já o criticava desde 1734 por 1 Timóteo 3:16 e pela defesa das conjecturas.

Depois de um acidente, ficou seis semanas de cama, com gangrena numa coxa, e morreu solteiro em Amsterdã em 23 de março de 1754, aos 61 anos. As últimas palavras registradas são “tudo está bem para mim” e “temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo”, de 1 João 2:1. O colega remonstrante Jakob Krighout fez o sermão fúnebre e ainda teve de defender a memória do amigo contra Frey.

Pensamento

Wettstein é um remonstrante da fase tardia, da linha de Le Clerc. A classe vem do lugar onde viveu e ensinou: durante 21 anos foi professor do seminário da Fraternidade Remonstrante, e o historiador Edward Gibbon o chamou de “o arminiano Wetstein”, que usou “a liberdade do seu tempo e da sua seita”. Os seus escritos tratam do texto bíblico, e não de predestinação ou de graça. O arminianismo dele aparece no espírito herdado de Simão Episcópio e Étienne de Courcelles: poucos dogmas impostos, liberdade de examinar a Escritura e tolerância entre cristãos que divergem.

Como Le Clerc, pertence à ala racionalista dos remonstrantes do século XVIII, mais ocupada com crítica e filologia do que com a doutrina da graça de Armínio (ver A tradição arminiana: de Armínio a Wesley). A suspeita de antitrinitarismo o acompanhou a vida toda, e ele sempre a recusou: professou a Confissão de Basileia, que afirma a Trindade, e em 1753 reclamou ao primo que Michaelis insistia em fazê-lo “passar por antitrinitário, contra a minha vontade”. A declaração de fé do Diego afirma sem reservas um só Deus em três pessoas e a plena divindade de Cristo; quem lê Wettstein deve saber que a ortodoxia dele foi contestada, ainda que ele a tenha professado.

O texto acima das edições

A primeira convicção de Wettstein era de método. Nas Animadversiones et cautiones (“Observações e cuidados necessários para examinar as variantes do Novo Testamento”), de 1730, revistas em 1752, ele afirma que nenhuma edição impressa tem autoridade por si. O texto recebido, impresso por Erasmo, Estéfano, Beza e os Elzevir, fora feito com poucos manuscritos, tardios, e às vezes com conjecturas sem base. O que decide é o testemunho dos manuscritos, das versões antigas e das citações dos Pais, e numa dúvida a leitura recebida não leva vantagem automática: o leitor tem as provas diante de si e decide. Por isso, em 1751, imprimiu o texto recebido e pôs as suas escolhas logo abaixo.

A leitura “mais ortodoxa”

A regra mais ousada, a décima segunda, diz que, entre duas variantes, “a que parece mais ortodoxa não deve ser preferida de imediato”. Mais ortodoxa é a leitura que parece confirmar um dogma disputado entre os cristãos e aceito na região do leitor; menos ortodoxa é a que não favorece nenhum partido e dá um sentido que concorda com o resto da Escritura e que todos os cristãos aceitam. Na dúvida, ele preferia esta.

Os argumentos são três. O primeiro é teológico: a Escritura não foi dada aos cristãos “para se refutarem e condenarem uns aos outros em disputas sem fim”; é obra “destinada à paz”, que respira “a caridade mútua e a tolerância” (Prolegomena, 1730). O segundo trata da providência: as variantes costumam estar em traços finíssimos, como o tracinho que transforma ΟΣ (“o qual”) em ΘΣ (abreviação de “Deus”), e ninguém de juízo acreditaria que a sabedoria e a bondade de Deus fizessem depender a salvação eterna de sinais que escapam aos olhos. O terceiro é histórico: os hereges eram minoria perseguida e não tinham como alterar os livros dos que mandavam, enquanto os ortodoxos, cujos manuscritos são os que chegaram até nós, às vezes mexeram no texto, como Epifânio conta das gotas de suor como sangue em Lucas 22:43-44.

A regra não manda escolher a leitura herética, mas pede que a doutrina do leitor não decida o texto antes do exame das provas. Em João 7:8, onde Hugo Grócio, Le Clerc e Bengel preferiam “não subo a esta festa”, Wettstein manteve o “ainda não subo” do texto recebido.

Os critérios internos

Wettstein justificou regras que todo crítico textual usa hoje. A leitura mais difícil costuma ser a original, porque o copista tende a facilitar. A mais curta também, em igualdade de condições, porque o copista acrescenta mais do que corta. A leitura que harmoniza um Evangelho com outro é suspeita. Deve-se preferir a que concorda com o estilo do autor. A conjectura, a correção sem apoio em manuscrito, não deve ser rejeitada de saída. Também teve preconceitos que a crítica posterior corrigiu: desconfiou dos manuscritos gregos mais antigos, que julgava contaminados pela versão latina, e recusou agrupar os manuscritos em famílias, como propunham Bentley e Bengel.

O Novo Testamento no seu mundo

O comentário nasceu da convicção de que “a verdadeira interpretação está tão ligada à verdadeira leitura que uma pede o auxílio da outra” (Novum Testamentum Graecum, 1752). Ele reuniu as observações “não tanto à maneira dos teólogos e eclesiásticos, quanto à dos gramáticos e críticos”: para saber o que Paulo ou Lucas queriam dizer com uma palavra, é preciso ver como os gregos, os latinos e os rabinos da época a usavam. Esse acervo serviu a todos os comentaristas posteriores e deu nome ao projeto alemão do “Novo Wettstein”, que desde 1914 reúne os paralelos greco-romanos do Novo Testamento.

A crítica textual moderna deu razão a Wettstein em pontos que lhe custaram a fama de sociniano. As edições críticas atuais leem “o qual se manifestou em carne” em 1 Timóteo 3:16 e omitem as três testemunhas no céu de 1 João 5:7, que ele também questionou. Nada disso derruba a Trindade nem a divindade de Cristo, que estão em João 1:1, João 20:28, Romanos 9:5 e Mateus 28:19, e foram confessadas pela igreja muito antes de qualquer edição impressa. O argumento do próprio Wettstein serve aqui: a fé da igreja não depende de um tracinho numa letra. Eldon Jay Epp, parceiro de Gordon Fee em crítica textual, viu nas regras dele um passo rumo ao texto crítico que lemos hoje.

Obras principais

  • De variis Novi Testamenti lectionibus (Basileia, 1713), dissertação.
  • Prolegomena ad Novi Testamenti Graeci editionem accuratissimam (Amsterdã, 1730), anônimo; reeditado por Johann Salomo Semler (Halle, 1764).
  • Orthodoxia a falsis criminationibus J. L. Frey vindicata (Amsterdã, 1733).
  • Oratio funebris in obitum Joannis Clerici (Amsterdã, 1736), oração fúnebre de Jean Le Clerc.
  • Novum Testamentum Graecum editionis receptae, cum lectionibus variantibus […] necnon commentario pleniore (Amsterdã, 1751-1752), 2 volumes.
  • Duae epistolae S. Clementis Romani (Leiden, 1752), texto siríaco com tradução latina.
  • Libelli ad crisin atque interpretationem Novi Testamenti (Halle, 1766), edição póstuma de Semler com as regras críticas e hermenêuticas.

Para aprofundar

  • Silvia Castelli, A Fight for Scholarly Freedom: Johann Jakob Wettstein’s (1693-1754) Principles for New Testament Textual Criticism, tese de doutorado, Vrije Universiteit Amsterdam, 2019, com edição crítica e tradução inglesa das Animadversiones. VU Research Portal
  • A. von Salis, “Wettstein, Johann Jakob”, Allgemeine Deutsche Biographie, vol. 42 (1897), p. 251-254. Wikisource
  • “Wetstein, Johann Jakob”, Encyclopaedia Britannica, 11ª ed., vol. 28 (1911), p. 564-565. Wikisource
  • “J.J. Wetstenius, 1693-1754”, Album Academicum da Universidade de Amsterdã. UvA
  • Alexander Chalmers, “Wetstein, John James”, The General Biographical Dictionary (1812-1817). From Old Books
  • Johann Jakob Wettstein, Prolegomena ad Novi Testamenti Graeci editionem (Amsterdã, 1730). Internet Archive
  • Johann Jakob Wettstein, Novum Testamentum Graecum, vol. 1 (1751) e vol. 2 (1752). Volume 1 · Volume 2
  • “Johann Jakob Wettstein”, Wikipédia em inglês. Wikipedia

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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