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John Lennox: O matemático de Oxford que defendeu a fé diante de Dawkins e do determinismo

Diego Gonçalves14 min de leitura2.728 palavras

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Neste texto

Num jantar formal de um college de Cambridge, nos anos 1960, um estudante de matemática da Irlanda do Norte se viu sentado ao lado de um cientista premiado com o Nobel. Curioso, perguntou se o trabalho científico tinha moldado a visão de mundo dele e se o tinha levado a pensar em Deus. A resposta veio seca: quem quer carreira na ciência precisa abandonar “essa fé infantil em Deus”. Depois do jantar, chamou o rapaz ao escritório e, diante de outros professores, repetiu a exigência: se não largasse a fé, ela o aleijaria intelectualmente. Com a voz tremendo, o estudante perguntou o que ele tinha de melhor para oferecer. Ouviu falar da “evolução criadora” do filósofo Henri Bergson, respondeu que a visão de mundo bíblica era mais rica e que as evidências dela o convenciam, e disse que ficaria com ela. Era John Carson Lennox, que meio século depois contaria a cena em Can Science Explain Everything? (2019) e se tornaria um dos defensores da fé cristã mais conhecidos do mundo.

Retrato de John Lennox
John Lennox numa palestra em 2015. Foto de Christliches Medienmagazin pro, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Uma loja dos dois lados da divisa

Lennox nasceu em 7 de novembro de 1943, na Irlanda do Norte, e cresceu em Armagh, onde o pai tinha uma loja. Numa terra dividida entre protestantes e católicos, os pais dele empregavam gente dos dois lados, algumas dezenas de funcionários. Lennox explica a decisão do pai pela Escritura: todo homem e toda mulher foi feito à imagem de Deus, qualquer que seja a confissão. Na Irlanda do Norte daquele tempo, isso era arriscado. A loja da família foi atingida por uma bomba, e um irmão dele quase perdeu a vida na violência sectária. Lennox diz ter vergonha de quem usa o nome de Jesus Cristo para justificar a violência.

Os pais eram cristãos fervorosos, sem sectarismo, e deram ao filho “espaço para pensar”. O pai levava exemplares de Cristianismo puro e simples, de C. S. Lewis, no porta-luvas do carro, para dar aos caronistas que lhe pareciam inteligentes. Foi assim que o menino conheceu Lewis. Quando terminou a Royal School de Armagh, já tinha lido quase todos os livros dele.

Cambridge e as últimas aulas de C. S. Lewis

Em 1962, Lennox chegou ao Emmanuel College, em Cambridge, onde foi bolsista (Exhibitioner e depois Senior Scholar). Na primeira semana, um colega lhe perguntou se ele cria em Deus e, ao saber que ele era irlandês, concluiu que os irlandeses simplesmente creem e brigam por causa disso. Lennox chama a conversa de “ponto de virada”: ela o obrigou a perguntar se a fé dele era só um produto da sua origem. Precisava, nas palavras dele, de “um guia turístico do ateísmo”, e o achou em Lewis, que tinha sido ateu até a meia-idade.

Lewis ensinava do outro lado da rua do instituto de matemática, e Lennox escapava das próprias aulas para ouvir as últimas preleções dele, sobre a poesia de John Donne, em salas lotadas, com estudantes no chão e nas janelas. Não sabia que o professor estava gravemente doente.

Em Cambridge, Lennox fez o mestrado (MA e MMath) e o doutorado em matemática, com a tese Centrality and Permutability in Soluble Groups (1970), orientada por James Roseblade.

Matemático em Cardiff e em Oxford

Depois do doutorado, Lennox foi para o Instituto de Matemática da Universidade de Gales, em Cardiff, onde ensinou por 29 anos e chegou a reader, o posto logo abaixo do de professor titular no sistema britânico. A pesquisa dele está na teoria dos grupos, um ramo da álgebra abstrata. Publicou mais de setenta artigos e escreveu, com colegas, dois volumes da série Oxford Mathematical Monographs. Em 1993, Cardiff lhe deu o grau de doutor em ciências (DSc) pelo conjunto da pesquisa. Foi Senior Fellow da Fundação Alexander von Humboldt nas universidades de Würzburg e de Friburgo, na Alemanha. Fala russo, alemão, francês e espanhol, traduziu matemática do russo e, mais tarde, fez um mestrado em bioética na Universidade de Surrey.

Em Oxford, tornou-se professor de matemática, hoje emérito, e fellow de Matemática e Filosofia da Ciência no Green Templeton College, onde também foi conselheiro pastoral dos alunos. É associate fellow da Saïd Business School, senior fellow do Trinity Forum e presidente do Oxford Centre for Christian Apologetics. É casado com Sally e tem três filhos.

Bíblias atrás da Cortina de Ferro

Durante a Guerra Fria, Lennox fez repetidas viagens aos países comunistas do Leste europeu. Levava Bíblias, falava da fé e se encontrava com cristãos que viviam sob regimes oficialmente ateus. Conta que chegou a ser seguido pela KGB. Na União Soviética, encontrou fome de Bíblias e grande interesse pela relação entre ciência e religião.

O grande mentor de Lennox foi David Gooding (1925-2019), professor de grego do Antigo Testamento na Queen’s University, em Belfast, e estudioso da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento. Os dois escreveram juntos vários livros, entre eles os seis volumes de The Quest for Reality and Significance (2018-2019), publicados pela Myrtlefield House, de Belfast.

Os debates com os novos ateus

Antes de 2007, Lennox era pouco conhecido entre os evangélicos americanos e, por escolha, discreto em Oxford. Quando o organizador cristão Larry Taunton lhe propôs enfrentar Richard Dawkins em público, a primeira reação foi de espanto. “Eu não sou de fato um debatedor”, disse, e pediu tempo para pensar e orar com Sally. Aceitou. Em 3 de outubro de 2007, no Alys Stephens Center, em Birmingham, no Alabama, os dois discutiram seis teses de Deus, um delírio, com mediação do juiz federal William H. Pryor e patrocínio da Fixed Point Foundation. A transmissão alcançou mais de um milhão de pessoas. Em 21 de outubro de 2008, no Museu de História Natural de Oxford, voltaram a se encontrar no debate “A ciência enterrou Deus?”, subtítulo do livro de Lennox God’s Undertaker.

Vieram outros adversários: Christopher Hitchens no Festival Internacional de Edimburgo, em agosto de 2008, e de novo na Universidade Samford, em Birmingham, em 3 de março de 2009, no debate “Deus é grande?”; o filósofo Peter Singer em Melbourne (2011). Lennox fez palestras em mais de sessenta países.

Em abril de 2026, aos 82 anos, publicou My Story: A Spiritual and Intellectual Autobiography, livro que, segundo ele, se recusou a escrever por muitos anos. Com a saúde em declínio, diz ter aprendido que um “eu não sei” honesto pode abrir portas mais profundas do que uma certeza fingida.

Pensamento

Onde Lennox fica nesta série

Classe: simpatizante. O texto decisivo é Determined to Believe? The Sovereignty of God, Freedom, Faith, and Human Responsibility (2017). Lennox recusa os rótulos “calvinista” e “arminiano”; no capítulo 4, que chama de “armas de distração em massa”, diz que os rótulos desviam a atenção do que a Bíblia de fato diz. Por isso dá à posição que combate o nome de “determinismo teológico”, a tese de que Deus decide de antemão tudo o que acontece, inclusive quem vai crer.

Contra essa tese, Lennox defende o livre-arbítrio libertário, isto é, a capacidade real de escolher de outro modo, e argumenta que sem essa liberdade não há moral nem amor. Ele rejeita a eleição incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível: a graça de Deus é resistível, e a misericórdia de Deus está aberta a todos os que querem responder à sua oferta. A fé, para ele, não é mérito. Em Romanos 9, lê a escolha de Jacó e não de Esaú como “eleição corporativa para um serviço e um papel” (p. 249), e não como decreto sobre a salvação de cada indivíduo. Os resenhistas o chamaram de “arminiano de quatro pontos” e de “calminiano”, meio caminho entre Calvino e Armínio.

Duas diferenças o separam do arminianismo clássico. A primeira é a segurança da salvação. Lennox afirma que “a regeneração é irreversível”: quem nasceu de novo não se perde, e as advertências de Hebreus 6:1-12 servem para provar se a fé de quem se diz cristão é verdadeira. A nossa declaração de fé segue a perseverança condicional: o crente está seguro em Cristo enquanto permanece nele pela fé, e a fé pode ser abandonada (Hebreus 3:12-14). Nesse ponto ele fica perto de George Bryson e de Adrian Rogers, que também rejeitaram o calvinismo sem abrir mão da segurança eterna.

A segunda é a incapacidade humana. Lennox combate o argumento calvinista de que o pecador, morto no pecado, precisa ser regenerado antes de poder crer, e atribui a Deus a capacidade de confiar que a pessoa exerce. O arminianismo clássico concorda que a fé vem antes do novo nascimento, mas afirma com mais força a depravação total: a vontade caída está morta para o bem, e só a graça preveniente, obra do Espírito que alcança todas as pessoas antes de qualquer resposta, a liberta para crer. É o que explicamos em Livre-arbítrio e graça: a vontade libertada e em A eleição condicional em Cristo.

Do lado reformado, James N. Anderson respondeu que Lennox pressupõe que liberdade e determinação não podem conviver e por isso não descreve o calvinismo como os calvinistas o entendem.

Mecanismo e agente

O centro da apologética de Lennox é uma distinção: explicar como uma coisa funciona é diferente de explicar quem a fez. Quem desmonta um motor da Ford entende a combustão e os pistões, e não encontra o senhor Ford lá dentro; daí não se segue que Henry Ford nunca existiu. Confundir mecanismo e agente é o erro de quem acha que a ciência dispensou Deus. As leis da natureza descrevem regularidades, mas não criam nada. O motor a jato funciona pelas leis da física, e mesmo assim foi Frank Whittle quem o inventou.

Lennox aplicou o argumento em God and Stephen Hawking (2011), resposta ao livro O grande projeto, em que Hawking afirmou que, por existir uma lei como a da gravidade, o universo pode criar a si mesmo do nada. Lennox discute a filosofia de Hawking, e não a física: uma lei da gravidade já é alguma coisa, e não o nada. A conclusão ficou famosa: “absurdo continua sendo absurdo, mesmo quando dito por cientistas mundialmente famosos”. No mesmo livro sustenta que tirar a razão do que não tem razão destrói a confiança na própria razão, e que a fé num Criador é o que sustenta a confiança na regularidade da natureza, da qual a ciência depende. Sobre a defesa da fé em geral, temos o texto Apologética cristã: o que é e para que serve.

Gênesis, Galileu e os dias da criação

Em Seven Days That Divide the World (2011), Lennox parte de um princípio: Deus é autor da Escritura e da natureza, e a leitura correta de uma não contradiz a da outra. O exemplo é Galileu. Lutero e Calvino liam a Bíblia com a Terra parada no centro do universo, e um cientista cristão mostrou que ela se move; mudou a interpretação, e não a Bíblia. Lennox separa as doutrinas essenciais, como a ressurreição, de questões como a duração dos dias, aceita um universo antigo e insiste que só o ser humano traz a imagem de Deus. O tema aparece no nosso texto Criação em sete dias literais? O propósito de Gênesis 1-2.

A imagem de Deus na era da inteligência artificial

Em 2084 (2020), cujo título lembra o 1984 de George Orwell, Lennox acolhe a inteligência artificial que ajuda a ler exames médicos e alerta para a vigilância. Contra o transumanismo, que promete vencer a morte pela tecnologia, ele lê Gênesis: o projeto lembra a torre de Babel, em que o homem tenta subir até Deus, enquanto no evangelho Deus desce até o homem. O programa transumanista, escreve, fracassa porque “não tem solução para o pecado humano”.

Obras principais

  • Christianity: Opium or Truth?, com David Gooding (1997).
  • God’s Undertaker: Has Science Buried God? (edição ampliada, 2009).
  • God and Stephen Hawking: Whose Design Is It Anyway? (2011).
  • Gunning for God: Why the New Atheists Are Missing the Target (2011).
  • Seven Days That Divide the World (2011).
  • Against the Flow (2015), sobre Daniel.
  • Determined to Believe? The Sovereignty of God, Freedom, Faith, and Human Responsibility (2017).
  • The Quest for Reality and Significance, com David Gooding, seis volumes (2018-2019).
  • Can Science Explain Everything? (2019).
  • 2084: Artificial Intelligence and the Future of Humanity (2020).
  • My Story: A Spiritual and Intellectual Autobiography (2026).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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