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HistóriaTeólogos arminianos18 de 253

Jesse Lyman Hurlbut: o pastor metodista que levou a Bíblia às escolas dominicais

Diego Gonçalves12 min de leitura2.448 palavras

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Neste texto

Na sexta-feira, 6 de agosto de 1875, um pastor metodista de 32 anos deu a sua primeira aula para professores de escola dominical, à beira do lago Chautauqua, no oeste do estado de Nova York. O tema era a cidade de Jerusalém. Ele tinha treinado o mapa até achar que podia desenhá-lo de memória, mas um aluno precisou ir ao quadro-negro para corrigir o desenho torto do professor. Vinte anos depois, numa assembleia no Kansas, uma senhora que tinha assistido àquela aula disse a ele que tinha melhorado bastante. Jesse Lyman Hurlbut passou a vida ensinando a Bíblia a quem ensinava a Bíblia. Voltou a Chautauqua por mais de quarenta e cinco verões seguidos, sucedeu John Heyl Vincent na direção das escolas dominicais da Igreja Metodista Episcopal e escreveu uma história da igreja que se lê até hoje em português.

Retrato de Jesse Lyman Hurlbut, de barba e bigode, em traje escuro
Retrato de Jesse Lyman Hurlbut, autor desconhecido, por volta de 1895, publicado num relatório anual da Associação do Acampamento de Ocean Grove. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Nova York, Wesleyan e Pennington

Hurlbut nasceu em 15 de fevereiro de 1843, na cidade de Nova York. Da infância, nos anos 1850, guardou a lembrança de um velho pregador leigo metodista que, qualquer que fosse o texto, sempre achava um jeito de atacar “a sucessão apostólica” e os “cinco pontos do calvinismo”. Já pastor, ele contaria a história para mostrar que os tempos de briga entre as igrejas tinham passado.

Formou-se em 1864 na Wesleyan University, faculdade metodista de Middletown, Connecticut, como membro da sociedade de honra Phi Beta Kappa, e recebeu dela o mestrado em 1867. No ano letivo de 1864 a 1865 ensinou no Pennington Seminary, escola metodista de Nova Jersey.

Pastor na Conferência de Newark

Em 1865 Hurlbut entrou para a Conferência de Newark, a região da Igreja Metodista Episcopal no norte de Nova Jersey. No sistema metodista o pastor é nomeado pelo bispo e transferido de tempos em tempos, a chamada itinerância. Ele serviu igrejas em Newark, Montclair, Paterson, Plainfield, Hoboken, Morristown, Orange e Bloomfield. Em 5 de março de 1867 casou-se com Mary M. Chase, de Nova York. Dos sete filhos do casal, quatro morreram antes do pai, dois deles em 1881, com poucos meses de diferença; Jesse Júnior morreu em 1899, quando terminava o terceiro ano na Wesleyan. Mary morreu em 1913.

Em Plainfield, Hurlbut morava a cinco minutos da casa de John Heyl Vincent, o pastor que dirigia a escola dominical da denominação e que em 1874, com o industrial Lewis Miller, tinha fundado a Assembleia de Chautauqua, um acampamento de verão para formar professores de escola dominical. Essa amizade decidiu a vida de Hurlbut.

Chautauqua

Ele chegou a Chautauqua em 3 de agosto de 1875 e achou um lugar que parecia “quase um chão santo”, com um modelo da Palestina ao ar livre por onde os alunos caminhavam de Dã a Berseba. Naquele verão deu a palestra “O que um metodista pensa de John Knox”. No ano seguinte, o presbiteriano J. A. Worden respondeu com “O que um presbiteriano pensa de John Wesley”. Era o tom do lugar: pregadores de várias igrejas no mesmo palco, contando piadas uns sobre os outros diante de cinco mil pessoas.

Na primavera de 1878, Vincent o chamou para uma conversa diante da lareira. Queria lançar o Círculo Literário e Científico de Chautauqua, um curso de leitura em casa de quatro anos, como os da faculdade, com quarenta minutos de estudo por dia. Hurlbut achou a ideia bonita e impraticável e, quando Vincent perguntou quantos leitores ele esperava, respondeu: “Talvez cem”. Vincent levantou-se e disse que um dia haveria mil. Poucos anos depois o círculo tinha sessenta mil inscritos. Hurlbut presidiu a primeira turma a se formar, a classe de 1882, “Os Pioneiros”, e dirigiu o círculo de 1887 a 1892.

Em Chautauqua ele dava as aulas no modelo da Palestina; em 1880 foi quem guiou por ali o candidato à presidência James Garfield. Fora do lago, dirigiu por quase vinte anos a assembleia de Ottawa, no Kansas, e, revezando com o congregacional A. E. Dunning, a de Framingham, em Massachusetts.

À frente das escolas dominicais metodistas

Em 1879 Hurlbut deixou o pastorado para trabalhar sob Vincent na União da Escola Dominical: primeiro como agente geral (1879-1884), depois como editor assistente (1884-1888). A Universidade de Syracuse lhe deu o doutorado em teologia em 1883. Quando Vincent foi eleito bispo, em 1888, Hurlbut o sucedeu como secretário correspondente da União da Escola Dominical e da Sociedade de Folhetos e como editor das revistas de lições, do Sunday-School Journal e do semanário juvenil Our Youth, até 1900.

Ele mesmo aplicou o que ensinava. A escola dominical de que participava em Plainfield, com uns quatrocentos alunos, foi reorganizada por idade em quatro departamentos, com todas as promoções no mesmo domingo do ano. O primeiro “Domingo da Promoção” foi em 30 de março de 1890, e o “plano de Plainfield” entrou no livro Seven Graded Sunday Schools (1893), que Hurlbut organizou.

A Liga Epworth

Para os jovens metodistas, Vincent tinha criado a Liga de Oxford, com o nome da universidade onde os irmãos Wesley haviam reunido o “Clube Santo”. No inverno de 1889, sob o impulso de Hurlbut, ela ganhou cerca de quinhentos grupos locais em sessenta dias. Em 14 e 15 de maio de 1889, representantes de cinco sociedades de jovens da denominação se reuniram na Igreja Metodista Central de Cleveland, em Ohio, para fundi-las. Hurlbut chefiava a delegação da Liga de Oxford e propôs três bases para a união: um fundamento espiritual firme, cada grupo local sob a autoridade da igreja local e uma direção geral escolhida pela Conferência Geral. Dali nasceu a Liga Epworth, com o nome da cidade natal de Wesley, e Hurlbut foi o seu secretário correspondente até 1892. Para esses jovens ele escreveu, primeiro em artigos no Epworth Herald, o livro Our Church: What Methodists Believe, and How They Work (1902).

Os últimos anos

Em 1900 voltou ao pastorado, em Morristown e depois em South Orange. De 1909 a 1915 foi superintendente do Distrito de Newark, o supervisor das igrejas da região, e depois dirigiu o Instituto de Educação Religiosa de Newark. Aposentou-se em 1918. Desses anos são os livros de maior alcance: Hurlbut’s Story of the Bible (1904), a Bíblia inteira em 168 histórias, Hurlbut’s Life of Christ for Young and Old (1915) e The Story of the Christian Church (1918). Em 1920, como o mais antigo trabalhador vivo de Chautauqua, fez a homenagem ao bispo Vincent, morto naquele ano, e em 1921 publicou The Story of Chautauqua. Em 1924 a Wesleyan lhe deu um doutorado honorário em teologia. Hurlbut morreu em Bloomfield, Nova Jersey, em 2 de agosto de 1930, aos 87 anos.

Pensamento

Hurlbut fica na classe wesleyana. Não escreveu teologia sistemática; o que pensava está nos livros para professores e jovens, e ali ele se declara arminiano. Em Our Church (1902) ele divide as igrejas entre o lado calvinista e o arminiano, explica os nomes por Calvino e Armínio e resume: o metodismo é “arminiano na doutrina, episcopal no método e fervoroso no espírito”.

As quatro doutrinas de Wesley

O capítulo “A fé dos nossos pais” abre com 6 de junho de 1742, quando John Wesley, impedido de pregar na igreja de Epworth, pregou de pé sobre o túmulo do pai. Para Hurlbut, a “heresia” que fechou para Wesley os púlpitos da Inglaterra cabia em quatro doutrinas. A redenção universal: Cristo morreu por todos, e não só por um pequeno grupo escolhido. A liberdade da vontade: o ser humano não é uma máquina que cumpre um destino traçado e decide se aceita ou rejeita Cristo. O testemunho do Espírito: quem foi perdoado pode ter a certeza da salvação na própria consciência. A inteira santificação: o seguidor de Cristo pode ser aperfeiçoado no amor a Deus e ao próximo. Essas verdades, combatidas no século XVIII, tinham entrado, diz ele, nos hinários de quase todas as igrejas evangélicas.

A segunda doutrina pede uma observação. Hurlbut a descreve em linguagem popular, sem falar da graça que vem antes da escolha, e na sua história da igreja usa palavras parecidas para descrever Pelágio: “cada alma faz a sua própria escolha”. O arminianismo clássico diz outra coisa. Armínio ensinou que a vontade caída está perdida para o bem e só fica livre quando a graça a liberta, e Wesley chamou essa graça de preveniente. O artigo VIII dos Artigos de Religião metodistas, “Do livre-arbítrio”, diz que depois da queda o homem não pode, por suas forças, voltar-se para Deus, e precisa da graça de Deus por Cristo, que o previne para que tenha boa vontade. Em Our Church Hurlbut escreve que os Artigos nada dizem sobre a liberdade da vontade, mas o artigo VIII trata justamente disso. A declaração de fé deste site segue o artigo: somos incapazes de nos salvar, e é pela graça preveniente que o Espírito capacita cada pessoa a responder ao evangelho. O próprio Hurlbut chega perto disso quando diz que a vida nova dá ao crente o poder de fazer a vontade de Deus “como não podia fazer antes”.

A certeza da salvação

Das quatro doutrinas, a que ele mais destacava era o testemunho do Espírito (Romanos 8:16). Hurlbut conta a conversão de Wesley em Aldersgate, em 24 de maio de 1738, como o dia que merecia ser lembrado como o aniversário do metodismo. A doutrina, diz ele, está em Paulo e em João, em Bernardo de Claraval e em Tomás de Kempis; foi quase esquecida nas brigas depois da Reforma, guardada pelos morávios e devolvida às igrejas por Wesley. Hurlbut chega a aplicar a ela a frase de Lutero sobre a justificação: é o artigo pelo qual a igreja fica de pé ou cai. Cada cristão, escreve, deve saber “com certeza” que passou da morte para a vida.

A vida mais alta

Sobre a inteira santificação, Hurlbut usa uma imagem das Montanhas Rochosas. Quem sobe pelo lado do Pacífico vence um paredão depois do outro; quem vem do rio Missouri sobe tão devagar que não percebe onde termina a planície. No alto, os dois se encontram: para uns a passagem é um momento marcado, para outros, uma subida gradual. Ele distingue o nível do dever, em que o crente obedece como servo, lê a Bíblia como tarefa e sente duas naturezas brigando por dentro, e o nível do amor, em que obedece como filho e fala de Cristo porque ama as pessoas como Cristo as ama. É uma vida perfeita, explica, não por estar livre de erros, mas por estar inteiramente entregue a Cristo.

Aqui há uma diferença de ênfase. Hurlbut indica como caminho o cumprimento de cada dever, a consagração completa e a oração insistente. Wesley e a declaração de fé deste site insistem que a inteira santificação é dom da graça recebido pela fé (1 Tessalonicenses 5:23-24): a consagração prepara o coração, mas quem purifica é Deus.

A Bíblia antes das perguntas

No prefácio da vida de Cristo para crianças (1915), Hurlbut explica o método dos seus livros bíblicos para leigos. Não inventou cenas nem diálogos, para que o livro levasse o leitor à Bíblia e não para longe dela, e seguiu os quatro evangelhos aceitando como históricos “todos” eles e “todo” o seu conteúdo, sem discutir os milagres. Quem não conhece bem o que a Bíblia diz, argumenta, não está preparado para discutir as questões de autoria. Também não quis tirar da história lições de moral: as obras e as palavras de Jesus “farão a sua própria aplicação” a quem as lê.

Uma só igreja, muitos corpos de exército

Na História da Igreja Cristã (1918), Hurlbut divide a história em seis grandes períodos e diz que procurou mostrar o espírito da igreja e as causas dos acontecimentos, mais do que as controvérsias. Ainda assim marca o lugar do arminianismo: depois que o Concílio de Cartago (418) condenou Pelágio e a teologia de Agostinho virou o padrão da ortodoxia, só com Armínio, por volta de 1600, e com Wesley houve uma ruptura séria com o sistema agostiniano (veja por que Wesley rejeitou o calvinismo).

Essa firmeza andava com um espírito largo. Em Our Church, as denominações são “corpos de exército diferentes de uma grande tropa”, e não exércitos em guerra. Quando um pastor das montanhas do sul perguntou qual era a plataforma doutrinária de Chautauqua, Hurlbut respondeu que não havia nenhuma: ninguém ali queria atacar outra igreja, e quem o fizesse não voltaria ao palco.

Obras principais

  • Manual of Biblical Geography (1884).
  • Studies in Old Testament History (1890).
  • Revised Normal Lessons (1893).
  • Seven Graded Sunday Schools (1893), organizador.
  • Our Church: What Methodists Believe, and How They Work (1902).
  • Hurlbut’s Story of the Bible (1904).
  • Hurlbut’s Teacher-Training Lessons for the Sunday School (1908).
  • Organizing and Building up the Sunday School (1909).
  • Hurlbut’s Life of Christ for Young and Old (1915).
  • The Story of the Christian Church (1918).
  • The Story of Chautauqua (1921).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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