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Jesse Lyman Hurlbut: o pastor metodista que levou a Bíblia às escolas dominicais
Neste texto
- Vida
- Nova York, Wesleyan e Pennington
- Pastor na Conferência de Newark
- Chautauqua
- À frente das escolas dominicais metodistas
- A Liga Epworth
- Os últimos anos
- Pensamento
- As quatro doutrinas de Wesley
- A certeza da salvação
- A vida mais alta
- A Bíblia antes das perguntas
- Uma só igreja, muitos corpos de exército
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Na sexta-feira, 6 de agosto de 1875, um pastor metodista de 32 anos deu a sua primeira aula para professores de escola dominical, à beira do lago Chautauqua, no oeste do estado de Nova York. O tema era a cidade de Jerusalém. Ele tinha treinado o mapa até achar que podia desenhá-lo de memória, mas um aluno precisou ir ao quadro-negro para corrigir o desenho torto do professor. Vinte anos depois, numa assembleia no Kansas, uma senhora que tinha assistido àquela aula disse a ele que tinha melhorado bastante. Jesse Lyman Hurlbut passou a vida ensinando a Bíblia a quem ensinava a Bíblia. Voltou a Chautauqua por mais de quarenta e cinco verões seguidos, sucedeu John Heyl Vincent na direção das escolas dominicais da Igreja Metodista Episcopal e escreveu uma história da igreja que se lê até hoje em português.
Vida
Nova York, Wesleyan e Pennington
Hurlbut nasceu em 15 de fevereiro de 1843, na cidade de Nova York. Da infância, nos anos 1850, guardou a lembrança de um velho pregador leigo metodista que, qualquer que fosse o texto, sempre achava um jeito de atacar “a sucessão apostólica” e os “cinco pontos do calvinismo”. Já pastor, ele contaria a história para mostrar que os tempos de briga entre as igrejas tinham passado.
Formou-se em 1864 na Wesleyan University, faculdade metodista de Middletown, Connecticut, como membro da sociedade de honra Phi Beta Kappa, e recebeu dela o mestrado em 1867. No ano letivo de 1864 a 1865 ensinou no Pennington Seminary, escola metodista de Nova Jersey.
Pastor na Conferência de Newark
Em 1865 Hurlbut entrou para a Conferência de Newark, a região da Igreja Metodista Episcopal no norte de Nova Jersey. No sistema metodista o pastor é nomeado pelo bispo e transferido de tempos em tempos, a chamada itinerância. Ele serviu igrejas em Newark, Montclair, Paterson, Plainfield, Hoboken, Morristown, Orange e Bloomfield. Em 5 de março de 1867 casou-se com Mary M. Chase, de Nova York. Dos sete filhos do casal, quatro morreram antes do pai, dois deles em 1881, com poucos meses de diferença; Jesse Júnior morreu em 1899, quando terminava o terceiro ano na Wesleyan. Mary morreu em 1913.
Em Plainfield, Hurlbut morava a cinco minutos da casa de John Heyl Vincent, o pastor que dirigia a escola dominical da denominação e que em 1874, com o industrial Lewis Miller, tinha fundado a Assembleia de Chautauqua, um acampamento de verão para formar professores de escola dominical. Essa amizade decidiu a vida de Hurlbut.
Chautauqua
Ele chegou a Chautauqua em 3 de agosto de 1875 e achou um lugar que parecia “quase um chão santo”, com um modelo da Palestina ao ar livre por onde os alunos caminhavam de Dã a Berseba. Naquele verão deu a palestra “O que um metodista pensa de John Knox”. No ano seguinte, o presbiteriano J. A. Worden respondeu com “O que um presbiteriano pensa de John Wesley”. Era o tom do lugar: pregadores de várias igrejas no mesmo palco, contando piadas uns sobre os outros diante de cinco mil pessoas.
Na primavera de 1878, Vincent o chamou para uma conversa diante da lareira. Queria lançar o Círculo Literário e Científico de Chautauqua, um curso de leitura em casa de quatro anos, como os da faculdade, com quarenta minutos de estudo por dia. Hurlbut achou a ideia bonita e impraticável e, quando Vincent perguntou quantos leitores ele esperava, respondeu: “Talvez cem”. Vincent levantou-se e disse que um dia haveria mil. Poucos anos depois o círculo tinha sessenta mil inscritos. Hurlbut presidiu a primeira turma a se formar, a classe de 1882, “Os Pioneiros”, e dirigiu o círculo de 1887 a 1892.
Em Chautauqua ele dava as aulas no modelo da Palestina; em 1880 foi quem guiou por ali o candidato à presidência James Garfield. Fora do lago, dirigiu por quase vinte anos a assembleia de Ottawa, no Kansas, e, revezando com o congregacional A. E. Dunning, a de Framingham, em Massachusetts.
À frente das escolas dominicais metodistas
Em 1879 Hurlbut deixou o pastorado para trabalhar sob Vincent na União da Escola Dominical: primeiro como agente geral (1879-1884), depois como editor assistente (1884-1888). A Universidade de Syracuse lhe deu o doutorado em teologia em 1883. Quando Vincent foi eleito bispo, em 1888, Hurlbut o sucedeu como secretário correspondente da União da Escola Dominical e da Sociedade de Folhetos e como editor das revistas de lições, do Sunday-School Journal e do semanário juvenil Our Youth, até 1900.
Ele mesmo aplicou o que ensinava. A escola dominical de que participava em Plainfield, com uns quatrocentos alunos, foi reorganizada por idade em quatro departamentos, com todas as promoções no mesmo domingo do ano. O primeiro “Domingo da Promoção” foi em 30 de março de 1890, e o “plano de Plainfield” entrou no livro Seven Graded Sunday Schools (1893), que Hurlbut organizou.
A Liga Epworth
Para os jovens metodistas, Vincent tinha criado a Liga de Oxford, com o nome da universidade onde os irmãos Wesley haviam reunido o “Clube Santo”. No inverno de 1889, sob o impulso de Hurlbut, ela ganhou cerca de quinhentos grupos locais em sessenta dias. Em 14 e 15 de maio de 1889, representantes de cinco sociedades de jovens da denominação se reuniram na Igreja Metodista Central de Cleveland, em Ohio, para fundi-las. Hurlbut chefiava a delegação da Liga de Oxford e propôs três bases para a união: um fundamento espiritual firme, cada grupo local sob a autoridade da igreja local e uma direção geral escolhida pela Conferência Geral. Dali nasceu a Liga Epworth, com o nome da cidade natal de Wesley, e Hurlbut foi o seu secretário correspondente até 1892. Para esses jovens ele escreveu, primeiro em artigos no Epworth Herald, o livro Our Church: What Methodists Believe, and How They Work (1902).
Os últimos anos
Em 1900 voltou ao pastorado, em Morristown e depois em South Orange. De 1909 a 1915 foi superintendente do Distrito de Newark, o supervisor das igrejas da região, e depois dirigiu o Instituto de Educação Religiosa de Newark. Aposentou-se em 1918. Desses anos são os livros de maior alcance: Hurlbut’s Story of the Bible (1904), a Bíblia inteira em 168 histórias, Hurlbut’s Life of Christ for Young and Old (1915) e The Story of the Christian Church (1918). Em 1920, como o mais antigo trabalhador vivo de Chautauqua, fez a homenagem ao bispo Vincent, morto naquele ano, e em 1921 publicou The Story of Chautauqua. Em 1924 a Wesleyan lhe deu um doutorado honorário em teologia. Hurlbut morreu em Bloomfield, Nova Jersey, em 2 de agosto de 1930, aos 87 anos.
Pensamento
Hurlbut fica na classe wesleyana. Não escreveu teologia sistemática; o que pensava está nos livros para professores e jovens, e ali ele se declara arminiano. Em Our Church (1902) ele divide as igrejas entre o lado calvinista e o arminiano, explica os nomes por Calvino e Armínio e resume: o metodismo é “arminiano na doutrina, episcopal no método e fervoroso no espírito”.
As quatro doutrinas de Wesley
O capítulo “A fé dos nossos pais” abre com 6 de junho de 1742, quando John Wesley, impedido de pregar na igreja de Epworth, pregou de pé sobre o túmulo do pai. Para Hurlbut, a “heresia” que fechou para Wesley os púlpitos da Inglaterra cabia em quatro doutrinas. A redenção universal: Cristo morreu por todos, e não só por um pequeno grupo escolhido. A liberdade da vontade: o ser humano não é uma máquina que cumpre um destino traçado e decide se aceita ou rejeita Cristo. O testemunho do Espírito: quem foi perdoado pode ter a certeza da salvação na própria consciência. A inteira santificação: o seguidor de Cristo pode ser aperfeiçoado no amor a Deus e ao próximo. Essas verdades, combatidas no século XVIII, tinham entrado, diz ele, nos hinários de quase todas as igrejas evangélicas.
A segunda doutrina pede uma observação. Hurlbut a descreve em linguagem popular, sem falar da graça que vem antes da escolha, e na sua história da igreja usa palavras parecidas para descrever Pelágio: “cada alma faz a sua própria escolha”. O arminianismo clássico diz outra coisa. Armínio ensinou que a vontade caída está perdida para o bem e só fica livre quando a graça a liberta, e Wesley chamou essa graça de preveniente. O artigo VIII dos Artigos de Religião metodistas, “Do livre-arbítrio”, diz que depois da queda o homem não pode, por suas forças, voltar-se para Deus, e precisa da graça de Deus por Cristo, que o previne para que tenha boa vontade. Em Our Church Hurlbut escreve que os Artigos nada dizem sobre a liberdade da vontade, mas o artigo VIII trata justamente disso. A declaração de fé deste site segue o artigo: somos incapazes de nos salvar, e é pela graça preveniente que o Espírito capacita cada pessoa a responder ao evangelho. O próprio Hurlbut chega perto disso quando diz que a vida nova dá ao crente o poder de fazer a vontade de Deus “como não podia fazer antes”.
A certeza da salvação
Das quatro doutrinas, a que ele mais destacava era o testemunho do Espírito (Romanos 8:16). Hurlbut conta a conversão de Wesley em Aldersgate, em 24 de maio de 1738, como o dia que merecia ser lembrado como o aniversário do metodismo. A doutrina, diz ele, está em Paulo e em João, em Bernardo de Claraval e em Tomás de Kempis; foi quase esquecida nas brigas depois da Reforma, guardada pelos morávios e devolvida às igrejas por Wesley. Hurlbut chega a aplicar a ela a frase de Lutero sobre a justificação: é o artigo pelo qual a igreja fica de pé ou cai. Cada cristão, escreve, deve saber “com certeza” que passou da morte para a vida.
A vida mais alta
Sobre a inteira santificação, Hurlbut usa uma imagem das Montanhas Rochosas. Quem sobe pelo lado do Pacífico vence um paredão depois do outro; quem vem do rio Missouri sobe tão devagar que não percebe onde termina a planície. No alto, os dois se encontram: para uns a passagem é um momento marcado, para outros, uma subida gradual. Ele distingue o nível do dever, em que o crente obedece como servo, lê a Bíblia como tarefa e sente duas naturezas brigando por dentro, e o nível do amor, em que obedece como filho e fala de Cristo porque ama as pessoas como Cristo as ama. É uma vida perfeita, explica, não por estar livre de erros, mas por estar inteiramente entregue a Cristo.
Aqui há uma diferença de ênfase. Hurlbut indica como caminho o cumprimento de cada dever, a consagração completa e a oração insistente. Wesley e a declaração de fé deste site insistem que a inteira santificação é dom da graça recebido pela fé (1 Tessalonicenses 5:23-24): a consagração prepara o coração, mas quem purifica é Deus.
A Bíblia antes das perguntas
No prefácio da vida de Cristo para crianças (1915), Hurlbut explica o método dos seus livros bíblicos para leigos. Não inventou cenas nem diálogos, para que o livro levasse o leitor à Bíblia e não para longe dela, e seguiu os quatro evangelhos aceitando como históricos “todos” eles e “todo” o seu conteúdo, sem discutir os milagres. Quem não conhece bem o que a Bíblia diz, argumenta, não está preparado para discutir as questões de autoria. Também não quis tirar da história lições de moral: as obras e as palavras de Jesus “farão a sua própria aplicação” a quem as lê.
Uma só igreja, muitos corpos de exército
Na História da Igreja Cristã (1918), Hurlbut divide a história em seis grandes períodos e diz que procurou mostrar o espírito da igreja e as causas dos acontecimentos, mais do que as controvérsias. Ainda assim marca o lugar do arminianismo: depois que o Concílio de Cartago (418) condenou Pelágio e a teologia de Agostinho virou o padrão da ortodoxia, só com Armínio, por volta de 1600, e com Wesley houve uma ruptura séria com o sistema agostiniano (veja por que Wesley rejeitou o calvinismo).
Essa firmeza andava com um espírito largo. Em Our Church, as denominações são “corpos de exército diferentes de uma grande tropa”, e não exércitos em guerra. Quando um pastor das montanhas do sul perguntou qual era a plataforma doutrinária de Chautauqua, Hurlbut respondeu que não havia nenhuma: ninguém ali queria atacar outra igreja, e quem o fizesse não voltaria ao palco.
Obras principais
- Manual of Biblical Geography (1884).
- Studies in Old Testament History (1890).
- Revised Normal Lessons (1893).
- Seven Graded Sunday Schools (1893), organizador.
- Our Church: What Methodists Believe, and How They Work (1902).
- Hurlbut’s Story of the Bible (1904).
- Hurlbut’s Teacher-Training Lessons for the Sunday School (1908).
- Organizing and Building up the Sunday School (1909).
- Hurlbut’s Life of Christ for Young and Old (1915).
- The Story of the Christian Church (1918).
- The Story of Chautauqua (1921).
Livros em português
- História da Igreja Cristã (Vida). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Jesse Lyman Hurlbut, The Story of Chautauqua (G. P. Putnam’s Sons, 1921), com as memórias dele sobre 1875, 1878 e as assembleias, Project Gutenberg.
- Jesse Lyman Hurlbut, Our Church: What Methodists Believe, and How They Work (Jennings & Pye, 1902), Internet Archive.
- Jesse Lyman Hurlbut, The Story of the Christian Church (John C. Winston, 1918; edição revista de 1933), Internet Archive.
- Jesse Lyman Hurlbut (org.), Seven Graded Sunday Schools (Hunt & Eaton, 1893), com “The Plainfield Plan”, Project Gutenberg.
- Jesse Lyman Hurlbut, Hurlbut’s Life of Christ for Young and Old (John C. Winston, 1915), Project Gutenberg.
- Frank W. Nicolson (org.), Alumni Record of Wesleyan University, 5ª ed. (1921), verbete n. 777, e a edição de 1931, Internet Archive.
- Joseph F. Berry, Four Wonderful Years: A Sketch of the Origin, Growth, and Working Plans of the Epworth League (1893), Internet Archive.
- “Hurlbut, Jesse Lyman”, em The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 5 (1909), CCEL.
- “Epworth League”, Encyclopedia of Cleveland History, Case Western Reserve University.
- Jesse Lyman Hurlbut, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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