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HistóriaTeólogos arminianos16 de 253

Joel B. Green: O exegeta metodista que quis devolver a Bíblia à igreja

Diego Gonçalves14 min de leitura2.773 palavras

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Neste texto

Em 1984, a igreja metodista de Peterhead, um porto de pesca no nordeste da Escócia, ligada ao circuito missionário do norte do país, tinha como pastor um ministro metodista do Texas. Joel B. Green estudava ali perto, em Aberdeen, onde escrevia, sob a orientação de I. Howard Marshall, uma tese sobre a morte de Jesus nos relatos da paixão. O pastor virou um dos estudiosos do Evangelho de Lucas mais lidos da sua geração, e ao longo da carreira de professor voltou várias vezes ao pastorado local. Essa vida dupla explica a causa que ele abraçou, a de ler a Bíblia como Escritura da igreja, e não só como documento antigo.

Vida

Texas

Joel Green nasceu em 1956. Formou-se em 1978 na Faculdade de Ciências Agrícolas da Texas Tech University, em Lubbock, com distinção máxima. Ainda estudante, em 1977, assumiu como pastor as igrejas metodistas unidas de Welch e Wellman, duas cidades pequenas do oeste do Texas.

Em seguida foi para Dallas, para a Perkins School of Theology, da Southern Methodist University, a escola onde Albert Outler tinha ensinado até 1979. Enquanto estudava, foi pastor auxiliar da First United Methodist Church de Irving (1978-1979) e da Pleasant Mound United Methodist Church, em Dallas (1979-1982). Em 1980 foi ordenado diácono e admitido em período probatório na Conferência Anual do Norte do Texas. Em 1981 recebeu o prêmio Albert C. Outler de Teologia, e em 1982 concluiu o mestrado em teologia (Th.M.).

Aberdeen e Berkeley

Em Aberdeen, Green fez o doutorado em Novo Testamento com Marshall, metodista como ele, e o concluiu em 1985. A tese saiu em 1988 pela editora alemã Mohr Siebeck como The Death of Jesus (A morte de Jesus).

De volta aos Estados Unidos, instalou-se na Califórnia. No New College for Advanced Christian Studies, em Berkeley, foi professor de Novo Testamento de 1985 a 1992 e diretor acadêmico a partir de 1986. Em 1987 foi ordenado presbítero da Igreja Metodista Unida. Foi pastor associado da St. Luke’s United Methodist Church, em Richmond (1989-1991), e presidiu de 1988 a 1990 um projeto de comida e abrigo para pessoas de rua em Berkeley. De 1990 a 1997 ensinou no American Baptist Seminary of the West e na Graduate Theological Union, e entre 1992 e 1994 o metodista foi copastor de uma igreja batista em Berkeley.

Os livros desse período o tornaram conhecido. Com Scot McKnight e Marshall, organizou o Dictionary of Jesus and the Gospels (1992), que ganhou o prêmio Gold Medallion em 1993. Escreveu The Theology of the Gospel of Luke (1995), para a Cambridge University Press, e publicou em 1997 o comentário The Gospel of Luke, na série New International Commentary on the New Testament (NICNT), da Eerdmans, escolhido pela revista Christianity Today entre os livros do ano. F. F. Bruce, editor da série, lhe deu conselhos sobre como fazer o volume, e Green se impôs um limite: no máximo cerca de 14 palavras de comentário para cada palavra que Lucas escreveu.

Asbury

Em 1997 Green foi para o Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, uma escola wesleyana onde ensinavam também Ben Witherington III e Kenneth J. Collins. Foi professor de interpretação do Novo Testamento e diretor dos estudos de grego até 2007, diretor da Escola de Teologia de 1999 a 2004 e reitor acadêmico (provost) de 2002 a 2006. De 2000 a 2008 foi também professor extraordinário de Novo Testamento na Universidade de St Andrews, na Escócia.

Em Asbury começaram dois interesses que marcariam a sua obra. O primeiro foi a neurociência: em 2002 fez estudos de pós-graduação em neuroanatomia e neurociência na Universidade do Kentucky, e passou a escrever sobre o que a Bíblia diz da pessoa humana à luz do que se sabe do cérebro. O segundo foi a interpretação teológica da Escritura. Com Craig Bartholomew e Christopher Seitz, organizou a série Studies in Theological Interpretation, e dirigiu como editor-chefe o Journal of Theological Interpretation desde a preparação do primeiro número, lançado em 2007, até 2017.

Fuller

Em 2007 Green se mudou para o Fuller Theological Seminary, em Pasadena, como professor de interpretação do Novo Testamento. Foi diretor associado do Centro de Estudos Teológicos Avançados, o programa de doutorado, de 2008 a 2016 e de novo a partir de 2019; diretor da Escola de Teologia de 2014 a 2018; e reitor acadêmico de 2016 a 2018. Desde 2011 é pastor de ensino da La Cañada United Methodist Church, perto de Pasadena.

Em 2011 a Eerdmans o nomeou editor geral da NICNT, o quarto da história da série, depois de Ned Stonehouse, F. F. Bruce e Gordon Fee. Green foi também editor do Novo Testamento da Common English Bible, uma tradução inglesa lançada em 2011, na qual foi o tradutor principal da Carta de Tiago. Com William Willimon, organizou a Wesley Study Bible (2009), uma Bíblia de estudo com notas inspiradas na teologia de John Wesley, e depois a CEB Study Bible (2013). Presidiu de 2005 a 2008 o conselho da Society of Biblical Literature. Desde 2018 integra o conselho de referência da Christians for Biblical Equality, entidade evangélica que defende o ministério das mulheres.

Depois vieram Conversion in Luke-Acts (2015), Discovering Luke (2021) e James: A Commentary (2025). Hoje Green é professor sênior em Fuller e se apresenta como professor “(quase) aposentado”. Em julho de 2025 abriu um boletim no Substack, onde escreve para o público da igreja.

Pensamento

Um wesleyano

Green entra nesta série como wesleyano. Ele se apresenta assim: “Eu mesmo pertenço à tradição wesleyana e sou ordenado na Igreja Metodista Unida”. É presbítero de uma igreja cujos Artigos de Religião, herdados de Wesley, ensinam que ninguém pode voltar-se para Deus pela própria força e que a graça de Deus por Cristo vem antes de nós, para que tenhamos boa vontade (art. VIII). Organizou a Wesley Study Bible e escreveu Reading Scripture as Wesleyans (Lendo a Escritura como wesleyanos, 2010). A sua contribuição está na exegese, e a sua classe aparece no modo como lê a conversão, a santidade e a perseverança.

A Bíblia lida como Escritura

O tema que atravessa a obra de Green é a interpretação teológica da Escritura. Ele foi formado, como diz, no auge da crítica histórica, que separava o que o texto “significou” para os primeiros leitores do que ele “significa” hoje, e deixava o segundo passo para os teólogos. Para Green, essa divisão empobreceu as duas pontas. O biblista virou filólogo e historiador, e o teólogo sistemático passou a organizar ideias longe do texto.

No artigo “Practicing the Gospel in a Post-Critical World” (Journal of the Evangelical Theological Society, 2004), Green resume a proposta numa frase: se quisermos fazer uma exegese de fato teológica da Escritura cristã, “as duas disciplinas, os estudos bíblicos e a teologia sistemática, precisam mudar”. O argumento é que não existe leitura neutra, feita de fora, sem convicções. Por isso a Bíblia deve ser lida dentro da grande narrativa que ela mesma conta, da criação e da queda até Cristo e a nova criação. A autoridade dos relatos bíblicos, escreve, está na sua condição de “história revelada”: eles interpretam os acontecimentos à luz do caráter e do propósito de Deus.

Daí veio o livro que ele organizou com Max Turner, Between Two Horizons (2000), publicado em português como Bíblia e doutrina. Os ensaios nasceram entre os autores da série de comentários Two Horizons, que Green organiza desde 1995 e que junta em cada volume a exegese e a reflexão teológica.

Ler como Wesley

Em Reading Scripture as Wesleyans, Green aponta dois erros comuns entre os metodistas. Uns leem a Bíblia como na universidade, com a fé suspensa e sem interesse pela formação espiritual. Outros rejeitam qualquer disciplina de leitura em nome de “tomar a Bíblia ao pé da letra”. Nenhum dos dois, para ele, é wesleyano. Wesley encontrava nas Escrituras o caminho da salvação e lia tudo com os olhos nele. Num texto de 2025, Green diz que “uma leitura wesleyana da Escritura será conhecida pelos seus objetivos de salvação”, e fala do estudo da Bíblia como meio de graça.

No ensaio sobre Wesley e a Primeira Carta de João, publicado em outubro de 2026, ele lembra que Wesley chamou essa carta de “a parte mais profunda da Escritura Sagrada”. Dela vêm temas wesleyanos como a certeza da salvação, que se reconhece na obediência, no amor aos irmãos e no testemunho do Espírito, e a pergunta sobre o pecado no crente. Diante de 1 João 1:8 e 3:9, que parecem se contradizer, Wesley não cala nenhum dos dois versículos e deixa de pé tanto a advertência quanto a promessa. Green resume: “A santidade é como a graça de Deus se mostra numa vida humana”. Ele também lê os mandamentos da carta como promessas, apoiadas na graça.

Lucas e a conversão

No comentário de Lucas, Green lê o Evangelho como narrativa, prestando atenção à “ordem” que o próprio Lucas promete a Teófilo (Lucas 1:3). Cada episódio é explicado pela função que tem na história como um todo.

Conversion in Luke-Acts (2015) volta a esse tema com a ajuda das ciências cognitivas. Green rejeita a ideia de que a conversão aconteça só no interior da pessoa, numa alma separada do corpo. Para Lucas, converter-se é mudar de direção, entrar num caminho e passar a viver de outro modo com o povo de Deus, que partilha o pão, os bens e a oração (Atos 2:42-47). Ele trata arrependimento e conversão como a mesma coisa. O exemplo de Zaqueu mostra isso: a restituição que ele promete é a vida já voltada para o propósito de Deus (ver Zaqueu em Lucas 19:1-10).

Uma das perguntas do livro é quem converte: Deus ou a própria pessoa? Green responde que a conversão vem da iniciativa de Deus e inclui a resposta humana. A resposta corrige os dois lados. Recusa as leituras centradas na vontade humana, comuns no próprio ambiente metodista, e recusa também as que fazem da ação de Deus a única causa, como em boa parte da tradição reformada. É a posição arminiana: a graça vem antes e capacita, e a pessoa responde, sem que Deus a force.

Green trata também da “desconversão”. Se a conversão é um caminho, é possível voltar atrás. Ele lê a parábola dos solos (Lucas 8:4-8) e os casos de Judas, de Ananias e Safira e de Simão, o mágico de Atos 8. Simão foi batizado, mas, escreve Green, “pode ter transferido a sua lealdade ao Senhor Jesus, mas parece ainda pensar como um mágico”. A leitura combina com a perseverança condicional que a tradição wesleyana ensina: quem crê está seguro enquanto permanece em Cristo, e a fé pode ser abandonada (ver o capítulo sobre a perseverança dos santos).

Corpo e alma

O ponto mais discutido da obra de Green é a sua visão da pessoa humana. Em Body, Soul, and Human Life (2008) e nos livros que organizou sobre o tema, ele defende o que chama de monismo, também conhecido como fisicalismo não redutivo. O ser humano, diz ele, citando Brevard Childs, “não tem uma alma, é uma alma”: uma unidade, e não um corpo habitado por uma substância separada. As capacidades que a teologia atribuía à alma têm base no cérebro, e a pessoa se define pela sua história e pelas suas relações.

Daí vem a conclusão que mais o separa da tradição. Green nega o estado intermediário consciente entre a morte e a ressurreição. A identidade de quem morre fica guardada por Deus, “preservada no próprio ser de Deus”, até a ressurreição do corpo na nova criação. A vida depois da morte é dom de Deus, e não algo que a pessoa tem por natureza. O teólogo reformado John W. Cooper e filósofos como J. P. Moreland defendem o dualismo, a existência de uma alma que sobrevive ao corpo. A teologia sistemática deste site fica com a posição tradicional e afirma que os crentes que morrem estão com Cristo, conscientes, à espera da ressurreição (ver A morte e o estado intermediário).

A cruz

Em Recovering the Scandal of the Cross (2000, com Mark D. Baker), Green mostra que os autores do Novo Testamento descrevem a morte de Jesus com muitas imagens, e pede que nenhuma teoria engula as outras. A crítica principal do livro vai contra a substituição penal na forma popular nos Estados Unidos, que os autores ligam ao teólogo Charles Hodge, do século XIX. Eles escrevem que as Escrituras, no seu conjunto, não dão base para o retrato de “um Deus irado que precisa ser aplacado” por um sacrifício. Um capítulo trata do Japão, onde a vergonha pesa mais que a culpa.

Críticos evangélicos, como Kevin Kennedy e Andrew Evans, viram no livro uma caricatura da substituição penal. Aqui também Green se afasta do que este site ensina. Com Armínio e Wesley, o site põe a substituição penal no centro da cruz: Cristo levou sobre si a pena do nosso pecado, e as outras imagens se organizam ao redor dessa (ver o capítulo sobre a expiação).

Obras principais

  • How to Read Prophecy (InterVarsity, 1984).
  • How to Read the Gospels and Acts (InterVarsity, 1987).
  • The Death of Jesus: Tradition and Interpretation in the Passion Narrative (Mohr Siebeck, 1988).
  • The Kingdom of God: Its Meaning and Mandate (Bristol, 1989).
  • Dictionary of Jesus and the Gospels, organizado com Scot McKnight e I. Howard Marshall (InterVarsity, 1992; 2.ª ed., 2013).
  • The Theology of the Gospel of Luke (Cambridge University Press, 1995).
  • Hearing the New Testament: Strategies for Interpretation, organizador (Eerdmans, 1995; 2.ª ed., 2010).
  • The Gospel of Luke, New International Commentary on the New Testament (Eerdmans, 1997).
  • Between Two Horizons: Spanning New Testament Studies and Systematic Theology, organizado com Max Turner (Eerdmans, 2000).
  • Recovering the Scandal of the Cross, com Mark D. Baker (InterVarsity, 2000; 2.ª ed., 2011).
  • Introducing the New Testament: Its Literature and Theology, com Paul J. Achtemeier e Marianne Meye Thompson (Eerdmans, 2001).
  • Salvation (Chalice, 2003).
  • In Search of the Soul: Four Views of the Mind-Body Problem, organizado com Stuart Palmer (InterVarsity, 2005).
  • 1 Peter, Two Horizons New Testament Commentary (Eerdmans, 2007).
  • Seized by Truth: Reading the Bible as Scripture (Abingdon, 2007).
  • Body, Soul, and Human Life: The Nature of Humanity in the Bible (Baker Academic, 2008).
  • Wesley Study Bible, editor geral (Abingdon, 2009).
  • Reading Scripture as Wesleyans (Abingdon, 2010).
  • Practicing Theological Interpretation (Baker Academic, 2011).
  • Dictionary of Scripture and Ethics, editor geral (Baker Academic, 2011).
  • Why Salvation? (Abingdon, 2013).
  • Conversion in Luke-Acts: Divine Action, Human Cognition, and the People of God (Baker Academic, 2015).
  • Discovering Luke: Content, Interpretation, Reception (Eerdmans, 2021).
  • James: A Commentary, New Testament Library (Westminster John Knox, 2025).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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