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HistóriaTeólogos arminianos8 de 253

John Goodwin: O pregador de Coleman Street que defendeu a redenção universal

Diego Gonçalves12 min de leitura2.493 palavras

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Neste texto

Em 27 de agosto de 1660, três meses depois da volta de Carlos II ao trono, o carrasco de Londres acendeu uma fogueira diante do tribunal da Old Bailey e queimou um livro publicado onze anos antes. O título vinha em grego, Hybristodikai, e a tradução inglesa dizia tudo: Os obstrutores da justiça. O livro defendia o julgamento e a execução de Carlos I. O autor, John Goodwin, pastor em Coleman Street, estava escondido desde junho, quando foi mandado prender junto com John Milton. Goodwin escapou de castigo maior, e um bispo da época, Gilbert Burnet, deu uma explicação curiosa para isso: a fama de arminiano o protegeu.

Retrato de John Goodwin, gravura de George Glover
John Goodwin aos 47 anos, gravura de George Glover, 1641. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Norfolk e Cambridge

John Goodwin nasceu no condado de Norfolk, no leste da Inglaterra, por volta de 1594. Estudou no Queens’ College, em Cambridge, onde concluiu o mestrado e foi eleito membro (fellow) do colégio em 10 de novembro de 1617. Deixou a universidade ao se casar, recebeu as ordens da Igreja da Inglaterra e ganhou fama de pregador na sua região: pregou em Raynham, King’s Lynn, Yarmouth e Norwich, e serviu por um tempo na igreja de St. Mary, em Dover. Em 1622 era o pároco de East Raynham. Teve sete filhos.

Vigário de St. Stephen’s, Coleman Street

Goodwin chegou a Londres em 1632. Em 18 de dezembro de 1633 tomou posse como vigário de St. Stephen’s, na rua Coleman, uma das paróquias mais puritanas da cidade. O cargo estava vago porque o vigário anterior, John Davenport, tinha deixado a Inglaterra para não se submeter às exigências dos bispos. Goodwin ficou do lado dos puritanos e, sob a influência de John Cotton, inclinou-se para o independentismo, a ideia de que cada congregação local de crentes se governa sem bispo nem presbitério acima dela.

Nos anos em que o arcebispo William Laud apertava a disciplina da igreja, Goodwin andou com cuidado. Em 1635 foi acusado de desobedecer aos cânones; o bispo William Juxon arquivou o caso depois que ele prometeu se corrigir. Ao mesmo tempo, um grupo de fiéis começou a se reunir com ele na sua casa, em Swan Alley. Entre eles havia comerciantes, artesãos e o livreiro Henry Overton, que publicaria muitos dos seus livros. Por volta de 1639, o grupo já se via como uma igreja “reunida”, formada pela escolha dos membros e não pelo endereço. Em 1640, Goodwin ajudou a redigir a petição do clero de Londres contra os novos cânones do arcebispo, e foi um dos primeiros pastores a apoiar o Parlamento quando a guerra civil começou, em 1642.

A igreja reunida e a expulsão

A partir dos anos de 1640, Goodwin tentou levar o modelo da igreja reunida para dentro da própria paróquia: pregava a todos, mas passou a dar a Ceia só aos que ele e a congregação reconheciam como crentes. Os paroquianos que ficaram de fora protestaram, e os presbiterianos, que planejavam uma igreja nacional organizada por paróquias, viram no projeto uma ameaça. Em maio de 1645, Goodwin foi afastado de St. Stephen’s por se recusar a ministrar o batismo e a Ceia a todos sem distinção. Nesse mesmo ano morreram dois dos seus filhos. Ele seguiu pastoreando a congregação independente, que continuou a crescer.

Os ataques vieram em série. O presbiteriano Thomas Edwards, em Gangraena (1646) chamou Goodwin de “sectário monstruoso, um composto de socinianismo, arminianismo, antinomianismo, independentismo, papismo e até de ceticismo”. Edwards chegou a apresentar a morte dos filhos de Goodwin, vítimas da peste, como juízo de Deus contra as reuniões na casa dele. Goodwin respondeu em Cretensis. William Prynne e John Vicars também escreveram contra ele, e a sua tradução parcial dos Estratagemas de Satanás, de Jacopo Aconcio, publicada em 1648, rendeu-lhe a acusação de socinianismo, isto é, de negar a Trindade e a divindade de Cristo. A acusação não procedia: Goodwin pregou contra as ideias antitrinitárias de John Biddle. O historiador Edmund Calamy resumiu o temperamento dele numa frase: Goodwin “era um homem à parte, era contra todos e tinha todos contra si”.

A defesa da tolerância e da revolução

Em 1644, Goodwin publicou Theomachia, dois sermões pregados em Coleman Street sobre o conselho de Gamaliel em Atos 5:39: se uma obra vem de Deus, ninguém pode destruí-la, e quem tentar será achado lutando contra Deus. Daí ele tirou um argumento contra a repressão de doutrinas: como saber, com certeza, que a ideia perseguida não vem de Deus? Goodwin tornou-se um dos primeiros defensores da tolerância religiosa na Inglaterra, embora com limites que ele mesmo fixava.

Na política foi tão longe quanto na igreja. Em Right and Might Well Met (1648) aplaudiu o Expurgo de Pride, quando o exército expulsou do Parlamento os deputados que queriam negociar com o rei. Visitou Carlos I antes da execução e saiu da conversa sem boa impressão. Em Hybristodikai (30 de maio de 1649) defendeu o julgamento do rei e o direito soberano do povo. Em 1649 foi reconduzido ao púlpito de St. Stephen’s.

Restauração e morte

A volta da monarquia, em 1660, encerrou a carreira pública de Goodwin. Em 16 de junho foi mandado à prisão, e a Lei de Indenização, o excluiu de qualquer cargo público. O livro sobre a execução do rei foi queimado em agosto. Em 29 de maio de 1661, Theophilus Alford tomou posse de St. Stephen’s, e Goodwin voltou a pastorear só a sua congregação. Goodwin morreu em Londres em 1665, o ano da grande peste.

Pensamento

Onde Goodwin fica no arminianismo

Goodwin é um arminiano clássico da vertente inglesa do século XVII, o principal nome do que os historiadores chamam de “novo arminianismo” da Revolução Puritana. A classe vem da obra dele: em Redemption Redeemed (1651) defendeu que Cristo morreu por todos, que Deus dá a todos graça suficiente para crer, que a eleição depende da fé e que o crente verdadeiro pode cair e se perder. O que o distingue dos arminianos da corte, como Jeremy Taylor e os clérigos de Laud, é que ele era puritano, independente e republicano, e chegou ao arminianismo por dentro do calvinismo.

Ele mesmo contou a mudança no prefácio de Redemption Redeemed, assinado no seu escritório em Coleman Street em fevereiro de 1650 (1651 no calendário atual). Por muitos anos, diz ele, alimentou-se do pão que os colegas de ministério preparavam para o povo, mas esse pão lhe parecia cheio de areia na boca. O que o levou a estudar a fundo a questão foi um panfleto contra ele, A Vindication of Free Grace. Os biógrafos situam a virada em 1647. Benedict Bird, numa tese de Cambridge (2022), mostra que ela foi mais gradual: desde os sermões dos anos de 1630, Goodwin vinha abandonando o “universalismo hipotético” que aprendera na juventude, a doutrina de teólogos reformados como John Davenant, para quem Cristo morreu por todos de algum modo, mas Deus decretou dar a fé eficaz só aos eleitos.

John Wesley leu Goodwin com atenção. Em 1765 publicou um resumo de Imputatio Fidei para responder aos defensores calvinistas da justiça imputada, e numa carta ao pregador Walter Sellon, que tinha começado um trabalho sobre Redemption Redeemed, advertiu que não esquecesse “a resposta do Dr. Owen”. Em 1822, o metodista Thomas Jackson, presidente da Conferência Wesleyana em 1838, publicou The Life of John Goodwin. Em 2001, o editor John D. Wagner lançou uma versão resumida e atualizada de Redemption Redeemed.

A redenção para todos

Redemption Redeemed é um livro enorme, dedicado a Benjamin Whichcote, vice-reitor da Universidade de Cambridge, e aos chefes dos colégios. Goodwin reúne, em quatro grupos, os textos que falam da morte de Cristo por todos, e conclui que a redenção comprada na cruz foi destinada “a todos e a cada um dos homens, sem exceção de ninguém” (leia mais sobre a expiação para todos).

Para explicar por que nem todos se salvam, Goodwin usa a distinção, que ele atribui a João Crisóstomo e João Damasceno, entre a vontade antecedente e a vontade consequente de Deus. Pela vontade antecedente, Deus quer a salvação de todos, como diz 1 Timóteo 2:4, e por isso concede a todos meios suficientes. Nas palavras dele, “uma suficiência de graça e de meios para obter a salvação” é dada por Deus a todos, “sem nenhuma consideração” do mérito ou do demérito de cada um (Redemption Redeemed, cap. XVII). Pela vontade consequente, Deus decreta salvar quem crê e persevera até o fim, e condenar quem despreza a graça oferecida. Quem se perde não se perde por falta de graça, mas porque recusou uma graça que podia ter recebido.

Goodwin rejeitava o rótulo de pelagiano e o devolvia aos adversários. Sobre o de arminiano, respondeu com ironia: se as opiniões do livro eram arminianas, então “os antigos pais e escritores da Igreja cristã eram em geral arminianos”, e o próprio Calvino tivera “sérios acessos” de arminianismo (prefácio de Redemption Redeemed). Ele não se via como discípulo de Jacó Armínio e insistia que as suas ideias não dependiam do sistema dele.

Perseverança condicional

Uma parte grande de Redemption Redeemed, sete capítulos, é uma “digressão” sobre a perseverança dos santos. Goodwin sustenta que o crente verdadeiro pode cair da graça até a perdição, e que essa doutrina consola e protege mais do que a contrária, porque leva o crente a vigiar. O exemplo central é o rei Davi. Davi era regenerado antes do adultério e do homicídio, mas, para Goodwin, deixou de sê-lo enquanto não se arrependeu. Com base em Ezequiel 18:24, afirma que um só pecado daqueles que a Escritura chama de “abominação”, enquanto não é confessado, põe o crente na condição de incrédulo. Para ele, porém, a queda quase sempre tem volta: a impossibilidade de renovação de Hebreus 6 vale só para os casos mais extremos.

John Owen, o maior teólogo puritano da época, respondeu com A doutrina da perseverança dos santos (1654) (leia sobre a apostasia na Bíblia).

Justificação e expiação: onde Goodwin se afasta de Armínio

Em Imputatio Fidei (1642) Goodwin negou que a justiça de Cristo seja imputada ao crente. Para ele, a Escritura fala da justificação como perdão: Deus não declara o pecador legalmente justo, mas lhe perdoa tudo o que fez contra a lei. O que é “imputado como justiça” é a própria fé, como em Romanos 4:3. Por trás disso está uma visão da cruz próxima da teoria governamental de Hugo Grócio: para Goodwin, a maldição da lei “não foi propriamente executada sobre Cristo”; a morte dele foi a razão pela qual Deus, como governante, pôde suspender a pena e perdoar sem desmoralizar a sua lei. J. Matthew Pinson observa que, nesse ponto, Goodwin foi além de Armínio e da tradição dos batistas gerais, como Thomas Grantham, que mantinham a satisfação penal e a imputação da justiça de Cristo.

Aqui a distância em relação à fé que seguimos neste site precisa ficar clara. Com Armínio e com Wesley, afirmamos que Cristo levou sobre si a pena do pecado (satisfação penal substitutiva) e que somos justificados pela imputação da justiça de Cristo, recebida pela fé (veja o estudo sobre a expiação e o capítulo sobre a justificação pela fé).

O mesmo vale para o pecado original. Goodwin escreveu que “o pecado de Adão em lugar nenhum da Escritura é dito imputado à sua posteridade” (Imputatio Fidei, parte II). Ele afirmava que todos nascem pecadores, porque descendem de um Adão corrompido (Romanos 5:19), mas negava a culpa herdada. Bird resume a posição madura de Goodwin como uma cooperação entre graça e vontade em que a decisão final em cada etapa cabe ao ser humano. A Declaração de Sentimentos de Armínio e a nossa declaração de fé dizem mais: depois da queda, a vontade humana está perdida para o bem, e só a graça preveniente, que vem antes e liberta, torna possível a fé. Goodwin também nunca negou a necessidade da graça, e é isso que o separa do pelagianismo que lhe atribuíam.

A razão e a Escritura

Em The Divine Authority of the Scriptures Asserted (1648), livro que Richard Baxter elogiou, distinguiu a Palavra de Deus das cópias e traduções da Bíblia: a Palavra existia no coração e na consciência dos homens antes de ser escrita. Daí admitia que pagãos que nunca ouviram o evangelho pudessem ser salvos. Ao mesmo tempo, combateu os buscadores (seekers) e os quakers. Pela confiança na razão, os historiadores o aproximam dos platônicos de Cambridge, como o próprio Whichcote.

Obras principais

  • Imputatio Fidei, or a Treatise of Justification (1642).
  • Theomachia (1644).
  • Satan’s Stratagems, tradução parcial de Jacopo Aconcio (1648; reeditada em 1651 como Darkness Discovered).
  • The Divine Authority of the Scriptures Asserted (1648).
  • Right and Might Well Met, em defesa do Expurgo de Pride (1648).
  • Hybristodikai, The Obstructours of Justice, em defesa do julgamento de Carlos I (1649).
  • Apolutrosis Apolutroseos, or Redemption Redeemed (1651).
  • Water-Dipping No Firm Footing for Church Communion (1653).
  • Cata-Baptism, contra os batistas (1655).
  • Basanistai, or the Triers Tried (1657).
  • Pleroma to Pneumatikon, publicada depois da morte (1670).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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