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HistóriaTeólogos arminianos1 de 253

John N. Oswalt: o professor de Isaías que chamou a santidade de oferta

Diego Gonçalves13 min de leitura2.628 palavras

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Neste texto

Numa semana de ênfase espiritual na Taylor University, em Indiana, um estudante que tinha entrado na faculdade para jogar futebol americano ouviu do pregador convidado uma pergunta direta: o que ele se recusava a fazer por Deus? A resposta veio pronta: “Eu não vou ser pregador”. O pregador era Dennis Kinlaw, e a réplica dele foi que Cristo não podia ocupar o trono de uma vida que recusava o chamado de Deus. O rapaz se rendeu. Não sentiu nada de diferente naquela hora, contaria depois, mas sabia que tudo ia mudar. John Newell Oswalt se tornaria um dos principais intérpretes evangélicos de Isaías e uma das vozes mais ouvidas da santidade wesleyana nos Estados Unidos.

Vida

A fazenda perto de Mansfield

Oswalt nasceu em 21 de junho de 1940, perto de Mansfield, no Ohio, numa fazenda que o trisavô tinha comprado em 1826. O pai, Glenn Starr Oswalt, era fazendeiro; a mãe, Mildred, professora. Aos cinco anos, na hora das crianças do acampamento de Sychar, em Mount Vernon, ouviu a parábola do rico e Lázaro e pediu a Jesus que entrasse no seu coração, mas passou a infância sem certeza da salvação. Aos dez, ouviu um jovem pregador do Asbury College e passou a ensaiar sermões para as vacas no caminho da ordenha. Aos treze, andando pela estrada da fazenda, sentiu um chamado definido. Quando contou à mãe, ela chorou: depois das duas filhas, tinha pedido a Deus um filho e prometido dedicá-lo ao serviço de Deus. Oswalt lembraria a surpresa, e um certo desgosto, de descobrir que aquilo que tomava por decisão sua já era plano de Deus antes de ele nascer.

Taylor, Asbury e Brandeis

Mesmo assim fugiu do púlpito. Foi para a Taylor University, em Upland, matriculado no curso preparatório de direito, e acabou formado em oratória e teatro em 1961. Ali começou a ler as Escrituras a sério e, num verão de trabalho na Maranatha Bible Conference, no Michigan, conheceu Karen Kennedy, com quem se casou em 1962. No segundo ano da faculdade veio a rendição provocada pela pergunta de Kinlaw, e com ela a certeza que lhe faltara desde menino.

No Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, concluiu o bacharelado em divindade em 1964 e o mestrado em teologia em 1965. O hebraico abriu para ele o Antigo Testamento, e perto do fim do segundo ano sentiu um chamado claro para ensiná-lo. No ano seguinte Kinlaw chegou ao seminário como professor e lhe pôs nas mãos A religião de Israel, de Yehezkel Kaufmann, que defende que a fé de Israel rompeu com o mito desde o começo. A ideia o acompanharia pelo resto da carreira. Na Universidade Brandeis, perto de Boston, estudou com o semitista Cyrus H. Gordon e fez o doutorado em 1968, com uma tese sobre os hinos e as orações egípcias ao deus Amon-Rá no tempo dos faraós Ramsés.

Professor, presidente e tradutor

Depois de dois anos no Barrington College, em Rhode Island, voltou em 1970 ao Asbury Seminary, onde chegou a professor de línguas e literatura bíblicas. Em 1973 R. K. Harrison, editor da série New International Commentary on the Old Testament, convidou-o a escrever o comentário de Isaías. O primeiro volume saiu em 1986; o segundo, em 1998.

De 1983 a 1986 presidiu o Asbury College, vizinho do seminário, e de 1986 a 1989 ensinou Antigo Testamento e línguas semíticas na Trinity Evangelical Divinity School, perto de Chicago. Voltou ao Asbury Seminary de 1989 a 1999. Foi editor do Antigo Testamento da Wesley Bible (1990), trabalhou na equipe da NIV e foi tradutor sênior de Isaías na New Living Translation. Ordenado na Igreja Metodista Unida, pastoreou igrejas em tempo parcial na Nova Inglaterra e no Kentucky.

De 1999 a 2009 foi professor pesquisador no Wesley Biblical Seminary, em Jackson, no Mississippi, escola que une a inerrância da Bíblia e a pregação da santidade e onde também ensinou Gareth Lee Cockerill. Ali tinha dado, em 1995, as preleções que se tornaram Called to Be Holy (1999). Em 2009 voltou ao Asbury Seminary como professor visitante distinto de Antigo Testamento. Em 2017 colegas e ex-alunos lhe dedicaram um volume de ensaios organizado por Bill T. Arnold e Lawson G. Stone. Em março de 2019, depois da morte repentina do presidente John Neihof, assumiu a presidência interina do Wesley Biblical Seminary até março de 2020: “senti Deus me dirigir”, disse, “com a mesma clareza de qualquer outro momento da minha vida”.

Acampamentos e uma teologia sistemática

Já octogenário, Oswalt conduziu estudos semanais de Isaías na Francis Asbury Society, a entidade fundada por Kinlaw, e prega em acampamentos de santidade como o de Indian Springs, na Geórgia, onde Kinlaw se converteu em 1935. Transferiu-se para a Igreja Metodista Global, formada por igrejas que deixaram a Metodista Unida. É o editor principal de Holy Love: A Wesleyan Systematic Theology, obra em cinco volumes escrita por uma equipe ao longo de quase 25 anos para pastores e leigos. Ela segue a convicção de Kinlaw de que a teologia deve começar por Jesus, e por isso o primeiro volume trata da cristologia.

Pensamento

Oswalt é um wesleyano do movimento de santidade. Pastor metodista, professor de escolas nascidas desse movimento e editor de uma teologia sistemática wesleyana, ele defende a inteira santificação nos termos de John Wesley e dá à graça de Deus a primazia em toda a salvação.

A Bíblia entre os mitos

O fio que liga a tese sobre Amon-Rá ao livro The Bible Among the Myths (2009) é uma pergunta: a Bíblia é só mais uma literatura do antigo Oriente Próximo? Num artigo de 1973 sobre os bezerros de ouro, Oswalt mostrou que os hinos egípcios descrevem Amon-Rá em termos quase monoteístas, mas que os egípcios “eram incapazes de distinguir entre o criador e o criado” (Evangelical Quarterly, 1973). Para eles o deus estava dentro do mundo. Por isso o povo que saiu do Egito pôde adorar o bezerro pensando adorar o próprio Senhor, e por isso Moisés e os profetas reagiram com tanta força.

No livro de 2009 a distinção ganha nome. O mito se apoia na continuidade: o divino, a natureza e o ser humano formam um só tecido, os deuses se multiplicam com as forças da natureza, o tempo gira em ciclos e o rito tenta manipular os deuses. A Bíblia se apoia na transcendência: Deus é diferente da criação, cria do nada e se revela por atos únicos na história. As semelhanças com os textos vizinhos são superficiais, e as diferenças, essenciais: “o que quer que a Bíblia seja, ela não é mito”. Por isso a história importa. A teologia bíblica interpreta acontecimentos reais, e, sem eles, “a teologia é simplesmente ilusória” (The Bible Among the Myths, p. 170).

Um artigo de 1977 aplica o critério às passagens sobre Raabe e o Leviatã, como Isaías 51:9-10 e Salmos 74:12-17. Contra Brevard Childs, que supunha um mito hebraico do dragão depois “historicizado”, e contra Kaufmann, para quem os hebreus nem entendiam o mito, Oswalt propõe que uma fé já segura de si tomou a linguagem do mito para levar a vitória sobre o caos para dentro da história da redenção. O mal, escreve, não está na matéria do cosmo: vem de escolhas erradas das criaturas, e “a verdadeira conquista da desordem e do mal acontece na vida e no coração dos seres humanos, quando Deus os redime” (Evangelical Quarterly, 1977, p. 166).

Isaías: o servo e a graça

Para Oswalt, nenhum livro do Antigo Testamento reúne tanto da teologia bíblica quanto Isaías. Ele defende que o livro inteiro vem do profeta do século VIII a.C., contra a opinião majoritária que o divide entre dois ou três autores: falar a pessoas que viveriam 150 anos depois é impossível, responde, a não ser para quem fala da parte de Deus.

A leitura dele organiza o livro em torno do serviço. Os capítulos 1 a 5 expõem o problema de um povo chamado para servir que não serve. O capítulo 6 traz o chamado do profeta diante do Deus santo (ver o estudo de Isaías 6). Os capítulos 7 a 39 perguntam se Deus é digno de confiança, porque ninguém serve a quem não confia. Os capítulos 40 a 55 respondem com a graça o que nos move a confiar e como pecadores podem servir ao Deus santo: o Servo é o meio gracioso pelo qual nos tornamos servos (ver Isaías 53). Os capítulos 56 a 66 mostram que a graça não anula a justiça, mas a faz aparecer na vida do servo.

A graça vem antes de tudo. Ao comentar Isaías 63:17, Oswalt afirma que o profeta não tira do povo a responsabilidade pelo pecado e que, em toda a Escritura, a relação com Deus “não é questão de iniciativa humana diante de uma divindade essencialmente passiva” (The Book of Isaiah, Chapters 40-66, p. 613-614). Rejeita ao mesmo tempo o dualismo, que faz de Deus o autor do bem e do mal, e o humanismo, que faz do homem o senhor do próprio destino. É a posição do arminianismo wesleyano: Deus toma a iniciativa, e a pessoa alcançada pela graça responde de verdade, sem ser forçada.

A santidade como oferta

Em Called to Be Holy Oswalt percorre os dois Testamentos para mostrar que a santidade é o conteúdo do evangelho: Deus perdoa para habitar no meio do seu povo e torná-lo parecido com ele, e “uma igreja sem o caráter de Deus não tem o poder de Deus” (p. 3). A perfeição bíblica é um coração indiviso, e não a ausência de toda falha.

Numa entrevista de 2025, resumiu o que os wesleyanos podem afirmar juntos sobre a inteira santificação, a obra da graça pela qual Deus purifica o coração e o enche de amor perfeito. Depois da conversão resta no crente uma disposição de vontade própria que ele nem percebe, e viver com ela produz derrota. Vem então um momento de crise em que a pessoa crê e o Espírito faz de Jesus o Senhor absoluto da vida, pondo no lugar do egoísmo o desejo de agradar a Jesus em tudo. Wesley chamou esse momento de inteira santificação. Daí em diante o crente tem o desejo e a capacidade de não transgredir voluntariamente a lei conhecida de Deus, embora ainda restem padrões inconscientes de pensamento e conduta, que o Espírito vai corrigindo no crescimento em santidade.

Tudo isso é dom. Oswalt lamenta que a santidade tenha sido pregada como exigência, quando ela “não é uma exigência, é uma oferta”. Pede o fim da introspecção ansiosa: a santificação é uma história de amor com Jesus, uma pessoa a ser amada e obedecida, e não uma coisa a conquistar. A pergunta certa é “Jesus, o que o Senhor quer?”. A declaração de fé deste site diz o mesmo com outro vocabulário: fala em purificar o coração do pecado original onde Oswalt fala em trocar a disposição de vontade própria, e as duas tratam a inteira santificação como graça recebida pela fé, e não como uma vida livre de erros (ver a santificação na teologia sistemática).

A Escritura acima da experiência

Conhecer só o Novo Testamento, compara Oswalt, é como construir um sobrado começando pelo segundo andar: as tábuas caem antes de serem pregadas. A salvação rasa, voltada só para as necessidades e para o céu, nasce da ignorância do Antigo Testamento. Ele aponta também o que chama de defeito genético do metodismo: sem que Wesley quisesse, muitos seguidores fizeram da experiência a autoridade principal, e foi isso, a seu ver, que dividiu a Igreja Metodista Unida. Por mais necessária que seja a experiência cristã, a Bíblia é a autoridade última, com o cuidado de não adorar o livro no lugar do seu Autor. É o quadrilátero wesleyano entendido do jeito certo, com a Escritura acima da tradição, da razão e da experiência.

Obras principais

  • The Concept of Amon-Re as Reflected in the Hymns and Prayers of the Ramesside Period (tese de doutorado, Brandeis University, 1968)
  • Where Are You, God? (1983; edição revista com o subtítulo Malachi’s Perspectives on Injustice and Suffering, 1999)
  • The Book of Isaiah, Chapters 1-39 (New International Commentary on the Old Testament, 1986)
  • The Leisure Crisis (1987)
  • The Book of Isaiah, Chapters 40-66 (New International Commentary on the Old Testament, 1998)
  • Called to Be Holy: A Biblical Perspective (1999)
  • Isaiah (NIV Application Commentary, 2003)
  • Exodus, em Cornerstone Biblical Commentary: Genesis, Exodus (com Allen Ross, 2008)
  • On Being a Christian: Thoughts from John the Apostle (2008)
  • The Bible Among the Myths: Unique Revelation or Just Ancient Literature? (2009)
  • Lectures in Old Testament Theology (com Dennis F. Kinlaw, 2011)
  • Exodus: The Way Out (2013)
  • The Holy One of Israel: Studies in the Book of Isaiah (2014)
  • Holy Love: A Wesleyan Systematic Theology (editor principal, 5 volumes, a partir de 2024)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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