
HistóriaTeólogos arminianos20 de 253
Jeremy A. Evans: O filósofo batista que defendeu a liberdade humana diante do problema do mal
No fim de agosto de 2017, o furacão Harvey despejou chuva sobre a região de Houston durante dias, e boa parte de Kingwood, no norte da cidade, foi alagada. A Woodridge Baptist Church abriu o templo, o ginásio e a cozinha para servir refeições e distribuir mantimentos aos vizinhos. O pastor tinha assumido a igreja em janeiro daquele ano. Era um professor de filosofia que, quatro anos antes, publicara um livro inteiro sobre o problema do mal, e que escrevera nas páginas finais dele que, diante do sofrimento, “geralmente precisamos do consolo dos amigos, e não do conselho dos estudiosos” (The Problem of Evil, 2013, p. 219). Jeremy A. Evans passou anos defendendo, em aula e em livros, que Deus é bom e que a liberdade humana é real; desde 2017, faz isso de um púlpito batista no Texas.
Vida
Formação
Evans estudou no Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth, no Texas, onde fez o mestrado em divindade (MDiv), o curso de formação pastoral. Depois fez o doutorado em filosofia na Texas A&M University, em College Station, concluído em 2007 com a tese An Essay on Divine Commands, Divine Will, and Moral Obligation (“Ensaio sobre os mandamentos divinos, a vontade divina e a obrigação moral”), orientada pelo filósofo Hugh J. McCann. As suas áreas são a filosofia da religião, a ética e a teologia filosófica.
O tema da tese ficou com ele. A pergunta de onde vem a obrigação moral, se daquilo que Deus ordena ou daquilo que Deus quer, reaparece no capítulo que escreveu contra o determinismo calvinista e nos últimos capítulos do seu livro sobre o mal.
Nova Orleans e Wake Forest
Ainda na fase de redação da tese, Evans foi contratado pelo New Orleans Baptist Theological Seminary como instrutor de filosofia e ética, por uma nomeação de um ano feita pelo presidente do seminário. Em seguida foi para o Southeastern Baptist Theological Seminary, em Wake Forest, na Carolina do Norte. Em 2008 era professor assistente de filosofia ali; depois chegou a professor associado. No departamento, foi colega de Bruce A. Little, outro filósofo batista que escreveu sobre o mal e a soberania de Deus. Em dezembro de 2008 foi eleito para o comitê executivo da Evangelical Philosophical Society, a sociedade dos filósofos evangélicos americanos, e no ano seguinte coordenou o programa do encontro anual dela, em Nova Orleans. Ao lado da carreira acadêmica, serviu igrejas na Louisiana e na Carolina do Norte.
Em 2010 escreveu o capítulo “Reflections on Determinism and Human Freedom” (“Reflexões sobre determinismo e liberdade humana”) para Whosoever Will (“Quem quiser”), coletânea de batistas do Sul organizada por David L. Allen e Steve Lemke contra os cinco pontos do calvinismo. Em 2013 saíram dois livros. O primeiro, Holy War in the Bible (“Guerra santa na Bíblia”), nasceu de um colóquio de 2009 entre o Southeastern e a Duke Divinity School sobre as guerras ordenadas por Deus no Antigo Testamento; Evans o organizou com o biblista Heath A. Thomas e o filósofo Paul Copan. O segundo, o seu livro principal, foi The Problem of Evil: The Challenge to Essential Christian Beliefs (“O problema do mal: o desafio às crenças cristãs essenciais”), na série de apologética da editora B&H. Adam Harwood o resenhou e o recomendou a leitores avançados, avisando que os capítulos finais, de filosofia analítica, são densos.
Pastor em Kingwood
Em janeiro de 2017, Evans deixou a Carolina do Norte para ser pastor titular da Woodridge Baptist Church, em Kingwood, no norte de Houston. Sucedeu Greg Wallace, que pastoreara a igreja por cerca de 25 anos. A congregação tinha começado em 1988 como uma missão da First Baptist de Kingwood, com 24 pessoas reunidas numa escola, e adotou o nome atual em 1993, ao se unir à Woodridge Baptist Church de Houston.
Ao chegar, Evans disse que queria uma igreja conhecida por valorizar o que Jesus valoriza e pôr isso em prática no trabalho e no dia a dia, e um lugar onde as pessoas encontrassem ajuda para as suas lutas. Oito meses depois veio o Harvey. Numa carta de 2025, contou que quase setecentos novos membros tinham entrado na igreja em poucos anos. Naquele ano a igreja votou uma campanha de construção, inspirada no Salmo 100:5, para erguer um novo ginásio e transformar o antigo em salas de discipulado.
Em janeiro de 2021, Evans deu as conferências sobre cosmovisão cristã da Oklahoma Baptist University, então presidida por Heath Thomas. É casado com Wendy, e os dois têm quatro filhas.
Pensamento
Onde ele fica
Evans é um simpatizante do arminianismo, na classificação desta série. É batista do Sul e nunca se apresentou como arminiano. Mas rejeita o calvinismo nos pontos centrais: defende a liberdade libertária, a graça que pode ser resistida e a fé que vem antes do novo nascimento. Sobre o modo como Deus governa as escolhas livres, apontou o molinismo como explicação mais bíblica que a calvinista, como fazem William Lane Craig e Bruce Little.
O que o aproxima do arminianismo clássico é o cuidado de não dar ao ser humano nenhum mérito na salvação. J. Matthew Pinson, do arminianismo reformado dos batistas do livre-arbítrio, resenhou Whosoever Will em 2010 e pôs o capítulo de Evans entre os mais sólidos do livro. Escreveu que ele procura ser bíblico e antipelagiano e que lembra o desejo de Jacó Armínio de manter a maior distância possível do pelagianismo, a doutrina que dispensa a graça e faz o ser humano começar a própria salvação.
Liberdade e responsabilidade
O capítulo de 2010 começa mudando a pergunta. O problema, diz Evans, não está em conciliar a soberania de Deus com a liberdade humana, coisa que ele afirma sem reservas, mas em saber se o determinismo causal, a tese de que cada escolha é o resultado necessário de causas anteriores, é compatível com a liberdade. Os compatibilistas, como muitos calvinistas, dizem que sim, desde que a pessoa aja de acordo com o próprio desejo. Os libertários, como Evans, dizem que a escolha só é livre se a pessoa podia, de fato, ter escolhido outra coisa.
O argumento central é sobre a responsabilidade. Seguindo o filósofo Robert Kane, Evans escreve que a responsabilidade última está onde está a causa última: “se eu nunca sou a força original por trás das minhas escolhas, não sou responsável pelo conteúdo delas” (Whosoever Will, p. 263). Contra o determinismo psicológico, a ideia de que sempre agimos pelo desejo mais forte, lembra Romanos 7:15-19: Paulo não diz que tinha um desejo maior por outra coisa, mas que faz o que odeia (p. 263-264).
Dois argumentos fecham o capítulo. O primeiro trata do pecado. Se Deus causa tudo o que acontece, o mundo é exatamente como ele quis; mas, quando dizemos que o pecado e a rejeição de Jesus não deveriam existir, estamos dizendo que Deus não deveria ter causado o mundo como causou. Para Evans, essas ideias, mais do que misteriosas, são contraditórias (p. 269). O segundo vem da teoria dos atos de fala, que distingue a intenção de quem fala do efeito da fala. Deus ordena a todos, em todo lugar, que se arrependam (Atos 17:30). Se ele determinou a perdição de alguns, estaria ordenando o que não quer. É a pergunta da tese de doutorado, sobre mandamento e vontade divina, aplicada à pregação do evangelho.
Graça que pode ser resistida
A parte do capítulo mais próxima de Armínio é a que trata da graça. Evans adota uma fórmula do filósofo Richard Cross: não existe nenhuma cooperação natural e ativa do ser humano na justificação, e mesmo assim a graça pode ser resistida. Ele chama isso de “monergismo com resistibilidade da graça” (p. 260). Monergismo quer dizer que só Deus age para salvar. A pessoa não contribui com nada de valor positivo, porque a salvação é obra de Deus (Efésios 2:8-9); a fé salvadora é dom que vem do alto e não está em nenhuma capacidade natural do homem (Filipenses 1:29). A resistibilidade explica por que Deus quer que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:3-4) e mesmo assim nem todos são (p. 261).
Daí vem a ordem da salvação. O calvinismo põe a regeneração antes da fé, numa ordem que, como Evans explica com justiça, é lógica, e não cronológica (p. 259). Ele a inverte: a fé leva à vida nova. João 5:24 não diz que quem passou da morte para a vida crê, mas que quem crê passou da morte para a vida.
Os calvinistas responderam. Greg Wills, do Southern Baptist Theological Seminary, escreveu no mesmo número da revista que Evans nega a soberania de Deus sobre as decisões livres, citou Atos 4:27-28 e disse que o molinismo traz graves problemas teológicos. O sétimo capítulo de Whomever He Wills (2012), resposta calvinista a Whosoever Will, foi escrito contra a tese de Evans.
O problema do mal
O livro de 2013 parte da definição clássica: o mal é a privação de um bem, e não uma substância (p. 1). Evans distingue o mal do sofrimento: há mal sem sofrimento, quando uma intenção má é frustrada, e sofrimento sem mal, como o do criminoso justamente preso (p. 4). Examina quatro teodiceias, as tentativas de explicar por que Deus permite o mal, e conclui que nenhuma delas, sozinha, basta (p. 14).
Contra o problema lógico, a acusação de que um Deus bom e todo-poderoso não pode coexistir com o mal, usa a defesa do livre-arbítrio de Alvin Plantinga. Contra o problema evidencial, de William Rowe, para quem a quantidade de mal torna Deus improvável, responde que seres finitos não têm como saber que um mal não serve a nenhum propósito de Deus. Nisso se afasta do colega Bruce Little, que afirma a existência de males sem propósito.
O mundo caiu por escolhas livres das criaturas, e Deus o reconciliou consigo pela morte de Cristo. Deus deu ao ser humano “muito controle sobre os assuntos do mundo”; se esse domínio é real, devemos esperar menos intervenção divina do que os argumentos ateus exigem (p. 58). Sobre o inferno, Evans defende o castigo eterno contra o aniquilacionismo e o universalismo, com uma frase que resume a sua leitura: “o inferno não é o que endurece a pessoa; o inferno é um lugar para pessoas endurecidas” (p. 102). Para ler os textos em que Deus deseja que ninguém pereça, recorre à distinção de Tomás de Aquino entre a vontade antecedente de Deus, que quer a salvação de todos, e a vontade consequente, que considera o que cada pessoa fez (p. 85).
Os capítulos finais defendem uma ética do mandamento divino, retomam a tese de doutorado e respondem ao dilema de Eutífron (as coisas são boas porque Deus as ama, ou Deus as ama porque são boas?) com a doutrina da simplicidade divina, segundo a qual a bondade de Deus não é algo fora dele, mas o próprio Deus. O livro termina na prática: vencer o mal exige tomar posição ativa contra ele, no plano pessoal e no comunitário, em parceria com Deus (p. 219). O pastor que abriu a cozinha da igreja no Harvey já tinha escrito isso.
A guerra santa
No posfácio de Holy War in the Bible, escrito com Thomas, Evans pede que os textos de guerra do Antigo Testamento sejam lidos no conjunto do cânon e à luz do caráter de Deus. Os dois escrevem que Deus, “como uma represa que finalmente se rompe”, cede ao juízo, mas não é apresentado como apressado em julgar: a sua misericórdia é longa, e a sua angústia em carregar o pecado é certa.
Diferenças com a nossa declaração de fé
A soteriologia de Evans está perto da nossa: a fé é dom e não mérito, a graça é resistível, Deus quer a salvação de todos e a regeneração vem com a fé. O vocabulário é outro. Evans fala de “liberdade libertária”, termo da filosofia, enquanto o arminianismo clássico fala de uma vontade libertada pela graça preveniente, porque a vontade caída, por si, não está livre para Deus. O molinismo é uma explicação que o arminianismo clássico não exige. E Evans pastoreia na Convenção Batista do Sul, cuja confissão (Baptist Faith and Message, 2000, artigo 5) afirma que os verdadeiros crentes nunca caem do estado de graça, enquanto a declaração de fé deste site segue o arminianismo clássico e Wesley na perseverança condicional. Sobre os temas do capítulo de Evans, ver A Soberania de Deus e o Livre-Arbítrio Humano e O Problema do Mal.
Obras principais
- An Essay on Divine Commands, Divine Will, and Moral Obligation (tese de doutorado, Texas A&M University, 2007).
- “Reflections on Determinism and Human Freedom”, em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of Five-Point Calvinism (B&H Academic, 2010).
- The Problem of Evil: The Challenge to Essential Christian Beliefs (B&H Academic, 2013), na série B&H Studies in Christian Apologetics.
- Holy War in the Bible: Christian Morality and an Old Testament Problem (IVP Academic, 2013), organizado com Heath A. Thomas e Paul Copan, com o posfácio “Old Testament ‘Holy War’ and Christian Morality: Where Do We Go from Here?”, escrito com Thomas.
Para aprofundar
- Texas A&M University, Department of Philosophy, Graduate Placement (tese, orientador e áreas de pesquisa).
- Evangelical Philosophical Society, Welcome Jeremy Evans (4/12/2008) e nota sobre o encontro anual de 2009.
- Journal for Baptist Theology and Ministry 7, n. 1 (2010), número dedicado a Whosoever Will, com as resenhas de J. Matthew Pinson e Greg Wills (PDF).
- Journal for Baptist Theology and Ministry 9, n. 2 (2012), ensaios sobre a “Traditional Statement” (PDF).
- Adam Harwood, resenha de The Problem of Evil, Journal for Baptist Theology and Ministry 11, n. 1 (2014), p. 127-128 (PDF).
- G. Seth Dunn, resenha de The Problem of Evil (2015).
- Jeremy A. Evans, The Problem of Evil (B&H Academic, 2013), prévia na Biblia.com.
- Southeastern Theological Review 5, n. 2 (2014), resenhas de Jason B. Hood sobre Holy War in the Bible e de Jeremy Evans sobre Scoring Transcendence (PDF).
- Founders Ministries, The Compatibility of Determinism and Human Freedom, capítulo de Whomever He Wills (2012).
- Oklahoma Baptist University, Dr. Jeremy Evans to Speak at OBU Jan. 11-12 (2021).
- Woodridge Baptist Church, Our Team e Remembering Our Past and Looking to Our Future (2025).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Batistas