
HistóriaTeólogos arminianos2 de 258
John Smyth: O pastor que batizou a si mesmo e deu início aos batistas
Em 1609, um pequeno grupo de exilados ingleses morava e se reunia nas dependências de uma grande padaria de Amsterdã, onde Jan Munter fazia biscoito para os navios. O pastor do grupo, um ex-sacerdote da Igreja da Inglaterra formado em Cambridge, tinha chegado a uma conclusão que assustou os seus contemporâneos: se a igreja inglesa era falsa, o batismo que ela dava às crianças também era. Diante dos irmãos, ele confessou a fé, batizou a si mesmo e depois batizou Thomas Helwys e os demais. Os adversários o apelidaram de “se-batista”, o que batiza a si mesmo. Seu nome era John Smyth, e aquela pequena congregação é lembrada como a primeira igreja batista.
Vida
Cambridge e Lincoln
Smyth nasceu por volta de 1570, na Inglaterra. Em março de 1586 matriculou-se no Christ’s College, em Cambridge, como sizar, o estudante pobre que pagava os estudos prestando serviços à faculdade. O seu tutor foi Francis Johnson, que anos depois seria o pastor da principal igreja separatista inglesa de Amsterdã, a “Igreja Antiga”. Smyth tornou-se bacharel em 1590 e mestre em 1593, e acompanhou também as aulas de medicina, que mais tarde lhe dariam o sustento. Em 1594 foi eleito fellow (membro do corpo docente) do Christ’s College e, por volta do Natal daquele ano, foi ordenado presbítero por William Wickham, bispo de Lincoln. Deixou a faculdade em 1598.
Em 27 de setembro de 1600, a câmara de Lincoln o elegeu pregador da cidade, por oito votos contra sete. O cargo acabou numa briga política: em 1602 o prefeito o nomeou pregador vitalício, e a facção rival anulou a nomeação em 13 de outubro daquele ano, com o argumento de que Smyth não tinha a licença do bispo para pregar.
Dessa fase saíram dois livros de sermões: The Bright Morning Starre (1603), exposição do Salmo 22, e A Paterne of True Prayer (1605), exposição do Pai-Nosso. Neles Smyth fala como um puritano calvinista: afirma o pecado original, a predestinação, a perseverança dos santos e a justificação “pela fé somente”, aceita orações fixas na igreja e rejeita tanto o separatismo quanto o anabatismo.
Gainsborough
Por volta de 1606, Smyth estava em Gainsborough, no condado de Lincoln, onde clinicava e pregava. Na paróquia, cujo vigário não cumpria as funções, lia as orações e explicava os salmos sem a sobrepeliz, a veste branca exigida dos clérigos.
Seguiram-se cerca de nove meses de dúvida e debate, incluindo uma conferência em Coventry, na casa de Lady Bowes, com o pregador puritano Richard Bernard e com Thomas Helwys, um leigo abastado de Nottinghamshire. Smyth concluiu que a Igreja da Inglaterra era uma igreja corrompida e que os crentes deviam sair dela. Renunciou à ordenação recebida do bispo e foi escolhido e ordenado pastor pela própria congregação. William Bradford, depois governador da colônia de Plymouth, descreveu como aqueles separatistas se uniram “por uma aliança do Senhor” num corpo de igreja, para andar em todos os caminhos de Deus “conhecidos, ou que venham a ser conhecidos por eles”, custasse o que custasse. Do mesmo círculo saiu o grupo de John Robinson, de onde partiram, em 1620, os peregrinos do Mayflower. Veja Origem dos batistas. Em 1607 Smyth publicou Principles and Inferences concerning the Visible Church, a sua defesa da separação.
Amsterdã
A perseguição levou a congregação para a Holanda em 1608. Helwys organizou e pagou boa parte da viagem. Em Amsterdã o grupo se instalou no conjunto de prédios da padaria de Jan Munter. Smyth continuou a clinicar e, segundo um amigo, atendia sem cobrar.
Os recém-chegados não se juntaram à Igreja Antiga de Francis Johnson e Henry Ainsworth. Em The Differences of the Churches of the Separation (1608), Smyth explicou por quê: a igreja só devia receber dinheiro dos membros, devia ter vários presbíteros iguais, e o culto devia ser todo “espiritual”, sem livros, nem mesmo uma tradução da Bíblia, para que a oração, a pregação e o canto saíssem do coração. No prefácio, respondeu aos que o acusavam de mudar de ideia o tempo todo: “os pensamentos posteriores muitas vezes são melhores do que os primeiros”.
O batismo de 1609
O passo seguinte veio da controvérsia com Richard Clifton, da Igreja Antiga. Se a Igreja da Inglaterra era falsa, perguntava Smyth, como guardar o batismo que ela tinha dado? E, se a igreja verdadeira se forma por aliança, como incluir crianças, que não podem fazer aliança? Em The Character of the Beast (1609) ele chamou o batismo de crianças de “a mais irracional heresia de todo o anticristianismo”.
Os membros desfizeram então a igreja formada por aliança e, nas palavras de John Robinson, reuniram-se “para erguer uma nova igreja pelo batismo”. Como não conheciam nenhuma igreja verdadeira que pudesse batizá-los, Smyth batizou a si mesmo e depois os outros.
Os menonitas e a ruptura com Helwys
Em Amsterdã os ingleses conheceram os menonitas waterlandeses, herdeiros de Menno Simons, liderada ali por Hans de Ries e Lubbert Gerritsz (veja Batistas e anabatistas: duas histórias, duas visões de mundo). Smyth convenceu-se de que eles eram uma igreja verdadeira e de que o seu batismo tinha sido precipitado: devia tê-lo pedido a eles. Em fevereiro de 1610 ele e a maioria da congregação pediram para ser recebidos na igreja waterlandesa, renunciando ao batismo que tinham dado a si mesmos. Para mostrar a sua fé, Smyth entregou aos menonitas uma confissão em vinte artigos latinos.
Helwys e um grupo pequeno recusaram o pedido. Objetavam à cristologia menonita, segundo a qual Cristo não tomou a carne de Maria, e à ideia de que um cristão não pode ser magistrado. Escreveram aos waterlandeses pedindo que não aceitassem Smyth e declararam excluídos ele e os que o seguiam. Em 1611 o grupo de Helwys publicou A Declaration of Faith of English People Remaining at Amsterdam, que rejeitava, entre outras coisas, a negação do pecado original por Smyth e a sua ideia de justificação. Os menonitas hesitaram, consultaram outras congregações, e a fusão ficou parada.
Os últimos anos
Smyth passou os últimos meses escrevendo Retractations and Confirmations, o seu último livro, em que voltou atrás nas censuras duras que tinha feito a outras igrejas. Disse que se uniria a qualquer um que fosse irmão verdadeiro na fé, ainda que discordasse dele na forma de governo da igreja, assunto que agora considerava “de nota inferior”.
Adoeceu dos pulmões, de tísica, e definhou por sete semanas. Recusou debates, ensinou os filhos e consolou a esposa. As suas últimas palavras registradas foram: “Louvo ao Senhor; ele agora me ajudou e tirou os meus pecados”. Morreu em agosto de 1612 e foi sepultado em 1º de setembro na Nieuwe Kerk de Amsterdã. Thomas Pygott, que o sucedeu na igreja da padaria, publicou o último livro de Smyth junto com uma confissão em cem proposições, Propositions and Conclusions concerning True Christian Religion, e um relato da sua morte. Os seguidores que restaram foram recebidos na igreja waterlandesa em 21 de janeiro de 1615.
Helwys voltou à Inglaterra em 1612 e fundou em Spitalfields, perto de Londres, a primeira igreja batista em solo inglês. Dali nasceram os batistas gerais, chamados assim porque criam que Cristo morreu por todos, dos quais vieram Thomas Grantham e, na América, os batistas do livre-arbítrio de Robert Picirilli e F. Leroy Forlines.
Pensamento
Do calvinismo à graça oferecida a todos
Até o batismo de 1609, Smyth foi calvinista. O historiador Stephen Holmes mostrou que ele ainda cria na eleição incondicional e no pecado original quando batizou a si mesmo, e que a virada veio meses depois, pelo contato com os waterlandeses. James Coggins chegou a conclusão parecida: a influência mais provável foi a dos menonitas, mais do que a dos discípulos de Jacó Armínio, ativos em Amsterdã naqueles anos. Em 1610, o ano da Remonstrância, Smyth já pensava outra coisa.
A confissão em vinte artigos mostra o novo pensamento. Deus “criou e redimiu o gênero humano à sua imagem e destinou todos os homens à vida, sem que nenhum seja reprovado” (artigo 2). A graça de Deus, pela redenção de Cristo, deve ser oferecida “a todos sem distinção, não de modo fingido, mas de boa-fé”, em parte pelas coisas criadas e em parte pela pregação do evangelho (artigo 8). E o artigo 9 chega perto da linguagem arminiana da graça preveniente, a graça que vai adiante de qualquer resposta humana: pela graça de Deus e pela redenção de Cristo, os homens são capazes de se arrepender, crer, voltar-se para Deus e alcançar a vida eterna, “indo o Espírito Santo adiante deles com a graça preveniente”; e são igualmente capazes de resistir ao Espírito, afastar-se de Deus e perecer.
As cem proposições publicadas depois da sua morte desenvolvem a mesma linha. Deus não cria nem predestina ninguém para a perdição; a vida está determinada em Cristo, e a perdição na incredulidade e na impenitência, ambas conhecidas de antemão por Deus. O arrependimento e a fé são produzidos pela pregação, com a graça de Deus que vai adiante, e o ser humano pode receber ou rejeitar essa graça; mas na regeneração, isto é, no novo nascimento, a vontade humana não faz nada: é obra do Pai, do Verbo e do Espírito. Quem, depois de iluminado, abandona o arrependimento e a fé em Cristo não alcança mais perdão, o que faz de Smyth um defensor da perseverança condicional.
Onde ele fica, e a distância do arminianismo clássico
Pela eleição em Cristo, pela graça oferecida a todos e resistível e pela perseverança condicional, Smyth pertence à classe dos batistas do livre-arbítrio: é o fundador da linhagem dos batistas gerais. Mas terminou a vida perto dos waterlandeses e, em dois pontos centrais, longe do arminianismo clássico.
O primeiro é o pecado original. O artigo 5 da confissão diz que “não há pecado original”, que todo pecado é “atual e voluntário” e que por isso as crianças nascem sem pecado. As cem proposições acrescentam que Adão conservou o livre-arbítrio depois da queda. Armínio ensinou o contrário nas Disputas públicas (XI): no estado caído, a vontade humana para o verdadeiro bem está “aprisionada, destruída e perdida”, e só a graça a liberta (veja a Declaração de Sentimentos e A doutrina da depravação total). Por isso J. Matthew Pinson, historiador dos batistas do livre-arbítrio, classifica como pelagiana ou semipelagiana a ideia de livre-arbítrio de Smyth e dos waterlandeses, como fez também com a de Balthasar Hubmaier.
O segundo é a justificação. Segundo o artigo 10, ela consiste “em parte” na justiça de Cristo imputada e recebida pela fé e “em parte” na justiça inerente, produzida pelo Espírito, que se chama regeneração ou santificação. Os reformadores, Armínio e Wesley afirmaram a justificação somente pela imputação da justiça de Cristo, e a declaração de fé deste site segue essa linha.
Foi Helwys quem corrigiu os dois pontos. A Declaration of Faith de 1611 afirmou o pecado original e a justificação pela justiça de Cristo imputada somente, e em A Short and Plaine Proofe (1611) ele recusou o livre-arbítrio natural: o ser humano tem liberdade “em Cristo”, mas não tem poder em si mesmo para operar a própria salvação ou escolher a vida. Pinson conclui que Helwys ficou muito mais perto de Armínio, e que dele vem a soteriologia arminiana dos batistas gerais.
A igreja e a consciência
O centro da obra de Smyth está na doutrina da igreja. Ela se forma pela reunião dos crentes, primeiro por aliança e depois pelo batismo dos que confessam a fé, e tem em si mesma o poder de pregar, batizar, ordenar e disciplinar. Mateus 18:20, “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”, é citado mais de vinte vezes em dois dos seus livros do período separatista. Por isso a última palavra nas decisões cabe à congregação, e não aos presbíteros. O batismo, para ele, é sinal exterior do perdão dos pecados, da morte e da nova vida, e por isso não pertence às crianças (artigo 14). Nesse ponto a declaração de fé do site está com ele: o batismo vem depois da conversão.
Smyth também foi um dos primeiros ingleses a defender a liberdade de consciência. A proposição 84 diz que o magistrado, por força do cargo, não deve se intrometer na religião nem forçar ninguém a uma forma de crença, mas deixar a religião cristã livre à consciência de cada um. Em 1612 Helwys publicou A Short Declaration of the Mystery of Iniquity, primeiro tratado em inglês a pedir liberdade religiosa para todos.
Obras principais
- The Bright Morning Starre, 1603.
- A Paterne of True Prayer, 1605.
- Principles and Inferences concerning the Visible Church, 1607.
- The Differences of the Churches of the Separation, 1608.
- Paralleles, Censures, Observations, 1609.
- The Character of the Beast, 1609.
- Corde credimus, a confissão em vinte artigos latinos, c. 1610.
- Argumenta contra baptismum infantum (Argumentos contra o batismo de crianças), c. 1610.
- Defesa da confissão de Ries, em latim, c. 1610.
- Retractations and Confirmations, 1612, publicada depois da morte com Propositions and Conclusions concerning True Christian Religion.
Para aprofundar
- W. T. Whitley (org.), The Works of John Smyth, Fellow of Christ’s College, 1594-8 (Cambridge: Cambridge University Press, 1915), 2 vols., com biografia e notas: vol. 1 e vol. 2.
- John Smyth, A Short Confession of Faith in Twenty Articles, Baptist Center for Theology and Ministry, New Orleans Baptist Theological Seminary.
- Propositions and Conclusions concerning True Christian Religion, The Reformed Reader.
- James R. Coggins, The Theological Positions of John Smyth, Baptist Quarterly 30.6 (1984), p. 247-264.
- Stephen R. Holmes, When did John Smyth embrace “Arminianism” and was the first Baptist congregation “Particular”?, Baptist Quarterly 52.4 (2021), p. 146-157.
- J. Matthew Pinson, The First Baptist Treatise on Predestination: Thomas Helwys’s Short and Plaine Proofe, Journal for Baptist Theology and Ministry 6.1 (2009), p. 139-151.
- John Smyth, Christianity Today, série “131 Christians Everyone Should Know” (2008).
- Wikipédia, John Smyth (English theologian).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Batistas